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Falta de saneamento básico expõe crianças a doenças evitáveis no Ceará

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 29 de mar.
  • 6 min de leitura
Ausência de esgoto e água tratada agrava doenças na primeira infância e compromete desenvolvimento, aprendizagem e renda futura no estado. Foto: Evaristo Sá/AFP
Ausência de esgoto e água tratada agrava doenças na primeira infância e compromete desenvolvimento, aprendizagem e renda futura no estado. Foto: Evaristo Sá/AFP

Miguel tem três anos e, desde que aprendeu a andar, aprendeu também a desviar das poças. A casa da família fica em um beco de terra batida no bairro Granja Lisboa, em Fortaleza, onde o esgoto corre a céu aberto a poucos metros da porta. Nos últimos doze meses, ele foi levado ao posto de saúde quatro vezes com diarreia aguda. Numa delas, a desidratação forçou dois dias de internação. A mãe, que trabalha como diarista, perdeu diárias cada vez que o filho adoeceu. O menino nunca foi matriculado na creche porque, segundo ela, "não tem como deixar uma criança doente assim".


A história de Miguel não é exceção. É um padrão que se repete em comunidades de todo o estado e que atinge com força desproporcional crianças de 0 a 6 anos, justamente a janela em que o cérebro humano desenvolve 90% de sua estrutura e em que privações deixam marcas irreversíveis. Dados do relatório de pobreza multidimensional do UNICEF, divulgados em janeiro de 2025, mostram que 54% das crianças cearenses, mais de 1,2 milhão de meninos e meninas, vivem sem saneamento adequado, sendo 5,9% em situação extrema. O número coloca o Ceará em patamar significativamente pior do que a média nacional: segundo a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, com base na PNAD Contínua do IBGE, 35% das crianças brasileiras de 0 a 6 anos vivem sem acesso à rede de esgoto, proporção que no estado nordestino supera a metade da população infantil. No Brasil, em 2024, o sistema público de saúde registrou 344,4 mil internações por doenças diretamente relacionadas à falta de saneamento, sendo 70 mil só entre crianças de 0 a 4 anos, o que representa 20% do total, segundo o Instituto Trata Brasil.


O corpo que não para de adoecer


Na rotina de atendimento em comunidades sem cobertura sanitária adequada, o mesmo conjunto de diagnósticos se repete semana após semana. O pediatra Alef Carvalho descreve um quadro que vai muito além da diarreia pontual: infecções gastrointestinais causadas por bactérias, vírus ou parasitas presentes na água contaminada lideram os atendimentos, seguidas por verminoses como ascaridíase e giardíase, infecções de pele como impetigo e quadros respiratórios recorrentes agravados pelo ambiente insalubre. "Em áreas com esgoto a céu aberto, não é raro encontrar ainda casos de hepatite A e leptospirose. Muitas dessas crianças chegam já com histórico de episódios repetidos, o que indica exposição contínua ao ambiente contaminado. Não é um evento isolado, é um ciclo. A criança adoece, se recupera parcialmente e volta a adoecer pouco tempo depois, o que sobrecarrega o organismo e dificulta a recuperação completa", afirma o médico.


Contato direto com água contaminada expõe crianças a infecções recorrentes e agrava impactos no desenvolvimento físico e cognitivo desde os primeiros anos de vida. Foto: Reprodução
Contato direto com água contaminada expõe crianças a infecções recorrentes e agrava impactos no desenvolvimento físico e cognitivo desde os primeiros anos de vida. Foto: Reprodução

O impacto mais grave, no entanto, não está em nenhum episódio isolado, está na repetição. Na primeira infância, período em que o organismo ainda estrutura sistemas imunológico, neurológico e digestivo, cada internação e cada ciclo de infecção representam uma interrupção no processo de desenvolvimento. O pediatra Alef Carvalho explica que episódios recorrentes de diarreia prejudicam a absorção de nutrientes, levando à desnutrição crônica que compromete diretamente o crescimento físico e pode resultar em baixa estatura para a idade. Do ponto de vista cognitivo, os danos são igualmente sérios: uma criança que não recebe os nutrientes adequados nos primeiros anos de vida pode apresentar atraso no desenvolvimento da linguagem, dificuldade de aprendizagem e menor desempenho escolar. "O organismo constantemente combatendo infecções gera um estado inflamatório que também interfere no desenvolvimento cerebral", detalha o médico.


A diferença entre crianças com e sem saneamento é perceptível clinicamente. Segundo o pediatra Alef Carvalho, crianças em ambientes sanitariamente adequados adoecem menos, têm melhor estado nutricional, crescimento mais regular e menos internações. As expostas à precariedade carregam um histórico frequente de doenças infecciosas, uso repetido de medicamentos, maior risco de anemia e sinais de atraso no desenvolvimento. "O saneamento básico funciona como uma vacina coletiva: quando ele falta, o impacto não é pontual, ele é contínuo e compromete toda a trajetória de saúde e desenvolvimento da criança", resume o médico.


