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Parto raro de trigêmeos expõe papel de hospital filantrópico no atendimento de alto risco no Paraná

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 4 de fev.
  • 7 min de leitura
O parto normal foi realizado no Hospital Itamed, em Foz do Iguaçu, referência regional em obstetrícia de alto risco pelo SUS. Foto: assessoria/divulgação
O parto normal foi realizado no Hospital Itamed, em Foz do Iguaçu, referência regional em obstetrícia de alto risco pelo SUS. Foto: assessoria/divulgação

Para muitas mulheres, a maternidade é um sonho construído ao longo da vida. Para Ellen Passos da Silva, que já é mãe da pequena Ísis, de 3 anos, esse desejo ganhou um novo sentido: dar à filha um irmão — ou uma irmã — para dividir a infância. A gestação, no entanto, tomou um rumo inesperado e se transformou em uma história que emocionou uma família inteira, marcada pela surpresa de uma gravidez múltipla e pela expectativa de três novas vidas chegando ao mundo.


O caso teve desfecho no Hospital Itamed, em Foz do Iguaçu, onde Ellen deu à luz trigêmeos em um parto natural considerado raro. A unidade, que é filantrópica, é referência em gestação de alto risco para a 9ª Regional de Saúde e atende majoritariamente pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), concentrando casos de maior complexidade de municípios do Oeste do Paraná.


O desafio de gerar três vidas ao mesmo tempo


Ellen Passos da Silva acreditava estar perdendo um filho quando procurou atendimento médico. Sozinha, ainda no consultório, recebeu a notícia que mudaria completamente sua vida: não se tratava de um aborto, mas de uma gestação de trigêmeos. Assustada, ligou imediatamente para o companheiro, José Norberto Junior, que, do outro lado da linha, custou a acreditar. “Eu achei que era brincadeira, que tinha entendido errado. Quando a ficha caiu, fiquei em choque. Era alegria, mas também medo, porque a gente sabe o quanto uma gravidez assim é delicada”, contou.


A surpresa inicial deu lugar, aos poucos, à aceitação e ao cuidado. O casal passou a reorganizar a rotina, o trabalho e a casa para a chegada de três bebês. “Eu só pensava na Ísis. Sonhava em dar um irmão para ela, nunca imaginei que viriam três de uma vez. Depois do susto, a gente entendeu que precisava confiar e fazer tudo certo”, afirmou Ellen. Com 34 semanas de gestação, ela seguiu rigorosamente todas as orientações médicas e passou a ser acompanhada em um pré-natal classificado como alto risco, com consultas frequentes, exames seriados e monitoramento constante.


Hospital Itamed conta com diversos serviços para pacientes da Maternidade. Foto: Reprodução/Hospital Itamed
Hospital Itamed conta com diversos serviços para pacientes da Maternidade. Foto: Reprodução/Hospital Itamed

Segundo a médica que acompanhou o caso, Dra. Luciene Batista de Lima (CRM 38324 PR – RQE 22587), gestação de trigêmeos é considerada uma das situações mais complexas da obstetrícia. “Trata-se de uma gravidez com risco elevado para a mãe e para os bebês. Há maior chance de parto prematuro, restrição de crescimento, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, hemorragias e necessidade de intervenções imediatas. Por isso, o acompanhamento precisa ser intensivo, com avaliação clínica constante, ultrassonografias seriadas e planejamento rigoroso do parto”, explicou. A médica afirma que, desde o diagnóstico, a equipe adotou protocolos específicos. “Ela foi classificada como gestante de altíssimo risco. Nós intensificamos o pré-natal, com controle rigoroso da pressão arterial, avaliação do crescimento fetal e monitoramento do bem-estar dos três bebês. Em uma gestação múltipla, qualquer intercorrência pode evoluir rapidamente, então a vigilância precisa ser contínua e integrada”, disse. Para Dra. Luciene, a condução adequada do caso foi determinante para o desfecho positivo.


O nascimento dos bebês estava previsto para ocorrer por cirurgia, ainda no início da manhã do dia 23 de janeiro. No entanto, pouco depois de dar entrada na maternidade e ir ao banheiro, Ellen percebeu que o trabalho de parto havia se adiantado. Em questão de minutos, ainda durante a avaliação médica, Ravi nasceu de forma inesperada. Logo em seguida, Maya e Maitê, que compartilhavam a mesma placenta, também foram trazidas ao mundo. O intervalo entre os três partos foi de poucos minutos, em um desfecho raro para gestações múltiplas e que exigiu resposta imediata de uma equipe preparada para atuar em situações de alta complexidade. “A ocorrência de um parto vaginal em trigêmeos é extremamente incomum e só é possível em situações muito específicas, com equipe preparada e estrutura completa. O mais importante é que havia suporte imediato para qualquer emergência. É isso que garante segurança”, destacou a médica. O nascimento contou com anestesiologista, ginecologistas obstetras, pediatras, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Ravi, Maitê e Maya nasceram sem necessidade de UTI Neonatal e receberam alta pouco tempo depois.


Para José, o momento simboliza mais do que a chegada dos filhos. “Foi como ver um milagre acontecer. A gente tinha medo, mas também tinha fé. Hoje, quando olho para eles, penso que tudo valeu a pena”, disse. Ellen resume a experiência com simplicidade: “Foram meses de cuidado, de incerteza e de esperança. Ver meus filhos bem é a prova de que todo esforço fez sentido”.



