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Com avanço do tratamento de esgoto, Ceará registra impactos na saúde pública e na qualidade de vida

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 15 de jan.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 26 de jan.

A aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento Básico, em 2020, impulsionou ações voltadas à universalização do esgoto no Ceará, um dos principais desafios históricos do estado. Imagem: Reprodução/Ambiental Ceará
A aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento Básico, em 2020, impulsionou ações voltadas à universalização do esgoto no Ceará, um dos principais desafios históricos do estado. Imagem: Reprodução/Ambiental Ceará

O avanço do tratamento de esgoto no Ceará começa a se refletir em mudanças ligadas à saúde pública e à qualidade de vida da população. A ampliação da cobertura do serviço em áreas urbanas e periféricas tem contribuído para reduzir a exposição da população a doenças associadas à falta de saneamento, além de provocar impactos diretos no cotidiano de comunidades historicamente sem acesso à coleta e ao tratamento adequado dos resíduos.


No estado, a expansão do esgotamento sanitário ocorre em meio a um histórico de déficits no setor e à necessidade de enfrentar problemas recorrentes, como internações por doenças de veiculação hídrica e a contaminação de rios e solos urbanos. A consolidação dessas mudanças, impulsionadas por novas diretrizes nacionais para o saneamento, começa a redesenhar a relação entre infraestrutura, saúde e meio ambiente no Ceará.


A relação direta entre esgoto tratado e saúde pública


A ausência de tratamento adequado de esgoto sempre esteve diretamente associada à disseminação de doenças evitáveis no Brasil, especialmente em áreas urbanas com infraestrutura precária. Quando o esgoto doméstico não é coletado nem tratado, resíduos acabam lançados em rios, canais, solos e até nas próprias ruas, ampliando a exposição da população a agentes infecciosos e contaminando fontes de água usadas no dia a dia.


No Ceará, os efeitos desse cenário aparecem de forma concreta nos indicadores de saúde. Dados do Instituto Trata Brasil mostram que, apenas em 2024, o estado registrou mais de 12 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI). Entre elas estão enfermidades como diarreias, hepatite A, leptospirose e outras infecções de veiculação hídrica — doenças consideradas evitáveis e diretamente ligadas à falta de coleta e tratamento de esgoto.


Foto: Fabiane de Paula
Foto: Fabiane de Paula

Além do impacto na saúde da população, essas internações geram pressão constante sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Estudos do setor apontam que a ausência de saneamento básico contribui para a recorrência de atendimentos médicos, internações prolongadas e maior gasto público com tratamentos que poderiam ser prevenidos com infraestrutura adequada. Na prática, o problema do esgoto ultrapassa o campo ambiental e se consolida como uma questão de saúde pública.


A ampliação do tratamento de esgoto surge, nesse contexto, como uma das principais estratégias de prevenção. Ao reduzir o contato da população com resíduos e agentes patogênicos, o saneamento contribui para a queda na incidência dessas doenças, especialmente em comunidades historicamente expostas ao esgoto a céu aberto. A relação entre infraestrutura sanitária e saúde, antes visível apenas nos números, passa a ser percebida também no cotidiano das cidades cearenses à medida que a cobertura do serviço avança.


Na linha de frente do SUS, os efeitos da falta de saneamento


No trabalho diário de prevenção e atendimento, a agente de saúde Adriana Gomes, concursada no estado do Ceará há mais de 23 anos, viu de perto como a falta de saneamento básico se traduziu em doenças e sofrimento em várias comunidades. “Antes, a gente via criança e idoso com diarreia toda semana no posto. Não era raro a família voltar várias vezes”, lembra ela, com tom de quem já viu muitas histórias parecidas se repetir.


Adriana explica que as equipes de agentes comunitários são muitas vezes as primeiras a perceber tendências que “são números frios” em relatórios. “Quando chove, a água invade quintal, joga o esgoto na rua. A gente sabe: semana que vem tem paciente com infecção”, afirma. Para ela, a simples presença de água suja acumulada ou esgoto exposto já funciona como um sinal de alerta: “É um passo para o hospital, não para o tratamento preventivo.” Os dados oficiais reforçam essa experiência cotidiana. Um levantamento do Instituto Trata Brasil indica que, apenas em 2024, o Nordeste registrou mais de 93 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI) — sendo o Ceará responsável por cerca de 12,2 mil desses casos no mesmo ano, ao lado de estados como Maranhão e Bahia


No contexto nacional, o impacto também é expressivo. Segundo uma análise de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) compilada pelo Instituto Trata Brasil, o Brasil como um todo contabilizou cerca de 344 mil internações por doenças ligadas à falta de água tratada e esgoto em 2024, número que reflete tanto a magnitude do problema quanto a pressão que essas doenças colocam sobre o sistema público de saúde.


No posto de saúde onde Adriana trabalha, ela relembra episódios em que condições de saneamento inadequadas se traduziram em sobrecarga para a rede de atendimento: “Há dias que parece que o inverno nunca vai embora, porque quem veio ontem com problema digestivo volta hoje com piora. A rotina muda quando você começa a ver menos casos desses por semana.” Para a agente, a melhora registrada em áreas que passaram a contar com redes de esgoto tratadas tem impacto direto nas rotinas dos postos: menos internações, menos casos graves, menos pressão sobre leitos e recursos. “É vida que a gente está falando, não é só número,” diz.


