Entre as mãos do médico e os braços do robô: como a cirurgia robótica está transformando o tratamento do câncer no Ceará
- Brian Sthefano

- 10 de ago.
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Atualizado: 15 de ago.

Antônio Braga tinha 70 anos quando entrou no centro cirúrgico do Hospital Haroldo Juaçaba, em Fortaleza, para retirar a próstata após um diagnóstico de câncer, em 21 de outubro de 2024. O procedimento foi realizado pelo urologista Emanuel Veras com o auxílio de uma plataforma robótica, que reproduzia, por meio de quatro braços mecânicos, os movimentos feitos pelo médico em um console instalado a poucos metros da mesa de cirurgia. Antônio recebeu alta no dia seguinte.

Antes da operação, saber que seria submetido a uma cirurgia robótica não trouxe receio, conta Antônio. A segurança, segundo ele, veio tanto da tecnologia quanto do acompanhamento recebido durante o tratamento. “Hoje me sinto muito aliviado e feliz por ter feito meu tratamento no ICC. Desde o início, fui muito bem acolhido e acompanhado por uma equipe completa, o que me passou muita segurança durante todo o processo”, afirma.

A cirurgia marcou o início do programa de cirurgia robótica da Rede ICC Saúde e foi a primeira realizada com a tecnologia em um paciente do Sistema Único de Saúde (SUS) nas regiões Norte e Nordeste. Menos de dois anos depois, mais de 100 procedimentos já haviam sido realizados pela instituição, que ampliou o uso da robótica para além do câncer de próstata e passou a empregá-la em outras especialidades oncológicas. A experiência no Ceará acompanha uma mudança que começa a alcançar também a rede pública brasileira: a incorporação de tecnologias capazes de ampliar a precisão e os movimentos do cirurgião sem retirar dele o controle da operação.
Entre as mãos e os braços
Na cirurgia robótica, o robô não opera sozinho. No centro cirúrgico do Hospital Haroldo Juaçaba, o médico permanece na mesma sala que o paciente, mas deixa de manipular diretamente os instrumentos usados no procedimento. Sentado diante de um console, acompanha em uma tela tridimensional e de alta definição o interior do corpo e controla, com as mãos, os movimentos executados pelos quatro braços mecânicos posicionados junto à mesa cirúrgica. Cada ação realizada pelos instrumentos parte de um comando do cirurgião.

