Uso excessivo de telas por crianças pequenas cresce no Brasil e preocupa especialistas em desenvolvimento
- Brian Sthefano

- 30 de mar.
- 13 min de leitura

Aos 2 anos e meio, Miguel ainda não formava frases. Dizia palavras soltas, "água", "não", "mamã", mas raramente as encadeava. A mãe, Fernanda, auxiliar administrativa de 31 anos moradora da periferia de Fortaleza, não entendia por quê. "Ele assistia a vídeos no celular desde os 8 meses. A gente achava que estava aprendendo", conta. Foi na consulta de rotina, quando o pediatra perguntou sobre a rotina de telas, que Fernanda ouviu pela primeira vez uma relação que não havia imaginado: o tempo que Miguel passava diante da tela era, em média, quatro horas por dia, e esse tempo havia substituído, sem que ela percebesse, grande parte das conversas, histórias e trocas que deveriam estar moldando o desenvolvimento da fala do filho.
O caso de Miguel não é isolado. Uma pesquisa Datafolha, encomendada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), revela que 40% dos responsáveis por crianças de até 6 anos reconhecem que os pequenos passam mais tempo do que deveriam em frente a dispositivos digitais, uma admissão que evidencia tanto a dimensão do problema quanto o crescente desconforto das famílias com uma rotina que, muitas vezes, começou como solução prática e se tornou hábito difícil de controlar.
O fenômeno não é novo, mas ganhou intensidade expressiva na última década e se aprofundou durante e após a pandemia de Covid-19. Dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), divulgados em 2025, mostram que o acesso à internet entre bebês de 0 a 2 anos saltou de 9% em 2015 para 44% em 2024, uma multiplicação de quase cinco vezes em menos de dez anos. Entre crianças de 3 a 5 anos, o percentual passou de 26% para 71% no mesmo período. Traduzido em termos cotidianos, esse dado significa que quase metade dos bebês brasileiros já está em contato com algum tipo de tela antes de completar dois anos, período em que o cérebro forma, a cada segundo, até um milhão de novas conexões neurais, em grande parte estimuladas pela linguagem e pela interação humana. O alcance é nacional, atravessa classes sociais e coloca o Brasil diante de um desafio de saúde pública que começa antes mesmo de a criança aprender a falar.
O avanço das telas na primeira infância brasileira
O crescimento do acesso digital entre os menores de 6 anos no Brasil é um fenômeno com causas múltiplas e raízes estruturais. A popularização dos smartphones, a queda no custo de acesso à internet móvel e a ausência de políticas públicas específicas para a primeira infância digital criaram um ambiente em que dispositivos de tela se tornaram companhia habitual para bebês e crianças pequenas. O resultado é um cenário em que o Brasil, ao mesmo tempo em que ampliou o acesso à conectividade, acumulou lacunas profundas na mediação e na orientação sobre como esse acesso deve ser feito na infância. Não se trata, portanto, de um fenômeno de negligência individual, mas de uma transformação social que avançou mais rápido do que as políticas e os consensos culturais capazes de orientá-la.

O estudo "Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais", do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), publicado em dezembro de 2025, reforça essa leitura. A publicação aponta que o acesso à internet na primeira infância mais que dobrou no Brasil desde 2015 e alerta para os riscos da exposição precoce sem supervisão. Um dado particularmente revelador diz respeito à desigualdade social: entre crianças de famílias de baixa renda, 69% estão expostas a tempo excessivo de tela, um percentual significativamente superior ao observado em famílias de maior renda. Essa diferença não reflete necessariamente menor atenção dos pais, mas sim a ausência de alternativas: sem acesso a creches de qualidade, parques, bibliotecas e atividades extracurriculares, a tela ocupa um vácuo que poderia ser preenchido por outras experiências.
