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Crianças sem tempo de ser crianças: como a rotina adulta e a falta de convivência familiar afetam o desenvolvimento na primeira infância

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 31 de mar.
  • 10 min de leitura
Jornadas de trabalho prolongadas, falta de vagas em creches e uso crescente de telas reduzem o tempo de interação entre adultos e crianças, período essencial para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social nos primeiros anos de vida. Foto: Reprodução/Getty Images
Jornadas de trabalho prolongadas, falta de vagas em creches e uso crescente de telas reduzem o tempo de interação entre adultos e crianças, período essencial para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social nos primeiros anos de vida. Foto: Reprodução/Getty Images

São cinco e quarenta da manhã quando o alarme do celular de Juliana Ferreira, 29 anos, costureira de um ateliê no Jóquei Clube, em Fortaleza, rasga o silêncio do quarto de um cômodo que ela divide com o filho Gabriel, de dois anos e três meses. Ela tem quarenta minutos para se arrumar, deixar o menino pronto e caminhar até a casa da vizinha, a dona Conceição, que cuida de Gabriel até a creche abrir. O trajeto de ônibus até o trabalho leva mais de uma hora. Juliana chega em casa por volta das sete da noite, quando Gabriel já está com fome, irritado e com os olhos fixos na tela do celular que a vizinha lhe dá para mantê-lo quieto durante a tarde. "Quando eu chego, ele não quer mais nem me olhar. Fica me empurrando. Acho que ele está com raiva de mim, mas sei lá, né", ela diz, sem conseguir encontrar uma explicação para o que sente ser uma distância que cresce entre ela e o filho a cada semana.


A história de Juliana e Gabriel não é uma exceção silenciosa. É, cada vez mais, o retrato de uma geração inteira de crianças brasileiras que atravessam os anos mais decisivos de sua formação humana em meio à ausência, ao cansaço e às telas. Num país onde jornadas de trabalho longas, o colapso das redes de apoio familiares e a falta crônica de vagas em creches públicas pressionam os cuidadores ao limite, os filhos da primeira infância pagam uma conta que não é deles: a da invisibilidade de suas necessidades mais básicas. O que está em jogo não é apenas a rotina de milhares de famílias. É o desenvolvimento emocional, neurológico e social de toda uma geração.


O tempo que o Brasil não tem


Juliana trabalha quarenta e quatro horas semanais no ateliê, mais quatro de deslocamento por dia. Somando transporte e expediente, ela passa fora de casa cerca de doze horas nos dias de semana. Gabriel acorda antes dos seis e passa o dia entre a casa de dona Conceição e a creche do bairro, onde a vaga foi conquistada depois de seis meses na fila de espera. Quando mãe e filho finalmente se encontram, sobra pouco mais de uma hora antes de o menino adormecer.


Esse ritmo não é privilégio de uma classe ou de uma cidade. O Brasil registrava, no quarto trimestre de 2024, uma média de 39,1 horas semanais trabalhadas por pessoa, segundo o IBGE, número que sobe para 45,3 horas entre trabalhadores autônomos. Quando os deslocamentos são somados, uma parcela expressiva da população chega ao fim do dia com energia insuficiente para qualquer tipo de interação qualificada com os filhos. Três em cada quatro brasileiros trabalham 40 horas semanais ou mais, e 32% ultrapassam as 44 horas máximas previstas pela CLT.


O problema é estrutural e tem nome no debate internacional. Países como Alemanha e França têm médias semanais de 34 e 35 horas, respectivamente, e ambos investem em redes abrangentes de suporte à primeira infância. No Brasil, a ausência dessas políticas empurra o peso do cuidado quase exclusivamente para dentro dos lares, e dentro dos lares, quase exclusivamente sobre as mulheres.


O cenário se torna ainda mais grave quando se observa as famílias monoparentais, que concentram algumas das condições mais adversas para o desenvolvimento infantil. Em 2022, 11,3 milhões de domicílios brasileiros tinham como pessoa de referência uma mãe solo, e 72,4% dessas mulheres vivem em domicílios compostos apenas por elas e os filhos, sem parentes ou agregados que possam ajudar nas responsabilidades familiares. Juliana é uma delas. O pai de Gabriel saiu quando o menino tinha quatro meses e desde então não voltou.


Para Natália Matos, especialista em psicologia infantil, a raiz do problema está na confusão entre presença física e presença afetiva. "Não se trata apenas de estar presente fisicamente, mas de oferecer atenção genuína, escuta, troca e responsividade no dia a dia", explica. Quando esse tempo de qualidade é reduzido ou inconsistente, a criança pode encontrar dificuldades na formação de um apego seguro, que é essencial para que ela se sinta protegida e confiante para explorar o mundo.


Esse conceito, desenvolvido pelo psicólogo britânico John Bowlby e amplamente validado pela neurociência contemporânea, é central para compreender o que está em jogo. O apego seguro não se forma apenas com afeto, mas com consistência e responsividade: a criança precisa que seu choro seja respondido, que seu olhar seja retribuído, que sua frustração seja acolhida. Em rotinas que restam uma hora por dia para essas interações, há pouco espaço para que tudo isso aconteça.