O sistema permite reproduzir movimentos do punho humano em espaços reduzidos e filtrar os tremores naturais das mãos. Segundo Emanuel Veras, coordenador do Programa de Cirurgia Robótica do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), os instrumentos articulados também ampliam as possibilidades de angulação durante o procedimento. “Na prática, isso permite alcançar regiões mais estreitas e de difícil acesso, trabalhar com diferentes angulações e identificar com maior clareza as estruturas e os tecidos”, explica.
A mudança também alcança quem está do outro lado do console. Alexandre Marra, pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP), aponta que a posição de trabalho é uma das diferenças em relação a outras técnicas. “O próprio cirurgião também se beneficia, já que o console proporciona uma posição mais ergonômica durante procedimentos que podem ser longos e complexos”, afirma. Em cirurgias oncológicas que podem se estender por horas, o médico pode operar sentado e com os braços apoiados, em vez de permanecer de pé junto à mesa durante todo o procedimento.
Apesar do nome, cirurgia robótica também não é sinônimo de inteligência artificial. O sistema utilizado no ICC funciona por telemanipulação: os braços reproduzem os comandos realizados pelo cirurgião no console, com recursos como filtragem de tremores e redução da escala dos movimentos. A plataforma não decide onde cortar nem define a conduta médica.
No caso de Antônio Braga, a técnica foi utilizada em uma prostatectomia radical associada à retirada de gânglios linfáticos. A cirurgia para tratamento do câncer de próstata ocorre em uma região próxima a estruturas relacionadas à continência urinária e à função sexual, o que exige do cirurgião cuidado tanto na retirada do tecido comprometido pela doença quanto na preservação das estruturas ao redor. É nesse espaço que recursos como visão ampliada, instrumentos articulados e movimentos em escala reduzida passam a integrar a operação.
A experiência, porém, não começou no Ceará. O Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, realiza procedimentos robóticos pelo SUS desde 2012. No Ceará, a primeira cirurgia do programa do ICC ocorreu 12 anos depois, com Antônio Braga. A partir daquele procedimento, a tecnologia passou a ser utilizada também em outros pacientes atendidos pelo SUS e avançou para diferentes especialidades oncológicas, abrindo uma segunda questão: para além dos recursos disponíveis ao cirurgião, o que muda para quem está na mesa de operação?
O que muda para quem está na mesa
Os benefícios da cirurgia robótica não significam, necessariamente, maior capacidade de eliminar o câncer. Em 2016, um estudo clínico randomizado publicado na revista The Lancet acompanhou 308 homens submetidos à retirada da próstata no Royal Brisbane and Women's Hospital, na Austrália. Os pacientes foram divididos entre a cirurgia robótica e a aberta para comparar os resultados das duas técnicas. Nas primeiras 12 semanas, os pacientes operados com auxílio do robô tiveram menor perda de sangue e permaneceram menos tempo internados. O acompanhamento publicado dois anos depois na Lancet Oncology, porém, não encontrou diferença significativa entre as técnicas em indicadores como margens cirúrgicas positivas e recuperação das funções urinária e sexual. Os resultados ajudam a delimitar o alcance da tecnologia: a robótica pode trazer vantagens durante a cirurgia e na recuperação, mas isso não significa, por si só, maior eficácia no controle do câncer.
Parte desses benefícios está relacionada à forma como os instrumentos permitem ao médico trabalhar dentro do corpo. “Essa precisão contribui para uma dissecção mais delicada, com menor trauma aos tecidos e, consequentemente, menor perda de sangue durante o procedimento”, explica Emanuel Veras. No Brasil, uma análise de 480 pacientes operados entre 2014 e 2023 em um hospital universitário também comparou as técnicas aberta, laparoscópica e robótica. A recuperação da continência foi semelhante entre robótica e laparoscopia e superior à cirurgia aberta, enquanto não houve diferença significativa entre as três abordagens em complicações, recorrência bioquímica e margens cirúrgicas positivas.
A indicação, por isso, depende das características de cada paciente e do procedimento a ser realizado. “A cirurgia robótica não é indicada para todos os casos e não significa automaticamente um resultado melhor; a escolha depende da avaliação da equipe médica e de quanto a tecnologia pode, de fato, oferecer vantagens naquele procedimento específico”, afirma Alexandre Marra, pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP). A tecnologia acrescenta recursos ao trabalho do cirurgião, mas não substitui a avaliação médica que define quando esses recursos são necessários.
O câncer de próstata, principal porta de entrada da cirurgia robótica no programa cearense, também é o tipo de câncer mais incidente entre os homens no país, depois dos tumores de pele não melanoma. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil registra cerca de 71,7 mil novos casos da doença por ano, dos quais 3,1 mil são estimados no Ceará. Em 2023, 17.093 brasileiros morreram em decorrência do câncer de próstata, o equivalente a uma média de 47 mortes por dia. Para Franz Campos, coordenador do programa de cirurgia robótica do Inca, esses números também dependem do diagnóstico: "também precisamos fortalecer o diagnóstico precoce, especialmente nos casos de câncer de próstata, para que a tecnologia seja utilizada nos pacientes que realmente podem se beneficiar dela."