A pandemia de Covid-19 funcionou como catalisador de um processo que já estava em curso. Com o fechamento de creches, escolas e espaços coletivos, famílias em todo o país recorreram a dispositivos digitais como recurso de entretenimento, ocupação e, em muitos casos, de ensino remoto. Esse movimento acelerou a introdução das telas na rotina de crianças muito pequenas e normalizou um padrão de uso que, em muitos lares, persistiu mesmo com a reabertura das escolas. O pediatra Luiz Carlos Torres observou diretamente esse processo: "Esse cenário se intensificou especialmente após a pandemia, quando o uso de dispositivos digitais se tornou mais frequente e, muitas vezes, necessário na rotina familiar. Hoje, vemos crianças muito pequenas já altamente expostas, o que não era tão comum há uma década."
Pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal conduzida com famílias das principais capitais brasileiras mostrou que um terço das crianças de até 5 anos fica mais de duas horas por dia em frente a telas. A cidade do Rio de Janeiro registrou o maior índice entre as capitais, com 40% das crianças nessa faixa de uso; em São Paulo, o percentual foi de 31,7%. Para ter dimensão do que esses números representam, uma criança de 3 anos que passa duas horas diárias em frente a uma tela dedica, em um ano, mais de 700 horas a esse tipo de exposição, tempo equivalente a quase 30 dias inteiros. Se esse mesmo período fosse usado em conversas, brincadeiras e leituras com adultos, a diferença no desenvolvimento linguístico e cognitivo seria, segundo a literatura científica, substancial.

O perfil do uso também chama atenção pela precocidade. Estudo conduzido pela Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP revelou que 100% das crianças de zero a dois anos participantes da pesquisa já haviam iniciado o uso de dispositivos de tela, sendo que 14% delas por duas horas ou mais por dia. A televisão era o dispositivo mais comum (80%), mas celulares e tablets também figuravam como frequentes. Notavelmente, 22% das crianças não trocavam a tela por outra atividade mesmo na presença de um adulto, e 26% usavam alguma tela durante as refeições, um momento em que a interação verbal à mesa tem papel reconhecido no desenvolvimento da linguagem e nos padrões alimentares saudáveis.
A desigualdade de acesso à informação é um agravante frequentemente subestimado. Dados do Cetic.br mostram que, em 2024, 45% das crianças de 0 a 2 anos das classes AB já acessavam a internet, contra 40% nas classes DE, uma diferença menor do que se poderia esperar, o que indica que a exposição precoce é transversal. O que varia, de forma mais expressiva, são as condições de mediação: famílias de maior renda têm mais acesso a pediatras que orientam sobre o tema, a materiais educativos e a alternativas de atividade para os filhos. Famílias mais vulneráveis chegam a essas informações mais tarde, quando chegam, e dispõem de menos recursos para substituir a tela por outras experiências estruturantes.
O quadro descrito pelos especialistas configura o que o Governo Federal, ao criar em 2024 um grupo de trabalho interministerial sobre o tema, chamou de "urgência de saúde pública". O grupo foi instalado após a divulgação de dados que apontavam crescimento de 64% nas taxas de lesões autoprovocadas intencionalmente por crianças e adolescentes entre 2019 e 2022, período associado ao aumento intensivo do uso de telas. Embora a relação causal direta seja objeto de debate acadêmico e dependa de múltiplos fatores, o sinal epidemiológico foi suficiente para mobilizar a ação governamental, um reconhecimento, ainda que tardio, de que o problema exige resposta coordenada e estrutural, não apenas orientação individual às famílias.
Os impactos no desenvolvimento — linguagem, sono, atenção e emoção
Quando se fala em impactos do uso excessivo de telas na primeira infância, a tendência é reduzir a discussão a tempo de uso. Mas o que a evidência científica acumulada nos últimos anos demonstra é mais complexo: o que está em jogo não é apenas quanto tempo a criança fica na frente da tela, mas o que deixa de acontecer durante esse tempo, e como o cérebro em formação responde a um padrão de estímulos para o qual não foi evolutivamente preparado. Vale ressalvar que os estudos disponíveis, em sua maioria, identificam associações, não causalidades absolutas, e que o impacto varia conforme o tipo de conteúdo, a faixa etária e, sobretudo, a presença ou ausência de mediação adulta.
