Depois de sobreviver: quando uma tentativa de suicídio atravessa mais de uma vida
- Brian Sthefano

- 14 de ago.
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Antônio Mauro tinha 41 anos quando tentou tirar a própria vida no quintal de casa, em Redenção, no interior do Ceará, em 2023. Quem o encontrou foi a mulher, Elisangela, então com 33 anos, ao voltar da creche com Gael Maurício, filho do casal, de 4 anos. Socorrido, Antonio foi levado ao hospital, onde permaneceu internado por alguns dias antes de receber alta.
A alta, no entanto, não encerrou o atendimento. Antônio passou a ser acompanhado por um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), serviço da rede pública de saúde mental. Entre 2015 e 2022, o Brasil registrou 152.667 notificações de lesões autoprovocadas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), segundo o Ministério da Saúde, categoria que reúne tentativas de suicídio e outras formas de autolesão e dimensiona quantas pessoas passam, todos os anos, pela mesma porta de entrada que Antônio: a de um sistema de saúde que precisa decidir o que vem depois da emergência. Para quem sobrevive a uma tentativa, o fim da emergência abre outra etapa, marcada pela continuidade do cuidado e pela retomada da rotina.
O que a alta não encerra
Nos meses que se seguiram à internação, a tentativa passou a fazer parte também da rotina de Elisangela. Enquanto Antonio Mauro iniciava o acompanhamento em saúde mental, ela dividia a atenção entre o tratamento do marido e os cuidados com Gael, então com 4 anos. “Ele era muito pequeno para entender o que estava acontecendo, mas percebia que alguma coisa tinha mudado”, conta. A creche, a alimentação e os horários do filho foram mantidos enquanto ela acompanhava de perto o marido. “A gente pensa que uma situação dessas afeta apenas quem tenta tirar a própria vida, mas não é assim. A família inteira acaba sofrendo e precisa aprender a lidar com aquilo depois.”
No CAPS, Antonio Mauro passou primeiro pelo acolhimento, etapa em que a equipe avalia as condições do paciente, as circunstâncias da crise e os fatores relacionados ao episódio. A partir daí, segundo a psiquiatra responsável pelo acompanhamento, é definido um plano de cuidado individualizado, que pode incluir consultas psicológicas e psiquiátricas, atividades terapêuticas, medicação e outros serviços da rede pública. No caso de Antonio, o acompanhamento busca também ajudá-lo a identificar sinais que possam anteceder uma nova crise. “O primeiro passo é acolher essa pessoa, entender o que aconteceu, avaliar como ela está naquele momento e identificar quais fatores contribuíram para a crise”, explica a médica.
Nesse processo, a família integra a rede de apoio, mas não assume a responsabilidade pelo tratamento. “A família tem um papel muito importante, não como alguém que vai controlar a pessoa, mas como uma rede de apoio capaz de perceber mudanças de comportamento, incentivar a continuidade do cuidado e procurar ajuda quando necessário”, afirma a psiquiatra. Para ela, uma das dificuldades pode surgir justamente quando o quadro apresenta melhora. “Um dos grandes desafios é que, muitas vezes, a pessoa melhora e acredita que não precisa mais de acompanhamento, interrompendo o tratamento.”
A jornalista Rafaela Lima Zebrak conhece esse movimento. Ela procurou ajuda psicológica aos 19 anos, quando passou a conviver com tristeza, falta de motivação e dificuldades para cumprir atividades básicas da rotina. Depois, iniciou acompanhamento psiquiátrico e uso contínuo de medicação. Aos 21 anos, teve a primeira tentativa de suicídio. Socorrida pela irmã, ficou temporariamente com dificuldades para andar e falar e, durante a recuperação, retomou o tratamento.

A continuidade, no entanto, não se manteve. “Depois disso, voltei ao tratamento, mas cometi um erro que acabou se repetindo: quando começava a melhorar, eu parava de me cuidar”, relata. Rafaela teve outras duas tentativas, aos 26 e aos 31 anos. Hoje, atua no apoio a pessoas em sofrimento emocional por meio do Grupo Continue e do Projeto Enfrente.
A interrupção do acompanhamento também aparece na rotina do CAPS onde Antonio é atendido, embora não haja levantamento local que permita dimensioná-la. Segundo a psiquiatra, os motivos observados incluem a percepção de melhora, dificuldades para manter consultas ou obter medicação, incompatibilidade do tratamento com o trabalho e resistência do paciente ou da própria família. “Pela minha experiência, eu diria que uma parcela significativa das pessoas acaba interrompendo o acompanhamento em algum momento”, afirma.
