top of page

Safras recordes de soja e milho expõem déficit de armazenagem no Brasil

Foto do escritor: Brian Sthefano
Brian Sthefano
21 de ago.
8 min de leitura
Com a produção crescendo mais rápido que a estrutura para guardar os grãos, produtores enfrentam filas, pressão para escoar a colheita e disputa por espaço entre a soja ainda armazenada e o milho que começa a chegar. Foto: Freepik
Com a produção crescendo mais rápido que a estrutura para guardar os grãos, produtores enfrentam filas, pressão para escoar a colheita e disputa por espaço entre a soja ainda armazenada e o milho que começa a chegar. Foto: Freepik

A safra brasileira de soja deve alcançar 180,5 milhões de toneladas em 2025/26, segundo o 11º Levantamento da Conab, divulgado em agosto, a maior da série histórica, em uma safra de grãos que a Conab projeta com recorde também em milho, algodão e sorgo. Em diferentes regiões produtoras do País, porém, o avanço das lavouras expõe um descompasso antigo: a capacidade de armazenagem cresce em ritmo menor que a produção. Nos períodos de maior concentração da colheita, a diferença aparece em filas para descarregamento, na necessidade de acelerar o escoamento dos grãos e na pressão sobre estruturas que precisam receber volumes cada vez maiores.


O gargalo se torna mais evidente na sucessão entre as duas culturas. Onde parte da soja permanece armazenada por mais tempo, o espaço disponível segue ocupado quando o milho da segunda safra, cultivado logo após a retirada da oleaginosa, começa a chegar. A sobreposição pressiona a estrutura existente e transforma o avanço da produção em um desafio que começa depois da colheita: receber, conservar e escoar os grãos antes que a safra seguinte percorra o mesmo caminho.


Onde a soja ainda não saiu, o milho já chegou


Em Sorriso, no norte de Mato Grosso, parte da soja ainda ocupa os armazéns quando o milho da segunda safra começa a chegar. O produtor rural Rodrigo Pozzobon, delegado coordenador da Aprosoja no município, relata que uma paralisação de caminhoneiros dificultou o escoamento da oleaginosa e prolongou sua permanência nas estruturas de armazenagem, atrasando a liberação de espaço para a cultura seguinte. Segundo ele, o episódio agravou um descompasso que já vinha sendo percebido nos últimos anos. “A produção agrícola cresceu bastante nos últimos anos, mas a estrutura para armazenar esse volume não avançou na mesma velocidade”, afirma.


Em dez anos, a produção conjunta de soja e milho em Mato Grosso passou de 45,78 milhões para 97,38 milhões de toneladas, alta de 112,7%. No mesmo período, a capacidade estática de armazenagem cresceu de 37,82 milhões para 52,29 milhões de toneladas, avanço de 38,2%. Fonte: Imea e Conab, com dados compilados pela Aprosoja MT.
Em dez anos, a produção conjunta de soja e milho em Mato Grosso passou de 45,78 milhões para 97,38 milhões de toneladas, alta de 112,7%. No mesmo período, a capacidade estática de armazenagem cresceu de 37,82 milhões para 52,29 milhões de toneladas, avanço de 38,2%. Fonte: Imea e Conab, com dados compilados pela Aprosoja MT.

Os números nacionais também ajudam a dimensionar a diferença apontada pelo produtor. Segundo a Conab, a produção brasileira de grãos na safra 2025/26 deve alcançar 360,8 milhões de toneladas. Para a armazenagem, o IBGE registrou capacidade estática de 233,8 milhões de toneladas na Pesquisa de Estoques do segundo semestre de 2025. O indicador representa o volume que silos, armazéns e depósitos conseguem guardar simultaneamente.


A comparação entre os dois números, no entanto, exige cautela. A produção corresponde ao volume colhido ao longo de uma safra, enquanto a capacidade estática mede quanto pode ser armazenado em um único momento. Soja e milho não chegam aos armazéns simultaneamente em todas as regiões, e parte dos grãos é comercializada, processada ou exportada enquanto a colheita ainda está em andamento. A FGV Agro faz ressalva semelhante ao questionar o parâmetro, frequentemente citado, de que um país deveria possuir capacidade para armazenar o equivalente a 1,2 vez sua produção anual. Segundo a instituição, não foi localizado documento oficial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, que estabeleça essa referência. A diferença entre produção e capacidade, portanto, ajuda a dimensionar a pressão sobre a infraestrutura, mas não corresponde automaticamente ao volume que ficará sem armazenamento.


O problema também não se restringe a uma única safra. Segundo a Kepler Weber, maior fabricante brasileira de silos, a produção de grãos cresce, em média, 4,4% ao ano no País, enquanto a capacidade de armazenagem avança 2,4% no mesmo período, pouco mais da metade desse ritmo. A diferença acumulada ao longo dos anos ajuda a explicar por que o aumento da produção passou a pressionar uma estrutura que não se expandiu na mesma proporção.


