Desinformação influencia decisão de gestantes sobre vacinas e desafia profissionais de saúde no Brasil


Em janeiro de 2022, uma gestante de 32 anos morreu em Tamboril, no interior do Ceará, 15 dias depois de assinar um termo recusando a vacina contra a Covid-19. Antes disso, a equipe de saúde do município já havia procurado a mulher mais de uma vez em ações de busca ativa. O bebê, que estava entre o sexto e o sétimo mês de gestação, nasceu prematuro e sobreviveu em uma incubadora depois que a mãe, já em estado grave, foi transferida para Sobral, referência regional em saúde. O caso deixa uma questão que vai além daquela família: o que uma gestante ouve antes de decidir não se vacinar e que informação poderia chegar primeiro?
O desfecho é incomum, mas a dúvida que o antecede está longe de ser. Um levantamento encomendado pela farmacêutica Pfizer ao Instituto de Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), divulgado pela Agência Brasil em dezembro de 2024, mostrou que quatro em cada dez gestantes ouvidas não sabiam da existência de um calendário específico de vacinação para a gravidez. Seis em cada dez também acreditavam que os imunizantes protegiam apenas a mãe e não sabiam que a proteção poderia chegar ao bebê.
Antes de chegar ao braço, a vacina precisa chegar à informação. E, para muitas gestantes, é nesse primeiro contato que começa a decisão de se proteger ou não.
A informação que chega antes da vacina
Lara e Maria Alana passaram por situações parecidas em gestações diferentes. Grávida de poucos meses, Lara começou a receber pelo WhatsApp mensagens de que os efeitos da vacina contra a Covid-19 sobre o bebê ainda não eram totalmente conhecidos. Nas redes sociais, também encontrava comentários de outras mães que diziam ter preferido não se vacinar. Ela não chegou a decidir pela recusa, mas ficou com a dúvida durante semanas. A resposta veio em uma conversa com o profissional que acompanhava seu pré-natal, que explicou por que o imunizante era recomendado naquele momento.

Maria Alana recebeu mensagens semelhantes durante as três gestações que teve. A repetição das dúvidas, segundo ela, chamava atenção. “Você começa a pensar: será que realmente existe algum risco que a gente não está sabendo?”, lembra. Para não tomar uma decisão apenas com base no que via nas redes sociais, recorria a uma pessoa de confiança que atua há anos na área da saúde, a técnica em enfermagem Adriana Gomes. Perguntava se as informações que recebia eram verdadeiras. “Muitas vezes ela já dizia que aquilo era uma informação falsa ou explicava que estavam pegando uma informação verdadeira e colocando de uma forma completamente diferente”, relata.
O farmacêutico e divulgador científico Wasim Syed, integrante da União Pró-Vacina, iniciativa ligada à USP de Ribeirão Preto, explica que parte da força desses conteúdos está justamente em quem os compartilha. Um áudio enviado por um familiar ou amigo chega acompanhado de uma relação de confiança, enquanto uma informação científica correta pode levar meses entre produção, revisão e publicação. Isso ajuda a explicar por que boatos sobre vacinas conseguem circular rapidamente em grupos de família no WhatsApp. Segundo Syed, muitas dessas narrativas também não são novas. Uma ideia que circulou durante a pandemia pode reaparecer anos depois associada a outra vacina. É o caso do boato de que os imunizantes conteriam tecido fetal. Algumas vacinas utilizam, em etapas da produção, linhagens celulares históricas cultivadas em laboratório. Isso, no entanto, não significa que existam células fetais na dose aplicada. A distorção aparece justamente nesse intervalo entre um detalhe técnico verdadeiro e a forma simplificada, e errada, como ele é reproduzido.
O fenômeno não é exclusivo da gestação, nem apenas uma impressão passageira. Um levantamento nacional do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em parceria com a Universidade Santo Amaro e o Instituto Ipespe, ouviu 3 mil pessoas em todas as regiões do país em fevereiro de 2024 e encontrou o mesmo padrão descrito por Wasim Syed: entre as pessoas que se informam sobre vacinas por redes sociais e WhatsApp, 64% disseram confiar ou confiar muito no que recebem por esses canais, embora 77% já tenham identificado notícias falsas neles. Essa confiança também aparece nas decisões sobre vacinação. Uma em cada cinco pessoas ouvidas afirmou já ter deixado de se vacinar ou de vacinar um filho depois de ler uma notícia negativa sobre imunizantes nessas plataformas.
