Inovação que gera valor: o papel do Pecém na nova economia cearense


O Complexo Industrial e Portuário do Pecém abrange São Gonçalo do Amarante e Caucaia, ocupa mais de 19 mil hectares e reúne um porto de águas profundas, com dez berços, em operação desde 2002; uma área industrial; e a Zona de Processamento de Exportação (ZPE), de 6.182 hectares, a primeira do país a entrar em operação. Desde 2018, é administrado pela CIPP S.A., com capital de 70% do governo do Ceará e 30% do Porto de Roterdã.
Em 2025, o Porto do Pecém movimentou 20,96 milhões de toneladas, alta de 7% em um ano. São Gonçalo do Amarante concentrou mais da metade das exportações do Ceará, puxadas pelo aço, segundo o Ipece. O município também tem o maior PIB per capita do estado, e a indústria respondia por 74,3% do valor adicionado em 2021. Mas os resultados já alcançados, as obras em andamento e os projetos ainda no papel mostram estágios diferentes de desenvolvimento do complexo.
Uma estrutura que transforma a economia regional
A CIPP S.A. surgiu da reestruturação da Cearáportos, estatal responsável pelo Porto do Pecém. Em 2017, uma lei ampliou suas atribuições e incorporou a ZPE Ceará como subsidiária. No ano seguinte, um acordo com o Porto de Roterdã, nos Países Baixos, estabeleceu a participação conjunta em decisões estratégicas. A companhia administra o porto, a ZPE e áreas industriais, mas são as empresas instaladas no complexo que produzem, empregam e exportam. Em 2023, a CIPP registrou lucro consolidado de R$ 112,3 milhões, segundo coluna do O Povo que cita o balanço, e a receita com cessão de áreas foi 2,1 vezes a do ano anterior. Para o presidente da companhia, Max Quintino, infraestrutura, localização, segurança jurídica e energia limpa ajudam a atrair novos negócios.
O crescimento industrial também se reflete na economia dos municípios. Em São Gonçalo do Amarante, onde fica o porto, o Produto Interno Bruto (PIB) passou, em valores correntes, de R$ 2,4 bilhões em 2016 para R$ 6,9 bilhões em 2023. O município tem a quarta maior economia do Ceará, enquanto Caucaia ocupa a terceira posição, com R$ 9,9 bilhões. Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), os empregos formais em São Gonçalo passaram de 11.094, em 2016, para 18.922, em 2025. Em junho de 2024, Caucaia, São Gonçalo e Paracuru somavam 54.989 postos formais, 38% na indústria. A rede estadual de emprego do Pecém intermediou 3.517 contratações em 2023, quase o triplo das 1.208 de 2018. O avanço, porém, não foi contínuo: o PIB de São Gonçalo caiu de R$ 8,6 bilhões em 2021 para R$ 6,9 bilhões em 2023, enquanto o do Ceará cresceu 19%.
“O Pecém alterou profundamente a matriz econômica cearense”, avalia Alfredo Pessoa, diretor-geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). Um estudo do instituto estimou que as exportações industriais ficaram entre 43,9% e 152,7% acima do nível esperado sem a ZPE e a siderúrgica, em 2016 e 2018, respectivamente. Outra avaliação, publicada em 2022 pelo Global Policy Incubator em parceria com a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e o então Ministério da Economia, estimou até US$ 1,19 bilhão em exportações adicionais por ano e 2.400 empregos industriais diretos em São Gonçalo. O estudo não identificou impacto significativo sobre o emprego industrial em todo o Ceará, mas apontou salário médio anual R$ 1.288, ou 6,2%, maior na indústria de transformação estadual. Os ganhos, contudo, não ficam integralmente no estado. Segundo a avaliação, a ZPE movimentava R$ 6,1 bilhões por ano em vendas, mas gerava R$ 1,1 bilhão em valor adicionado no Ceará, cerca de 18% do total. Parte dos recursos estava ligada à importação de insumos e à participação estrangeira, enquanto 45% do valor associado às operações seguia para fora do país.
O aço no centro da economia exportadora
A ArcelorMittal Pecém, antiga Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), recebeu US$ 5,4 bilhões em investimentos, segundo a cobertura de sua inauguração, e começou a operar em 2016. Segundo a empresa, produziu desde então mais de 27 milhões de toneladas de placas de aço, vendidas a clientes de mais de 20 países, e em 2024 atingiu pelo segundo ano seguido sua capacidade máxima, de 3 milhões de toneladas, com receita líquida de R$ 10,5 bilhões. O aço também lidera as exportações do Ceará. Em 2025, ferro e aço somaram US$ 1,18 bilhão, ou 51,7% dos US$ 2,285 bilhões exportados pelo estado. Os calçados ficaram em segundo lugar, com 8,3%. Segundo Alfredo Pessoa, diretor-geral do Ipece, o aço substituiu produtos como calçados e castanha de caju no topo da pauta exportadora. Os Estados Unidos receberam 46% das vendas externas, seguidos pela União Europeia, com 19,6%. A inserção global é grande, mas concentrada em um produto e em um mercado.

