Avanço do saneamento reduz internações e melhora qualidade de vida em Teresina
- Brian Sthefano

- 26 de mai.
- 9 min de leitura

Quase dez mil casos a menos de doenças transmitidas pela água. Em Teresina, o número ajuda a dimensionar uma transformação que acontece longe dos olhos da população, sob ruas, avenidas e bairros inteiros da capital. Em 2025, os registros de enfermidades associadas à água contaminada recuaram ao mesmo tempo em que a cidade ampliou sua infraestrutura sanitária, resultado de mais de R$ 1,3 bilhão investidos no setor desde 2017 e da expansão da cobertura de esgotamento sanitário de 19% para 59% da área urbana.
Levantamento da Diretoria de Vigilância em Saúde da Fundação Municipal de Saúde (FMS) aponta que os casos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) caíram 13% entre 2024 e 2025, passando de 75.351 para 65.671 ocorrências. No Hospital da Criança, a redução foi ainda mais expressiva: os atendimentos relacionados a esse grupo de enfermidades diminuíram 22%, de 4.003 para 3.121 registros. Os dados reforçam uma relação amplamente documentada por estudos nacionais e internacionais: onde avançam o acesso à água tratada e a coleta de esgoto, recuam doenças que historicamente atingem com mais força crianças e idosos.
Uma cidade que mudou o rumo
Durante décadas, o saneamento esteve entre os principais gargalos urbanos de Teresina. Em uma capital cercada por rios, mas marcada por desigualdades históricas no acesso à infraestrutura básica, o esgoto tratado era privilégio de uma parcela restrita da população. Em 2017, apenas 19% da área urbana contava com coleta e tratamento de esgoto. Em muitos bairros, a convivência com valas abertas, água parada e ligações precárias fazia parte da paisagem cotidiana, enquanto interrupções no abastecimento obrigavam moradores a armazenar água em recipientes improvisados, uma combinação que favorecia tanto a disseminação de doenças de veiculação hídrica quanto a proliferação do Aedes aegypti.
A virada começou a ganhar escala a partir de um ciclo contínuo de investimentos em infraestrutura. Desde 2017, mais de R$ 1,3 bilhão foram aplicados na ampliação dos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário da capital. Em 2020, a universalização da distribuição de água tratada na zona urbana passou a garantir atendimento regular para mais de 826 mil moradores. Os reflexos não demoraram a aparecer nos indicadores de saúde pública. Dados da Fundação Municipal de Saúde mostram que, em comparação com 2017, as internações por diarreia recuaram 68%, enquanto os registros de dengue caíram 66%. No mesmo período, as hospitalizações por chikungunya registraram redução de 94%.
O avanço mais visível ocorreu sob o solo da cidade. Ao longo dos últimos anos, quilômetros de tubulações passaram a conectar bairros que historicamente estiveram à margem da infraestrutura urbana. Somente em 2024, foram implantados cerca de 274 quilômetros de novas redes coletoras e realizadas aproximadamente 27 mil ligações domiciliares. Com isso, a cobertura de esgotamento sanitário alcançou 59% da população urbana, praticamente triplicando em relação ao índice registrado no início da concessão. Hoje, mais de 480 mil pessoas são atendidas pelo sistema.

