Incêndios por sobrecarga elétrica: dados do Anuário da Abracopel 2025 mostram que fios fora de norma impulsionam mortes e incêndios no Brasil
- Brian Sthefano

- 27 de jan.
- 6 min de leitura

Entre rolos de cabos vendidos a preços cada vez mais baixos e embalagens que nem sempre entregam o que prometem, o Brasil convive com um risco elétrico que raramente aparece aos olhos do consumidor. Fios e cabos fora de norma — conhecidos no setor como desbitolados, por terem menos cobre do que o exigido pelas normas técnicas — transformam instalações elétricas em estruturas vulneráveis, onde o superaquecimento e o curto-circuito deixam de ser exceção e passam a ser parte do cotidiano.
Os dados oficiais mostram o impacto desse problema. Em 2024, o Brasil registrou 1.186 incêndios de origem elétrica, um crescimento de mais de 20% em relação a 2023, segundo o Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica 2025, da Abracopel (ano-base 2024). A entidade aponta que esses incêndios estão diretamente associados ao aquecimento dos condutores por sobrecarga, curto-circuito e pelo uso de fios fora de norma, conectando a qualidade dos materiais vendidos no mercado brasileiro à escalada de destruição, prejuízos e mortes evitáveis.
O perigo invisível dentro das paredes
Por fora, um fio elétrico fora de norma pode parecer idêntico a um produto regular. Ele traz marca, bitola impressa e embalagem. Por dentro, porém, carrega menos cobre do que o especificado, o que reduz sua capacidade de conduzir energia e eleva a geração de calor quando o circuito é submetido à carga real. Esses fios desbitolados operam além do limite térmico previsto pelas normas técnicas e criam um ambiente propício à degradação do isolamento, à formação de arcos elétricos e ao curto-circuito.
Os números do Anuário Estatístico Abracopel 2025 (ano-base 2024) mostram a dimensão do problema. Em 2024, foram registrados 2.354 acidentes de origem elétrica no Brasil, considerando choques elétricos, incêndios e descargas atmosféricas. Desse total, 1.186 ocorrências — praticamente metade — foram incêndios de origem elétrica, evidenciando que o fogo já se tornou um dos principais vetores de risco ligados à eletricidade no país. O crescimento desses incêndios não é episódico. Em apenas um ano, o número de ocorrências saltou de 963 em 2023 para 1.186 em 2024, um aumento superior a 20%, indicando que cada vez mais instalações elétricas estão operando em condições de risco. Mesmo com a queda temporária no número de mortes nesse tipo de acidente — de 67 para 50 vítimas fatais —, o volume crescente de incêndios amplia a probabilidade de novas tragédias nos próximos anos.