Ceará muda a perspectiva com expansão do esgotamento sanitário


Os avanços no saneamento no Ceará vão além de obras pontuais: eles começam a moldar uma nova realidade para a saúde pública e o meio ambiente no estado. Nos últimos anos, iniciativas para ampliar a cobertura da rede de esgoto e fortalecer a coleta e o tratamento começaram a reduzir lacunas históricas e a projetar um cenário de impactos positivos mais duradouros.


Parte desse movimento está ligada à maior Parceria Público-Privada (PPP) de esgotamento sanitário em execução no Brasil, firmada entre a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e a Ambiental Ceará. Desde o início das operações, em 2023, já foram implantados mais de 479 km de redes coletoras de esgoto e revitalizados equipamentos do sistema, como estações de tratamento e de recalque, com investimentos que ultrapassam R$ 1,5 bilhão e infraestrutura para conectar dezenas de milhares de imóveis ao serviço. Esse esforço é complementado por um pacote mais amplo de intervenções. No começo de 2025, foi autorizado um investimento de R$ 521 milhões em obras de esgotamento sanitário em 17 municípios do estado, contemplando cerca de 350 km de novas redes, duas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e 40 Estações Elevatórias de Esgoto (EEEs), que devem beneficiar mais de 126 mil pessoas.


Além disso, projetos como o “Esgotamento Legal” têm buscado reduzir o descarte irregular de esgoto em vias públicas por meio de ações socioeducativas e fiscalização integrada entre prestadores de serviço e órgãos reguladores, com a visita de equipes a mais de 11 mil imóveis em municípios cearenses, reforçando a necessidade de conexão das residências às redes existentes.


O impacto dessas ações, segundo especialistas em saneamento, se reflete em uma perspectiva mais ampla: reduzir desigualdades, melhorar condições sanitárias e proteger o meio ambiente. Estudos do Instituto Trata Brasil mostram que a universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto no estado poderia gerar benefícios socioeconômicos de cerca de R$ 36,8 bilhões entre 2023 e 2040, incluindo ganhos diretos relacionados à saúde, renda e meio ambiente para a população.


Para moradores e profissionais da saúde, essas transformações já começam a aparecer no cotidiano. A redução de focos de contaminação, combinada com campanhas de educação sanitária e investimentos contínuos, indicam uma mudança gradual do cenário: onde antes o esgoto exposto era parte da paisagem, hoje se fazem presentes redes que coletam e tratam resíduos, diminuindo o risco de doenças e abrindo espaço para outros indicadores de bem-estar social.


Um investimento que se reflete em saúde, dignidade e futuro


A ampliação do esgotamento sanitário no Ceará começa a revelar um efeito que vai além dos números e das metas previstas em lei: a reorganização das cidades a partir da saúde pública. Para o urbanista Yuri Castelo Branco, especialista em planejamento urbano e infraestrutura sanitária, o avanço do tratamento de esgoto representa uma das políticas públicas mais eficientes para reduzir desigualdades históricas. “Quando o saneamento chega, ele muda tudo ao redor: diminui doenças, reduz gastos com saúde, valoriza os territórios e devolve dignidade a comunidades que por décadas ficaram à margem do planejamento urbano”, avalia.


Segundo o especialista, o Novo Marco Legal do Saneamento criou um ambiente mais favorável para investimentos de longo prazo e planejamento técnico, algo essencial para estados com desafios estruturais como o Ceará. “O saneamento não é uma obra de curto prazo. Os resultados mais profundos aparecem com o tempo, quando os indicadores de internação caem, a frequência escolar aumenta e os espaços urbanos passam a ser ocupados de forma mais segura e saudável”, explica. Para ele, a redução de doenças relacionadas à água contaminada e ao esgoto a céu aberto é um dos primeiros sinais de que o ciclo começa a se inverter.


Os dados reforçam essa leitura. Estudos do Instituto Trata Brasil apontam que cada real investido em saneamento pode gerar uma economia significativa nos gastos com saúde pública, especialmente no atendimento de doenças evitáveis. No Ceará, onde milhares de internações ainda estão ligadas ao saneamento inadequado, a expectativa é que a expansão da rede de esgoto funcione como um mecanismo preventivo, aliviando a sobrecarga do Sistema Único de Saúde (SUS) e melhorando a qualidade de vida da população mais vulnerável.


Ao completar cinco anos, o Novo Marco Legal do Saneamento ainda enfrenta desafios para alcançar a universalização prevista até 2033. No entanto, no Ceará, os avanços observados indicam uma mudança de rota: o esgoto tratado deixa de ser exceção e passa a integrar o debate sobre saúde, meio ambiente e desenvolvimento urbano. Mais do que cumprir metas, o que está em jogo é a possibilidade de transformar realidades que, por muito tempo, pareceram invisíveis, e fazer do saneamento um pilar concreto de cidadania e futuro para o estado.


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