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Onde os heróis são pretos: coletivo de Fortaleza faz da cultura afrogeek um caminho para a paz

Foto do escritor: Brian Sthefano
Brian Sthefano
há 2 horas
14 min de leitura
Criada em 2022 na periferia da capital cearense, a Black Heroes une cinema, quadrinhos, batalhas de rima e empreendedorismo negro para que crianças e jovens se reconheçam, convivam e imaginem outro futuro. Foto: Reprodução/Black Heroes
Criada em 2022 na periferia da capital cearense, a Black Heroes une cinema, quadrinhos, batalhas de rima e empreendedorismo negro para que crianças e jovens se reconheçam, convivam e imaginem outro futuro. Foto: Reprodução/Black Heroes

Duas vezes por ano, o Sana, festival de animes, games, quadrinhos e cosplay realizado em Fortaleza desde 2001, enche o Centro de Eventos do Ceará de fãs de anime, cosplayers, estudantes da rede pública e visitantes de outros estados. No meio desse universo, uma sala chama atenção por um detalhe que muda tudo para quem chega da periferia: ali, os heróis são pretos. Há quadrinhos com protagonistas negros, cosplayers vestidos de personagens parecidos com eles, painéis, batalhas de rima e bancas de ilustradoras, artesãs e trancistas negras da própria cidade, abertas a quem passar. Em Fortaleza, dois em cada três moradores se declaram pretos ou pardos, proporção que sobe para três em cada quatro entre os 578 mil habitantes de favelas e comunidades urbanas, segundo o Censo 2022. Para crianças e jovens desses territórios, entrar num espaço assim, reconhecer-se nele e dividi-lo com quem vem de outros lugares é uma forma concreta de paz, feita de pertencimento, convivência e da possibilidade de imaginar outro futuro.


A sala é obra da Black Heroes, coletivo de artistas e produtores culturais negros da periferia de Fortaleza criado em 2022. O grupo começou exibindo filmes de super-heróis em igrejas, terreiros e outros espaços comunitários e, desde janeiro de 2023, ocupa o Sana. Hoje atua em quatro frentes: a sala afrogeek, que põe personagens, autores e cosplayers negros no centro da cultura pop; a Batalha Insana, em que MCs da periferia duelam com palavras; a vitrine para empreendedores negros; e as ações nas comunidades, com distribuição de gibis, festas de Páscoa e de Dia das Crianças e palestras em escolas. Em todas, a aposta é a mesma: aproximar pessoas pela cultura e mostrar a periferia como um território que cria, ensina e cuida.


Do Cine Favela à sala dos heróis pretos


A primeira tela da Black Heroes foi a de um notebook. Por trás dela estava Jefferson Ferreira, o Jeff Lobo de Wakanda, produtor cultural que explica assim a origem do projeto: “Eu vim da periferia e sei o que o acesso à cultura faz com a cabeça de um jovem. Aquilo mudou a minha forma de enxergar a vida e eu quis devolver.” Em 2022, ele se uniu a artistas e produtores culturais negros de Fortaleza para criar o coletivo.


Primeira edição do Cine Favela, realizada em 2022 pelo idealizador da Black Heroes, Jefferson Ferreira. Foto: Arquivo pessoal/Jefferson Ferreira.
Primeira edição do Cine Favela, realizada em 2022 pelo idealizador da Black Heroes, Jefferson Ferreira. Foto: Arquivo pessoal/Jefferson Ferreira.

A iniciativa começou com sessões de cinema nas comunidades. “A Black Heroes nasceu em 2022, de uma ideia simples: levar filme para a comunidade. A gente queria exibir histórias com personagens que mexem com o imaginário das crianças, como o Super-Homem e a Mulher-Maravilha, e depois sentar numa roda para conversar sobre eles. Era uma forma de ligar o que está na tela com o que a gente vive de verdade”, lembra Jeff. Batizadas de Cine Favela, as sessões passaram pelo Conjunto Esperança, pelo Rosalina e pela Barra do Ceará. A estrutura era improvisada, como conta Jeff: “com notebook, caixa de som e o espaço que alguém topasse ceder, igreja, terreiro, o que tivesse”. Assim, espaços de tradições religiosas diferentes receberam o mesmo filme e a mesma roda de conversa.