A recorrência vivida por Rafaela também aparece em estudos internacionais. Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista científica General Hospital Psychiatry, que reuniu 110 estudos e acompanhou dados de mais de 248 mil pessoas com histórico de tentativa de suicídio, estimou que uma em cada cinco voltou a tentar. O levantamento identificou ainda maior recorrência entre mulheres e ao longo do tempo após a primeira tentativa. No Brasil, não foi localizado estudo de abrangência nacional equivalente. As pesquisas disponíveis concentram-se em hospitais ou municípios específicos e, por isso, não permitem projetar a mesma taxa para todo o País.
Quando o suicídio atravessa uma família
Antes de estudar o comportamento suicida, Karina Okajima Fukumitsu conviveu com ele dentro de casa. Aos 10 anos, ao chegar da escola, percebeu o silêncio e encontrou trancada a porta do quarto da mãe.
Era o início de uma sequência que atravessaria sua infância e adolescência. Foram 18 internações da mãe em UTI após tentativas de tirar a própria vida, período vivido ao lado da irmã, dois anos mais velha. A exposição de crianças e adolescentes ao comportamento suicida dentro da família também aparece em pesquisas recentes. Um estudo brasileiro publicado em junho de 2026 na The Lancet Regional Health – Americas, que acompanhou 2.060 pessoas durante 15 anos, identificou a tentativa de suicídio do cuidador principal como o fator de maior peso entre os associados às tentativas dos próprios filhos, presente em 14,1% dos casos observados. A pesquisa foi conduzida por integrantes do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (Cism), sediado na Universidade de São Paulo (USP).
Décadas depois das primeiras internações da mãe, Fukumitsu passou a estudar o comportamento suicida também pela psicologia. Hoje suicidóloga, é doutora e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP e mestre em Psicologia Clínica pela Michigan School of Professional Psychology, nos Estados Unidos. Na Faculdade Phorte, coordena uma pós-graduação em suicidologia dedicada à prevenção, aos processos autodestrutivos e ao luto.

Em dezembro de 2021, fundou com o marido, a irmã e Gabriela Ribeiro Sabio de Melo, que perdeu o pai por suicídio, a Associação Se Tem Vida, Tem Jeito. A entidade atua no acolhimento de pessoas enlutadas por suicídio e na posvenção, nome dado às ações de cuidado destinadas a quem enfrenta a morte de alguém próximo. O trabalho também alcança o outro lado desse processo: familiares que convivem com uma pessoa em comportamento suicida recebem orientação, situação que fez parte da própria infância de Fukumitsu.
Ao explicar o fenômeno com o qual convive há décadas, Fukumitsu rejeita respostas baseadas em uma única causa. “O suicídio é um fenômeno muito mais complexo do que simplesmente associá-lo à existência de um transtorno mental. Embora exista uma relação entre saúde mental e comportamento suicida, não podemos afirmar que todas as pessoas que chegam a esse ponto tenham necessariamente um diagnóstico”, afirma. Ela cita perdas, conflitos familiares, dificuldades financeiras, rompimentos, violência e bullying entre situações que podem se somar a uma crise, sem atribuir a nenhuma delas, isoladamente, a explicação para uma tentativa.
Essa multiplicidade de fatores também aparece nos documentos que orientam a vigilância do problema no País. Em boletim epidemiológico, o Ministério da Saúde define o suicídio como um fenômeno de múltiplas causas, relacionado a fatores sociais, econômicos, políticos e culturais, além de aspectos psicológicos, psicopatológicos e biológicos. O documento aponta que transtornos mentais estão presentes na “imensa maioria” das pessoas que tentam ou morrem por suicídio, mas os insere em um conjunto mais amplo de fatores associados ao comportamento suicida.
A procura por uma causa única pode continuar mesmo depois da morte. No atendimento a famílias enlutadas, Fukumitsu relata encontrar parentes e amigos que revisitam o que aconteceu em busca de uma explicação e se perguntam o que poderiam ter feito de outra forma. Segundo ela, a tentativa de encontrar uma resposta definitiva pode acrescentar culpa ao luto. “Mais do que tentar encontrar culpados ou acreditar que sempre seria possível impedir uma morte, é necessário reconhecer os limites humanos diante de um fenômeno tão complexo”, afirma.