Para o pediatra Luiz Carlos Torres, os efeitos mais documentados e clinicamente visíveis concentram-se em três áreas: linguagem, sono e atenção. "Em relação à linguagem, o principal problema é a substituição da interação humana. A criança aprende a falar a partir da troca, olhar, escutar, responder, imitar. A tela é, em geral, passiva. Mesmo conteúdos 'educativos' não conseguem reproduzir a complexidade da comunicação real", afirma. Na prática clínica, Torres observa vocabulário mais restrito, atraso na fala e menor capacidade de construção de frases, padrões mais evidentes quando o tempo de tela ocupa momentos que deveriam ser de interação com adultos. Para uma criança de 2 anos, cada hora de vídeo sem interação verbal equivale a uma hora a menos de exposição ao vocabulário, às entonações e às trocas de olhar que ensinam não só palavras, mas como a linguagem funciona socialmente.

Essa percepção clínica é sustentada por evidências científicas consistentes. Um estudo publicado no JAMA Pediatrics, conduzido por pesquisadores australianos com 220 famílias acompanhadas dos 12 aos 36 meses dos bebês, demonstrou que quanto mais tempo a criança ficava exposta às telas, menos ela interagia verbalmente com os pais, e menor era o repertório linguístico desenvolvido ao longo do período. A relação é de deslocamento: a tela não apenas ocupa tempo, mas compete diretamente com a atenção compartilhada entre pais e filhos, que é o principal veículo do aprendizado linguístico na primeira infância. Pesquisas anteriores já haviam estabelecido que crianças cujos pais falam mais com elas acumulam, aos 3 anos, até 30 milhões de palavras a mais de exposição linguística em comparação com crianças de ambientes menos verbalizados, diferença que se traduz em vantagens mensuráveis no desempenho escolar anos depois.
No que diz respeito ao sono, Torres descreve um impacto que é ao mesmo tempo fisiológico e comportamental. A luz emitida pelas telas, especialmente a luz azul de smartphones e tablets, interfere na produção de melatonina, o hormônio responsável pela regulação do ciclo sono-vigília. Isso atrasa o início do descanso e pode fragmentar o sono noturno. Para uma criança de 3 anos, que precisa de 10 a 13 horas de sono por noite segundo as recomendações da OMS, perder uma hora de sono não é trivial: o sono profundo é o momento em que o cérebro consolida aprendizados, regula o humor e secreta hormônios de crescimento. Revisão sistemática publicada na revista Sleep Medicine Reviews, que analisou estudos com crianças de até 5 anos, confirmou associações significativas entre tempo de tela e menor duração e qualidade do sono nessa faixa etária.
O impacto sobre a atenção é o mais debatido no meio científico, mas também um dos mais preocupantes do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo. Torres explica que muitos conteúdos digitais são formatados com estímulos rápidos, cortes frequentes e recompensas imediatas. Uma criança que passa uma hora assistindo a vídeos de curta duração é exposta a centenas de transições visuais e sonoras, um padrão que pode condicionar o cérebro a exigir esse nível constante de ativação, tornando mais difícil sustentar foco em atividades que demandam concentração gradual, como brincar de forma livre, ouvir uma história ou montar um quebra-cabeça. Estudo realizado no Ceará com 6.447 crianças mostrou que aquelas expostas a telas por mais de duas horas diárias tiveram menor chance de atingir marcos esperados do desenvolvimento infantil, um dado com especial relevância por ter sido coletado em contexto brasileiro e em larga escala.