A Abracopel aponta que o principal mecanismo por trás desses incêndios é o aquecimento dos condutores, provocado por sobrecarga, curto-circuito e pelo uso de fios com menor teor de cobre, os chamados desbitolados. Esses fatores fazem com que o condutor ultrapasse a temperatura segura, perca suas propriedades de isolamento e passe a funcionar como ponto de ignição dentro das paredes, forros e quadros de energia. Na prática, isso significa que a qualidade do fio não é um detalhe técnico, mas um elemento decisivo de segurança. Quanto menor o teor de cobre, maior a resistência elétrica e, consequentemente, maior a geração de calor. Em circuitos submetidos à carga normal de uma residência, comércio ou prédio público, esse calor acumulado pode desencadear um incêndio sem qualquer sinal externo prévio.
É nesse cenário que ganha relevância a atuação de entidades como a Qualifio, que trabalha para combater a circulação de fios e cabos fora de norma no mercado brasileiro e promover a certificação de produtos que realmente atendem às especificações técnicas de segurança. Em um país que já registra mais de mil incêndios elétricos por ano, a diferença entre um fio certificado e um desbitolado pode significar a diferença entre uma instalação segura e uma tragédia anunciada.
A fiação que não cumpre normas e o mercado por trás dela
Nos últimos cinco anos, os incêndios de origem elétrica não apenas cresceram, eles dispararam. Em 2020, o Brasil registrou 583 casos; em 2021, esse número subiu para 653; em 2022 chegou a 898; em 2023 foram 964; e em 2024 alcançou 1.186 ocorrências, um crescimento de mais de 100% em apenas cinco anos. O aumento é contínuo e alarmante e reflete, na prática, que o problema ultrapassou falhas pontuais e passou a revelar um problema estrutural nas instalações elétricas brasileiras. Esse salto progressivo não se traduz apenas em números frios no papel. O Anuário mostra que, nos acidentes mais graves, crianças e idosos são os mais atingidos, muitas vezes por dificuldade de locomoção ou reação mais lenta diante de chamas que começam onde menos se vê, dentro de paredes, forros e quadros de energia.
Embora os incêndios possam ter diversas origens, uma parcela significativa deles começa no ponto mais básico da instalação, o fio que deveria conduzir eletricidade com segurança, mas não consegue. O mercado brasileiro de fios e cabos é estimado por técnicos do setor como formado por cerca de 70% de produtos fora de norma, conhecidos como fios desbitolados, que contêm menos cobre do que o especificado. Essa redução invisível transforma o que parece uma economia no balcão da loja em um risco técnico permanente, porque o condutor passa a aquecer mais, perde isolação e entra em curto com maior facilidade. Na prática, o barato sai caro. Um fio fora de norma trabalha constantemente no limite, dissipa energia em forma de calor e se degrada mais rápido. Ao longo do tempo, isso aumenta o risco de falhas elétricas, incêndios e perdas patrimoniais, um custo oculto que raramente aparece no preço, mas frequentemente surge depois, na forma de danos ou tragédias.
Para enfrentar esse cenário, atua a Qualifio, Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos, entidade sem fins lucrativos criada em 1993. A organização teve papel decisivo na implantação da certificação obrigatória de fios e cabos pelo Inmetro e, desde então, trabalha em parceria com Inmetro, IPEM, PROCON e entidades da indústria em ações de fiscalização, treinamento e conscientização sobre a importância de materiais certificados. O trabalho técnico da Qualifio ajuda a dimensionar o problema. Em uma campanha de coleta e testes de produtos à venda no mercado, 667 amostras de fios e cabos foram analisadas, e 75% apresentaram algum tipo de não conformidade com as normas técnicas, incluindo teor insuficiente de cobre e falhas de isolação, irregularidades que elevam diretamente o risco de aquecimento e incêndio em instalações elétricas.
Desde 2020, com um laboratório próprio de ensaios, a entidade ampliou sua capacidade de análise e reduziu o tempo de resposta às irregularidades encontradas no mercado. Paralelamente, passou a investir em orientação técnica ao consumidor e aos profissionais, mostrando que a qualidade do material é tão determinante para a segurança quanto o projeto ou a mão de obra da instalação.
Em um país onde a maioria dos fios e cabos ainda não atende às normas técnicas, saber escolher o produto certo tornou-se parte essencial da prevenção de acidentes elétricos. Reconhecer sinais de irregularidade, entender como funciona a certificação e saber onde buscar produtos confiáveis são passos que fazem diferença entre uma instalação segura e uma estatística.
Como identificar um fio fora de norma
À primeira vista, um fio elétrico desbitolado é quase idêntico a um produto regular. A cor, o diâmetro externo e até a embalagem podem enganar. Por isso, identificar cabos irregulares não depende apenas da aparência, mas de atenção a detalhes técnicos e sinais simples que podem ser observados antes da compra e da instalação. “O fio desbitolado é uma das armadilhas mais perigosas da instalação elétrica, porque ele parece correto, mas trabalha permanentemente no limite”, explica Carlos Menezes, engenheiro eletricista especializado em segurança de instalações. “Quando falta cobre, o condutor aquece mais, o isolamento se degrada e o risco de curto-circuito e incêndio cresce de forma exponencial.”
O primeiro indício de irregularidade está na embalagem. Fios e cabos dentro da norma devem apresentar o selo do Inmetro, o número de certificação e os dados do fabricante. Produtos fora de norma frequentemente exibem informações incompletas, selos que não podem ser verificados ou simplesmente omitem esses dados, um sinal de que não passaram pelos ensaios técnicos exigidos. Outro alerta está no peso do rolo. Dois cabos com a mesma metragem e bitola declarada deveriam pesar praticamente o mesmo. Se um deles for visivelmente mais leve, é um forte indício de que contém menos cobre no interior. “Menos metal significa mais resistência elétrica e mais calor. É física básica, mas com consequências graves quando ignorada”, resume Menezes.
A flexibilidade também revela muito. Cabos dentro da norma são mais maleáveis e suportam dobras sem trincar. Fios fora de especificação costumam ser rígidos ou quebradiços, porque a redução do condutor compromete a estrutura do cabo. Além dessas observações práticas, a forma mais segura de compra é buscar produtos certificados. O selo do Inmetro indica que o cabo foi submetido a ensaios técnicos de segurança. Já o Selo Qualifio identifica marcas que passam por monitoramento contínuo de qualidade, funcionando como um filtro adicional contra produtos irregulares.
Para quem trabalha com eletricidade, a orientação é clara: nunca confiar apenas no rótulo ou no preço. Em uma instalação, um único fio fora de norma compromete todo o sistema. Para o consumidor, o princípio é o mesmo: o que parece economia na loja pode se transformar em prejuízo, perda de patrimônio ou risco à vida.
Em um país onde os incêndios elétricos crescem ano após ano, a prevenção começa antes do disjuntor, começa na escolha do fio. Saber reconhecer sinais de irregularidade e priorizar materiais certificados é uma das formas mais simples e eficazes de reduzir o risco de que um problema invisível dentro da parede se transforme em uma tragédia.



