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Como a Educação a Distância rompeu barreiras geográficas, econômicas e sociais no interior do Ceará

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 1 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 20 de jan.

Ensino remoto amplia oportunidades educacionais e transforma a realidade de estudantes fora dos grandes centros. Foto: Reprodução/internet
Ensino remoto amplia oportunidades educacionais e transforma a realidade de estudantes fora dos grandes centros. Foto: Reprodução/internet

Desde a infância, a educação é apresentada como uma etapa natural do ciclo da vida: crescer, estudar, se qualificar e, a partir disso, conquistar um emprego estável. No entanto, essa lógica não se confirma para milhões de brasileiros. Dados do Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), de 2024, mostram que apenas 21,6% dos jovens entre 18 e 24 anos estão matriculados em universidades, revelando barreiras econômicas, sociais e geográficas que dificultam o acesso ao ensino superior.


Enquanto jovens de famílias de maior renda conseguem permanecer nos estudos por mais tempo, muitos em situação de vulnerabilidade precisam interromper a faculdade ou sequer têm condições de ingressar, segundo especialistas em educação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Políticas públicas como o ProUni e o FIES têm ampliado oportunidades, mas ainda deixam lacunas significativas, especialmente em regiões do interior e periferias urbanas. A realidade evidencia não só a desigualdade estrutural no Brasil, mas também o impacto direto na trajetória de vida de milhares de jovens que veem a educação superior como um obstáculo quase intransponível.


O EAD que deixou de ser alternativa e virou porta de entrada


Por muito tempo, a expressão “estudar por correspondência” foi usada de forma pejorativa no Brasil, associada à ideia de baixa qualificação profissional e ensino de pouca credibilidade. A educação a distância, durante décadas, foi tratada como uma alternativa de segunda linha, distante do rigor acadêmico do ensino presencial. Com o avanço da tecnologia, a ampliação do acesso à internet e a criação de políticas públicas voltadas à democratização do ensino superior, essa percepção começou a mudar. Hoje, o EAD ocupa um papel central na expansão universitária, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros urbanos — indo além de alternativa para se tornar a principal via de acesso à universidade no país.


É nesse cenário de transformação que histórias como a de Layana, de 23 anos, ganham relevância. Moradora da localidade de Tamanduá, zona rural do município de Acarape, no Ceará, ela vive com os pais, três irmãos e a avó materna, a cerca de 12 quilômetros da sede do município e aproximadamente 70 quilômetros de Fortaleza. Em um contexto marcado por limitações financeiras e ausência de instituições presenciais próximas, a possibilidade de cursar uma graduação parecia distante. O ensino a distância, no entanto, tornou-se o caminho viável para romper esse ciclo e abrir portas que antes pareciam inalcançáveis.


Sem condições de arcar com mensalidades, transporte ou moradia em outra cidade, Layana encontrou no EAD a única alternativa possível para ingressar no ensino superior. Com um notebook antigo, comprado usado, passou a estudar em casa e se preparou para disputar uma vaga pelo Programa Universidade para Todos (Prouni). A aprovação no curso de Marketing Digital representou não apenas uma conquista individual, mas um marco familiar: Layana se tornou a primeira pessoa da família a ingressar em uma universidade e também a primeira a ter um computador próprio em casa. Segundo ela, a graduação só foi possível porque o modelo a distância se adaptou à sua realidade. “Se fosse presencial, eu simplesmente não teria como estudar. Não dava para pagar passagem todo dia, muito menos morar em outra cidade. O EAD me deu uma chance que eu nunca tive”, relata com emoção. A mãe reforça que a conquista da filha mudou a dinâmica da casa. Para a família, a presença de uma universitária passou a representar uma nova perspectiva de futuro, sobretudo para os irmãos mais novos, que agora enxergam a educação como algo possível.


Os números mais recentes confirmam a transformação estrutural pela qual a educação a distância vem passando no Brasil. Segundo o Censo da Educação Superior 2024, pela primeira vez o ensino a distância superou o presencial em número de matrículas, representando 50,7% dos mais de 10,22 milhões de universitários no país — isto é, mais de 5,18 milhões de alunos estão hoje matriculados no EAD. Esse crescimento representou um aumento de 5,6% entre 2023 e 2024 e um salto de 286,7% na última década, enquanto o ensino presencial diminuiu no mesmo período.


