O futuro do campo: os desafios para manter uma nova geração na produção rural


Pergunte a uma criança o que ela quer ser quando crescer e a resposta costuma incluir médico, advogado ou engenheiro. Em um levantamento coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com cerca de 600 mil estudantes de 15 anos de 79 países, entre eles o Brasil, as profissões tradicionais dominaram as respostas. Embora tenham sido mencionadas mais de 15 ocupações, nenhuma carreira ligada ao agronegócio apareceu entre as dez mais citadas por meninos ou meninas.
No Brasil, continuar o trabalho da família na terra raramente aparece como projeto profissional. Em Itabaiana, no Agreste sergipano, Pedro André, de 18 anos, conhece a rotina da roça desde criança. Nas terras dos pais, ajuda na colheita e no transporte da produção para a feira. A própria mãe o incentiva a estudar para não passar a vida na enxada. Agora, diante da possibilidade de assumir a propriedade, ele vê poucas perspectivas de renda e autonomia na atividade e considera cursar uma faculdade em busca de maior estabilidade.
A dúvida de Pedro faz parte de um cenário em que os jovens perdem espaço no comando das propriedades rurais de Sergipe. Segundo os Censos Agropecuários do IBGE, o número de estabelecimentos dirigidos por pessoas com menos de 35 anos caiu 40% entre 2006 e 2017, de 17,7 mil para 10,6 mil. No mesmo período, aqueles sob responsabilidade de pessoas com 65 anos ou mais aumentaram 16,6%, chegando a 22,4 mil. Se os dois grupos tinham números próximos em 2006, uma década depois havia cerca de dois estabelecimentos comandados por idosos para cada um dirigido por alguém com menos de 35 anos. A redução entre os jovens foi maior que a registrada no Brasil, de 35%, e um pouco superior à observada no Nordeste, de 38%. Os números revelam o envelhecimento de quem está à frente da produção rural, mas não esclarecem quem assumirá essas propriedades quando seus atuais responsáveis deixarem a atividade nem quais condições podem levar os jovens a permanecer no campo.
Um campo mais velho e pouco medido
A redução da mão de obra acompanha o envelhecimento de quem comanda as propriedades rurais em Sergipe. Segundo a PNAD Contínua, do IBGE, o número de pessoas ocupadas na agropecuária sergipana caiu de 156 mil, em 2016, para 105 mil, em 2025, uma redução de aproximadamente 33%. No mesmo período, a participação do setor no total de trabalhadores do estado recuou de 17,9% para 11,1%. A retração foi mais intensa do que a registrada no país, onde a ocupação agrícola diminuiu 13,5%, passando de 8,98 milhões para 7,77 milhões de pessoas. O Nordeste concentrou a maior parte dessa perda. Entre 2012 e 2023, a região respondeu por 71% da redução da ocupação na agropecuária brasileira, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também baseado na PNAD Contínua.
Esse envelhecimento pode ter duas origens muito diferentes. O mestre em Extensão Rural João Paulo Louzada Vieira, que trabalha com agricultura familiar e cooperativismo, explica que o Censo Agropecuário do IBGE registra a idade de quem dirige cada estabelecimento no momento da pesquisa, mas não permite identificar, isoladamente, o peso de cada fenômeno. “O censo mostra a idade de quem dirige o estabelecimento num dado momento, mas não permite distinguir duas situações muito diferentes: produtores que envelhecem porque vivem mais e permanecem mais tempo na gestão, e produtores que envelhecem porque jovens deixaram de entrar”, afirma.
Os números de Sergipe não permitem fazer essa separação, mas mostram onde a mudança foi maior. Entre 2006 e 2017, o estado passou a ter 7,1 mil estabelecimentos a menos dirigidos por pessoas com menos de 35 anos e 3,2 mil a mais comandados por produtores com 65 anos ou mais. A redução entre os mais jovens foi mais que o dobro do aumento entre os mais velhos, padrão compatível com uma entrada menor de jovens na gestão, embora o censo não permita afirmar a causa. A comparação também é afetada pela queda de 7,3% no total de estabelecimentos do estado no período e pela mudança de metodologia entre os dois levantamentos. A redução da presença jovem também aparece entre os trabalhadores da agropecuária nordestina. Em estudo baseado na antiga Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, os pesquisadores Otavio Valentim Balsadi e Mauro Eduardo Del Grossi identificaram que o número de pessoas de 15 a 29 anos ocupadas no setor caiu de 2,8 milhões, em 2004, para 1,5 milhão, em 2014, uma redução de quase 46%. No mesmo período, o contingente de trabalhadores com 60 anos ou mais permaneceu em torno de 1,1 milhão. Com isso, a participação dos jovens na mão de obra agrícola nordestina recuou de 34% para 23%. No Brasil, segundo os pesquisadores, três em cada quatro pessoas que deixaram a atividade agropecuária no período eram jovens.
