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Sobrecargas elétricas ampliam risco de acidentes em residências brasileiras

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 23 de jan.
  • 5 min de leitura
O uso de extensões, benjamins e vários aparelhos ligados na mesma tomada pode provocar superaquecimento dos fios e dar início a incêndios dentro de casa. Foto: Reprodução/Internet
O uso de extensões, benjamins e vários aparelhos ligados na mesma tomada pode provocar superaquecimento dos fios e dar início a incêndios dentro de casa. Foto: Reprodução/Internet

Na sala de Dona Maria Aparecida, na cidade de Caucaia, na Grande Fortaleza, uma única tomada, ligada por dois benjamins, alimentava a televisão, o roteador, carregadores de celular e um ventilador. Era o mesmo arranjo de sempre, usado havia meses para compensar a falta de pontos de energia no apartamento. Em uma madrugada de agosto do ano passado, um curto-circuito começou dentro da tomada, provocou fumaça, derreteu o cabo e deu início a um incêndio que destruiu parte do imóvel, consumiu móveis, documentos e obrigou a família a passar a noite fora de casa até a liberação do prédio pelos bombeiros


Dados oficiais da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) mostram que os incêndios de origem elétrica bateram recorde em 2024, impulsionados pelo aquecimento de fios e cabos submetidos a cargas acima do que suportam. Em um cenário de aumento do consumo de energia dentro de casa, instalações antigas e uso cada vez maior de extensões e “gambiarras”, o risco passou a fazer parte do cotidiano de famílias em todas as regiões do Brasil.


Gambiarras elétricas e o caminho até o curto-circuito


O uso simultâneo de vários aparelhos em uma mesma tomada é hoje um dos principais pontos de tensão dentro das residências brasileiras. Televisões, computadores, roteadores, ventiladores, aquecedores e carregadores disputam o mesmo circuito, muitas vezes projetado décadas atrás para uma realidade de consumo muito menor. Quando essa demanda ultrapassa o limite da fiação, o aquecimento dos cabos se torna contínuo e invisível.


O Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica da Abracopel aponta que a maioria dos incêndios elétricos no país começa por sobrecarga, quando os condutores ficam submetidos por longos períodos a correntes acima do que suportam. O documento explica que poucos amperes a mais, mantidos por horas, são suficientes para degradar o isolamento e criar o ambiente para o curto-circuito. Em 2024, os incêndios elétricos por sobrecarga e curto-circuito atingiram o maior número da série histórica, consolidando uma tendência de crescimento que já dura mais de uma década. No início da década passada, o país registrava pouco mais de 200 incêndios elétricos por sobrecarga por ano. Em 2024, esse número já ultrapassou a marca de mil, segundo a série histórica da Abracopel.


Foto: Reprodução/Internet
Foto: Reprodução/Internet

Para o engenheiro eletricista João Borges, coordenador técnico da Projelet, o padrão é recorrente. “O problema começa quando a tomada vira ponto permanente de distribuição de energia. O fio não foi projetado para conduzir tanta corrente por tanto tempo. Ele aquece, o isolamento perde resistência e, quando rompe, o curto-circuito aparece. Em um ambiente com móveis, cortinas e madeira, o fogo se espalha rápido”, afirma.


Borges ressalta que o risco aumenta em imóveis antigos, onde a fiação e os disjuntores não acompanham o crescimento do consumo doméstico. “Hoje uma casa comum tem ar-condicionado, micro-ondas, computador, televisão, tudo ligado ao mesmo tempo. Se a instalação não foi atualizada, ela entra em sobrecarga permanente.”


O minuto em que tudo muda


No caso de Dona Maria, o incêndio começou por volta das 3h da manhã. O laudo do Corpo de Bombeiros apontou que o foco inicial foi em uma tomada sobrecarregada, que alimentava seis equipamentos ao mesmo tempo. O calor acumulado derreteu o isolamento do cabo até provocar um curto-circuito. A fumaça se espalhou pelo apartamento e obrigou os moradores a deixarem o local às pressas.


Situações como essa se repetem em milhares de lares. O Anuário da Abracopel mostra que a maioria dos incêndios elétricos acontece dentro de residências, justamente onde o uso de extensões, benjamins e improvisações é mais frequente. Em anos recentes, mais da metade dos incêndios por sobrecarga foi registrada em casas e apartamentos.


O problema é estrutural. Além do crescimento do número de aparelhos por residência, grande parte dos imóveis brasileiros opera com redes dimensionadas para um consumo que já não existe. Disjuntores antigos, cabos subdimensionados e ausência de dispositivos de proteção impedem que o sistema desligue antes que o aquecimento se transforme em fogo.


Segundo o eletricista João Borges, o intervalo entre o início do aquecimento e o incêndio pode durar horas. “É um processo lento. O fio esquenta dentro da parede, ninguém vê. Quando o isolamento rompe, o curto-circuito acontece e, em segundos, o incêndio já está formado.”



Falha doméstica vira problema público


Para o Comandante-Geral Adjunto Coronel Wagner Alves Maia, do Corpo de Bombeiros do Ceará, o aumento dos incêndios elétricos residenciais tem sido uma das principais preocupações das equipes de atendimento. “Grande parte das ocorrências que atendemos começa em tomadas, extensões e quadros de energia sobrecarregados. Muitas vezes o fogo já está avançado quando os moradores percebem, porque ele se inicia dentro das paredes ou atrás de móveis”, afirma. O Coronel explica que os bombeiros identificam um padrão claro: imóveis com muitos equipamentos ligados em circuitos antigos têm probabilidade muito maior de sofrer incêndios. “O risco cresce quando a instalação não acompanha a demanda de energia. Não é azar, é consequência de sobrecarga.”


Segundo o oficial, o Corpo de Bombeiros tem defendido que municípios e concessionárias ampliem campanhas públicas de prevenção e revisem normas de segurança para instalações residenciais antigas, que hoje concentram a maior parte dos atendimentos por incêndios elétricos.


Além do impacto humano, o problema também gera custos públicos elevados. Incêndios residenciais mobilizam viaturas, equipes médicas, abrigos emergenciais e processos de reconstrução que raramente entram no cálculo do consumidor quando ele recorre a uma gambiarra para ganhar mais tomadas.


Como reduzir o risco


Especialistas e autoridades convergem em um ponto: a prevenção começa na forma como a energia é distribuída dentro de casa. Aparelhos de alto consumo, como ar-condicionado, chuveiro e micro-ondas, devem ter circuitos exclusivos, com disjuntores e cabos dimensionados para a carga que exigem.


O uso permanente de extensões e benjamins deve ser evitado. Esses dispositivos são projetados para uso temporário, não para substituir tomadas fixas. Produtos elétricos precisam ter certificação do Inmetro, e a instalação deve ser revisada por eletricista habilitado, especialmente em imóveis mais antigos.


Para Dona Maria, a lição veio tarde. Parte do apartamento foi destruída e os prejuízos ultrapassaram o que ela economizou ao improvisar a rede elétrica. Os dados nacionais mostram que o caso de Dona Maria está longe de ser isolado. Milhares de residências brasileiras operam hoje no limite da própria rede elétrica, em um cenário no qual cada novo aparelho amplia o risco de curto-circuito e incêndio. Enquanto o consumo cresce, a segurança das instalações segue para trás. A diferença entre uma noite comum e uma emergência pode estar em uma única tomada.






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