O que a ausência escreve no cérebro


Sandra Lima, 35 anos, professora de uma creche municipal em Fortaleza, acompanha há oito anos crianças de dois a três anos. Ela aprendeu a reconhecer, antes de qualquer avaliação formal, os sinais que indicam algo errado em casa. "Tem crianças que chegam aqui e não sabem brincar sozinhas nem por cinco minutos. Precisam o tempo todo de alguém do lado. Mas tem aquelas que ficam no canto, caladas, olhando para o nada. São casos diferentes, mas os dois me preocupam do mesmo jeito", diz ela.


Os dois extremos que Sandra descreve coincidem com o que a psicologia clínica registra há décadas. Para Natália Matos, especialista em psicologia infantil, são sinais reconhecíveis de uma relação de cuidado comprometida. "É comum observar tanto uma busca excessiva por atenção quanto comportamentos de isolamento ou apatia. Também podem surgir irritabilidade frequente, reações desproporcionais diante de pequenas frustrações e dificuldades na linguagem e na comunicação", detalha.


O desenvolvimento da linguagem é um dos indicadores mais sensíveis à qualidade das interações precoces. Pesquisas da área da neurociência mostram que o cérebro de uma criança de zero a três anos está em seu período de maior plasticidade: é nesse intervalo que se formam as conexões neurais que vão sustentar as funções cognitivas, emocionais e sociais pelo resto da vida. A linguagem, especialmente, depende de trocas ricas, repetidas e contextualizadas com adultos que respondem, ampliam e nomeiam o mundo para a criança.


Sandra conta que viu essa diferença de perto. "Tem crianças que chegam com dois anos e meio falando frases inteiras. Outras mal formam palavras. Não é só questão de inteligência. É questão do quanto alguém conversou com elas em casa." Os dados confirmam o que ela observa na prática. Estudos publicados em revistas como o JAMA Pediatrics mostram que o tempo de exposição passiva a telas está associado a atrasos significativos no desenvolvimento da linguagem, justamente porque substitui as interações humanas que promovem esse desenvolvimento.


Para Natália Matos, especialista em psicologia infantil, o impacto vai além dos primeiros anos. "Isso impacta diretamente o desenvolvimento socioemocional, podendo gerar insegurança, baixa autoestima, dificuldades de autorregulação emocional e menor tolerância à frustração, além de influenciar negativamente a forma como essa criança irá se relacionar ao longo da vida", analisa. A consequência não é apenas emocional: crianças com apego inseguro apresentam, em média, maior dificuldade de aprendizagem escolar, maior vulnerabilidade ao estresse e maior risco de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão na adolescência, segundo uma revisão sistemática publicada pelo periódico Lancet em 2021.


A desigualdade social aprofunda esse quadro de forma dramática. Famílias de baixa renda têm menos acesso a espaços de estimulação, como parques, brinquedotecas, atividades culturais e programas de apoio à parentalidade. Os filhos de Juliana e de outras mulheres como ela crescem em ambientes onde o estímulo cognitivo disponível fora da escola é escasso, e onde a escola, muitas vezes, ainda não tem vaga.


A tela que ocupa o lugar do adulto


Dona Conceição, 62 anos, aposentada, cuida de quatro crianças durante o dia no apartamento de dois quartos onde mora no mesmo bairro de Juliana. Ela recebe um valor pequeno de cada família, e faz o que pode. "Eles ficam aqui porque os pais precisam trabalhar. Eu gosto deles, mas é muita coisa para uma pessoa só. Quando eles ficam agitados demais, eu boto um desenho. Senão não tem jeito", ela diz, sem culpa e sem desculpas. É a solução que encontrou para uma equação impossível.


O acesso à internet na primeira infância mais que dobrou em menos de uma década no Brasil, passando de 11%, em 2015, para 23%, em 2024, incluindo quase metade dos bebês de até 2 anos e 71% das crianças de 3 a 5 anos, segundo estudo do Núcleo Ciência Pela Infância. A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda o uso de telas para menores de 2 anos e, para crianças entre 2 e 5 anos, estabelece o limite de uma hora diária, sempre com supervisão de um adulto. A realidade cotidiana, porém, se situa em outra dimensão. Pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com 822 cuidadores de crianças de 0 a 6 anos mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas às telas diariamente, ainda que os responsáveis reconheçam que isso não é ideal.


A questão que especialistas colocam não é a tecnologia em si. É o papel que ela assume nessas rotinas. Para Natália Matos, especialista em psicologia infantil, o ponto crítico está em quando a tela deixa de ser entretenimento e passa a funcionar como regulador emocional. "Quando isso acontece, a criança deixa de vivenciar experiências fundamentais mediadas pelo adulto, como aprender a nomear emoções, lidar com o tédio, esperar e desenvolver estratégias internas de autorregulação", explica. O conceito de regulação emocional é central aqui: é a capacidade de reconhecer, nomear e gerenciar os próprios sentimentos, uma habilidade que se constrói exatamente nas situações de frustração mediadas por um adulto presente e empático.