Integrantes e voluntários da Black Heroes reunidos na sala do coletivo. Foto: Beca Azevedo.
Integrantes e voluntários da Black Heroes reunidos na sala do coletivo. Foto: Beca Azevedo.

Em janeiro de 2023, a Black Heroes chegou ao Sana com sua primeira sala temática dedicada a heróis, artistas e narrativas negras. O espaço permaneceu nas edições seguintes e ganhou um desdobramento institucional com a criação do Departamento AfroGeek pela Fundação Cultural Nipônica Brasileira, responsável pelo evento, sob direção de Jeff. Segundo a organização do Sana, o público do festival passou de cerca de 71 mil pessoas em janeiro de 2023 para 150 mil em julho de 2026. Pelos registros do coletivo, cerca de 300 voluntários e 100 convidados de palestras e painéis já passaram pelo espaço. Em meio a um evento de grande público, a sala amplia a presença de personagens, artistas e histórias negras em um ambiente compartilhado por diferentes públicos.


Preto Zezé e Jefferson Ferreira no Sana 2024 - Parte 1. Foto: Reprodução/Black Heroes
Preto Zezé e Jefferson Ferreira no Sana 2024 - Parte 1. Foto: Reprodução/Black Heroes

A representatividade é central para o trabalho do coletivo, segundo Jeff. “A importância da Black é fazer a nossa gente se ver. Quando um menino ou uma menina da quebrada entra numa sala temática e encontra personagem preto, cosplay preto, história preta, algo muda por dentro. A cultura geek sempre pareceu um território que não era nosso, e a gente veio dizer que é, sim. Por isso o AfroGeek é mais que decoração. É um lugar de pertencimento, onde ninguém precisa explicar por que está ali. E esse sentimento não fica só no evento, vai para o dia a dia, para a conversa, para o apoio entre a gente.” Para o ativista Preto Zezé, cofundador da Central Única das Favelas (Cufa) e criado na Favela das Quadras, em Fortaleza, a iniciativa também representa uma disputa por espaço e reconhecimento. “Eles pegaram a cultura geek, os quadrinhos, a tecnologia — territórios que historicamente sempre foram embranquecidos, elitizados e distantes da molecada da quebrada — e fincaram a bandeira da nossa ancestralidade ali dentro. Isso é subversão pura.”


Na roda cultural, o conflito vira verso


Criada pela Black Heroes, a Batalha Insana reúne MCs da periferia em disputas de rimas improvisadas na sala do coletivo no Sana. A iniciativa também chegou a outros espaços de Fortaleza, com seletiva no Farol da Granja, na Granja Portugal. A disputa acontece nas modalidades individual e em dupla e, segundo a organização, reserva vagas para mulheres e pessoas LGBTQIA+. Pelos registros do coletivo, cerca de 50 MCs já participaram das batalhas, vindos do Ceará, da Bahia, de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Piauí e de Pernambuco. Para Michael Rizzi, MC, poeta e um dos apresentadores da Batalha Insana, a iniciativa aproxima expressões culturais que nem sempre ocupam os mesmos espaços. “A batalha de rima nasceu da periferia e carrega a cara dela: é improviso, é coragem, é gente que muitas vezes não tem muito e mesmo assim faz da palavra um instrumento. A Black Heroes entendeu isso quando criou a Batalha Insana. Ela juntou o universo geek, a cultura negra e a rima no mesmo palco, e mostrou que o menino e a menina da quebrada podem ser MC, nerd, poeta e tudo isso ao mesmo tempo, sem precisar escolher um lado só da própria identidade.”


Michael Rizzi apresenta a Batalha Insana durante o Sana 2026 – Parte 2. Foto: Brian Sthefano
Michael Rizzi apresenta a Batalha Insana durante o Sana 2026 – Parte 2. Foto: Brian Sthefano

Rizzi descreve o que acontece quando alguém pega o microfone. “Quando o MC pega o microfone, ele coloca na roda o que vive: o racismo, a desigualdade, a correria do dia a dia, o medo de perder alguém. Só que ele faz isso com verso, e não com violência. A batalha é um ringue em que ninguém sai ferido. O duelo é de ideia, de quem leu mais, viveu mais e pensou mais rápido. Isso já é um ato de paz, porque ensina que o conflito se resolve com a palavra, e a juventude da periferia aprende isso na prática, de microfone na mão.”