O envelhecimento é especialmente relevante na agricultura familiar, em que a continuidade da produção depende, em grande parte, da transferência da terra, do trabalho e da gestão entre gerações. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, esse segmento reunia 72 mil das 93,3 mil propriedades rurais de Sergipe, o equivalente a 77% do total. Também respondia por 51,1% do valor da produção agropecuária estadual, participação superior à registrada no Nordeste (29,6%) e no Brasil (23%). A idade de quem comanda essas propriedades ajuda a dimensionar o desafio da sucessão rural. Em 28,5% dos estabelecimentos familiares sergipanos, o produtor tinha 65 anos ou mais. Entre os não familiares, a proporção era de 8,9%. Para cada propriedade familiar dirigida por alguém com menos de 35 anos, havia quase três sob o comando de produtores idosos. A concentração também aparece na área ocupada: produtores com 65 anos ou mais dirigiam 33,2% da área agropecuária do estado, quase cinco vezes a parcela sob responsabilidade dos menores de 35 anos (6,7%). A comparação com o Censo Agropecuário de 2006, porém, exige cautela. Naquele levantamento, o IBGE registrou a idade da pessoa que dirigia o estabelecimento, que poderia ser um administrador contratado. Em 2017, o dado se referia à idade do produtor. A diferença metodológica limita a comparação direta entre os dois censos.
O envelhecimento dos produtores, porém, não significa necessariamente falta de herdeiros, nem garante a continuidade da atividade rural. A pesquisadora Rosani Marisa Spanevello, doutora em Desenvolvimento Rural pela UFRGS, diferencia a sucessão patrimonial, que envolve a transmissão da terra, da sucessão profissional, que compreende a transferência da gestão e dos conhecimentos necessários para conduzir a produção. “Muitas propriedades têm herdeiros formais, mas não têm sucessores no sentido pleno. O jovem pode herdar a terra sem nunca ter sido preparado, ouvido ou remunerado para conduzir a atividade”, afirma. Segundo ela, o tema ainda é evitado em muitas famílias e tratado como se resolvesse sozinho com o tempo. Nenhuma pesquisa oficial brasileira perguntou até hoje se os estabelecimentos rurais têm sucessores. Isso vai mudar no próximo levantamento. O IBGE confirmou à reportagem que o Censo Agropecuário de 2027 vai incluir, pela primeira vez, uma pergunta sobre sucessão nas propriedades, com resultados por estado. A inclusão era defendida pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Os primeiros resultados estão previstos para dezembro de 2027. Até lá, a dimensão do problema depende de levantamentos feitos diretamente com as famílias rurais.
Em Sergipe, o mais recente foi feito em setembro de 2026 por pesquisadores da Wyden, rede de ensino superior do grupo YDUQS. A UniFanor Wyden, instituição à qual pertence o NJE, responsável por esta reportagem, faz parte da mesma rede. O levantamento foi conduzido por pesquisadores da instituição em Sergipe, sem participação da equipe do NJE na elaboração do questionário ou na coleta, e os resultados foram cedidos à reportagem.
Foram ouvidos 150 universitários de 18 a 29 anos, 106 homens e 44 mulheres, recrutados nos campi do IFS e da UFS, que trabalham na produção, moram no meio rural ou são filhos de agricultores. Das 138 famílias com propriedade ou produção, só 24 (17%) já definiram quem ficará responsável no futuro; outras 58 (42%) conversaram sem chegar a uma definição, e 56 (41%) nunca trataram do assunto.