Em Mato Grosso, o descompasso assume uma dimensão ainda maior. O estado, maior produtor nacional de soja e milho, colheu 97,38 milhões de toneladas dos dois grãos na safra 2024/25, segundo o Imea, o mesmo período retratado no gráfico anterior. A capacidade estática estadual, segundo a Conab, ficou em 52,29 milhões de toneladas. Mesmo reunindo a maior estrutura armazenadora do País, Mato Grosso dispõe de espaço para guardar simultaneamente apenas uma parcela do volume produzido ao longo da safra.


Em Diamantino, a diferença entre produção e estrutura deixa os levantamentos estatísticos e aparece na rotina da colheita. Altemar Kroling, produtor rural e delegado coordenador da Aprosoja no município, relata que a pressão aumentou à medida que o milho começou a chegar aos pontos de recebimento. “Caminhões que deveriam fazer mais de uma viagem por dia acabam permanecendo horas na fila para conseguir descarregar. Isso reduz o ritmo da colheita”, afirma. Segundo ele, ainda não foi necessário deixar milho a céu aberto na região, mas a preocupação aumenta à medida que novas áreas são colhidas.


A situação relatada pelo produtor também aparece no Diagnóstico da Armazenagem Agrícola no Brasil, elaborado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, em parceria com a Esalq Log, grupo de pesquisa da Esalq/USP. O estudo aponta que, quando grandes volumes precisam deixar as propriedades em um mesmo período, aumenta a demanda por caminhões e crescem as filas nos terminais e unidades de recebimento. O gargalo que começa na falta de espaço dentro ou próximo das propriedades passa, então, a pressionar também a estrutura necessária para retirar e receber os grãos.


Vender sem poder esperar


Em Campos de Júlio, no oeste de Mato Grosso, ter ou não espaço para guardar a colheita interfere em uma decisão que vai além da logística: o momento de vender.


Há 40 anos, a família Frohlich criou raízes em Mato Grosso e constrói, em Campos de Júlio, uma trajetória marcada pela dedicação ao campo e pela continuidade do legado familiar. Foto: Reprodução/Aprosoja
Há 40 anos, a família Frohlich criou raízes em Mato Grosso e constrói, em Campos de Júlio, uma trajetória marcada pela dedicação ao campo e pela continuidade do legado familiar. Foto: Reprodução/Aprosoja

O produtor rural Ivo Frohlich Júnior relata que, quando a produção deixa a lavoura sem encontrar espaço disponível, a necessidade de liberar os grãos pode antecipar uma negociação que, em outras condições, poderia esperar. “Quando a colheita termina e não existe espaço suficiente para receber os grãos, muitas vezes não há alternativa: é preciso vender naquele momento, mesmo que o mercado não esteja oferecendo a condição mais interessante”, relata.


A possibilidade de esperar ganha importância porque os preços também variam ao longo da safra. Séries do indicador de milho do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, o Cepea/Esalq-USP, mostram um comportamento sazonal: as cotações tendem a recuar no primeiro semestre, alcançam os menores patamares por volta de julho, período próximo à colheita da segunda safra, e costumam reagir entre dezembro e fevereiro. O movimento não permite atribuir as oscilações de preço à falta de armazenagem, mas ajuda a dimensionar o que está em jogo quando o produtor perde a possibilidade de escolher em que momento colocar o grão no mercado.


Para Frohlich Júnior, a pressão começa antes mesmo da venda. Retirar rapidamente a produção da fazenda significa disputar caminhões justamente quando a demanda por transporte aumenta, além de assumir despesas com armazenagem em estruturas de terceiros e descontos que podem incidir na comercialização. A alternativa encontrada pelo produtor foi o silo-bolsa, estrutura plástica flexível preenchida com os próprios grãos e instalada na propriedade, que permite manter parte da produção na fazenda sem a construção imediata de um silo convencional. “Com a silo-bolsa, conseguimos reduzir parte dessa pressão e trabalhar com mais autonomia. O produtor passa a ter a possibilidade de escolher o comprador, avaliar diferentes mercados e esperar um momento mais favorável para negociar”, afirma.


Operação de armazenamento em silo-bolsa: os grãos são transferidos para longas estruturas plásticas instaladas na própria propriedade, onde podem permanecer estocados até a retirada para comercialização. Foto: Reprodução
Operação de armazenamento em silo-bolsa: os grãos são transferidos para longas estruturas plásticas instaladas na própria propriedade, onde podem permanecer estocados até a retirada para comercialização. Foto: Reprodução

Pollyanna Penido, diretora comercial da Lonax, explica que o silo-bolsa foi desenvolvido justamente para aproximar a armazenagem da área de produção e permitir que parte dos grãos permaneça dentro da própria fazenda. Segundo ela, experiências em países como Argentina e Uruguai mostram que a tecnologia pode ocupar um espaço relevante na estratégia de armazenagem, com controle das condições de conservação, da umidade e da exposição a pragas. A flexibilidade da estrutura permite ampliar temporariamente a capacidade disponível sem depender da construção imediata de um armazém convencional. “É preciso ter estrutura para receber, conservar e transportar toda essa produção sem comprometer sua qualidade”, afirma.



