top of page

Quanto vale o esgoto tratado? A conta invisível que muda saúde, renda e qualidade de vida no Ceará

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 22 de mar.
  • 8 min de leitura
Em 2024, o Ceará gastou mais de R$ 5 milhões com internações ligadas à falta de saneamento, valor suficiente para viabilizar a construção de ao menos três unidades básicas de saúde. Foto: Reprodução/Ambiental Ceará
Em 2024, o Ceará gastou mais de R$ 5 milhões com internações ligadas à falta de saneamento, valor suficiente para viabilizar a construção de ao menos três unidades básicas de saúde. Foto: Reprodução/Ambiental Ceará

Maria Silvânia tem 39 anos, um filho de sete e uma lembrança que ela preferia não ter. Durante anos, morou no Vicente Pinzón, bairro de Fortaleza cortado pelo riacho Maceió, onde o esgoto doméstico encontrou nos canais a céu aberto o único destino disponível. O cheiro era constante. A água, esverdeada e parada, criava mosquito. As crianças adoeciam com uma regularidade que os moradores, de tanto ver, quase deixaram de achar anormal.


Quando ela conseguiu se mudar para a Parangaba, em 2023, acreditou que o problema ficaria para trás. Ficou enganada. O novo endereço não tinha rede de esgoto. No lugar do riacho poluído, surgiu uma fossa que precisava ser limpa a cada poucos meses, a um custo de R$ 200 a R$ 300 por esvaziamento. O mau cheiro voltou, com outro endereço. E a preocupação também."Eu saí de um bairro onde convivia com muita poluição e me mudei pra uma rua onde não tinha sequer esgotamento sanitário. Dava muito trabalho, porque sempre que a gente recebia visita ficava preocupada com a fossa. Mas essa situação mudou, e agora a vida da minha família ficou melhor.", explica.


A história de Silvânia não é exceção. É a regra para milhões de famílias no Ceará e no Nordeste: o saneamento inadequado migra junto com as pessoas, muda de rosto, muda de endereço, mas não desaparece. E enquanto não desaparece, cobra. Cobra em saúde, em dinheiro, em dignidade, em anos de vida perdidos para doenças que a infraestrutura correta tornaria evitáveis.


Os números dos hospitais públicos do Ceará traduzem essa realidade em valores concretos. Em 2024, o estado registrou 12,2 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado, as DRSAI, com custo de R$ 5,14 milhões ao sistema público. Quase 70% dos pacientes eram crianças e adolescentes, e 84% dos casos estavam ligados a doenças de transmissão feco-oral: diarreia, hepatite A, verminoses e infecções intestinais, doenças com causa e prevenção conhecidas, que ainda assim continuam ocupando leitos.


Riachos urbanos contaminados por esgoto sem tratamento seguem como um dos principais vetores de doenças de veiculação hídrica no Ceará, responsáveis por milhares de internações anuais e altos custos ao sistema público de saúde. Foto: Divulgação/Instituto Trata Brasil
Riachos urbanos contaminados por esgoto sem tratamento seguem como um dos principais vetores de doenças de veiculação hídrica no Ceará, responsáveis por milhares de internações anuais e altos custos ao sistema público de saúde. Foto: Divulgação/Instituto Trata Brasil

A conta vai além das internações. Cada real investido em saneamento básico economiza, em média, quatro reais em gastos com saúde, cálculo amplamente referenciado por sanitaristas e pelo Instituto Trata Brasil. O problema é que o retorno é difuso e de longo prazo, enquanto a pressão orçamentária é imediata. Esse descompasso explica, em grande medida, por que o saneamento perde, sistematicamente, para obras de impacto mais visível.


Saúde: o custo das doenças evitáveis


No Brasil, 344,4 mil internações por DRSAI foram registradas em 2024, com custo de R$ 174,3 milhões ao sistema público, segundo levantamento do Instituto Trata Brasil com base no Datasus. No Nordeste, o peso histórico é proporcionalmente maior. Pesquisa da Fiocruz identificou que microrregiões da região registravam mortalidade infantil por diarreia aguda até cinco vezes superior à da Região Sul, com a ausência de saneamento como principal determinante.


O mecanismo pelo qual o esgoto sem tratamento produz esse quadro é direto: quando os dejetos humanos não passam por uma estação de tratamento, os agentes infecciosos que carregam, bactérias, vírus e parasitas, entram em contato com o solo e as águas superficiais. Uma criança que brinca num quintal onde esgoto escoa, ou que bebe água de poço próximo a uma fossa improvisada, está exposta a esse ciclo sem que o contato precise ser óbvio. Adriana Gomes, agente comunitária de saúde que atua há mais de duas décadas em áreas com déficit de saneamento no Ceará, descreve o padrão que encontra nas visitas domiciliares: "Em áreas sem saneamento, o que mais aparece no dia a dia são casas com esgoto a céu aberto, água acumulada, muito mau cheiro e, principalmente, muita criança doente."