Para os próximos cinco anos, 40% dos participantes pretendem continuar na atividade rural, seja na da família (25%), seja em uma própria (15%); 13% querem permanecer no campo em outra atividade; 29% planejam sair para estudar ou trabalhar na cidade, e 19% ainda não decidiram. Um em cada quatro (26%) já mora na cidade e continua trabalhando na propriedade da família. Como a pesquisa ouviu apenas universitários, sem sorteio dos participantes, os resultados não representam toda a juventude rural sergipana.
Vieira ressalta que a maior parte das pesquisas brasileiras sobre sucessão rural foi realizada no Sul, onde a agricultura é mais capitalizada e organizada em cooperativas. No Nordeste, afirma, é preciso investigar localmente quais fatores pesam na decisão dos jovens de permanecer ou deixar o campo. Um dos poucos estudos da região com dados sobre o tema foi realizado no Rio Grande do Norte. Em pesquisa publicada em 2024, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) entrevistaram separadamente pais e filhos de 28 famílias agricultoras de comunidades sorteadas em Pedro Velho. Entre os jovens de 15 a 29 anos, 39% disseram querer formar família e permanecer na agricultura, enquanto outros 18% ficariam se houvesse melhores condições de infraestrutura e acesso à terra. Para 61%, a atividade agrícola era uma alternativa caso outros projetos de vida não dessem certo. Em 14% das famílias, nenhum dos filhos trabalhava na agricultura. Entre os pais, 43% apontaram o tamanho reduzido das propriedades como principal obstáculo à permanência dos filhos, enquanto 32% citaram a produção e a renda insuficientes. A falta de participação nas decisões e de autonomia financeira também apareceu no levantamento: em 57% das famílias, os jovens não participavam das decisões, e em 39% não recebiam dinheiro regularmente. Embora as amostras de Sergipe e do Rio Grande do Norte sejam pequenas e não representem toda a região, os dados apontam problemas semelhantes, como a falta de planejamento da sucessão, a indecisão dos jovens e as dificuldades econômicas que influenciam a permanência no campo.

A sucessão rural também tem consequências para além das propriedades e das famílias. O professor Marcelo Alves Mendes, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), descreve um cenário em que produtores permanecem por mais tempo à frente das unidades rurais, enquanto parte dos filhos busca renda em outras atividades. “Há um paradoxo: as famílias não querem se desfazer da terra, mas a mão de obra familiar diminui”, diz. Sem renovação, explica o professor, as propriedades podem ser arrendadas, vendidas ou abandonadas, favorecendo a concentração fundiária. Nos municípios rurais, a redução da atividade produtiva também pode aumentar a dependência de aposentadorias e transferências de renda. Em Sergipe, os rendimentos de aposentadorias e pensões já estavam presentes em mais de um terço dos estabelecimentos rurais. Segundo o Atlas do Espaço Rural Brasileiro, do IBGE, 37,6% das propriedades sergipanas registraram essa fonte de receita em 2017, ante 14% em 2006. Foi o maior aumento entre os estados nordestinos, embora as perguntas dos dois censos não sejam idênticas. A pesquisadora Rosani Marisa Spanevello concorda que a falta de sucessores pode mudar os rumos de uma propriedade, mas ressalta que isso não significa o encerramento imediato da atividade. Ela alerta para o risco de tratar o envelhecimento como um caminho inevitável para o abandono da terra. “Há retornos, sucessões tardias e arranjos de pluriatividade que mantêm laços com a terra”.
Trabalhar sem renda e sem voz
“A decisão de ficar ou sair raramente é uma questão de vocação. Ela é um cálculo que o jovem e a família fazem o tempo todo, entre o que a terra oferece de renda e de futuro e o que a cidade promete de estabilidade, reconhecimento e autonomia”, afirma Mendes. Em Sergipe, os rendimentos ajudam a explicar por que permanecer na atividade é um desafio. No segundo trimestre de 2026, quem tinha a agropecuária como trabalho principal no estado recebia, em média, R$ 1.321 por mês, o equivalente a 46% do rendimento médio dos trabalhadores sergipanos (R$ 2.865), segundo a PNAD Contínua. No Brasil, a proporção era de 65%. A dificuldade também aparece nos resultados da produção: em 2017, 49,2% dos estabelecimentos familiares sergipanos que registraram produção geraram menos de R$ 5 mil no ano, valor bruto, sem o desconto dos custos.