Jefferson Ferreira, fundador da Black Heroes, também vê na batalha um espaço de aprendizado e discussão racial. “A batalha troca o confronto físico pelo duelo de ideias, e isso já é um jeito de construir paz. Quando a gente junta os MCs com a pauta racial, a rima vira denúncia, mas também vira acolhimento e consciência, e muita gente aprende ali o que nunca viu na escola.” Para Rizzi, a atividade ainda confronta a imagem da periferia associada exclusivamente à violência. “Tem gente de fora que enxerga a periferia só pelo lado da violência. A gente mostra o outro lado: a poesia, a inteligência, a arte que existe aqui.”


Público acompanha a Batalha Insana. Foto: Igor Barbosa
Público acompanha a Batalha Insana. Foto: Igor Barbosa

Mandacaru, MC que participa da Batalha Insana desde as primeiras edições e venceu a disputa no Sana 2025 – Parte 2, reconhece o potencial educativo da roda, mas questiona por que ela precisa assumir uma função que também deveria ser exercida por outras instituições. Para ele, o que os jovens aprendem nas batalhas expõe a falta de oportunidades de formação que dialoguem com a realidade da periferia. “A batalha ensina, e ensina muito, mas eu fico incomodado quando só se fala do que ela ensina e ninguém pergunta por que é ali que a gente aprende. O moleque da quebrada aprende argumentação, história e oratória no meio da roda porque a escola nunca falou com ele do jeito que ele precisava. Aprende a vivência da rua porque a rua foi o único lugar que abriu a porta”, afirma. Apesar das disputas nos versos, Mandacaru diz que a relação entre os MCs é de respeito. “A verdadeira batalha não é contra o cara que tá do outro lado da roda. É contra quem menospreza, contra o preconceituoso, contra quem escolhe a guerra em vez da paz.” Para ele, a batalha pode contribuir para a formação dos jovens, mas não deve ser o único espaço a oferecer esse aprendizado. “A roda é potência, mas não pode ser o único lugar onde a periferia é ouvida e formada. Quem chama a batalha de escola precisa lembrar que ela virou escola por falta de outra. A rua ensinou porque ninguém mais chegou.”


A falta de oportunidades de formação, porém, não é o único obstáculo enfrentado por quem vive na periferia. A construção da paz também passa pela possibilidade de circular pela cidade sem medo e ocupar espaços sem sofrer discriminação. Para Jeff, essa é uma das razões pelas quais o coletivo aproxima cultura, educação e valorização da identidade negra.

“Nós, pessoas negras, crescemos aprendendo a lutar contra o racismo, pelo reconhecimento social, pelo direito de ocupar espaços e pelo sentimento de pertencimento. Mas, com o tempo, entendemos que nossa batalha é muito maior. Batalhamos todos os dias pela paz. Pela paz de sair de casa e voltar vivos e seguros. Pela paz de caminhar pelos lugares sem olhares tortos, julgamentos ou preconceitos. Pela paz de assumir, sem culpa ou medo, nossos lugares de protagonismo.”

No Ceará, esse temor tem dimensão estatística. Em 2024, 2.905 das 3.163 vítimas de homicídio registradas no estado eram pretas ou pardas, segundo o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados do Ministério da Saúde. Entre a população negra, a taxa foi de 42,5 mortes por 100 mil habitantes, contra 10,3 entre não negros. Na faixa de 15 a 29 anos, o estado registrou 1.611 assassinatos, com taxa de 77,6 mortes por 100 mil jovens, a quinta maior do país e quase o dobro da média nacional, de 42,2.