É nesse ponto que o contraponto qualificado merece espaço. Não toda exposição a telas produz os mesmos efeitos. Pesquisadores da Universidade de Michigan, em estudo publicado em 2023, identificaram que crianças entre 3 e 5 anos que assistiam a conteúdos educativos de alta qualidade, como os do programa Sesame Street e equivalentes, acompanhadas por um adulto engajado, apresentavam ganhos linguísticos comparáveis aos de grupos que não usavam telas, desde que o tempo fosse limitado e a mediação ativa. A videochamada com avós ou parentes distantes, expressamente mencionada como exceção aceitável pela SBP para menores de 2 anos, também representa uso positivo: há interação real, contingência emocional e troca de olhares, ainda que mediadas pela tela. O problema, portanto, não é a tecnologia em si, é a ausência de mediação, o excesso de tempo e a substituição do contato humano real por conteúdo passivo e de rápida estimulação.
Para a psicóloga Natália Matos, especialista em desenvolvimento socioemocional, o ângulo mais crítico do problema está no que acontece com a regulação emocional, a capacidade de lidar com sentimentos difíceis sem recorrer a estratégias impulsivas ou prejudiciais. "Quando falamos de frustração, estamos falando de um aprendizado essencial. A criança pequena precisa viver pequenas frustrações, esperar, ouvir um 'não', lidar com o tédio, para desenvolver tolerância emocional", explica. As telas, quando usadas de forma frequente como recurso de distração imediata, interrompem esse processo: a criança aprende que o desconforto pode ser eliminado rapidamente com estímulo digital, sem precisar atravessá-lo. O resultado prático é observado no consultório: crianças que têm dificuldade de esperar a vez, que se desestabilizam diante de qualquer limite e que não sabem o que fazer com o próprio corpo quando não há estímulo imediato disponível.
Matos também aponta o impacto sobre as relações interpessoais com preocupação crescente. Habilidades como empatia, leitura de expressões faciais, turnos de fala e resolução de conflitos são aprendidas no contato direto com outras pessoas, e a tela não oferece esse retorno. "A tela não devolve olhar, não ajusta o tom de voz, não responde de forma contingente", descreve. No consultório, a psicóloga relata observar com crescente frequência crianças com dificuldade de se engajar em brincadeiras coletivas, de interpretar emoções alheias e de sustentar vínculos. O caso de Miguel, o menino de Fortaleza descrito no início desta reportagem, ilustra esse padrão: a cada consulta de acompanhamento após a mudança de rotina iniciada por sua mãe, o pediatra registrava novos progressos na fala, mas também na capacidade de brincar com outras crianças, de esperar sua vez e de tolerar o "não" sem crise.
Orientações para famílias, cuidadores e políticas públicas
O debate sobre telas e crianças corre o risco, com frequência, de se limitar a mensagens de alerta sem oferecer orientações práticas e realizáveis. Especialistas alertam que culpabilizar pais e cuidadores, muitas vezes sobrecarregados, com jornadas duplas de trabalho e acesso limitado a alternativas, não resolve o problema e pode até ampliar a culpa sem oferecer saída. A questão central não é a intenção dos pais, que em geral agem com os recursos que têm disponíveis. É estrutural: sem apoio, sem informação acessível e sem alternativas concretas, reduzir o tempo de tela é uma tarefa que exige muito mais do que boa vontade individual.
As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria são objetivas: crianças menores de 2 anos não devem ser expostas a telas, com a única exceção de videochamadas com familiares; entre 2 e 5 anos, o limite sugerido é de até uma hora por dia, sempre com supervisão de um adulto e com conteúdo adequado à faixa etária; a partir dos 6 anos, o uso deve ser equilibrado e não deve comprometer sono, alimentação, atividade física e interação social. Essas diretrizes são alinhadas às da Academia Americana de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde. O que raramente é explicado para as famílias é o raciocínio por trás desses números: eles não foram definidos arbitrariamente, mas a partir da evidência de que o cérebro na primeira infância tem capacidade limitada de processar a diferença entre estímulo digital e estímulo real, e que o tempo gasto com telas é, quase sempre, tempo subtraído de experiências que o desenvolvimento requer.