Pedro conhece essa conta na rotina da propriedade da família. “A gente trabalha o ano inteiro, acorda de madrugada, e no fim o preço depende do atravessador, da chuva, de como o mercado está naquela semana”, conta. “A terra é pequena, não tem como crescer. E eu penso: se eu assumir, vou viver igual a painho, com as costas doendo e sem saber como vai ser o mês seguinte.” A situação se repete em boa parte das propriedades sergipanas. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, 61,5% dos estabelecimentos rurais do estado tinham menos de 5 hectares e ocupavam apenas 6,1% da área agropecuária. No outro extremo, as propriedades com 100 hectares ou mais representavam 2,7% do total, mas concentravam 48,8% da área. Para Mendes, a dimensão das terras interfere diretamente nas perspectivas de continuidade da atividade. “Quando a terra é pequena demais para ser economicamente viável, ela deixa de atrair os filhos como empreendimento familiar. A propriedade vira patrimônio e moradia dos pais, e não um projeto de futuro para a próxima geração”. Moisés Savian, secretário nacional de Governança Fundiária, Desenvolvimento Territorial e Socioambiental do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), resume o dilema: “Em áreas pequenas, a sucessão significa dividir o que já é insuficiente”.
A renda, porém, não é o único fator que afasta os jovens. Pedro diz que também não se sente parte das decisões sobre o trabalho que realiza. “Eu trabalho, mas não decido. Painho resolve o que planta, quando vende, o que compra. Eu ajudo, mas não tenho dinheiro meu nem voz”, afirma. Certa vez, sugeriu mudar a forma de plantar, mas ouviu que o método usado pela família sempre havia funcionado. “Eu entendo, ele aprendeu desse jeito. Mas é difícil querer ficar quando você sente que vai ser só braço.” Os dados da pesquisa realizada pela Wyden mostram que essa falta de autonomia não é um caso isolado entre os participantes. Dos 105 universitários que trabalham na produção rural, 75 (71%) não recebem dinheiro próprio pelo trabalho ou recebem de forma irregular. Entre os 150 participantes, 61% disseram que as decisões sobre o que produzir e como vender ficam a cargo dos pais ou de outros familiares, ou que não participam dessas escolhas. Apenas 10% afirmaram tomar as decisões. Vieira chama a atenção para o risco de perder jovens mesmo quando a atividade gera renda. “Uma propriedade rentável, mas onde o jovem trabalha sem remuneração própria e sem voz, tem risco alto de perder o sucessor”. As pesquisas mais consistentes sobre essa relação foram realizadas no Sul. Em estudo publicado em 2021, Raquel Breitenbach e Graziela Corazza entrevistaram 743 filhos de agricultores de 56 municípios do Rio Grande do Sul. Apenas 28,1% participavam plenamente das decisões da propriedade, e os jovens que pretendiam suceder os pais estavam mais envolvidos no trabalho e na gestão do que aqueles sem essa intenção.
A falta de interesse pela atividade, por sua vez, aparece pouco entre os motivos apontados pelos universitários da pesquisa da Wyden para não permanecer no campo. Apenas 4,7% escolheram essa opção, embora 29% planejassem sair para estudar ou trabalhar na cidade. As principais dificuldades mencionadas foram a baixa renda ou a instabilidade financeira (24%), a falta de crédito (15%) e a dificuldade de vender a produção por preços justos (13%). Uma dissertação defendida na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em 2012, encontrou um cenário menos favorável à permanência. A pesquisadora Isabela Gonçalves de Menezes entrevistou 194 jovens rurais do sertão sergipano que cursavam o ensino médio em escolas urbanas. A maioria pretendia viver na cidade e não queria repetir a trajetória dos pais na agricultura. Entre os poucos que planejavam continuar no campo, predominavam filhos de pequenos produtores de leite. José Augusto, de 21 anos, filho de agricultores de São Cristóvão, lembra das dificuldades que acompanhou em casa. “Vi o preço despencar na hora de vender, o atravessador levar a melhor parte e a gente investir sem ter ninguém pra orientar”. Para Miguel Arcanjo, da coordenação estadual do Coletivo de Juventude do MST em Sergipe, quando os filhos veem os pais trabalharem a vida inteira sem conseguir pagar as contas com tranquilidade, deixar o campo passa a ser uma alternativa de sobrevivência. A saída para a cidade, afirma, “acaba sendo vista como a única alternativa de sobrevivência, e não como uma escolha”.