Não há avaliação localizada que permita medir o efeito da Batalha Insana sobre os índices de violência nos territórios onde a iniciativa atua. Estudos e diagnósticos sobre juventude no Ceará, no entanto, ajudam a compreender a importância de espaços culturais de participação e expressão. Em uma pesquisa sobre a batalha de MCs do Centro Cultural Dragão do Mar, Rilda Bezerra de Freitas, pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, descreveu grupos juvenis como “espaços de aceitação e reconhecimento pessoal para aqueles que, noutros contextos, não têm facilidade de integrar-se, falar, denunciar”. Já o relatório Cada Vida Importa, do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, recomendou apoio a “atividades culturais organizadas pelos jovens em espaços públicos”, para fortalecer o pertencimento e desenvolver formas não violentas de administrar conflitos e buscar ajuda diante de ameaças. Rizzi resume o sentido dessa ocupação. “A paz que a gente quer não é silêncio. É poder falar. É ter palco, microfone e plateia disposta a escutar o que a quebrada tem a dizer.”


Do traço e da trança ao sustento


A sala da Black Heroes no Sana também funciona como espaço de exposição e venda para artistas e empreendedores negros. Para Jefferson Ferreira, fundador do coletivo, o empreendedorismo faz parte da luta por reconhecimento e autonomia econômica. “O empreendedorismo preto pra mim é uma forma de dignidade. Quando a pessoa da comunidade cria, produz e vende, ela deixa de ser só público e passa a ser protagonista da cadeia.” Ele cita artesãs do Conjunto Esperança que, antes de produzir bonecas, passaram a criar versões de personagens da cultura pop no estilo Funko. “É renda para a casa delas e é talento do território virando produto. Elas mostram que a gente não precisa esperar ninguém vir de fora para dizer o que a nossa comunidade pode ser.”


Em vídeo, Jefferson Ferreira, idealizador da Black Heroes, conta como o coletivo passou da representatividade ao apoio a empreendedores negros da periferia de Fortaleza. Vídeo: Brian Sthefano

Uma das empreendedoras que expõem no espaço é Danielle Alícia, ilustradora e artesã de 28 anos, moradora da Granja Portugal, no Grande Bom Jardim. Ela produz livros artesanais, ecobags, adesivos e ilustrações inspiradas na cultura pop. “Durante muito tempo eu consumi cultura nerd sem me enxergar completamente nela. Quando comecei a produzir minhas próprias ilustrações e produtos, percebi que também podia criar narrativas em que pessoas negras fossem protagonistas. Hoje, cada ecobag, adesivo ou livro que eu faço carrega um pouco dessa proposta.”


Danielle Alícia em seu estande na sala da Black Heroes no Sana. Foto: Rey Alves
Danielle Alícia em seu estande na sala da Black Heroes no Sana. Foto: Rey Alves

Participar do Sana, segundo Danielle, significa disputar espaço em um mercado no qual produtores periféricos nem sempre se veem representados. Presente em todas as edições do evento desde que começou a expor na sala da Black Heroes, a ilustradora conta que quase sempre termina o festival perto de esgotar os produtos e conquista novos seguidores e clientes. “Estar em um evento como o Sana tem um significado muito grande. Não é só sobre vender. É sobre ocupar um espaço que durante muito tempo parecia distante para pessoas como eu. É mostrar que nós também produzimos cultura geek, consumimos cultura geek e podemos empreender dentro desse mercado.” No estande, as vendas também abrem espaço para a identificação com as obras. “Quando alguém compra um produto meu e se identifica com aquela arte, eu sinto que estou contribuindo para ampliar a representatividade. Muitas pessoas negras chegam ao estande e dizem que nunca tinham visto personagens ou referências parecidas com elas naquele universo. Isso mostra que existe uma demanda e que essas histórias precisam ser contadas.”


Transformar a produção artística em principal fonte de renda, porém, ainda é um objetivo em construção para Danielle, que concilia o trabalho com a vida acadêmica. “Empreender na periferia não é simples. A gente lida com falta de recursos, dificuldade para investir na produção e, muitas vezes, com a necessidade de conciliar várias atividades ao mesmo tempo. Mas eu acredito que a arte pode abrir caminhos.”