Os limites de dizer que era evitável
Há formas de reduzir o risco de suicídio, mas isso não significa que toda tentativa ou morte possa ser considerada evitável depois que acontece. “Sim, é possível prevenir muitas situações de suicídio quando conseguimos perceber que uma pessoa está em sofrimento e oferecer ajuda no momento adequado”, afirma a psicóloga Gardenia Rocha. Segundo ela, a prevenção envolve acompanhamento profissional, apoio de familiares e amigos e espaços em que a pessoa possa falar sobre o que vive sem medo de julgamento. A própria psicóloga estabelece uma ressalva: prevenir “não significa que todos os casos poderiam necessariamente ser evitados”, mas permite “reduzir riscos e oferecer outras possibilidades para quem está atravessando uma crise”.
A redução desse risco também aparece em estudos científicos. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 na revista General Hospital Psychiatry reuniu 110 estudos, com dados de 248.829 pessoas que já haviam tentado suicídio, e estimou em cerca de 20% a taxa de repetição, o equivalente a uma nova tentativa para cada cinco pessoas acompanhadas. A pesquisa também encontrou associação entre programas de prevenção e menor repetição de tentativas, com resultados mais consistentes nas intervenções psicoterapêuticas.
No Brasil, 15.507 pessoas morreram por suicídio em 2021, segundo o Ministério da Saúde. Entre 2010 e 2021, a taxa nacional passou de 5,2 para 7,5 óbitos por 100 mil habitantes, crescimento de 42%. Os números dimensionam o avanço da mortalidade no período, mas não permitem determinar quantas dessas mortes, individualmente, poderiam ter sido evitadas.
É nessa passagem entre reduzir riscos e atribuir, depois de uma morte, certeza ao que poderia ter acontecido que o psicólogo Victor Sales pede cautela. “Precisamos ter muito cuidado quando dizemos que o suicídio poderia ter sido evitado. Existem formas de prevenção e elas são fundamentais, mas o comportamento suicida é complexo e envolve diversos fatores”, afirma. Segundo ele, sinais anteriores podem ganhar outro significado quando observados depois do desfecho. “Dizer que bastaria alguém ter visto, percebido ou feito alguma coisa pode colocar uma culpa enorme sobre a família. Por isso, é mais responsável falar em prevenção e redução de riscos do que afirmar que toda morte por suicídio poderia ter sido impedida.”
A possibilidade de reduzir riscos também não significa que seja possível prever com segurança quem morrerá por suicídio. Uma meta-análise publicada em 2016 na revista PLOS ONE reuniu 37 estudos longitudinais com pacientes psiquiátricos e pessoas atendidas após tentativas de suicídio ou episódios de autolesão. Durante um acompanhamento médio de 63 meses, 5,5% dos pacientes classificados como de alto risco morreram por suicídio. Entre aqueles que morreram, 44% não haviam sido classificados nessa categoria. Os resultados mostram os limites dessas classificações para antecipar um desfecho individual.
Essa limitação também aparece em diretrizes clínicas. Desde 2022, o National Institute for Health and Care Excellence (NICE), órgão que estabelece recomendações para o sistema público de saúde do Reino Unido, orienta que escalas e classificações de risco baixo, médio ou alto não sejam utilizadas para prever suicídio ou repetição de autolesão, nem para decidir quem deve receber tratamento ou alta. A recomendação mantém a avaliação clínica e direciona o atendimento para as necessidades identificadas em cada caso e para a construção do cuidado.
É depois que uma morte acontece que a psiquiátrica Isabela Guedes, mestre em Psicologia Clínica pela PUC de São Paulo, identifica outra consequência dessa discussão. Segundo ela, familiares podem revisitar acontecimentos, conversas e comportamentos em busca do que poderiam ter percebido ou feito de outra maneira. “A perda costuma trazer muita culpa e questionamentos sobre o que poderia ter sido feito diferente”, afirma. Para Isabela, mensagens de prevenção precisam considerar também esse efeito sobre quem fica, especialmente quando transformam a possibilidade de reduzir riscos em uma certeza sobre aquilo que alguém deveria ter percebido ou feito antes de uma morte.
Entre a possibilidade de prevenir e a capacidade de prever uma morte específica, o cuidado continua sendo construído antes, durante e depois de uma crise. Para quem sobrevive a uma tentativa, esse depois pode envolver tratamento, acompanhamento e a retomada da rotina. Para quem acompanha ou permanece após uma perda, pode significar conviver com perguntas que nem sempre encontram uma resposta definitiva. Em ambos os casos, a prevenção não encerra a discussão sobre o suicídio: ela faz parte de um cuidado que começa antes da emergência e pode continuar muito depois dela.



