Entre aulas, cobranças e incertezas, saúde mental se torna parte central da vida universitária
- Brian Sthefano

- 8 de jan.
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Atualizado: 9 de jan.

Entre provas, trabalhos, estágios e a pressão por um futuro profissional cada vez mais incerto, a saúde mental tem ocupado um espaço central na vida de universitários cearenses. Sentimentos de ansiedade, esgotamento emocional e preocupação constante aparecem com frequência no cotidiano acadêmico e ajudam a desenhar um cenário que vai além do desempenho em sala de aula, revelando desafios estruturais da vida universitária contemporânea.
Para compreender como esses desafios se manifestam na prática, esta reportagem realizou uma pesquisa com 100 estudantes da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), aplicada nos campi da Liberdade e das Auroras, em Redenção, e dos Palmares, em Acarape. O levantamento ouviu universitários de diferentes cursos e cidades do Ceará e analisou dados sobre rotina, hábitos e percepções relacionadas à saúde mental ao longo da graduação.
A rotina universitária e os desafios de quem estuda no Ceará
A experiência universitária no Ceará tem sido marcada por transformações que ultrapassam os limites da sala de aula. Para parte significativa dos estudantes, o ingresso na graduação coincide com o primeiro contato com uma rotina de maior autonomia, ao mesmo tempo em que impõe mudanças estruturais no cotidiano, nas relações interpessoais e na forma de lidar com exigências acadêmicas e expectativas sociais.
Nesse contexto, a pesquisa que fundamenta esta reportagem identificou um perfil predominantemente jovem entre os estudantes entrevistados. A maior concentração está na faixa etária entre 18 e 22 anos, com matrículas distribuídas principalmente entre o 3º e o 6º semestre da graduação. Os cursos mais representativos pertencem às áreas de Humanidades, Administração Pública e Enfermagem, períodos caracterizados por intensificação das demandas acadêmicas e maior aproximação com decisões relacionadas à inserção profissional. A origem territorial dos participantes revela uma concentração no interior do Ceará. Os estudantes residem, em sua maioria, nos municípios de Redenção, Acarape e Baturité, além de Fortaleza e outras cidades do estado. Em relação às condições de moradia, 87% informaram viver com os pais ou com o cônjuge, enquanto os demais declararam residir sozinhos ou com colegas, indicando diferentes níveis de suporte familiar ao longo da formação universitária.

Os dados referentes aos hábitos de vida indicam comportamentos considerados favoráveis à saúde física. Entre os entrevistados, 76% afirmaram praticar atividade física regularmente e 89% avaliaram a própria saúde como boa. Ainda assim, esses indicadores não se refletem de forma proporcional na percepção sobre o bem-estar psicológico.
Segundo os dados levantados, 96% dos estudantes afirmaram que a rotina universitária exerce impacto direto sobre a saúde mental. A pesquisa também aponta que 84% relataram preocupação em relação à inserção no mercado de trabalho após a conclusão do curso, sentimento mais recorrente entre aqueles que se encontram nos semestres intermediários da graduação, fase marcada pelo aumento das cobranças acadêmicas e pela proximidade com estágios e atividades práticas.
O conjunto das informações evidencia que a experiência universitária no Ceará é atravessada por fatores acadêmicos, sociais e pessoais que se sobrepõem. A adaptação a novas rotinas, somada à pressão por desempenho e às incertezas sobre o futuro profissional, configura um ambiente que contribui para o crescente protagonismo da saúde mental no debate sobre a formação universitária.
Ansiedade e depressão ganham espaço na vivência acadêmica
Se as exigências acadêmicas moldam a rotina universitária, seus efeitos sobre a saúde mental tornam-se cada vez mais evidentes. Os dados levantados para esta reportagem indicam que sentimentos associados à ansiedade e à depressão fazem parte da experiência de uma parcela significativa dos estudantes universitários no Ceará, independentemente da área de formação.
Entre os entrevistados, a maioria relatou ter vivenciado sintomas frequentes de ansiedade ao longo da graduação, especialmente em períodos de avaliações, entrega de trabalhos e definição de estágios. A preocupação com o futuro profissional, apontada por grande parte dos participantes, aparece como um dos fatores centrais associados ao agravamento desses sintomas.
O impacto emocional da vida universitária, no entanto, extrapola o ambiente acadêmico. Mudanças bruscas na rotina, afastamento do convívio familiar e dificuldades financeiras surgem como elementos recorrentes no relato dos estudantes, compondo um cenário de desgaste psicológico contínuo. Esse contexto se intensifica entre aqueles que precisaram reorganizar completamente sua vida pessoal para ingressar no ensino superior, muitas vezes em cidades diferentes de suas localidades de origem.