As doenças seguem um padrão previsível. Adriana Gomes explica que as mais frequentes são as chamadas doenças de veiculação hídrica: ‘Diarreia, hepatite A, verminoses como ascaridíase e giardíase são muito comuns. Também vemos muitos casos de infecção intestinal e problemas de pele causados pelo contato com água contaminada. E a falta de saneamento contribui para a proliferação de mosquitos, aumentando o risco de dengue e outras arboviroses.’ O dado cearense reflete esse padrão com precisão: 84% das internações por DRSAI no estado são de doenças feco-orais, exatamente as que o tratamento do esgoto seria capaz de prevenir.


Os efeitos se estendem além das internações. A diarreia recorrente na primeira infância compromete a absorção de nutrientes e pode afetar o desenvolvimento cognitivo. Quem adoece com frequência nos primeiros anos de vida chega à escola em desvantagem e ao mercado de trabalho em desvantagem maior ainda. No Ceará, isso aparece nos dados de escolaridade: cearenses com acesso a água e esgoto tratado estudam, em média, 8,52 anos, contra 6,89 anos dos que não têm esse acesso, uma diferença de quase dois anos de formação, segundo dados do IBGE compilados pelo Instituto Trata Brasil.


Quando a rede de esgoto chega, a mudança é mensurável. Para Adriana, que acompanhou comunidades antes e depois da implantação do serviço, os efeitos vão além dos indicadores de saúde: "Diminuem muito os casos de diarreia, principalmente em crianças, as internações caem, e a própria aparência do lugar muda. Some aquele esgoto correndo na rua, o cheiro melhora, e até a autoestima da comunidade cresce. As pessoas passam a cuidar mais do ambiente, porque sentem que aquele espaço também está sendo cuidado pelo poder público." O tratamento, nesse sentido, não apenas elimina microrganismos: devolve ao efluente coletado padrões controlados que permitem sua reinserção nos rios sem comprometer os recursos hídricos nem as populações ribeirinhas.


Renda e economia: o que o déficit custa


A relação entre saneamento e renda é direta e mensurável. Dados do IBGE de 2023 mostram que brasileiros com acesso a água e esgoto tratado ganham, em média, R$ 3.220,94 por mês. Quem não tem esse acesso recebe, em média, R$ 2.084,42, uma diferença de 54,5%. Esse gap resulta de um ciclo que começa na infância: mais doenças, menos anos de escola, menor produtividade no trabalho e menos acesso a oportunidades ao longo de toda a vida.


O turismo é outro vetor onde a ausência de saneamento produz perdas concretas. Estudo do Instituto Trata Brasil com a FGV estimou que a falta do serviço custou à Região Nordeste R$ 2,6 bilhões em renda turística em um único ano de referência, o equivalente a 27,5% das perdas turísticas do país naquele período. Para o Ceará, cujo litoral responde por parte significativa da economia estadual, esse número tem peso estratégico. Rios e praias comprometidos por efluentes sem tratamento não apenas prejudicam o ambiente: expulsam visitantes e reduzem receita de forma direta e mensurável.


No âmbito estadual, análise do Instituto Trata Brasil com a Ex Ante Consultoria, divulgada em novembro de 2023, projeta R$ 15 bilhões em ganhos socioeconômicos para 25 municípios cearenses atendidos pela PPP de saneamento entre 2023 e 2040. O cálculo reúne benefícios diretos, como a geração de empregos nas obras e na operação das redes, e indiretos, como a redução dos gastos em saúde, a valorização imobiliária e o fortalecimento do turismo. Para o analista de regulação da Arce, Alceu Galvão, os números evidenciam um desafio que se acumulou ao longo de décadas e que agora precisa ser enfrentado em prazo reduzido. “As empresas têm menos de dez anos para entregar o que não conseguiram realizar em quatro décadas. Isso exige não apenas capacidade de investimento, mas também eficiência na execução e adesão da população, especialmente na interligação dos imóveis, que é fundamental para que os resultados apareçam de fato”, afirma.


Avanços no Ceará: o que está sendo feito


O Ceará vive, nos últimos anos, a maior aceleração de sua história no saneamento. A Parceria Público-Privada firmada entre a Cagece e a Ambiental Ceará é a maior do país no setor de esgotamento sanitário, com previsão de R$ 6,5 bilhões em investimentos para universalizar o serviço em 24 municípios das regiões metropolitanas de Fortaleza e do Cariri. Desde o início das operações, em 2023, foram implantados mais de 479 km de novas redes, revitalizados 193 equipamentos do sistema e acumulados mais de R$ 1,5 bilhão em investimentos.