Para o pesquisador Dr. Felipe Dantas, professor de Educação e Tecnologias no Laboratório de Estudos de Políticas Públicas (LEPP) da Universidade Federal do Ceará (UFC), esses números revelam uma mudança de paradigma, mas também apontam desafios. “O EAD já não é mais apenas uma alternativa; ele se tornou o principal caminho para muitos jovens que vivem fora dos grandes centros. Entretanto, essa expansão precisa estar vinculada à qualidade pedagógica, infraestrutura e políticas que garantam que o estudante não apenas entre, mas permaneça e conclua sua formação”, afirma o pesquisador.


Apesar da predominância da oferta pela rede privada, que concentra a maior parte das matrículas em EaD no país, a modalidade ampliou o acesso para públicos historicamente excluídos, incluindo jovens trabalhadores, pessoas com responsabilidades familiares e moradores de zonas rurais. O fato de milhões de estudantes poderem conciliar trabalho, estudo e vida familiar é um dos fatores que explica a rápida ascensão dessa modalidade no Brasil e sua consolidação como porta de entrada para o ensino superior.


No entanto, é preciso consolidar políticas públicas que intensifiquem a permanência estudantil, sustentem a qualidade pedagógica e reduzam as desigualdades regionais de acesso à internet e infraestrutura. A consolidação do ensino a distância como ferramenta de inclusão depende tanto de ampliação de oportunidades quanto da capacidade de transformar essas oportunidades em trajetórias completas de formação — e de vidas transformadas.


Modalidade Ead ainda enfrenta preconceitos


"Quando digo que estudei Administração na UNOPAR em EaD, alguns colegas olham como se eu tivesse ‘cola permanente’ no braço. Já ouvi dizer que eu ‘não tinha noção real do que estava fazendo’, como se diploma tivesse endereço físico. Isso dói, porque a gente paga a mesma mensalidade, faz a mesma prova e ainda se esforça para provar que nossos limites estão no nosso potencial, não no formato do curso."

O desabafo de Ana Sophia, estudante de Administração, reflete a realidade de milhares de alunos de Educação a Distância (EaD) no Brasil: o preconceito persistente contra a modalidade, tanto no ambiente acadêmico quanto no mercado de trabalho. Mesmo com o EaD consolidado como principal porta de entrada para o ensino superior, a escolha por estudar fora da sala de aula tradicional ainda é equivocadamente associada a menor preparo ou baixa qualificação profissional.


Para compreender a dimensão desse preconceito, a reportagem realizou uma enquete exploratória online, com a participação de 200 estudantes e egressos do ensino superior no Ceará. Embora não tenha caráter estatístico, os resultados revelam tendências relevantes:


  • 58% cursaram ou cursam EaD, 27% presencial e 15% semipresencial;

  • 63% estudam ou estudaram em instituições privadas, enquanto 37% têm vínculo com públicas;

  • Cursos mais citados: Administração (22%), Pedagogia (19%), Marketing (17%), Serviço Social (14%) e Análise e Desenvolvimento de Sistemas (11%).


Quando questionados sobre entrevistas de emprego, 61% dos alunos de EaD relataram já terem sido questionados sobre a modalidade cursada, comparado a 18% dos presenciais e 34% dos semipresenciais. Entre os respondentes de EaD, 42% receberam comentários sugerindo desconfiança sobre a qualidade do curso. No ambiente acadêmico, 56% relataram comentários depreciativos ou piadas, especialmente de colegas presenciais, e 38% percebem o preconceito em redes sociais e conversas informais.


Apesar dessas percepções, a autoavaliação dos estudantes mostra confiança na formação: 81% dos alunos de EaD afirmam estar tecnicamente preparados para o mercado de trabalho, número próximo ao dos presenciais (84%) e superior aos semipresenciais (76%). Ainda assim, 69% acreditam precisar se esforçar mais para provar sua competência profissional, contra 31% dos alunos presenciais.


O preconceito, no entanto, tem diminuído gradualmente. Para Dr. Felipe Dantas, professor de Educação e Tecnologias no Laboratório de Estudos de Políticas Públicas (LEPP) da UFC, “o EaD ainda enfrenta estigmas, mas a percepção está mudando. A consolidação depende da qualidade pedagógica, infraestrutura tecnológica e políticas públicas que garantam que o estudante não apenas entre na universidade, mas conclua a formação com competência reconhecida”.


O panorama nacional reforça essa tendência: dados do INEP (2024) mostram que, mesmo com predominância da oferta privada, a EaD ampliou o acesso para públicos historicamente excluídos, incluindo jovens trabalhadores, pessoas com responsabilidades familiares e moradores de zonas rurais. Além disso, exemplos de sucesso de profissionais formados em EaD, como gestores e empreendedores que ocupam posições de destaque no mercado, demonstram que o formato pode gerar trajetórias sólidas e impacto social relevante.