A médica Tânia Araújo lida rotineiramente com esse tipo de medo no consultório. Segundo ela, os imunizantes indicados durante a gestação passam por critérios específicos de segurança, e estudos não encontraram aumento do risco de aborto associado, por exemplo, à vacina contra a gripe. Parte da confusão surge de uma informação verdadeira, a de que vacinas de vírus vivos, como a tríplice viral, não são indicadas durante a gravidez. O problema é quando essa informação é transformada na ideia de que nenhuma vacina pode ser tomada nesse período. Existem imunizantes indicados especificamente para a gestação e outros que devem ser adiados para depois do parto. A decisão depende do tipo de vacina, do momento da gestação e do risco da doença para aquela paciente, e não de uma regra geral.
A mesma pesquisa Ipec/Pfizer, divulgada em dezembro de 2024, mediu a presença de alguns desses boatos entre gestantes brasileiras. Dez por cento das entrevistadas disseram acreditar que as vacinas podem causar autismo nos bebês, associação sem base científica e refutada há décadas pela comunidade médica internacional. Outras 14% acreditavam que os imunizantes poderiam provocar alterações genéticas no feto, hipótese sem sustentação nos estudos disponíveis. Para Tânia Araújo, o que torna esses mitos convincentes é justamente o fato de partirem de uma preocupação real. A gestante tem medo de prejudicar o bebê, vê outra mãe relatando uma experiência parecida, encontra dezenas de comentários concordando e sente que aquilo deve ter algum fundamento. “Só que quantidade de compartilhamentos não transforma uma informação em evidência”, resume.
Outro boato recorrente, segundo Tânia Araújo, é o de que as vacinas poderiam causar infertilidade ou prejudicar gestações futuras, crença que ganhou força nas redes sociais depois da pandemia, embora não exista, até o momento, evidência de que os imunizantes recomendados no pré-natal provoquem esse efeito. Há também quem acredite que a vacina “passe” a doença para o bebê. Na prática, ocorre o contrário. A mãe produz anticorpos contra determinadas doenças e parte deles atravessa a placenta, ajudando a proteger o recém-nascido nos primeiros meses de vida, antes que ele complete o próprio calendário de vacinação.
Um estudo independente realizado com 114 gestantes atendidas pelo SUS no Sul do Brasil, publicado na revista Saúde e Desenvolvimento Humano, da Unilasalle, identificou comportamento hesitante em relação à vacinação em 33,3% das entrevistadas. A hesitação estava associada a uma avaliação mais baixa do próprio conhecimento sobre imunização. O resultado reforça, fora do contexto das pesquisas financiadas pela indústria farmacêutica, a relação entre o conhecimento sobre vacinação e a confiança nos imunizantes. Outro levantamento, com 348 puérperas de duas maternidades públicas de Recife (PE), mostra como essa relação aparece no comportamento de vacinação, e não apenas na declaração de confiança. Apenas 17,2% haviam completado o esquema contra a Covid-19 durante a gestação. A adesão foi maior entre as mulheres que relataram não ter acesso à internet, televisão ou rádio e entre aquelas que se sentiam seguras quanto à eficácia da vacina. As autoras do estudo, da Universidade Federal de Pernambuco, concluíram que os profissionais de saúde precisam reforçar, durante o atendimento, a importância da vacinação e do cumprimento do calendário no pré-natal.
Tânia Araújo considera o mito de que seria mais seguro contrair uma doença naturalmente do que se vacinar um dos mais perigosos, porque ele inverte a percepção sobre o risco. Algumas infecções evitáveis por vacina podem causar complicações graves para a mãe e o bebê, enquanto os imunizantes recomendados são estudados para oferecer proteção com segurança conhecida. Para ela, a pergunta que deveria orientar a decisão não é apenas se a vacina oferece algum risco, já que toda intervenção médica pode oferecer, mas como esse risco se compara ao de permanecer desprotegida contra a doença. A chegada de vacinas mais recentes também pode gerar insegurança. É o caso da proteção contra o vírus sincicial respiratório (VSR). “Por ser uma proteção mais nova para esse público, algumas mulheres também ficam inseguras e querem entender melhor antes de aceitar”, descreve a técnica de enfermagem Hellen Veras, da UBS de Bonsucesso, em Barreira (CE).