Em 2025, o transporte marítimo respondeu por 93,7% do valor exportado pelo Ceará. No Porto do Pecém, o terminal de contêineres movimentou 706.509 TEUs, medida equivalente a um contêiner de 20 pés, alta de 27% em relação a 2024. As rotas internacionais transportaram 9,6 milhões de toneladas, crescimento de 19%. Desde abril de 2025, o Serviço Santana conecta o Pecém à Ásia sem transferir cargas para outro navio. Operada pela MSC em parceria com a APM Terminals, a rota reduziu de cerca de 60 para 30 dias o transporte a partir da China, segundo a empresa. Em agosto de 2026, o terminal bateu recorde mensal, com 70.964 TEUs. Para Roberto de Castro, diretor de Operações do complexo, a logística atrai investimentos. “O investidor não busca apenas um espaço físico; ele busca reduzir o lead time da sua cadeia de suprimentos”, afirma. O termo significa o tempo entre pedir os insumos e ter o produto disponível.
A tecnologia também aparece no processo. Das 550 variedades de aço fabricadas, 243 são consideradas de alto valor agregado, segundo Jorge Oliveira, presidente da ArcelorMittal Brasil. A unidade usa um gêmeo digital, réplica virtual do processo industrial, combinado à inteligência artificial para prever problemas no lingotamento contínuo, etapa em que o aço líquido vira placas. Segundo Erick Torres, CEO da planta, a ferramenta reduziu perdas e afastou funcionários de áreas de risco. A empresa não informou, porém, o percentual de redução nem o custo da tecnologia. Hoje, a usina produz principalmente placas semiacabadas. Para fabricar produtos mais elaborados no Ceará, a companhia estuda investir R$ 5 bilhões em uma linha de laminação a quente, com capacidade de 1,5 milhão de toneladas por ano. O projeto ainda depende da decisão final, esperada até o fim de 2026. Por enquanto, só foram aprovados R$ 35 milhões para a primeira fase. Segundo a companhia, em 2024 ela comprou R$ 1,42 bilhão de fornecedores cearenses, 67% em São Gonçalo do Amarante e Caucaia, e 72% dos empregados são cearenses.
Entre a indústria atual e a economia do futuro
A diversificação econômica do Pecém depende de projetos que ainda precisam sair do papel. Na ZPE, o data center da Omnia para a ByteDance começou a ser construído em janeiro de 2026. A primeira fase está prevista para o segundo semestre de 2027, com potência de até 300 MW. As estimativas de investimento vão de mais de R$ 50 bilhões a mais de R$ 200 bilhões, mas não há confirmação do valor contratado ou já aplicado. Outros projetos em instalação são a termelétrica Jandaia, estimada em R$ 5,5 bilhões, e o terminal de tancagem da Dislub, de R$ 610 milhões. No hidrogênio verde, seis pré-contratos somam R$ 63 bilhões, mas nenhum projeto chegou à decisão final de investimento, esperada para o primeiro semestre de 2027. Em setembro de 2026, um decreto detalhou os incentivos para o setor. Já os R$ 571 bilhões em projetos aprovados pelo Conselho Nacional das ZPEs em novembro de 2025 são previsões de empreendimentos até 2035, não investimentos já realizados. O valor equivale a 2,5 vezes o PIB cearense de 2023, e os projetos preveem 30,6 mil empregos diretos, mais da metade dos 54.989 postos formais que Caucaia, São Gonçalo e Paracuru tinham em 2024.
A criação de empregos qualificados também depende desses projetos. Para o data center, estimativas apontam 3,8 mil vagas nas obras e 400 na operação, e o governo projeta salário médio de R$ 5 mil. As iniciativas de formação profissional, porém, ainda têm resultados limitados. O programa Desenvolve+, da Omnia com o Senai Ceará, oferece cursos para eletricistas, encanadores e instaladores de cabeamento, com exigência de ensino fundamental completo. A primeira turma se formou em agosto de 2026, e 24% dos concluintes foram selecionados por empresas parceiras. A segunda oferta abriu 350 vagas. Para o hidrogênio verde, o Centec previu capacitar cerca de 1,3 mil pessoas, e a turma de dezembro de 2023 teve 24 concluintes. No primeiro semestre de 2024, as ocupações com mais admissões intermediadas pela rede estadual de emprego foram faxineiro (288), mecânico de manutenção (171) e montador de andaimes (98). Os dados não informam a escolaridade nem os salários desses trabalhadores.
Para Douglas de Araújo, pesquisador em globalização e desenvolvimento regional, ampliar os benefícios econômicos do Pecém exige incluir pequenas empresas locais na cadeia produtiva, aproximar universidades e indústria, formar profissionais para o setor de energia renovável e manter o diálogo com as comunidades vizinhas. Os próximos anos devem mostrar se os anúncios se transformarão em investimentos e empregos. Entre os marcos previstos estão a decisão sobre a linha de laminação até o fim de 2026, a definição dos projetos de hidrogênio verde no primeiro semestre de 2027 e o início da primeira fase do data center no segundo semestre do mesmo ano.