Quando a tela intervém antes que essa mediação aconteça, a criança não aprende a esperar, nem a nomear o que sente, nem a encontrar saídas para o desconforto que não sejam o estímulo imediato. As consequências aparecem depois: o uso intenso de mídias digitais está associado a alterações na anatomia cerebral, prejudicando o processamento visual e funções cognitivas como atenção voluntária, reconhecimento de letras e cognição social.


A desigualdade, novamente, é a lente que agrava tudo. Em 2024, o atendimento de crianças de 0 a 3 anos em creches chegou a apenas 41,2% no Brasil, ainda distante da meta de 50% definida no Plano Nacional de Educação. E os que ficam de fora são exatamente os mais vulneráveis. Apenas 30,6% das crianças de 0 a 3 anos entre as mais pobres são atendidas na educação infantil. Entre as mais ricas, a taxa é de 60%. Entre os 20% mais pobres do Brasil, 28% querem, mas não conseguem acessar creches, percentual quatro vezes maior do que entre os 20% mais ricos.


O Censo Escolar de 2023 mostrou que 44% dos municípios brasileiros têm crianças aguardando por uma matrícula na creche, e que 632.763 pedidos de vaga permanecem não atendidos, a maioria por falta de vagas. Sem creche, mães como Juliana dependem de arranjos informais, como dona Conceição, ou deixam os filhos com telas por horas a fio. A ausência do Estado se traduz diretamente em tempo de tela para crianças de dois anos.


O que o Estado pode fazer e ainda não fez


O debate sobre políticas públicas para a primeira infância no Brasil está, finalmente, ganhando escala. No campo das creches, o governo federal anunciou a construção de 1.178 novas unidades no primeiro edital do Novo PAC, com perspectiva de chegar a 2.500 até 2026. No entanto, o ritmo é insuficiente diante da demanda acumulada. Enquanto municípios da região Sul registram 43% de cobertura de creches, no Norte esse índice cai para apenas 18%, evidenciando que a desigualdade regional precisa ser endereçada com focalização, não apenas com expansão genérica de vagas.


No campo das licenças parentais, o Brasil deu um passo importante, mas ainda tímido. A Câmara dos Deputados aprovou projeto que amplia gradualmente de 5 para 20 dias a licença-paternidade, proposta que retornou ao Senado. No Congresso, há projetos mais ambiciosos, como o PL 3.773/2023, que propõe ampliar a licença dos pais para até 60 dias de forma gradual. Pesquisa Datafolha mostrou que 76% dos brasileiros apoiam a ampliação da licença-paternidade, mas a regulamentação permanece incompleta. A legislação atual garante apenas 5 dias de licença remunerada aos pais, o que representa apenas 4% do período concedido às mães.


Para especialistas em políticas públicas de infância, ampliar licenças e creches sem atuar sobre as causas estruturais é insuficiente. O problema exige uma abordagem intersetorial que integrate saúde, educação e assistência social, e que reconheça as mães solo como grupo prioritário. A recente lei que obriga municípios a levantarem e divulgarem anualmente a demanda por vagas em creches representa um avanço, pois torna possível saber onde o déficit é maior e como focalizar os recursos. Mas saber onde o problema está não é o mesmo que resolvê-lo.


O que falta, na análise de pesquisadores da área, é uma política nacional integrada de cuidados que trate a primeira infância como prioridade de Estado. Isso inclui não apenas a construção de creches, mas a formação de educadores infantis, programas de orientação à parentalidade nos serviços de saúde, ampliação de espaços públicos de brincar e suporte específico às famílias em situação de vulnerabilidade.


O tempo que não volta


São sete e meia da noite. Juliana Ferreira chegou há quarenta minutos. Gabriel está no colo dela agora, o rosto enterrado no pescoço da mãe, e os dois ficaram assim por um tempo que ela não sabe dizer quanto durou. Ela diz que ele cheirava diferente, que cresceu de novo. "Às vezes tenho medo de que ele cresça e eu não veja", ela diz, olhando para o teto. Depois ri, envergonhada.


Esse medo de Juliana, delicado e silencioso, é também um dado demográfico, uma falha de política pública e um sinal de alerta para a saúde coletiva de um país. Gabriel vai completar três anos em poucos meses. Nessa faixa etária, o cérebro infantil já terá estabelecido a maior parte das conexões neurais que vão estruturar sua vida emocional, sua capacidade de aprender, de se relacionar e de tolerar a frustração. O que acontece durante esses anos, a qualidade das trocas, a constância do afeto, a presença ou ausência de um adulto responsivo, não é apenas memória afetiva. É arquitetura cerebral.


A ciência há muito deixou de tratar isso como questão de foro íntimo. O que acontece dentro de apartamentos como o de Juliana, às sete da manhã e às sete da noite, é moldado por decisões que são tomadas em outro lugar: no plenário do Congresso, nas secretarias municipais, nas planilhas de orçamento público. Enquanto o Brasil debate licenças de paternidade de vinte dias e constrói creches num ritmo que não alcança a demanda, Gabriel e milhares de crianças como ele atravessam a janela mais importante de suas vidas com menos do que precisam. Não por falta de amor. Por falta de tempo. E o tempo, diferentemente das políticas, não espera.



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