Nem toda gestante que hesita está desinformada. A pesquisadora Nina Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital da UFBA, diferencia dúvida legítima, falta de informação e desinformação propriamente dita. Uma mulher que desconhece o calendário de vacinação da gravidez, como os seis em cada dez identificados pela pesquisa Ipec/Pfizer, não foi necessariamente exposta a uma notícia falsa. Pode simplesmente não ter recebido a informação correta a tempo. Já quando a recusa ocorre por causa de um conteúdo comprovadamente falso, a situação é outra. Um levantamento nacional do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e da Tecnologia, sediado na Fiocruz, com 2.069 entrevistados, mostra esse fenômeno em outra escala. A maioria dos brasileiros confia na ciência e tem percepção positiva sobre vacinas, mas essa confiança caiu durante a pandemia. A hesitação vacinal também aparece associada à escolaridade e à familiaridade com conceitos científicos. É nessa diferença entre quem não recebeu informação e quem recebeu uma informação falsa que a desinformação em saúde encontra espaço para crescer.
Quando a dúvida chega ao consultório
Adriana Gomes acompanha essa mudança de perto há mais de 22 anos, como técnica em enfermagem e agente comunitária de saúde no Ceará. Segundo ela, a relação das famílias com a vacinação era mais simples no início da carreira. Bastava explicar que o imunizante fazia parte do calendário para que a resistência diminuísse, em parte porque a presença do agente comunitário dentro da própria comunidade já carregava uma relação de confiança construída ao longo dos anos. Hoje, afirma, as mães continuam preocupadas com a saúde dos filhos, mas recebem uma quantidade muito maior de informações e nem sempre conseguem distinguir uma orientação baseada em evidências de uma opinião, um relato pessoal ou um conteúdo falso. Muitas chegam à unidade com vídeos, mensagens recebidas pelo celular ou relatos de outras mulheres e colocam aquilo no mesmo nível da orientação de um profissional de saúde. “Precisamos primeiro entender o que aquela gestante ouviu, qual é o medo dela, e desconstruir algumas informações que já chegam com ela na unidade”, descreve.
Na UBS de Bonsucesso, em Barreira, no interior do Ceará, a técnica em enfermagem Hellen Veras percebe um padrão parecido, mais evidente depois da pandemia. Segundo ela, pacientes chegam a perguntar se determinada vacina é a da Covid-19 e, dependendo da resposta, demonstram resistência até diante de imunizantes usados há décadas. Para Hellen, o mais importante não é tratar a dúvida como falta de informação, mas entender de onde vem o medo e explicar, em linguagem acessível, que a proteção da vacina também chega ao bebê. Ela percebe que a forma como a paciente é recebida pode mudar o resultado da conversa. Uma resposta segura, clara e acolhedora, sem julgamento, facilita a construção de confiança, enquanto tentar simplesmente convencer a gestante costuma produzir o efeito oposto.

A insegurança relatada por Hellen diante da vacina contra o VSR tem uma explicação, segundo Isabella Ballalai, segunda-secretária e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. A maior parte das hospitalizações por VSR acontece nos primeiros meses de vida, quando o bebê ainda não teve tempo de desenvolver uma resposta imunológica mais preparada nem de receber todas as vacinas do calendário infantil. Uma revisão da Cochrane publicada em 2024, que reuniu seis ensaios clínicos com 17.991 gestantes, encontrou uma redução pela metade no risco de hospitalização por VSR confirmado em laboratório entre bebês de mães vacinadas. Foram 11 internações a cada 1.000 crianças no grupo vacinado, contra 22 a cada 1.000 no grupo que recebeu placebo. A vacinação da gestante, aplicada no terceiro trimestre, permite que a criança já nasça com anticorpos maternos contra o vírus, uma proteção temporária pensada para atravessar essa janela de maior risco. “Quando uma mãe ouve falar de VSR pela primeira vez, pode parecer apenas mais uma sigla entre tantas doenças respiratórias”, diz Isabella. “Mas, quando mostramos que estamos falando de uma das principais causas de bronquiolite e de internações em bebês pequenos, ela consegue compreender por que a prevenção precisa começar antes mesmo do nascimento.”
Essa relação entre confiança, informação e vacinação também aparece em dados de pesquisa. Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP com gestantes e puérperas atendidas no Hospital Universitário entre 2017 e 2018, publicado na revista científica Vaccine X, mostrou que mulheres com sete ou mais consultas de pré-natal apresentavam maior cobertura vacinal contra dTpa e influenza. A recomendação médica direta também foi um dos fatores mais associados ao aumento da vacinação entre as participantes.
