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Hospitais filantrópicos respondem pela maior parte dos transplantes no Paraná

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 5 de fev.
  • 6 min de leitura
Hospitais filantrópicos concentram cerca de 80% dos transplantes realizados no Paraná e mais de 70% dos procedimentos de alta complexidade no estado. Foto: Reprodução/Internet
Hospitais filantrópicos concentram cerca de 80% dos transplantes realizados no Paraná e mais de 70% dos procedimentos de alta complexidade no estado. Foto: Reprodução/Internet

Para milhares de brasileiros, o atendimento em saúde passa, muitas vezes sem que o paciente perceba, pelos hospitais filantrópicos. Essas instituições, que atuam sem fins lucrativos e reinvestem recursos no próprio atendimento, formam uma das bases da assistência pública no país, especialmente em áreas de média e alta complexidade. No Paraná, esse modelo é parte fundamental da estrutura que garante desde atendimentos de rotina até procedimentos altamente especializados, como os transplantes de órgãos.


É dentro dessa rede que se concentra a maior parte dos transplantes realizados no estado. Dados de entidades do setor e de bases oficiais de saúde mostram que hospitais filantrópicos respondem pela maioria dos procedimentos, incluindo grande parte das cirurgias de alta complexidade. O cenário se consolida em um estado que se mantém entre os líderes nacionais em doação de órgãos e que opera uma rede integrada envolvendo captação, regulação, transporte especializado e hospitais preparados para realizar transplantes em diferentes regiões do Paraná.


O papel dos hospitais filantrópicos no sistema de transplantes do Paraná


Os transplantes realizados no Paraná são resultado de uma rede que combina regulação pública, logística especializada e capacidade hospitalar de alta complexidade. Dentro desse sistema, os hospitais filantrópicos ocupam posição estratégica ao concentrar grande parte dos procedimentos e ao manter equipes e estruturas que funcionam de forma contínua dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Dados da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Paraná (FEMIPA) indicam que essas instituições respondem por cerca de 80% dos transplantes realizados no estado, consolidando o papel da filantropia como base operacional do sistema transplantador paranaense.


O protagonismo se torna ainda mais evidente quando analisados os procedimentos de maior complexidade. Levantamento da FEMIPA com base em dados do DataSUS mostra que hospitais filantrópicos foram responsáveis, em 2024, por 71,79% dos transplantes cardíacos, 84,41% dos transplantes de fígado, 83,33% dos transplantes de pâncreas, 69,63% dos transplantes renais e 62,07% dos transplantes de medula óssea. No mesmo período, essas unidades também responderam por 34,09% dos transplantes de córnea realizados no estado, procedimentos distribuídos em 18 hospitais localizados em cidades como Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel e Pato Branco.


O desempenho ocorre dentro de um cenário em que o Paraná mantém posição de destaque nacional na área. Em 2024, o estado liderou o país em taxa de doação de órgãos, com 42,3 doadores por milhão de habitantes — mais que o dobro da média brasileira. No mesmo período, também registrou 36 órgãos transplantados por milhão de habitantes, novamente acima da média nacional. Esse desempenho está diretamente associado à integração entre Central Estadual de Transplantes, hospitais notificadores, equipes de captação e unidades transplantadoras.


O volume anual de procedimentos ajuda a dimensionar a escala do sistema. Em 2024, foram realizados no Paraná 1.248 transplantes de córnea, 550 transplantes de rim — incluindo procedimentos com doadores vivos —, 304 transplantes de fígado, além de cirurgias de pâncreas e coração. Os números colocam o estado entre os mais ativos do país em diversas modalidades transplantadoras, inclusive com destaque em transplantes pediátricos e de medula óssea.


Além da estrutura hospitalar, indicadores sociais também ajudam a explicar o desempenho do estado. O Paraná apresenta uma das menores taxas de recusa familiar para doação de órgãos do país. Em 2024, a taxa ficou em torno de 28%, enquanto a média nacional chegou a aproximadamente 46%. Especialistas associam esse resultado a protocolos de abordagem familiar, capacitação contínua das equipes médicas e campanhas de conscientização sobre doação.


Mesmo com os indicadores positivos, a demanda por transplantes permanece elevada. Dados da Central de Transplantes do Paraná indicam que cerca de 4.900 pessoas aguardam na fila por um órgão no estado, sendo aproximadamente 2 mil apenas para transplante de córnea. O funcionamento do sistema depende de uma cadeia que envolve notificação hospitalar, confirmação de morte encefálica, autorização familiar, avaliação clínica, compatibilização nacional e logística terrestre e aérea permanente. Nesse cenário, os hospitais filantrópicos se consolidam como parte essencial dessa engrenagem, concentrando estrutura técnica e capacidade operacional que permitem transformar doações em transplantes efetivos — realidade que ajuda a explicar por que o Paraná mantém posição de destaque nacional.


