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Coletivo em Fortaleza transforma cultura Afro Geek em ferramenta de inclusão social

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 4 de jan.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 6 de jan.


Criado na periferia da capital cearense, a Black Heroes mobiliza solidariedade comunitária, trabalho voluntário e ações culturais para promover representatividade negra e fortalecer vínculos sociais em territórios periféricos.
Criado na periferia da capital cearense, a Black Heroes mobiliza solidariedade comunitária, trabalho voluntário e ações culturais para promover representatividade negra e fortalecer vínculos sociais em territórios periféricos.

Crescer sem se ver representado também é uma forma silenciosa de exclusão. Para muitos jovens negros das periferias, imaginar-se como herói nunca foi uma possibilidade óbvia. Amplamente consumida, a cultura geek raramente refletiu seus corpos, histórias ou territórios. Nesse universo, onde heróis moldam imaginários e futuros possíveis, a ausência de personagens negros reforça, desde cedo, a ideia de que determinados corpos não pertencem a esses espaços. Em um cenário historicamente marcado pelo racismo estrutural, iniciativas baseadas na solidariedade comunitária têm buscado enfrentar essa exclusão por meio da cultura.


Foi na capital cearense — que concentra o terceiro maior número de favelas e comunidades urbanas do país, segundo o IBGE — que Jefferson Ferreira, conhecido como Lobo de Wakanda, encontrou na cultura geek uma forma de enfrentar a exclusão racial e promover pertencimento. Morador da periferia de Fortaleza, ele é o idealizador do coletivo Black Heroes, projeto que articula cultura pop, trabalho voluntário e ações solidárias para ampliar o acesso à representatividade negra em espaços historicamente excludentes.


Quando existir já era um ato de resistência


Jefferson Ferreira, o Lobo de Wakanda, criou o coletivo Black Heroes para ressignificar personagens da cultura pop a partir da vivência negra periférica.
Jefferson Ferreira, o Lobo de Wakanda, criou o coletivo Black Heroes para ressignificar personagens da cultura pop a partir da vivência negra periférica.

A ausência de representatividade dialogava diretamente com a própria trajetória de Jefferson Ferreira. Criado na periferia, ele cresceu sem a presença do pai e teve a vida marcada por instabilidades comuns a muitos jovens negros das bordas urbanas. A periferia foi espaço de formação, mas também de enfrentamento cotidiano à exclusão social, à precariedade de oportunidades e ao racismo estrutural que atravessa esses territórios.


Mesmo diante das dificuldades, Jeff encontrou nas expressões culturais uma forma de permanência e resistência. A música, as batalhas de MCs e a cultura pop passaram a ocupar um papel central em sua vida, funcionando como espaços de identidade e elaboração simbólica. Ainda assim, a distância entre o universo geek e a realidade periférica permanecia evidente, reforçando a sensação de que aqueles ambientes não haviam sido pensados para corpos negros e periféricos.


Foi desse acúmulo de vivências — entre a exclusão e a insistência em permanecer — que surgiu a inquietação que daria origem à Black Heroes. A percepção de que era preciso criar referências onde elas não existiam abriu caminho para uma iniciativa que uniria cultura, solidariedade e ação coletiva.


Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado


A percepção de Jeff de que a ausência de representatividade não se limitava ao cotidiano da periferia ficou ainda mais evidente nos espaços que, teoricamente, deveriam acolher a diversidade. Frequentador assíduo do Sana, um dos maiores eventos de cultura geek do Norte e Nordeste, ele passou a notar que, mesmo em um ambiente marcado pela pluralidade de universos e narrativas, pessoas negras raramente ocupavam posições de visibilidade. “Eu quase não via cosplay preto. Quando perguntava o motivo, as pessoas diziam que não conheciam personagens negros”, relata. O incômodo expunha um paradoxo: um universo amplamente consumido pela juventude periférica, mas que pouco refletia seus corpos e histórias.