O peso da orientação profissional aparece também do outro lado do balcão. Um levantamento nacional da Fiocruz sobre as condições de trabalho de profissionais de saúde durante a pandemia, realizado com mais de 16 mil trabalhadores da linha de frente, mostrou que 91% deles consideravam as fake news um obstáculo no combate à Covid-19. Outros 76,1% relataram ter atendido pacientes que expressaram acreditar em notícias falsas sobre a doença. O dado ajuda a dimensionar, em escala nacional, o que Adriana e Hellen descrevem na rotina das unidades. O profissional de saúde brasileiro convive hoje com a desinformação como parte do próprio trabalho, e não como uma situação excepcional.

A desinformação e a falha de comunicação não afetam apenas as gestantes. Uma tese de doutorado da Faculdade de Medicina da USP mostrou que a cobertura vacinal contra dTpa entre os próprios profissionais de saúde do Hospital das Clínicas, com indicação para receber o imunizante por atuarem com gestantes e recém-nascidos, era de apenas 2,9% em 2015 e chegou a 41,2% depois de uma série de estratégias de sensibilização ao longo de um ano, incluindo palestras e vacinação móvel dentro das próprias clínicas. Entre os profissionais que ainda não haviam se vacinado ao final do estudo, 90% afirmaram simplesmente desconhecer a recomendação.
Para Adriana Gomes, essa mudança exige um profissional de saúde diferente daquele que ela encontrou no início da carreira. “Não adianta simplesmente dizer para a mãe que ela está errada. Se ela está com medo, primeiro precisa ser ouvida”, afirma. Segundo ela, o profissional de saúde precisa ser também um bom comunicador, preparado para responder até às dúvidas mais simples, porque uma dúvida que não é esclarecida pode se transformar em uma decisão de não se vacinar. Os dados sobre falhas de comunicação, seja entre gestantes ou entre profissionais, não apontam para um problema restrito a um lado do consultório. O que os números mostram é que o ambiente informacional em que médicos, técnicos e pacientes estão inseridos hoje é mais complexo do que há uma década. Nesse cenário, a confiança construída no atendimento ainda aparece como uma das principais ferramentas para enfrentar a desinformação.
Quando a desinformação vira cobertura baixa
A gestante de Tamboril, cujo caso abre esta reportagem, foi procurada mais de uma vez pela equipe de saúde do município em ações de busca ativa antes de recusar a vacina contra a Covid-19. “Na época, a gente fazia a busca ativa justamente para tentar chegar até as pessoas que ainda não tinham se vacinado. Esse caso nos preocupou muito porque descobrimos que ela estava grávida e, mesmo assim, não queria receber a vacina”, relembra Francisco Felix Melo Farias, então secretário de Saúde do município. A equipe conseguiu levá-la até a unidade de saúde, mas, no dia 5 de janeiro daquele ano, ela assinou o termo de recusa. Depois de contrair a doença, o quadro evoluiu rapidamente e ela foi transferida para Sobral, referência regional em saúde, já em estado grave. Lá, os médicos conseguiram realizar o parto e salvar o bebê. “Foi uma situação muito difícil, porque mostra a importância de insistir na orientação e de tentar esclarecer as dúvidas das pessoas. A gente não pode obrigar ninguém a se vacinar, mas, enquanto gestão de saúde, nossa preocupação sempre foi proteger o maior número possível de pessoas”, diz Farias.
Casos como esse não são o único indicador do impacto da baixa vacinação materna. Dados nacionais mostram esse efeito em outra escala. Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, o aumento de casos de coqueluche em 2024 ilustra esse padrão. “Em 2024, tivemos um aumento muito expressivo dos casos no Brasil e, entre as crianças que morreram, a grande maioria era filha de mães que não tinham sido imunizadas”, afirma. Um levantamento do Observatório de Saúde na Infância, da Fiocruz em parceria com a Faculdade de Medicina de Petrópolis, divulgado pela Agência Brasil em outubro de 2025, mostra a dimensão do problema. O Brasil registrou, naquele ano, 2.152 casos de coqueluche em crianças menores de cinco anos, mais do que a soma dos cinco anos anteriores. Foram 665 internações e 14 mortes, número superior aos dez óbitos registrados entre 2019 e 2023. Segundo Kfouri, os anticorpos produzidos pela mãe vacinada atravessam a placenta e oferecem ao recém-nascido proteção temporária nos primeiros meses de vida, sem substituir o calendário infantil. A gravidez também altera os sistemas imunológico, cardiovascular e respiratório da mulher, o que pode agravar complicações de algumas infecções. “A vacinação materna precisa ser encarada como uma estratégia de proteção para dois indivíduos ao mesmo tempo”, resume o médico.