Para muitos jovens, a possibilidade de assumir uma propriedade depende de uma herança que pode demorar décadas para chegar e nem sempre está regularizada. Savian explica que muitas terras passam de uma geração para outra sem partilha formalizada, inventário ou titulação individual. “O jovem trabalha numa terra que não é dele nem consegue comprovar vínculo com ela, o que o impede de acessar crédito e outras políticas”, diz. Spanevello acrescenta que, no Brasil, a sucessão frequentemente só se concretiza após a morte do pai e que os critérios de herança podem deixar as mulheres em desvantagem, contribuindo para que invistam mais nos estudos e deixem o campo mais cedo. Os dados do IBGE ajudam a dimensionar a diferença entre homens e mulheres na população rural sergipana. Em 2010, último ano com esse recorte, havia 108 rapazes para cada 100 moças de 15 a 29 anos no meio rural do estado. Nas cidades, a proporção se invertia: eram 94 rapazes para cada 100 moças. “O jovem que espera décadas pela terra sem garantia de que ela será dele aprende a construir a vida em outro lugar”, afirma Spanevello. Para quem não tem propriedade e depende de uma política de acesso à terra, a dificuldade começa antes mesmo da sucessão familiar. Arcanjo aponta a “paralisação da Reforma Agrária” como um dos principais obstáculos enfrentados pelos jovens acampados, que vivem “a lona preta e a incerteza do amanhã, sem poder planejar o futuro”. Mesmo para quem já conseguiu um lote em assentamento, a terra não resolve todos os problemas. “Ter a terra é só o primeiro passo. O gargalo hoje está na produção e na comercialização”, afirma.
O acesso ao crédito e à assistência técnica poderia ajudar os jovens a melhorar a produtividade e tornar as pequenas propriedades economicamente viáveis, mas esses recursos ainda chegam a uma parcela reduzida dos produtores. No Censo Agropecuário de 2017, apenas 8,9% dos estabelecimentos sergipanos recebiam orientação técnica, menos da metade da média nacional, de 20,2%. Entre os produtores com menos de 25 anos, o índice caía para 5,7%. José Augusto associa a dificuldade à trajetória dos próprios pais. “Eles nunca tiveram assistência técnica de verdade, aprenderam tudo na prática, errando e acertando”, diz. Na pesquisa da Wyden, o crédito também aparece como uma barreira concreta: dos 42 universitários que já tentaram obter financiamento rural em nome próprio, 24 (57%) não conseguiram. Além disso, 21% dos 150 participantes afirmaram não conhecer as linhas de crédito disponíveis. Arcanjo relata dificuldades semelhantes entre os jovens assentados. “O acesso ao crédito rural, como o Pronaf Jovem, é extremamente burocrático; os bancos exigem garantias que a juventude muitas vezes não tem, e o recurso demora ou nem chega”, afirma.

A educação também influencia a decisão de permanecer ou deixar o campo, mas seus efeitos dependem das oportunidades encontradas pelos jovens depois de estudar. Entre os produtores rurais sergipanos, 22,4% nunca haviam frequentado a escola, segundo o Censo Agropecuário de 2017. As novas gerações, por outro lado, chegam à universidade e passam a comparar as possibilidades de trabalho e renda dentro e fora da propriedade. Mendes define a escolarização como uma “faca de dois gumes”. “Se a escola rural não dialoga com a realidade da propriedade e se a família não tem como aplicar o que o jovem aprende, a escolarização acaba sendo o caminho de saída”, afirma. No estudo gaúcho com 743 filhos de agricultores, 64,3% planejavam fazer faculdade, mas apenas 28,7% pretendiam voltar ao campo depois da formação. Pedro quer estudar para conquistar “uma profissão que me dê estabilidade, um salário, uma vida mais tranquila”. José Augusto, por sua vez, escolheu um caminho diferente. Estudante de Engenharia Agronômica, ele pretende usar a formação para continuar na atividade rural. “Muita gente estranha, porque ainda existe a ideia de que quem estuda quer sair do campo. No meu caso foi o contrário: eu fui estudar justamente pra ficar”, diz. Ele já testa novas técnicas em uma pequena área da propriedade e conta que o pai, inicialmente desconfiado, “tem escutado mais”. Nos relatos dos dois jovens, a relação entre estudo e permanência assume rumos distintos, mas a disposição da família para ouvir as novas gerações permanece como um ponto decisivo.