A constatação despertou a necessidade de ir além da crítica. Jeff percebeu que, se as referências não estavam presentes, seria preciso criá-las. A partir desse desejo de transformação, surgiu a proposta de reunir personagens negros da cultura pop em um mesmo espaço, tornando visível aquilo que historicamente foi fragmentado ou silenciado. A ideia amadureceu até se concretizar na criação de uma sala temática afro geek dentro do Sana — um marco simbólico que deixaria de ser apenas reflexão para se tornar projeto.


A sala temática passou a funcionar como um espaço de encontro entre cultura, identidade e pertencimento. No ambiente, o público tem acesso a cenários inspirados em produções icônicas protagonizadas por personagens negros, como o trono de Wakanda, além de murais ilustrados, exposição de bonecos e personagens reinterpretados a partir da estética periférica e afrocentrada. O espaço também abriga palestras, rodas de conversa e áreas dedicadas ao empreendedorismo periférico, com artesãs e produtores locais apresentando seus trabalhos. A programação inclui ainda batalhas de rima — como a Batalha In Sana — reforçando o diálogo entre a cultura geek e as expressões da cultura de rua.

Cosplayer negra participa da sala temática afro geek da Black Heroes durante o Sana 2024.
Cosplayer negra participa da sala temática afro geek da Black Heroes durante o Sana 2024.

A iniciativa transformou a experiência de muitos jovens que, pela primeira vez, se viram representados dentro de um dos principais eventos de cultura pop do Nordeste.


O direito de criar, vender e existir


Quando a Black Heroes ganhou um espaço dentro do Sana, o evento deixou de ser apenas um ponto de encontro para consumidores de cultura pop e passou a funcionar também como uma plataforma de circulação econômica para empreendedores periféricos. No Brasil, o número de pessoas negras à frente de pequenos negócios cresceu 22% na última década, superando o aumento entre empreendedores brancos, segundo dados do Sebrae com base na PNAD Contínua — um movimento que evidencia a centralidade do empreendedorismo negro na economia criativa e informal do país.


Apesar do crescimento, os obstáculos permanecem. Empreendedores negros enfrentam maiores dificuldades de acesso a crédito, menor faturamento médio e menos oportunidades de inserção em grandes eventos culturais. No setor criativo, essas barreiras se intensificam, já que a participação em feiras e convenções exige investimento inicial, capital de produção e redes de contato — fatores que historicamente excluem produtores das periferias.


Foi nesse contexto que a sala da Black Heroes passou a operar como um espaço de acesso ao mercado geek para artistas e criadores periféricos. Entre eles está Danielle Alícia, empreendedora de 27 anos que transforma sua relação com o universo nerd em produtos autorais. Ilustradora e artesã, ela produz livros feitos à mão, ecobags, adesivos e ilustrações inspiradas na cultura pop, aliando criação artística à afirmação da identidade negra nesses espaços.


Danielle Alícia durante a realização do Sana 2023 - Parte 2, na sala Black Heroes.
Danielle Alícia durante a realização do Sana 2023 - Parte 2, na sala Black Heroes.

Moradora da Granja Portugal, no Grande Bom Jardim, Danielle ainda busca consolidar o trabalho artístico como principal fonte de renda, conciliando a produção com a vida acadêmica e desafios pessoais. Para ela, ocupar um espaço como o Sana rompe a lógica de que empreendedores periféricos estão restritos à margem desses eventos. “Estar ali não é só vender, é mostrar que a gente produz, cria e movimenta esse mercado”, afirma. A experiência evidencia como a Black Heroes atua não apenas como vitrine comercial, mas como estratégia concreta de inclusão econômica dentro da cultura geek.


Mas a proposta de inclusão da Black Heroes não se restringiu aos limites do evento. A partir da experiência no Sana, o coletivo passou a expandir suas ações para fora dos pavilhões, levando atividades culturais, esportivas e educativas diretamente para comunidades periféricas de Fortaleza.