No ICC, o uso da plataforma já avançou para outras áreas da oncologia. Em junho de 2025, uma equipe liderada pelo cirurgião torácico Renato Torrano realizou a primeira toracoscopia robótica em um paciente do SUS nas regiões Norte e Nordeste, desta vez para o tratamento de câncer de pulmão. “Estamos falando de um procedimento de alta complexidade, que exige precisão, experiência e uma estrutura preparada”, afirma Torrano. Segundo Carlos Eduardo Domene, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Videocirurgia, Robótica e Digital (Sobracil), técnicas minimamente invasivas podem reduzir o trauma aos tecidos e, consequentemente, sangramentos, inflamação e dor no período pós-operatório.
Para pacientes que ainda precisam passar por outras etapas do tratamento oncológico, o tempo de recuperação após a cirurgia pode ter impacto também no que vem depois. Marra explica que uma recuperação mais rápida pode permitir a continuidade, quando necessária, de tratamentos como quimioterapia ou radioterapia. Os benefícios possíveis, portanto, não terminam quando o paciente deixa o centro cirúrgico. No Ceará, porém, a expansão da robótica para além dos primeiros procedimentos coloca outra questão: como uma tecnologia ainda concentrada em poucos hospitais pode alcançar uma parcela maior dos pacientes que dependem dela?
Da mesa de cirurgia para o sistema
Quando o ICC começou a estruturar o programa, em 2023, a cirurgia robótica já era utilizada no Brasil, mas permanecia concentrada principalmente na rede privada. Naquele momento, a tecnologia ainda não tinha cobertura obrigatória pelos planos de saúde nem estava incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) para a prostatectomia radical. Para viabilizar o acesso de pacientes da rede pública, o instituto apresentou um projeto de pesquisa ao Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon). A proposta ficou em primeiro lugar no edital nacional daquele ano e financiou a aquisição da plataforma utilizada pelo hospital.
A experiência do SUS com a cirurgia robótica, no entanto, havia começado mais de uma década antes. O Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, realiza procedimentos com a tecnologia desde 2012 e já ultrapassou 2 mil cirurgias em áreas como urologia, ginecologia, cabeça e pescoço, abdome e tórax. Em novembro de 2025, a instituição inaugurou o primeiro centro de treinamento em cirurgia robótica do SUS no país, também financiado pelo Pronon. “É fundamental que esses equipamentos sejam instalados em centros que tenham demanda suficiente para garantir uma utilização adequada, e que os profissionais tenham acesso a treinamento constante, porque existe uma curva de aprendizado importante”, afirma Franz Campos, chefe do Serviço de Urologia e coordenador do programa de cirurgia robótica do Inca.
Enquanto o programa cearense ampliava o número de procedimentos, a cirurgia robótica também avançava no processo de incorporação ao sistema de saúde. Em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recomendou a prostatectomia radical assistida por robô para pacientes com câncer de próstata localizado ou localmente avançado. A decisão foi oficializada pelo Ministério da Saúde em outubro. Na saúde suplementar, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) incluiu o procedimento entre as coberturas obrigatórias dos planos, com vigência a partir de abril de 2026.
A incorporação, porém, não abrange todas as cirurgias que podem ser realizadas com a plataforma. A cobertura é específica para a prostatectomia radical nas condições estabelecidas pelas normas. Procedimentos robóticos em outras áreas da oncologia, como a cirurgia torácica realizada pelo ICC em um paciente com câncer de pulmão, não passaram a ter cobertura obrigatória pela mesma decisão. Segundo dados divulgados pela ANS, o SUS contava com 40 plataformas robóticas, concentradas principalmente nas regiões Sul e Sudeste. No Ceará, o programa do ICC colocou o estado entre os locais onde a tecnologia passou a ser oferecida também a pacientes da rede pública.
A expansão depende ainda da formação de profissionais habilitados para operar os equipamentos. "O Brasil já possui centros de treinamento licenciados e certificados por sociedades médicas que mantêm parceria com o SUS. Ter uma regulamentação específica para essa capacitação estabelece critérios mais rigorosos e contribui diretamente para a segurança do paciente", afirma Carlos Eduardo Domene, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Videocirurgia, Robótica e Digital (Sobracil). Em 2026, o ICC abriu o primeiro Fellowship em Cirurgia Robótica Urológica da instituição, com duração de um ano e treinamento voltado à formação de novos cirurgiões para atuar com a plataforma.
O custo também faz parte da discussão sobre a ampliação da tecnologia na rede pública. Um estudo sobre a implantação da cirurgia robótica no Inca, publicado em 2016 por Cláudio Pitassi e outros pesquisadores, apontou benefícios clínicos associados à técnica, mas registrou a ausência de consenso sobre sua relação de custo-efetividade em hospitais públicos de países com as características socioeconômicas do Brasil. A avaliação ganha importância à medida que novos hospitais incorporam equipamentos, treinamento e manutenção à estrutura necessária para manter programas desse tipo.
No ICC, o programa iniciado com Antônio Braga em outubro de 2024 ultrapassou a marca de 100 procedimentos e chegou a outras áreas da oncologia. A cirurgia robótica não diagnostica, não escolhe a conduta e não substitui o cirurgião: os braços mecânicos continuam dependentes das mãos que os comandam. No Ceará, a mudança ocorrida nos últimos dois anos está também em quem passou a ter acesso a esses movimentos. Uma tecnologia antes restrita principalmente à rede privada começou a chegar a pacientes do SUS e cada novo procedimento amplia, para além da mesa de cirurgia, o alcance dessas mãos.