A transformação colocou Teresina entre os casos mais expressivos de avanço do saneamento no país. De acordo com o Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, a capital piauiense foi a cidade que mais evoluiu entre os 100 maiores municípios brasileiros desde o início da série histórica. Apenas na edição mais recente, subiu 14 posições e alcançou a 62ª colocação nacional. O desempenho também se destaca pelo volume de investimentos: com aporte médio de R$ 187,68 por habitante, Teresina lidera os investimentos em saneamento entre as capitais nordestinas, em um momento em que o país busca cumprir as metas de universalização previstas pelo Marco Legal do Saneamento até 2033.
Saneamento é, antes de tudo, saúde pública
A correlação entre saneamento e saúde não é uma hipótese nem uma promessa de política pública. É uma relação amplamente comprovada por décadas de pesquisas no Brasil e no exterior. Onde faltam água tratada, coleta de esgoto e destinação adequada de resíduos, aumentam os casos de diarreia, gastroenterites, infecções intestinais e outras doenças associadas à contaminação ambiental. Quando esses serviços avançam, os indicadores de saúde costumam seguir o mesmo caminho.
Uma pesquisa publicada em 2025 pela Revista DAE identificou essa dinâmica nas capitais brasileiras. O estudo constatou que a ampliação da cobertura de água e esgoto está diretamente associada à redução de enfermidades como febre tifoide, diarreias e gastroenterites, reforçando evidências já observadas em diferentes regiões do país. Em outras palavras, a infraestrutura sanitária funciona como uma barreira silenciosa contra doenças que historicamente sobrecarregam unidades de saúde e afetam principalmente populações mais vulneráveis.
O pediatra Halim Girade, coordenador nacional do Comitê Técnico da Primeira Infância do Instituto Rui Barbosa, é direto sobre a dimensão do problema. “A falta de saneamento básico é extremamente grave. Saneamento trabalha com esgoto, lixo e água limpa, e quando não se tem um desses elementos, os seres humanos serão atingidos”, afirma. Segundo o médico, estudos indicam que entre 40% e 60% das internações de crianças têm alguma relação com a ausência de saneamento básico, uma estatística que revela o peso invisível dessa carência sobre a saúde infantil.

Além de reduzir o sofrimento humano, o saneamento representa uma das medidas mais eficientes para aliviar a pressão sobre os sistemas de saúde. Estimativas do Instituto Trata Brasil apontam que a universalização dos serviços poderia evitar quase 87 mil internações por ano no país, gerando economia próxima de R$ 50 milhões anuais apenas em despesas hospitalares. A Organização Mundial da Saúde (OMS) chega a uma conclusão semelhante em escala global: cada dólar investido em água tratada e esgotamento sanitário pode gerar retorno de até quatro dólares por meio da redução de gastos médicos, aumento da produtividade e melhoria das condições de vida da população. Em Teresina, a queda recente dos indicadores de doenças de transmissão hídrica sugere que essa lógica também começa a se refletir na realidade local, transformando obras subterrâneas em resultados concretos para a saúde pública.
Onde os números ganham rosto
Antes de aparecerem nos relatórios da saúde pública, as mudanças provocadas pelo saneamento costumam ser percebidas dentro de casa. É nas visitas às famílias que a agente comunitária de saúde Adriana Gomes acompanha essa transformação. Há anos percorrendo bairros da capital, ela viu uma realidade marcada por consultas frequentes, internações evitáveis e crianças afastadas da escola por doenças relacionadas à falta de infraestrutura básica. “Antigamente, era muito comum as mães relatarem que os filhos estavam com diarreia, dor de barriga ou alguma infecção que acabava levando a uma consulta de urgência ou até a uma internação. Hoje esses casos diminuíram bastante em muitas áreas que passaram a contar com saneamento adequado”, afirma.
A percepção da agente encontra eco na história de Solange Alves, moradora do bairro Pedra Mole. Durante anos, a chegada das chuvas significava conviver com ruas tomadas por lama, água contaminada e um forte mau cheiro. O cenário, lembra ela, afetava diretamente a saúde da vizinhança. “Meu filho vivia doente. Era dor de barriga, virose, essas coisas. Teve época que ele faltou muita aula porque não tinha condição de ir pra escola”, recorda. As ausências constantes acabavam comprometendo o aprendizado e gerando preocupação dentro de casa. “Eu ficava triste porque ele perdia conteúdo e ficava para trás dos colegas.”
Hoje, tanto Adriana quanto Solange observam uma realidade diferente. Com a expansão da rede de esgoto, o desaparecimento das valas a céu aberto e a melhoria das condições sanitárias, os relatos de adoecimento se tornaram menos frequentes. “Quando falamos em saneamento, não estamos falando apenas de obras. Estamos falando de menos gente no hospital, menos faltas na escola e no trabalho e mais qualidade de vida para quem mora nessas comunidades”, resume Adriana. Na casa de Solange, a mudança pode ser medida de forma simples: “Meu filho quase não adoece mais e vai pra escola direitinho. Pra muita gente pode parecer só uma obra, mas pra nós mudou a vida”. Entre indicadores de saúde e quilômetros de tubulação instalados, é nessa transformação cotidiana que o avanço do saneamento se torna mais visível.
O que acontece quando o Saneamento chega
Os efeitos do saneamento não terminam quando uma doença deixa de ser registrada em uma planilha hospitalar. Parte deles segue em direção aos rios. Em Teresina, a ampliação da infraestrutura de coleta e tratamento tem reduzido progressivamente o volume de esgoto bruto lançado nos rios Poti e Parnaíba, mananciais que atravessam a cidade e sustentam atividades como a pesca artesanal e o abastecimento da própria população. Diariamente, a Estação de Tratamento de Esgoto Pirajá já devolve 40 milhões de litros de efluente tratado a esses cursos d’água, volume equivalente a 19 piscinas olímpicas. Com a conclusão das obras de ampliação da ETE Pirajá, cuja capacidade passará de 150 para 260 litros de esgoto por segundo, esse retorno deverá crescer de forma significativa.

