O barato que incendeia caro: mercado irregular de produtos elétricos impulsiona acidentes no Brasil
- Brian Sthefano

- 22 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 22 de jan.

Um produto elétrico comprado por poucos reais pode parecer uma escolha inofensiva no momento da compra. Dentro de casa, no entanto, esse tipo de economia se transforma em um fator de risco que cresce de forma silenciosa. Em um país onde milhões de residências convivem com redes elétricas sobrecarregadas, a expansão do mercado irregular de cabos, carregadores e disjuntores passou a ocupar um papel central no aumento de incêndios, choques elétricos e mortes.
Em meio ao alto custo de vida e à fiscalização limitada, consumidores recorrem a itens mais baratos encontrados em feiras, lojas informais e plataformas digitais. Especialistas alertam que essa combinação, de preços baixos e ausência de controle, cria um risco estrutural dentro de casas e apartamentos, com consequências que vão de perdas materiais a tragédias familiares.
Produtos fora da norma ampliam risco de acidentes elétricos
Um cabo "desbitolado", um carregador sem certificação ou um disjuntor de procedência duvidosa podem parecer detalhes na rotina doméstica. São justamente essas peças, instaladas fora de padrão, que costumam falhar primeiro quando a rede é exigida. No Brasil, acidentes de origem elétrica seguem em patamar elevado. Em 2022, foram contabilizados 1.828 acidentes e 686 mortes, segundo dados reunidos no anuário da Abracopel, divulgados pela Cemig. A própria associação alerta que há subnotificação e estima que os números reais possam ser até três vezes maiores.
Parte desse risco começa antes mesmo de o produto chegar à tomada. Fiscalizações do Inmetro mostram o tamanho do mercado sob vigilância e como a irregularidade aparece em escala industrial. Em 2022, de janeiro a outubro, a rede de fiscalização realizou 213.147 ações e verificou mais de 19,5 milhões de unidades de produtos regulados. Desse total, 813 mil apresentaram irregularidades. Em uma operação específica de fios e cabos, chamada Energia Segura, 8.038 unidades foram fiscalizadas em oito estados. Desses produtos, 160 foram reprovados por problemas como resistência elétrica acima do permitido, falha associada a aquecimento, curto-circuito e incêndios.
O problema se agrava quando o preço vira o principal critério de compra e a certificação técnica é ignorada. A Anatel, responsável pela homologação de diversos equipamentos, alerta que carregadores falsificados ou sem certificação podem causar superaquecimento, choques elétricos, explosões e até incêndio. A Abracopel registrou 874 incêndios por sobrecarga de energia em 2022, com 55 mortes. O dado indica como falhas elétricas, muitas vezes ligadas a componentes inadequados e improvisos, se traduzem em tragédias dentro de casa.
A dimensão do mercado irregular aparece também nas apreensões recentes. Em outubro de 2025, uma operação conjunta da Anatel e da Receita Federal no Piauí apreendeu cerca de 2,5 milhões de reais em mercadorias. Entre os 288 sacos recolhidos havia carregadores de celular e outros equipamentos, a maioria sem certificação. Em dezembro do mesmo ano, a Receita Federal divulgou outra ação, no Recife, com apreensão de aproximadamente 4 milhões de reais em eletrônicos falsificados. Para especialistas em segurança elétrica, esse fluxo constante alimenta uma cadeia previsível que começa no produto fora da norma e termina em uma instalação vulnerável.
Mercado irregular abastece residências com produtos inseguros
Mesmo antes de chegarem às tomadas, carregadores, cabos e disjuntores fora das normas técnicas já circulam em grandes quantidades nas casas brasileiras. Organismos de fiscalização registram milhares de itens irregulares sendo oferecidos em plataformas digitais e em pontos informais de venda. O dado indica que o mercado paralelo se consolidou como uma fonte relevante de abastecimento de produtos inseguros. Na Operação Produto Legal, realizada no fim de novembro e início de dezembro de 2025 pela Anatel em parceria com a Receita Federal, 4.226 itens irregulares foram retirados do mercado entre 20.591 produtos inspecionados, incluindo carregadores e equipamentos de telecomunicação.
A presença desses itens não se limita a lojas de rua ou feiras populares. Ela também alcança grandes marketplaces. Na mesma operação, centros de distribuição de plataformas como Mercado Livre, Shopee e Amazon foram alvo de apreensões. Foram encontrados 2.569 produtos irregulares no Mercado Livre, 1.325 na Shopee e 332 na Amazon. A Anatel usa ferramentas de inteligência artificial para monitorar anúncios e tentar conter a oferta de itens sem homologação. Mesmo assim, os números mostram que a circulação desses produtos segue elevada.