Frohlich Júnior considera o silo-bolsa uma alternativa complementar às estruturas convencionais, mas destaca um efeito que vai além do espaço físico ocupado pelos grãos. “Quem consegue armazenar tem uma vantagem comercial, porque não fica completamente condicionado ao preço praticado logo depois da colheita.” Na prática, ter onde guardar a produção amplia também o tempo disponível para decidir quando e para quem vender.


Construir mais não basta


A falta de espaço ajuda a explicar a pressão por novos armazéns, mas ampliar a capacidade instalada resolve apenas uma parte do problema. Para Elton Stadler, CEO da Provent do Brasil, empresa que atua com soluções para conservação de grãos armazenados, a discussão também precisa considerar as condições em que a produção permanece depois de sair da lavoura. “Armazenar bem não é apenas guardar, é preservar valor”, afirma. Segundo ele, enquanto a agricultura incorporou novas tecnologias, genética e manejo avançado, parte das estruturas de armazenagem avançou em ritmo menor, com baixo nível de atualização e, em alguns casos, equipes pouco preparadas para controlar adequadamente o ambiente interno.


Esse cuidado passa por fatores como temperatura e circulação de ar. Franklin Oliveira, diretor comercial da AGI Brasil, explica que o monitoramento inadequado dessas condições pode acelerar a respiração dos grãos, consumir parte da matéria seca e provocar redução de peso durante o armazenamento. Sistemas de ventilação e termometria, segundo ele, ampliam o controle sobre o ambiente interno e ajudam a preservar os padrões de qualidade exigidos na comercialização. “Não basta aumentar a produção se o produtor não consegue conservar aquilo que colheu”, resume.


A discussão, portanto, não termina na quantidade de toneladas que cabem nos silos. Ampliar a capacidade de armazenagem também exige garantir condições para que soja e milho permaneçam conservados até a saída para o mercado, sem que o período entre a colheita e a comercialização resulte em perda de qualidade ou de peso.


Expandir essa estrutura, no entanto, exige investimentos de outra escala. Segundo estimativa da Kepler Weber, maior fabricante brasileira de silos, seriam necessários cerca de R$ 148 bilhões para eliminar o déficit de armazenagem calculado pela própria companhia. A empresa estima que o País tenha aproximadamente 19 mil unidades armazenadoras e acrescente entre 1,5 mil e 2 mil novas estruturas por ano. Para alcançar a capacidade considerada necessária em sua projeção, seriam precisas outras 5 mil a 7 mil unidades. Os números representam uma estimativa empresarial e não correspondem a um cálculo oficial do governo.


Na política pública, o Plano Safra 2026/27 destinou R$ 3,4 bilhões ao Programa para Construção e Ampliação de Armazéns, o PCA, linha de crédito operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. As taxas chegam a 8% ao ano para projetos de menor capacidade e a 9,5% nos demais casos. O valor destinado ao programa não pode ser comparado diretamente aos R$ 148 bilhões estimados pela Kepler Weber. Enquanto o primeiro corresponde ao crédito disponibilizado em um ciclo do Plano Safra, o segundo representa o investimento total que a companhia calcula ser necessário para ampliar a capacidade brasileira. Juntas, porém, as duas cifras ajudam a dimensionar a escala financeira do desafio.


Para Thiago Guilherme Péra, coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Esalq/USP, o mesmo que participou do diagnóstico elaborado em parceria com a CNA, novos armazéns também não resolvem o gargalo de forma isolada. Ferrovias e outros corredores de transporte precisam avançar junto com a capacidade de armazenagem para evitar que o problema apenas seja transferido de um ponto da cadeia para outro. “Se nada for feito, daqui a dez anos podemos estar diante de um cenário muito mais caótico, com um déficit ainda maior de estrutura para receber, conservar e escoar tudo aquilo que o campo produz”, alerta.


É nesse ponto que as safras recordes deixam de representar apenas um avanço da produção. A soja que ainda ocupa espaço quando o milho começa a chegar, os caminhões que passam horas à espera de descarregamento em Diamantino e as condições necessárias para conservar os grãos depois da colheita revelam etapas diferentes de um mesmo desafio: fazer com que a infraestrutura entre a lavoura, o armazém e o mercado acompanhe o ritmo de crescimento da produção brasileira.



Obrigado pelo envio!

Copyright © 2026. Todos os direitos reservados pelo NJE Wyden. 

bottom of page