Equipe da Preta Gê Tranças atende na sala da Black Heroes durante o Sana. Foto: Brian Sthefano
Equipe da Preta Gê Tranças atende na sala da Black Heroes durante o Sana. Foto: Brian Sthefano

A relação entre cultura, identidade e renda também está no trabalho de Geiziane Pereira, trancista, dreadmaker e fundadora da marca Preta Gê Tranças, que expõe na sala da Black Heroes. “Meu trabalho vai muito além da estética. Quando faço uma trança ou um dread, estou trabalhando com identidade, autoestima e ancestralidade. Muitas pessoas chegam até mim querendo mudar o cabelo, mas acabam saindo com uma relação diferente com a própria história.” O caminho até a autonomia exigiu persistência. “No começo, eu atendia poucos clientes e enfrentava dificuldades para estruturar o negócio. Com o tempo, fui entendendo que meu trabalho tinha valor e que era possível transformar um conhecimento tradicional em fonte de renda e independência financeira.” Parte da dificuldade estava na própria clientela: muitas pessoas demonstravam interesse, mas tinham vergonha de assumir o estilo ou receio de sofrer preconceito e de não se identificar com a própria aparência. Com o tempo, Geiziane diz ter superado parte dessas barreiras e ampliado o negócio. Hoje, leva toda a equipe para atender à demanda e vê na marca “uma forma de mostrar que empreendedores negros podem transformar saberes culturais em negócios sustentáveis e em oportunidades para outras pessoas”.


Segundo estimativas da Black Heroes, cerca de 200 artistas e empreendedores foram alcançados, direta ou indiretamente, desde a criação da sala, e aproximadamente 20 negócios realizaram vendas ou conquistaram novos clientes por meio do espaço. A iniciativa atua em um mercado no qual a participação não se distribui igualmente entre os grupos raciais. Em 2024, pessoas brancas correspondiam a 50,2% dos ocupados em atividades culturais no Brasil, embora representassem 43,2% do total de pessoas ocupadas, segundo o Sistema de Informações e Indicadores Culturais, do IBGE. Adriana Barbosa, fundadora e presidente do Ecossistema Feira Preta, plataforma de fomento à economia criativa e à economia negra, defende uma mudança na maneira como esses territórios são percebidos. “É preciso parar de olhar para a quebrada sob a ótica da carência e passar a enxergar a potência.”


Para Adriana, a falta de perspectivas também integra o contexto da violência nas periferias. “A violência urbana nas periferias é alimentada pela falta de perspectivas e pelo esvaziamento de futuro para a juventude.” Preto Zezé vê na atuação da Black Heroes uma forma de aproximar a juventude da criação cultural e de oportunidades econômicas. “Estão mostrando para o moleque da periferia de Fortaleza que ele não precisa ser só o consumidor passivo do super-herói norte-americano; ele pode ser o criador da sua própria narrativa e, mais do que isso, faturar com isso.” Para o ativista, a combinação entre cultura e geração de renda é parte desse processo. “Quando o Black Heroes cria uma rede de artistas pretos nerds no Ceará, eles estão politizando a molecada pela via do afeto, do desenho e do pertencimento, dando uma rota de futuro longe da violência.”


Gibi, chocolate e roda de conversa


Fora do festival, o coletivo mantém a proposta do Cine Favela de levar a cultura até onde as crianças estão. “As ações sociais são o coração da Black. A gente leva gibi, HQ e mangá para as comunidades, porque a leitura transforma e porque a cultura geek pode ser porta de entrada para o hábito de ler. Os próprios integrantes emprestam aparelhos, doam livros, vão em escola dar palestra, fazem roda de conversa com a criançada e com os adolescentes”, conta Jefferson Ferreira, fundador da Black Heroes. Segundo o coletivo, mais de 150 gibis da Turma da Mônica foram distribuídos em comunidades de Fortaleza em 2023, e mais de 30 palestras em escolas sobre racismo, identidade negra, saúde mental, oportunidades profissionais e cultura de paz já alcançaram mais de 2 mil estudantes. A aposta na leitura ocorre em um cenário de dificuldades para o hábito de ler no país. Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, 53% dos entrevistados em 2024 disseram não ter lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores.


As datas comemorativas também se tornaram oportunidades para reunir famílias e organizações comunitárias. Desde 2024, a Black Heroes promove ações de Páscoa em bairros da periferia, com chocolates, gincanas e brincadeiras. Segundo o coletivo, as iniciativas já chegaram a mais de 500 famílias. Em 2025, uma das atividades foi realizada na sede do Barramar, coletivo cultural da Barra do Ceará, bairro que recebeu algumas das primeiras sessões do Cine Favela.