A cobertura vacinal de dTpa entre gestantes brasileiras foi de apenas 75% em 2023, segundo dados oficiais divulgados pela Agência Brasil, distante da meta de 95% do Programa Nacional de Imunizações. A vacina contra influenza ficou ainda mais aquém. A SBIm apontou que, no mesmo ano, cerca de 60% do público elegível, incluindo as gestantes, recebeu o imunizante. A distância entre estados também é grande. Em Minas Gerais, o painel de vacinação do Ministério da Saúde mostrou cobertura de dTpa de 97,67% entre janeiro e outubro de 2024, acima da meta nacional. Já no Paraná, um levantamento da plataforma Paraná Saúde Digital, divulgado em novembro daquele ano, mostrou que 53,3% das gestantes com mais de 20 semanas cadastradas no SUS, cerca de 21 mil mulheres, estavam com a dTpa em atraso.
A vacina contra o VSR ilustra esse ponto de partida baixo. O imunizante foi incorporado ao SUS para gestantes em dezembro de 2025, depois de aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) no início daquele ano. A pesquisa Ipec/Pfizer de dezembro de 2024, antes da chegada da vacina à rede pública, mostrou que 94% das gestantes já tinham ouvido falar da doença, mas apenas 22% sabiam que ela é causada por um vírus. O dado ajuda a explicar a insegurança relatada por profissionais como Hellen Veras diante de um imunizante ainda pouco conhecido. Seis meses depois da incorporação, o Ministério da Saúde contabilizava mais de 1 milhão de gestantes vacinadas contra o VSR, sinal de que a barreira pode estar menos na recusa e mais no desconhecimento prévio sobre a doença. Para bebês em grupos de risco, como os prematuros, Isabella Ballalai lembra que os anticorpos monoclonais são outra ferramenta disponível, complementar à vacinação da gestante.
Para a pesquisadora Nina Santos, esse tipo de lacuna tem consequência coletiva, não apenas individual. Quando as taxas de vacinação caem, doenças que estavam controladas podem voltar a circular, gerando mais atendimentos, internações e custos para o sistema público. Ela destaca que a desinformação em saúde não atinge apenas fatos isolados. Também pode minar a confiança nas instituições responsáveis por produzir e comunicar conhecimento científico, problema agravado, avalia, pela facilidade de produzir hoje conteúdos falsos com inteligência artificial, capaz até de simular a voz e a imagem de profissionais conhecidos. Por isso, defende, retirar um conteúdo falso do ar não resolve o problema se não houver, ao mesmo tempo, informação confiável ocupando aquele espaço. Nem todo mundo, porém, tem as mesmas condições de verificar uma fonte ou comparar versões diferentes de um mesmo fato.
Um estudo do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DesinfoPop/FGV), divulgado em outubro de 2025, mapeou 81 milhões de mensagens publicadas entre 2016 e 2025 em 1.785 comunidades de teorias da conspiração no Telegram, em 18 países da América Latina e do Caribe. O Brasil concentrou 40% de todo o conteúdo antivacina identificado na região, o equivalente a mais de 580 mil publicações na última década. O volume cresceu quase 690 vezes entre 2019 e 2021, no auge da pandemia. Mesmo em queda desde então, ainda circulava, em 2025, 122,5 vezes mais conteúdo do que em 2019.
O que levou a gestante de Tamboril a assinar aquele termo, depois de ser procurada mais de uma vez pela equipe de saúde, não foi detalhado pelas autoridades locais. Não se sabe qual informação chegou até ela, de quem veio ou o que pesou na decisão de recusar a vacina. Sabe-se apenas o que aconteceu depois. O bebê nasceu antes do tempo, ela morreu e uma decisão tomada durante a gestação terminou em uma história que poderia ter sido diferente. Entre uma coisa e outra existe um espaço que esta reportagem encontrou em diferentes lugares, no celular, nas redes sociais, na sala de espera e dentro do consultório. É o espaço entre a dúvida e a resposta. E, quando se trata de vacinação na gestação, chegar primeiro nesse espaço pode significar proteger não apenas uma mulher, mas também alguém que ainda nem nasceu.