Por fim, 74% dos entrevistados acreditam que o preconceito contra o EaD ainda existe, mas tende a diminuir à medida que mais profissionais formados nessa modalidade se consolidem no mercado. O desafio agora é fortalecer políticas públicas, valorizar a modalidade e garantir que a expansão do EaD transforme oportunidades em trajetórias completas de formação e ascensão profissional.


Na contramão do preconceito: Histórias de sucesso profissional de alunos de EaD


A Educação a Distância (EaD) tem uma história longa e consolidada. Desde cursos por correspondência no século XIX até programas de rádio e televisão no século XX, a modalidade sempre ofereceu acesso à educação em condições adversas. No Brasil, a regulamentação do MEC nos anos 1990 e a expansão de universidades públicas e privadas consolidaram o EaD como ferramenta estratégica para ampliar o acesso ao ensino superior.


Trajetórias históricas e contemporâneas evidenciam o impacto da modalidade. Nelson Mandela, durante os anos de prisão, cursou Direito na Universidade de Londres por correspondência, mas não pôde concluir o diploma por não ter autorização para realizar exames presenciais, obrigatórios para qualquer aluno da modalidade. No Brasil, Marina Silva concluiu o ensino fundamental aos 16 anos com programas educativos transmitidos pela TV e, posteriormente, completou o ensino médio e a graduação em História na Universidade Federal do Acre. Esses casos mostram como a EaD pode ampliar oportunidades, mesmo em contextos de acesso limitado à educação formal.


No Ceará, o exemplo mais recente é o de Fernando Bessa, natural de Baturité. Formado em Engenharia da Computação via EaD, Fernando conciliou estudo e trabalho na cidade natal, sem precisar se mudar para grandes centros. Após concluir a graduação, fundou uma startup de tecnologia, que hoje emprega 15 pessoas e oferece soluções digitais para pequenas empresas na região. “O EaD me permitiu estudar sem sair de casa, organizar meu tempo e aplicar o conhecimento diretamente no mercado local. Sem essa modalidade, não teria conseguido abrir meu negócio nem gerar emprego aqui no interior”, afirma Fernando.


O caso dele reflete tendências nacionais. Segundo a ABED (2023), mais de 5,5 milhões de estudantes estão matriculados em cursos de graduação a distância no Brasil, com índices de empregabilidade comparáveis aos cursos presenciais, especialmente em áreas de tecnologia, gestão e educação. Relatórios do Observatório Nacional da Educação Superior indicam que o EaD aumentou a participação de jovens trabalhadores, pessoas com responsabilidades familiares e moradores de regiões remotas. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI, 2022) mostra que empresas lideradas por profissionais formados em EaD registram crescimento médio de 18% em produtividade nos primeiros cinco anos, especialmente em setores de tecnologia e serviços digitais.


Para especialistas, a trajetória de Fernando evidencia o potencial transformador da modalidade. Dr. Felipe Dantas, da UFC, afirma: “O EaD ainda enfrenta preconceito, mas estudantes formados nessa modalidade estão preparados para o mercado. Casos de empreendedorismo local mostram que a modalidade gera impacto econômico e social real.” Para Dra. Camila Soares, economista especializada em inovação e empreendedorismo, “a expansão do EaD permite não apenas acesso à educação, mas desenvolvimento de competências estratégicas que impulsionam pequenas economias regionais, gerando empregos e estimulando o ecossistema de startups fora dos grandes centros”.


Além do sucesso profissional, o exemplo de Fernando evidencia um efeito multiplicador: a presença de empreendedores locais fortalece a economia regional e inspira novos alunos a buscarem o ensino superior, mesmo em contextos de limitação geográfica ou financeira. Tendências recentes apontam ainda para o uso de laboratórios virtuais, inteligência artificial e plataformas interativas, que ampliam a qualidade pedagógica do EaD e reforçam sua competitividade em relação ao ensino presencial.


Apesar do estigma que ainda acompanha a modalidade, especialistas e dados recentes indicam que o EaD vem ganhando reconhecimento. O desafio atual é consolidar políticas públicas e investimentos em infraestrutura, garantindo que oportunidades de acesso se convertam em trajetórias completas de formação e impacto profissional, como exemplifica a história de Fernando Bessa.









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