Os resultados já aparecem em cidades que partiam de quase zero. Na cidade do Crato, em agosto de 2022, apenas 3% do esgoto era coletado e tratado. Em menos de dois anos, com a instalação de cinco Estações de Tratamento de Esgoto, esse índice chegou a 25%. O estado também avança no reúso do efluente tratado: a Utilitas Pecém, operada pela Cagece, é um dos principais empreendimentos de reúso não potável do país, transformando esgoto tratado em insumo industrial e reduzindo a pressão sobre os recursos hídricos em uma região semiárida.


A valorização imobiliária acompanha esses avanços. Estudos do Instituto Trata Brasil com a FGV indicam que imóveis em áreas com rede de água e esgoto podem valer até 18% mais que similares sem esses serviços. Em termos nacionais, a universalização poderia gerar R$ 48 bilhões em ganhos imobiliários acumulados até 2040, beneficiando principalmente as regiões com maior déficit histórico e, portanto, com maior potencial de valorização a partir do investimento em infraestrutura sanitária.


A rede chegou. A ligação ainda não


Construir a rede é apenas metade do caminho. Hoje, mais de 183 mil imóveis no Ceará têm esgoto disponível na rua, mas seguem sem conexão ao sistema. Só em Fortaleza, esse número chega a cerca de 100 mil domicílios. A infraestrutura está instalada; o esgoto, no entanto, continua indo para fossas ou escorrendo a céu aberto, o que significa que bilhões de reais em obras públicas não estão produzindo o resultado sanitário para o qual foram construídas.


Das 24 cidades atendidas pela Parceria Público-Privada (PPP), somente Fortaleza possui quase 100 mil casas com conexões de esgoto ociosas, ou seja, que não utilizam a rede mesmo com o benefício disponível. Foto: Reprodução/Cagece
Das 24 cidades atendidas pela Parceria Público-Privada (PPP), somente Fortaleza possui quase 100 mil casas com conexões de esgoto ociosas, ou seja, que não utilizam a rede mesmo com o benefício disponível. Foto: Reprodução/Cagece

Para enfrentar esse gargalo, a Cagece e suas parceiras já realizaram mais de 535 mil visitas domiciliares e concluíram mais de 80 mil ligações. Para Luciano Arruda, da Cagece, a adesão da população é condição insubstituível para que o investimento se converta em benefício real: "Quando a população se interliga ao sistema, garantimos mais saúde, preservação ambiental e avanço na universalização do saneamento no Ceará."


Um dos principais entraves é financeiro. A ligação domiciliar pode custar até R$ 1.500, valor proibitivo para famílias de baixa renda, que são justamente as que mais precisam do serviço. O Marco Legal do Saneamento prevê gratuidade nesses casos, mas muitos moradores desconhecem o benefício. O especialista em saneamento Carlos Rossas aponta o paradoxo que resulta dessa desinformação: sem a ligação, o investimento público na rede não se converte em resultado sanitário. O esgoto segue contaminando solo e lençóis freáticos, e o sistema opera pela metade.


Para Silvânia, que finalmente conectou sua casa à rede em Parangaba, a mudança foi imediata. A fossa que consumia de R$ 200 a R$ 300 a cada esvaziamento deixou de existir. O constrangimento com as visitas, também. São impactos que não aparecem em nenhuma estatística, mas que definem, na prática, o que significa ter saneamento de fato.


A conta que ninguém paga, mas todos devem


O saneamento não tem fita para cortar. Seus resultados aparecem em forma de ausência: a criança que não foi ao hospital, o rio que não foi interditado, o imóvel que valorizou. No Ceará, onde menos da metade da população tem acesso ao tratamento de esgoto, o déficit ainda é grande, mas o ritmo de expansão mudou de patamar.


O Marco Legal do Saneamento exige que 90% dos brasileiros tenham coleta e tratamento de esgoto até 2033. Para o Ceará, cumprir essa meta exigirá ampliar a rede, acelerar as ligações domiciliares e alcançar comunidades que nunca tiveram infraestrutura básica. O analista da Arce, Alceu Galvão, resume o que está em jogo: as empresas têm menos de dez anos para entregar o que não conseguiram em quatro décadas.


Adriana Gomes, que passou mais de vinte anos entrando em casas sem esgoto e vendo famílias adoecer por falta do que deveria ser básico, tem uma síntese para o que está em disputa: "A principal diferença entre viver com e sem saneamento é a dignidade. Com saneamento, a pessoa tem mais saúde, mais segurança e mais qualidade de vida. Sem saneamento, ela vive exposta à doença o tempo todo. Isso impacta tudo: saúde, educação das crianças, renda e perspectiva de futuro."


Saber quanto vale o esgoto tratado é, antes de tudo, entender o que custa não tê-lo.














Obrigado pelo envio!

Copyright © 2026. Todos os direitos reservados pelo NJE Wyden. 

bottom of page