A mudança nos rios não é apenas técnica. José Francisco, pescador há mais de 20 anos e integrante do grupo Guardiões do Poty, acompanha de perto essa transformação. “Aqui em Teresina, esse tratamento do esgoto ficou parado por um bom tempo, algo que prejudicava bastante o nosso trabalho, já que as pessoas preferiam os peixes de criadouros, por conta do ambiente mais limpo. Com essas obras, acredito que esse despejo direto do esgoto no rio irá acabar, favorecendo inclusive o lazer”, diz. Seu José Francisco, morador do bairro Poti Velho que cresceu às margens do rio, vai além: “Meu sonho é ver esse rio limpo, onde as pessoas possam tomar banho, beber, as crianças possam brincar. Assim como eu ouvia, quando criança, os mais antigos falando, que quando era no tempo deles, eles brincavam de mergulhar no fundo do rio para beber a água porque era mais fria. Então poder vivenciar isso será a melhor coisa do mundo.”
A preservação dos mananciais caminha junto com outro indicador que posicionou Teresina como referência nacional: a redução das perdas de água na distribuição. Em 2017, 64,1% de toda a água produzida era desperdiçada antes de chegar às torneiras. Em 2024, esse índice caiu para 19,55%, o segundo menor entre as capitais brasileiras, abaixo da média nacional de 40,3%. Na prática, de cada dez litros produzidos, apenas dois se perdem hoje, contra seis no passado. A diferença equivale a 23 milhões de metros cúbicos de água poupada ao longo de sete anos, volume que corresponderia a 9.200 piscinas olímpicas. Menos água desperdiçada significa menos pressão sobre os mananciais, menos energia gasta no tratamento e mais capacidade de abastecimento sem ampliar a captação nos rios.
Apesar dos avanços, os desafios ambientais permanecem. Com 41% da área urbana ainda sem coleta e tratamento de esgoto, o lançamento de efluentes brutos nos rios Poti e Parnaíba continua sendo uma realidade em bairros periféricos da capital. A meta de 90% de cobertura prevista pelo Marco Legal do Saneamento até 2033 exigirá que o ritmo de obras se mantenha, com investimentos previstos de R$ 112 milhões apenas em 2026 para expansão das redes coletoras, melhorias nas estações de tratamento e implantação de novas elevatórias de esgoto. Especialistas apontam, porém, que a expansão da infraestrutura enfrenta obstáculos além do financeiro: em áreas de ocupação irregular, onde o traçado urbano dificulta a implantação de tubulações, e em comunidades de baixa renda, onde a taxa de adesão à rede disponível ainda é baixa por conta dos custos da ligação domiciliar, a universalização tende a avançar em ritmo mais lento. Levar a rede até a rua é apenas parte do desafio. Fazer com que ela chegue efetivamente às torneiras e às fossas é outra etapa, que depende de políticas de subsídio, educação sanitária e acompanhamento social continuado.
No bairro Pedra Mole, Solange Alves não pensa nos rios quando descreve o que mudou na sua rua. Mas a conexão existe: cada ligação domiciliar realizada é esgoto que deixa de correr a céu aberto, de contaminar o solo e de alcançar os cursos d’água que abastecem a cidade. “Pra muita gente pode parecer só uma obra, mas pra nós mudou a vida”, afirma.
Os números mostram que Teresina ainda não concluiu sua trajetória rumo à universalização do saneamento. Mas também revelam algo difícil de ignorar: quando o esgoto para de correr a céu aberto, diminuem as internações, os rios respiram e a cidade se torna mais saudável para quem vive nela e para quem depende dela.