Ângelo Augusto, estudante e morador da Barra do Ceará, conheceu a Black Heroes no Sana 2024 – Parte 1, quando visitou o festival com os dois irmãos mais novos, de 14 e 9 anos. “Foi uma experiência diferente pra gente, porque era um espaço pensado pra quem é da quebrada, com personagens e histórias que conversavam com a nossa realidade. A gente saiu de lá com aquilo na cabeça.” Meses depois, a família reencontrou o coletivo numa ação de Dia das Crianças, na qual os irmãos ganharam quadrinhos. “Meus pais não tinham dinheiro pra comprar, então ver os dois recebendo aquilo, com carinho, tocou muito a gente. Quem vê de fora pode achar que é só um gibi, mas pra criança da periferia é um presente de verdade. Abre a imaginação, desperta o gosto pela leitura e mostra que a gente também merece ser lembrado. Foi isso que a Black fez por nós naquele dia.”


Anny atua como fotógrafa voluntária da Black Heroes durante o Sana 2026 – Parte 2. Foto: Arquivo pessoal/Anny
Anny atua como fotógrafa voluntária da Black Heroes durante o Sana 2026 – Parte 2. Foto: Arquivo pessoal/Anny

A atuação do coletivo também mobiliza jovens que passam a integrar as atividades. Anny, estudante e moradora do Conjunto Ceará, conheceu a Black Heroes numa seletiva da Batalha Insana, no Farol da Granja, e passou a atuar como fotógrafa voluntária. Antes, as oportunidades para os jovens de sua comunidade lhe pareciam limitadas a poucos caminhos. O que a fez permanecer foi a coletividade, ao “ver pessoas se unindo, criando oportunidades, dando visibilidade umas às outras e mostrando que pessoas da periferia também têm talento, capacidade e muito a oferecer”. A experiência também mudou a forma como ela enxerga o próprio futuro profissional. “A fotografia, por exemplo, deixou de ser apenas algo de que eu gostava e passou a ser algo que eu consigo enxergar como uma possibilidade real para a minha vida, algo em que posso me aprofundar, aprender e construir um caminho. Acho que o maior impacto foi esse, sabe? Perceber que existem possibilidades além daquelas que eu conhecia e que, quando as pessoas se unem para fortalecer umas às outras, essas possibilidades se tornam muito mais acessíveis.”


Em abril de 2026, a reportagem acompanhou a ação de Páscoa da Black Heroes na sede do Barramar, na Barra do Ceará. Cerca de 50 crianças participaram da programação, organizada em parceria com o Coletivo Barramar, a Lampião Brindes e o cantor VMZ, com atividades recreativas e distribuição de guloseimas.


Crianças, famílias e voluntários na ação de Páscoa de 2026 da Black Heroes, realizada com o Coletivo Barramar, na Barra do Ceará. Foto: Reprodução/Black Heroes
Crianças, famílias e voluntários na ação de Páscoa de 2026 da Black Heroes, realizada com o Coletivo Barramar, na Barra do Ceará. Foto: Reprodução/Black Heroes

Christopher Crisanto, da Lampião Brindes, que participou da ação como voluntário, disse à reportagem que proporcionar momentos como aquele não tem preço e faz parte da cultura e da identidade da Black Heroes. Entre as crianças estavam os irmãos mais novos de Ângelo Augusto, que já haviam recebido quadrinhos em outra atividade do coletivo. Quatro anos depois das primeiras sessões de cinema com notebook e caixa de som na Barra do Ceará, a Black Heroes planeja realizar um festival próprio, gratuito e acessível, “para que o menino que só tem o dinheiro da passagem possa participar”, afirma Jeff, que resume assim o caminho escolhido pelo coletivo: “Não pregamos fogo contra os racistas. Pregamos a paz! Uma paz construída por meio da cultura, da educação, do empreendedorismo e da valorização da nossa história. Porque acreditamos que transformar a realidade não significa alimentar o ódio, mas criar caminhos para que as próximas gerações de pessoas negras possam sonhar, realizar e existir plenamente, sem precisar lutar todos os dias pelo direito de serem quem são.”







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