Para a psicóloga Fernanda Castro, ouvida pela reportagem, o crescimento dos casos de ansiedade e depressão entre universitários é resultado de um conjunto de fatores que se acumulam ao longo da formação acadêmica. “O aumento desses quadros está ligado a uma combinação de pressões acadêmicas, estresse financeiro, isolamento social e ao uso intenso das mídias sociais, além dos desafios próprios da transição para a vida adulta”, explica.
A especialista destaca ainda que, entre estudantes da área da saúde, esses sintomas tendem a se manifestar com maior intensidade. Segundo ela, a sobrecarga acadêmica e emocional imposta durante a graduação contribui para a deterioração da qualidade de vida desses alunos. “Há uma carga elevada de atividades, estágios curriculares extensos, pressão por alto rendimento e uma vivência precoce com ambientes hospitalares e da atenção primária. Soma-se a isso a distância da família e, muitas vezes, a baixa autoestima, fatores que ampliam o sofrimento psicológico”, afirma.
O relato de um estudante que participou da pesquisa reforça esse panorama. Ele aponta que a pressão em sala de aula, o afastamento da rotina que mantinha antes de ingressar na universidade e as incertezas em relação ao futuro profissional são os principais elementos associados ao sentimento constante de ansiedade. Embora individual, o depoimento dialoga com os padrões identificados nos dados coletados.
O avanço dos sintomas de ansiedade e depressão entre universitários evidencia que a saúde mental deixou de ser um tema periférico no ambiente acadêmico. Cada vez mais, ela se consolida como um fator determinante para a permanência, o desempenho e a formação dos estudantes no ensino superior.
Desinformação, acesso limitado e o desafio da saúde preventiva
Embora a maioria dos universitários reconheça que a rotina acadêmica impacta diretamente a saúde mental, os dados indicam que a informação sobre os serviços de apoio psicológico ainda não chega de forma efetiva aos estudantes. Entre os 100 participantes da pesquisa, 81 afirmaram não saber se a universidade oferece algum tipo de atendimento psicológico voltado à comunidade acadêmica, enquanto apenas uma minoria declarou ter conhecimento claro sobre esse suporte.
Esse desconhecimento se reflete na baixa procura por acompanhamento profissional. Apenas 16 estudantes afirmaram ter buscado atendimento psicológico ou psiquiátrico durante a graduação. Outros 44 relataram que não procuraram ajuda por motivos como falta de acesso, limitações financeiras, ausência de tempo ou sentimentos de medo e vergonha. O dado revela que, mesmo diante da presença recorrente de sintomas emocionais, a busca por cuidado especializado ainda enfrenta barreiras estruturais e subjetivas.
No caso da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), a instituição dispõe de atendimento psicológico por meio do Serviço de Atenção à Saúde do Estudante (Satepsi), que oferece acompanhamento aos discentes. As informações sobre o serviço estão disponíveis no site institucional (unilab.edu.br/satepsi/), mas os dados da pesquisa sugerem que a divulgação ainda não alcança parte significativa do público universitário.
A falta de informação também aparece no nível de compreensão dos próprios estudantes sobre saúde mental. Apenas 37 entrevistados afirmaram se considerar bem informados sobre ansiedade e depressão, e 42 disseram conseguir identificar sinais de alerta desses transtornos. Em contraste, 93 participantes concordaram que ampliar o debate sobre saúde mental dentro da universidade pode contribuir para a prevenção, indicando uma demanda latente por ações educativas e informativas.
Para a psicóloga Fernanda Castro, a prevenção passa necessariamente pelo acesso à informação e pelo reconhecimento precoce dos sintomas. “Falar sobre saúde mental é uma forma de cuidado. Quando o estudante entende o que está sentindo, ele consegue buscar ajuda antes que o sofrimento se intensifique”, afirma. Segundo a especialista, estratégias preventivas incluem a manutenção de rotinas minimamente estruturadas, prática regular de atividade física, preservação de vínculos sociais e atenção aos sinais de esgotamento emocional.“Sono irregular, isolamento, queda de rendimento acadêmico e sensação constante de exaustão são alertas que não devem ser naturalizados. A universidade precisa ser um espaço de formação, mas também de cuidado”, destaca.
Os dados da pesquisa reforçam essa perspectiva: 76 estudantes relataram já ter se sentido deprimidos ou emocionalmente esgotados por um período prolongado, e 56 afirmaram ter apresentado sintomas frequentes de ansiedade. Ao mesmo tempo, 96 reconheceram que a rotina universitária impacta diretamente sua saúde mental, evidenciando a urgência de políticas preventivas contínuas no ambiente acadêmico.
Ao revelar um cenário marcado por alta percepção de sofrimento emocional, baixa busca por atendimento e desconhecimento dos serviços disponíveis, a reportagem aponta para um desafio que vai além do indivíduo. A saúde mental dos universitários emerge como uma questão coletiva, que exige informação acessível, estratégias de prevenção e fortalecimento das redes de apoio dentro e fora da universidade.