A cultura geek como ferramenta de solidariedade comunitária


No Brasil, a desigualdade no acesso à cultura e ao lazer começa ainda na infância. Um levantamento do UNICEF, divulgado em 2023, aponta que mais de 60% das crianças e adolescentes brasileiros vivem em situação de pobreza multidimensional, condição que inclui privações relacionadas à educação, ao acesso à informação, ao lazer e à convivência comunitária. Em territórios periféricos, essas ausências se refletem em infâncias marcadas pela falta de livros, atividades culturais e espaços seguros de socialização, cenário que amplia a importância de iniciativas baseadas em solidariedade e mobilização comunitária.


Foi a partir dessa compreensão que a Black Heroes passou a estruturar ações fora dos grandes eventos, atuando diretamente em bairros periféricos de Fortaleza. Desde 2023, o coletivo desenvolve iniciativas sustentadas por doações de materiais, parcerias com organizações da sociedade civil e empresas privadas, além do trabalho voluntário integral da equipe. Ao longo desse período, mais de 2.000 famílias foram beneficiadas por ações voltadas principalmente ao público infantil, sempre com acesso gratuito e organização comunitária.


As ações incluem a distribuição de gibis, materiais educativos, brinquedos, alimentos e itens simbólicos ligados à cultura geek, além da realização de atividades recreativas e esportivas. Todo o processo — da arrecadação à execução — é conduzido por voluntários, que doam tempo, trabalho e conhecimento para viabilizar as iniciativas. A lógica adotada pelo coletivo se distancia de ações pontuais e aposta na continuidade como forma de criar vínculos duradouros com os territórios atendidos.


Em uma dessas ações, realizadas durante o período da Páscoa, Carla, de 8 anos, recebeu um kit de chocolates pela primeira vez. Moradora da Barra do Ceará, ela nunca havia participado de uma celebração desse tipo. A mãe, Ana Paula, conta que datas comemorativas costumavam passar sem qualquer tipo de atividade especial. “Ela ficou o dia inteiro segurando o chocolate, mostrando para os vizinhos. Foi a primeira vez que ela se sentiu incluída naquela comemoração”, relata. Para a família, o gesto representou mais do que a entrega de um item material.


O acesso à leitura também aparece como um dos impactos mais consistentes das ações solidárias do coletivo. Segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro, 44% da população brasileira não é considerada leitora, índice que se acentua em famílias de baixa renda, onde o livro ainda não faz parte do cotidiano doméstico. Em comunidades periféricas, a ausência de bibliotecas e o alto custo de materiais impressos dificultam o primeiro contato das crianças com a leitura. Foi nesse contexto que José Lucas, de 10 anos, recebeu seu primeiro gibi durante uma das ações promovidas pela Black Heroes. Morador de um bairro periférico de Fortaleza, ele nunca havia tido contato com esse tipo de material em casa. O pai, Marcos Antônio, relata que o impacto foi imediato. “Ele chegou perguntando quem era o personagem, quis saber por que ele usava aquela roupa, como a história terminava. Depois disso, começou a pedir mais livros”, conta. Para Marcos, o episódio revelou uma ausência até então naturalizada pela rotina da família. “A gente sempre se preocupa com comida, com roupa, com o básico. Livro nunca foi prioridade porque parecia distante da nossa realidade”, afirma. A distribuição de gibis, nesse sentido, funciona como porta de entrada para o estímulo à leitura e para a ampliação do repertório cultural, mostrando que o acesso ao livro também é uma forma de inclusão social.


Ao transformar a cultura geek em instrumento de solidariedade, a Black Heroes demonstra que a doação vai além do recurso financeiro. O coletivo opera a partir da circulação de tempo, trabalho, conhecimento e cuidado, criando respostas locais para desigualdades que afetam diretamente a infância nas periferias urbanas. Ao levar cultura, lazer e atenção para dentro das comunidades, a iniciativa reforça o papel das organizações de base comunitária na promoção da inclusão social e na construção de oportunidades onde elas historicamente foram negadas.


Para acompanhar as atividades do coletivo, o perfil da Black Heroes no Instagram reúne registros das ações e informações sobre os projetos desenvolvidos.



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