A espera por um transplante e a vida depois da cirurgia


Para quem entra na fila por um transplante, o tempo costuma ser medido de outra forma. Cada ligação do hospital pode significar uma nova chance de vida, enquanto cada dia de espera é marcado por limitações físicas, medo e incerteza. No Paraná, onde a rede de transplantes se consolidou como uma das mais eficientes do país e conta com forte atuação de hospitais filantrópicos, muitos pacientes conseguem transformar a espera em recomeço, esultado de um sistema que integra doação, captação e alta complexidade hospitalar. É o caso de Ariel Ortiz Britez.


Ariel conviveu com problemas cardíacos por cerca de cinco anos até entrar na fila por um transplante de coração, onde permaneceu por aproximadamente três anos. Durante esse período, passou a enfrentar limitações severas na rotina. Ele relata que não conseguia respirar normalmente, sentia falta de ar constante e inchaço pelo corpo, sintomas que se intensificaram com a progressão da doença.


Segundo o cirurgião cardiovascular Rinaldo Wolker, chefe do Serviço de Transplante Cardíaco do Hospital Filantrópico Policlínica (HFP), Ariel foi diagnosticado com miocardiopatia dilatada, doença progressiva causada, no caso dele, por uma infecção viral que comprometeu o miocárdio e provocou o aumento do coração. Em entrevistas anteriores, o médico explicou que, naquele estágio, o transplante era a única alternativa terapêutica possível. “É uma doença progressiva e a única possibilidade de tratamento que ele tinha naquele momento seria o transplante. Tivemos circunstâncias que contribuíram para o sucesso do procedimento. Ariel é um paciente jovem e o doador também era uma pessoa jovem, forte e saudável. Também contribuiu positivamente para a evolução o fato de a retirada do órgão ter sido realizada aqui em Pato Branco”, explicou. O médico anestesiologista Ivai Azevedo, que integrou a equipe responsável pelo procedimento, destacou a complexidade do transplante cardíaco e o nível de responsabilidade envolvido. “É uma cirurgia complexa, difícil mesmo, mas a gente fica com uma responsabilidade ainda maior por se tratar de um transplante. Existe aquela obrigação de que tem que dar certo. Temos uma equipe experiente e bem treinada. São muitos profissionais envolvidos, entre médicos e equipe de enfermagem, para que o paciente tenha a melhor recuperação possível”, afirmou.


O transplante foi realizado em janeiro de 2024 no Hospital Filantrópico Policlínica, em Pato Branco. Segundo Ariel, o procedimento só foi possível após a disponibilidade de um órgão compatível de um doador jovem, decisão que ele atribui diretamente à autorização da família. Ele afirma manter gratidão permanente pelo gesto. “Sou muito grato à família que autorizou a doação. Sem essa decisão, eu não estaria aqui hoje”, disse.


Hoje, após o transplante, Ariel afirma levar uma vida considerada normal. Voltou a praticar atividades físicas e mantém rotina ativa, incluindo corridas e passeios de bicicleta, atividades que antes da cirurgia eram impossíveis devido à limitação respiratória causada pela doença.


O papel estrutural da filantropia na saúde do Paraná


No Paraná, hospitais filantrópicos se tornaram parte essencial da oferta de serviços de média e alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em áreas como transplantes, oncologia, cardiologia e terapia intensiva, essas instituições concentram estrutura, equipes especializadas e capacidade de atendimento contínuo. Dados da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Paraná (FEMIPA) indicam que, só na área de transplantes, essas unidades respondem pela maior parte dos procedimentos realizados no estado, evidenciando o peso da filantropia dentro da rede pública.


A presença dessas instituições também influencia diretamente o acesso ao tratamento em diferentes regiões do estado. Fora dos grandes centros, hospitais filantrópicos costumam ser referência para atendimentos especializados e absorvem demandas que exigem estrutura técnica complexa, desde cirurgias de alta complexidade até acompanhamento de pacientes crônicos. Esse desenho ajuda a explicar por que o Paraná mantém resultados acima da média nacional em áreas estratégicas da saúde pública.


Na prática, é essa rede que sustenta o atendimento de milhares de pacientes todos os anos. Casos como o de Ariel mostram como a estrutura construída entre sistema público, doação de órgãos e hospitais especializados permite que tratamentos de alta complexidade cheguem a quem depende exclusivamente do SUS.








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