As consequências chegam à sala de aula e ficam. Dados do Instituto Trata Brasil, com base no IBGE de 2024, mostram que cearenses com acesso a água potável e à rede de esgoto estudam, em média, 8,52 anos. Entre os que não têm essa garantia, o tempo cai para 6,89 anos, uma diferença de 1,63 ano no estado. No Brasil, esse abismo chega a dois anos de escolaridade. Cada episódio de diarreia pode afastar uma criança da creche ou da escola por até três dias. Somados ao longo da primeira infância, esses afastamentos moldam trajetórias inteiras: segundo o Instituto Trata Brasil, ao longo de 35 anos de vida profissional, uma pessoa que na infância não teve saneamento acumula 46% menos em salários do que alguém que cresceu em ambiente adequado.


O que os agentes comunitários de saúde encontram nas visitas


Quem circula pelas comunidades mais vulneráveis do Ceará conhece de perto as condições que alimentam esse ciclo. Adriana Gomes, agente comunitária de saúde concursada estadual com mais de 20 anos de experiência em campo, descreve o que encontra com frequência nas visitas domiciliares: água armazenada em baldes ou caixas sem tampa, casas sem ligação à rede de esgoto, fossas improvisadas e, em períodos de chuva, água suja invadindo quintais onde crianças pequenas brincam. "Tudo isso cria um ambiente propício para doenças, especialmente nas crianças de 0 a 6 anos, que brincam no chão, levam a mão à boca e têm a imunidade ainda em formação", afirma a agente.


A frequência dos casos, segundo Adriana Gomes, é alta. Praticamente toda semana ela acompanha crianças com diarreia, vômito, verminose ou problemas de pele diretamente relacionados ao ambiente. O impacto ultrapassa a saúde infantil e atinge a estrutura econômica das famílias: mães precisam faltar ao trabalho ou deixam de procurar emprego para cuidar dos filhos doentes. Crianças são mantidas fora das creches. Algumas são internadas. Dados do Instituto Trata Brasil apontam que a taxa de óbitos por doenças ligadas ao saneamento inadequado entre crianças de 0 a 4 anos chegou a 4,478 casos por 100 mil em 2023, mortes que, na avaliação de especialistas, poderiam ser evitadas com infraestrutura básica.


Para Adriana Gomes, as melhorias pontuais observadas em algumas comunidades — como a chegada de água encanada em certas áreas — não alteram o quadro estrutural. A agente reconhece a importância da educação sanitária, mas é direta sobre seus limites. "Não adianta só orientar se o básico não chega", diz ela. "Sem isso, a gente continua enxugando gelo no atendimento diário." Dados da Cagece de fevereiro de 2026 reforçam o diagnóstico: cerca de 183 mil residências nas 24 cidades atendidas pela PPP já poderiam estar conectadas ao sistema de esgoto, mas não estão. Só em Fortaleza, quase 100 mil imóveis têm conexão disponível e simplesmente não a utilizam, o que evidencia que obras, por si só, não bastam sem políticas ativas de adesão e conscientização.


Obras em andamento, déficit histórico por superar


O Governo do Estado do Ceará reconhece o déficit e apresenta iniciativas de envergadura. Em novembro de 2025, a Cagece lançou audiência pública para detalhar uma PPP destinada à universalização do esgotamento sanitário em 128 municípios, com investimento previsto de R$ 7 bilhões, apresentado como o maior modelo de PPP do setor no Brasil. Por meio de uma parceria já em operação com a Ambiental Ceará, a meta é que 90% da população dos 24 municípios atendidos tenha acesso à coleta e ao tratamento de esgoto até 2033, com cobertura ampliada para 95% até 2040. Em 2025, foram implantados 344 quilômetros de novas redes de esgoto nas cidades contempladas.


Os números das obras, no entanto, ainda contrastam com a realidade atual e o prazo que se aproxima torna esse cenário ainda mais evidente. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento mostram que apenas 66,5% da população de Fortaleza é atendida com esgotamento sanitário, o que significa que o esgoto de 822 mil fortalezenses não é coletado, mesmo sendo a capital a cidade com melhor cobertura do estado. No interior, segundo o SNIS, apenas 29,4% dos domicílios cearenses estavam conectados à rede de coleta de esgoto nos dados mais recentes, índice que coloca o estado entre os mais defasados do país. Para cumprir a promessa de universalização até 2033, restam menos de oito anos e um ritmo de expansão que, até aqui, não sustenta otimismo.


O Plano Nacional de Saneamento Básico estima a necessidade de aproximadamente R$ 511 bilhões para universalizar o setor no Brasil, dos quais R$ 454,1 bilhões ainda precisam ser investidos, segundo o Instituto Trata Brasil, o equivalente a R$ 45 bilhões por ano. A Secretaria das Cidades do Estado do Ceará foi procurada pela reportagem para comentar os dados de cobertura e o ritmo de execução das obras, mas não respondeu até o fechamento desta edição. Enquanto os prazos avançam no papel, a infância não espera. Crianças como Miguel atravessam os anos mais decisivos de suas vidas expostas a riscos evitáveis. Cada episódio de diarreia representa dias fora da escola, prejuízo no desenvolvimento e oportunidades que não se recuperam depois.



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