Novo marco do saneamento muda a realidade de áreas antes invisíveis no Ceará
- Brian Sthefano

- 15 de jan.
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A ampliação da rede de esgotamento sanitário em cidades do Ceará começou a alterar a rotina de comunidades que, por décadas, conviveram com esgoto a céu aberto e a ausência de infraestrutura básica. Em bairros antes ignorados pelo planejamento urbano, a chegada dos sistemas de coleta e tratamento tem provocado mudanças no cotidiano da população e na relação com o espaço urbano e o meio ambiente.
Os efeitos vão além das obras visíveis nas ruas. O avanço do saneamento no estado tem se refletido na melhoria da qualidade de vida, na redução de impactos ambientais e na reorganização do dia a dia em áreas historicamente vulneráveis. O movimento reacende o debate sobre os impactos concretos da universalização do esgotamento sanitário e os desafios para que o serviço chegue de forma equilibrada a todo o território cearense.
O saneamento entra no centro das decisões e muda a lógica dos investimentos
O Brasil como um todo enfrenta um déficit histórico de saneamento. Dados do Instituto Trata Brasil apontam que cerca de 55% da população brasileira tem acesso à rede de esgoto — o que significa que quase 100 milhões de pessoas ainda vivem sem coleta domiciliar de esgoto.
O novo Marco Legal do Saneamento Básico, aprovado em 2020 por meio da Lei nº 14.026, fixou metas ambiciosas para mudar esse quadro. A legislação define que, até 2033, 90% dos brasileiros devem ter acesso à coleta e ao tratamento de esgoto e 99% à água potável — e essas metas passaram a orientar os investimentos públicos e privados no setor. No Ceará, a situação até recentemente refletia esse atraso estrutural. Levantamentos oficiais mostram que, em 2024, apenas cerca de 54,8% dos domicílios estaduais tinham acesso à rede de esgoto, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE. Isso coloca o estado abaixo da média nacional e evidencia a necessidade de acelerar a expansão da infraestrutura.
Levantamentos mais antigos apontam que, até 2021, menos de um terço dos domicílios cearenses tinham coleta de esgoto, com o volume de esgoto tratado também baixo em comparação ao que é gerado, o que ajuda a explicar a persistência de problemas de saúde e ambientais.
A vida antes e depois do esgoto
Aos 66 anos, Dona Lúcia não precisa buscar na memória o que era viver sem saneamento — a ausência do serviço atravessou décadas na vida dela e de sua família. Moradora do bairro Granja Portugal, em Fortaleza, ela lembra das enchentes com lama misturada a esgoto: “Na época da chuva, era difícil até sair de casa. A água misturava com esgoto e deixava tudo encardido. Tinha dia que a gente nem respirava direito”, conta.
Hoje, obras que incluem 27 km de rede coletora de esgoto, 3 km de linha de recalque e duas estações elevatórias, com investimento na ordem de R$ 80 milhões, avançam nas ruas do bairro e prometem atender mais de 5.600 imóveis. “É outra coisa, né? Não é só obra, é respirar diferente”, diz Dona Lúcia, observando a movimentação de máquinas em frente à sua casa. O cotidiano agora começa a ser marcado por outra realidade: ruas mais limpas, menos mau cheiro e a perspectiva de menos doenças ligadas ao saneamento inadequado.
Seus netos, que antes voltavam da escola com roupas sujas e doenças frequentes, hoje correm nas calçadas recém abertas. “Meu neto tinha diarreia toda hora quando chovia. O médico falava que era por causa da água suja e do esgoto que não tinha para onde ir”, relata. Para ela, a obra traz não só infraestrutura, mas dignidade e saúde para sua comunidade.
Saneamento como base para o futuro urbano e os desafios que persistem
Para o urbanistaYuri Castelo Branco, o avanço do esgotamento sanitário no Ceará marca um ponto de inflexão no desenvolvimento urbano do estado. Ele destaca que o Marco Legal do Saneamento criou, pela primeira vez, parâmetros claros para que serviços essenciais deixem de ser obras isoladas e se tornem parte da organização da cidade.
Na avaliação do especialista, a expansão da rede tem efeitos que vão além da saúde imediata e se estendem à forma como os bairros se conectam ao tecido urbano maior. “Quando o saneamento chega, a cidade começa a funcionar de forma mais equilibrada, com reflexos na economia local, no uso do solo e na prevenção de doenças”, afirma.
Ele ressalta, no entanto, que a universalização ainda enfrenta desafios, especialmente na integração entre planejamento, fiscalização e continuidade de políticas públicas. Segundo ele, apenas a execução de obras não garante que todos os efeitos positivos serão alcançados: é necessário que as redes estejam conectadas, em funcionamento e integradas às demais políticas sociais.
“O saneamento deixa de ser promessa e passa a ser realidade quando transforma o cotidiano das pessoas”, diz o urbanista. Essa perspectiva coloca em perspectiva não apenas o que já foi feito, mas o que ainda precisa ser feito para que, até 2033, os indicadores apontados pelo Marco Legal deixem de ser metas e se tornem realidade em cada bairro, cidade e comunidade do Ceará.