Essa dinâmica tem raízes nas cadeias de importação e venda informais. Setores regulatórios e industriais apontam que produtos elétricos e eletrônicos fora da norma, muitas vezes fabricados ou montados sem controle de qualidade, encontram compradores por causa do preço mais baixo e da facilidade de aquisição on-line. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica estima que, apenas no segmento de celulares, cerca de 14% das unidades vendidas no Brasil em 2025 eram irregulares. O índice indica como a informalidade persiste mesmo diante do aumento das ações de fiscalização.
Na prática, esse mercado se traduz em situações concretas dentro de residências comuns, longe dos centros de controle. São ocorrências que começam com um estalo, um cheiro de queimado ou uma queda de energia. Muitas vezes terminam com famílias fora de casa, imóveis destruídos e prejuízos que não entram nas estatísticas oficiais. É no cotidiano que os efeitos dos produtos fora da norma se tornam mais visíveis.
Quando a economia vira incêndio dentro de casa
No bairro de Messejana, na região metropolitana de Fortaleza, a busca por economia terminou em prejuízo e medo para Dona Lurdes da Silva. A moradora comprou fiação e materiais elétricos em uma budega próxima de casa para fazer pequenas reformas. O preço era até 40% mais baixo do que o praticado em lojas formais. A instalação parecia simples e a escolha parecia acertada. Seis meses depois, um curto-circuito iniciou um incêndio que destruiu parte da residência e mobilizou o Corpo de Bombeiros.
Os técnicos que atenderam a ocorrência constataram que a fiação não tinha certificação de conformidade técnica e que os cabos eram incompatíveis com a potência dos aparelhos usados no imóvel, especialmente um ar-condicionado comprado recentemente. Em situações assim, a corrente elétrica supera a capacidade do condutor, provoca aquecimento excessivo e pode romper o isolamento, criando condições para o início de um incêndio.
O engenheiro eletricista Fábio Amaral, diretor da Engerey Painéis Elétricos e com mais de duas décadas de atuação em projetos e inspeções de redes elétricas, afirma que esse tipo de falha é comum quando materiais fora de norma são usados em residências. Segundo ele, quando o cabo não foi projetado para suportar a carga que passa por ele, o aquecimento ocorre dentro da parede. No início, o morador não percebe o problema. Com o tempo, o isolamento se deteriora e o curto-circuito acontece. Amaral explica que o risco cresce quando novos equipamentos de alta potência são conectados a uma instalação que já estava no limite. Um ar-condicionado, por exemplo, exige fiação específica, disjuntor adequado e proteção correta. Quando é ligado a uma rede improvisada, feita com cabos mais baratos e sem certificação, o sistema entra em sobrecarga permanente.
Levantamentos de entidades de segurança elétrica indicam que mais de 80% dos incêndios de origem elétrica em residências estão associados a falhas de instalação, sobrecarga ou uso de materiais fora de especificação. Os dados mostram que esse tipo de acidente raramente é fruto de um único erro. Em geral, é resultado de uma sequência de escolhas, muitas vezes iniciadas no momento da compra.
Para Dona Lurdes, a economia feita na compra dos materiais acabou custando muito mais caro do que o previsto. Para os técnicos, o episódio retrata um problema estrutural que se repete em milhares de lares brasileiros. Redes elétricas sobrecarregadas e produtos fora da norma expõem consumidores a riscos que não aparecem no momento da compra, mas surgem de forma abrupta quando ocorre a falha.
Especialistas afirmam que a prevenção começa ainda na escolha do produto. Itens como fios, cabos, disjuntores, plugues e carregadores devem trazer o selo do Inmetro ou de órgãos de certificação reconhecidos, além de informações claras sobre capacidade elétrica, voltagem e potência suportada. Produtos muito mais baratos do que a média do mercado, sem embalagem adequada ou sem identificação do fabricante, são vistos como sinais de alerta. Em ambientes com equipamentos de alto consumo, como ar-condicionado, chuveiros elétricos e fornos, o uso de componentes certificados é considerado essencial. Outra medida apontada como decisiva é a avaliação periódica da instalação elétrica por um eletricista habilitado, sobretudo em imóveis antigos ou que passaram por reformas. Técnicos afirmam que muitas residências no país operam com fiações projetadas para uma realidade de consumo que já não existe. Isso faz com que qualquer improviso, como a troca por cabos mais baratos ou o uso de extensões, aumente o risco de sobrecarga. Segundo o consenso do setor, boa parte dos incêndios poderia ser evitada com inspeção e dimensionamento corretos.
Em um cenário de custo de vida elevado e oferta crescente de produtos informais, a escolha pelo barato segue sendo uma tentação cotidiana. Os dados e histórias como a de Messejana mostram que essa economia aparente pode esconder um preço alto demais quando o assunto é segurança dentro de casa.