O hospital por trás de um atendimento de alta complexidade


Por trás do parto raro que marcou a história de Ellen existe uma estrutura que atende milhares de pessoas todos os meses. O Hospital Itamed, mantido pela Fundação de Saúde Itaiguapy, é uma instituição filantrópica de grande porte, com mais de 26 mil metros quadrados de área construída, cerca de 1.400 colaboradores e um corpo clínico formado por mais de 400 médicos. Mais de 60% dos atendimentos são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que transforma o hospital em um dos principais pilares da assistência de média e alta complexidade no Oeste do Paraná. É essa engrenagem silenciosa — sustentada por filantropia, gestão e políticas públicas — que torna possível atender casos de risco extremo, como a gestação de trigêmeos acompanhada na maternidade.


Ser um hospital filantrópico significa atuar sem fins lucrativos, com obrigação legal de reinvestir todos os recursos na própria instituição e manter atendimento prioritário à população. No modelo brasileiro, essas entidades funcionam como parceiras do poder público, ampliando a capacidade do SUS e garantindo serviços que, sozinhos, os cofres públicos não conseguiriam sustentar. No Paraná, esse modelo é responsável por grande parte das internações de média e alta complexidade, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros.


Hospital Itamed. Foto: Reprodução
Hospital Itamed. Foto: Reprodução

No Itamed, a filantropia se traduz em números e serviços. O hospital concentra cerca de 16 mil atendimentos mensais em mais de 40 especialidades, além de unidades estratégicas como maternidade, pronto-socorro, oncologia e centro cirúrgico. Na área materno-infantil, a instituição registra aproximadamente 400 nascimentos por mês, com estrutura completa para acompanhar desde gestações de baixo risco até os casos mais graves, como os de prematuridade extrema e gestações múltiplas.


A maternidade funciona como uma verdadeira linha de cuidado integrada. O complexo reúne pronto-socorro obstétrico, centro cirúrgico, leitos de tratamento clínico, alojamento conjunto, UTI Neonatal, Unidade de Cuidados Intermediários e Unidade Canguru, permitindo que mães e bebês permaneçam no mesmo ambiente durante todas as etapas do atendimento. Essa organização garante continuidade, rapidez na resposta a emergências e redução de riscos em situações de alta complexidade.


O alcance regional também revela a dimensão do impacto social. O hospital é referência para os nove municípios da 9ª Regional de Saúde — Foz do Iguaçu, Santa Terezinha de Itaipu, São Miguel do Iguaçu, Medianeira, Matelândia, Missal, Ramilândia, Itaipulândia e Serranópolis do Iguaçu. Em muitos desses locais, o Itamed é a única porta de entrada para serviços especializados, evitando deslocamentos de centenas de quilômetros e desafogando unidades menores da rede pública.


Manter essa engrenagem funcionando exige mais do que vocação social. Em um cenário de subfinanciamento crônico do SUS, a instituição investe em planejamento, controle de processos e qualificação permanente das equipes. O reconhecimento com o Nível 3 da Organização Nacional de Acreditação (ONA) — o mais alto da certificação brasileira — atesta a adoção de práticas de governança, segurança do paciente e eficiência operacional, pilares que sustentam a qualidade do atendimento.


Ao longo de quase três décadas de atuação, o Itamed consolidou-se como um exemplo de como filantropia, gestão eficiente e políticas públicas podem caminhar juntas. É essa base institucional que sustenta histórias como a de Ellen — e tantas outras que, diariamente, dependem da força silenciosa da filantropia para existir.


O sistema que sustenta histórias como a de Ellen


A história de Ellen não aconteceu de forma isolada. Ela está inserida em uma rede regional de assistência que concentra o atendimento especializado para uma população de centenas de milhares de pessoas no Oeste do Paraná. Nesse modelo, casos de maior complexidade são direcionados para hospitais com capacidade técnica e estrutura adequada, dentro de uma estratégia de regionalização da saúde que organiza o fluxo de pacientes entre municípios e centros hospitalares especializados.


Nos últimos anos, o aumento da demanda por procedimentos especializados tem pressionado o sistema público de saúde. Dados da Central de Acesso à Regulação do Paraná (Care/PR) indicam que mais de 70 mil pacientes aguardam por cirurgias eletivas pelo SUS no Estado. Em momentos recentes, estimativas da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA) já apontaram filas que chegaram a cerca de 200 mil pessoas, evidenciando a dimensão estrutural da demanda reprimida. Ao mesmo tempo, a produção cirúrgica vem aumentando em ritmo acelerado. Dados do Governo do Paraná mostram que, em 2024, a média mensal ficou em torno de 70 mil cirurgias eletivas, reflexo da ampliação de políticas públicas voltadas ao acesso assistencial. Programas estaduais também elevaram a capacidade operacional do sistema, permitindo a realização de aproximadamente 2 mil cirurgias eletivas por dia, segundo a Secretaria Estadual da Saúde.


Dentro desse cenário, hospitais que concentram atendimento especializado passam a atuar como pontos estratégicos da rede assistencial. A integração entre financiamento público, regionalização da assistência e atuação de instituições filantrópicas permite manter serviços de alta complexidade disponíveis fora dos grandes centros urbanos, reduzindo deslocamentos longos e ampliando a chance de atendimento dentro do tempo clínico adequado.


Casos como o de Ellen passam a representar um fluxo contínuo de atendimentos complexos e não apenas eventos isolados. A existência de uma rede organizada permite que situações de alto risco sejam identificadas precocemente, encaminhadas com rapidez e acompanhadas por equipes especializadas dentro de estruturas preparadas para responder a emergências clínicas e obstétricas.


A articulação entre políticas públicas, financiamento e atuação filantrópica sustenta parte importante da assistência especializada no interior do Paraná. Nesse cenário, histórias individuais deixam de ser exceção e passam a refletir o funcionamento de uma rede construída para garantir acesso à alta complexidade mesmo fora dos grandes centros, aproximando tecnologia hospitalar e assistência especializada da população que depende exclusivamente do sistema público de saúde.












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