Para o pediatra Luiz Carlos Torres, a orientação mais importante não é somente reduzir o tempo, mas qualificar a rotina como um todo. Na prática, isso significa criar rituais de sono sem telas, desligar os dispositivos pelo menos uma hora antes de deitar e substituir esse tempo por banho, leitura de livros ou conversa calma; transformar as refeições em momentos de interação verbal, sem televisão ligada ao fundo; reservar pelo menos 30 minutos de brincadeira não estruturada por dia, sem direcionamento adulto e sem tela, para que a criança desenvolva criatividade, tolerância ao tédio e capacidade de se entreter com o próprio imaginário. Torres também recomenda que os pais não usem o celular enquanto brincam com os filhos: pesquisas mostram que mesmo o dispositivo visível sobre a mesa durante uma conversa reduz a qualidade da interação entre adulto e criança.

A psicóloga Natália Matos oferece um conjunto de sinais de alerta que deve levar os pais a buscar orientação especializada. Irritabilidade intensa quando a tela é retirada, com choro desproporcional, agressividade e recusa a qualquer outra atividade, é um dos mais relevantes. Outros incluem crianças que parecem "desligadas" fora da tela, com menor iniciativa social; que recorrem imediatamente ao dispositivo diante de qualquer desconforto, como tristeza, cansaço ou frustração; e que apresentam dificuldade crescente de se envolver em brincadeiras sem estímulo digital. Alterações no sono, como dificuldade de adormecer, acordar com frequência e resistência para ir para a cama, e aumento de agitação durante o dia também costumam compor esse quadro.
Matos também reconhece, sem eufemismos, a dimensão social e econômica do problema. "Na prática, as telas acabam sendo usadas como regulador emocional por uma razão compreensível: funcionam rápido e resolvem o problema no curto prazo. Para pais e cuidadores sobrecarregados, é uma ferramenta acessível para acalmar, distrair ou ganhar tempo", pondera. Essa compreensão é fundamental para que as intervenções não partam de uma lógica punitiva. A psicóloga sugere que, em vez de simplesmente retirar a tela, os pais trabalhem com substituições graduais e combinadas: negociar com a criança um tempo de tela fixo e previsível, fora do qual haja alternativas claras disponíveis, como blocos de desenho, brinquedos de encaixe, livros ilustrados e brincadeiras corporais. A previsibilidade reduz a ansiedade da criança e diminui os conflitos em torno dos limites.
No âmbito das políticas públicas, o Brasil deu passos relevantes, mas ainda insuficientes. Em 2024, o Governo Federal instalou um grupo de trabalho interministerial para discutir o uso de telas por crianças e adolescentes, iniciativa aguardada por especialistas, mas que ainda não produziu regulamentação específica para a primeira infância. Em paralelo, entidades como o Núcleo Ciência Pela Infância e a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal têm pressionado por diretrizes nacionais que incluam a temática das telas na formação de profissionais de saúde e educação. O estudo do NCPI recomenda, entre outras medidas, a inclusão de orientações sobre mídia digital nas consultas de puericultura e nos programas de visita domiciliar voltados a famílias vulneráveis, medidas de baixo custo e alto potencial de alcance, mas que dependem de decisão política e de formação continuada dos profissionais envolvidos.
O desafio estrutural permanece: sem políticas que ampliem o acesso a creches de qualidade, parques, bibliotecas e programas de orientação parental, a simples recomendação de "reduzir o tempo de tela" ressoa como conselho de quem desconhece as condições concretas de boa parte das famílias brasileiras. Meses depois de começar a mudança na rotina do filho, Fernanda conta que Miguel já forma frases de três palavras e pediu, pela primeira vez, para ouvir uma história antes de dormir. Ela aprendeu a reservar 20 minutos antes do banho para brincar no chão com ele, com blocos, carrinhos, qualquer coisa que os colocasse frente a frente. "No começo foi difícil, porque ele chorava quando eu pegava o celular. Mas depois de duas semanas, ele parou de pedir. Começou a me chamar para brincar", diz. O que a história de Miguel ensina não é que as telas destroem infâncias, é que, quando ocupam o lugar da presença, deixam um vazio que a criança não sabe nomear, mas que o desenvolvimento sente.