Entre o anúncio e a porteira
A redução do número de pessoas ocupadas na agropecuária não impediu o crescimento da produção, e a cadeia do leite ajuda a entender essa mudança em Sergipe. Entre 2016 e 2024, o volume produzido no estado quase dobrou, passando de 360 milhões para 679 milhões de litros por ano, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal, do IBGE. No mesmo período, a média anual de pessoas ocupadas em toda a agropecuária sergipana caiu cerca de 26%. O aumento da produção esteve associado principalmente à melhora do rendimento dos animais: o número de vacas ordenhadas cresceu 10,7%, enquanto a produção por vaca aumentou cerca de 70%. Até 2017, o número de estabelecimentos que produziam leite também havia crescido, de 16,6 mil, em 2006, para 17,6 mil, em 2017, enquanto no Brasil houve queda de 12,9%. Os indicadores medem fenômenos diferentes e não permitem calcular quanto cada trabalhador passou a produzir, mas mostram que a expansão do leite ocorreu com um aumento expressivo do rendimento por animal. Em escala nacional, outra transformação aparece na relação entre área e mão de obra: entre 2012 e 2025, a área agrícola cresceu 43,2%, enquanto o número de empregados por 100 hectares caiu 38,5%, segundo estudo da CNA com o Cepea/Esalq. Para a sucessão rural, o desafio não se resume a atrair jovens, mas envolve prepará-los para gerir uma atividade que exige cada vez mais conhecimento técnico e investimento. Savian resume essa necessidade: “Nesse contexto, não basta financiar. É preciso criar condições para que o jovem amplie a escala, agregue valor e se organize”.
Em Porto da Folha, no Sertão sergipano, a trajetória de Gabriel de Oliveira mostra como a formação técnica pode mudar a relação de um jovem com a atividade rural. Segundo a Emdagro, o município foi o segundo maior produtor de leite do estado em 2024, com 98 milhões de litros. Gabriel cresceu acompanhando a ordenha de madrugada e chegou a pensar em deixar o campo, como outros jovens de sua idade, diante do trabalho pesado e da incerteza sobre o retorno financeiro. Aos 22 anos, ingressou no curso de bovinocultura de leite do Senar Jovem, programa do Senar Sergipe voltado a filhos de produtores e trabalhadores rurais de 16 a 30 anos.

As aulas teóricas eram realizadas à noite, pela internet, muitas vezes com dificuldade para conseguir conexão. “Eu fazia aquelas coisas todo dia, mas sem entender o porquê”, lembra. Na propriedade onde trabalhava, propôs a adoção da ordenha mecânica, mudanças no manejo do rebanho, o plantio de palma forrageira e a reforma das instalações. “Ele confiou em mim, e a produção saiu de 150 litros por dia pra 480”, relata. O aumento, informado por Gabriel, não teve o período de referência esclarecido e não foi confirmado pela reportagem com o proprietário. “Foi ali que eu entendi que dava pra trabalhar com isso e viver disso, e não só aguentar.” Depois, começou a formar o próprio rebanho: passou de um animal para oito, fez curso de inseminação artificial e começou a investir em genética. O pai também incorporou parte dos conhecimentos que ele adquiriu. Aos 26 anos, Gabriel trabalha no controle zootécnico de uma fazenda. O caso não permite medir o alcance da formação técnica entre os jovens sergipanos, já que o Senar Sergipe não divulga o total de jovens formados pelo programa. Em 2025, foram oferecidas 300 vagas. Ainda assim, a experiência mostra uma diferença importante em relação à realidade descrita por Pedro: Gabriel encontrou resultados econômicos visíveis e espaço para participar das decisões.
Para Savian, a permanência dos jovens no campo não pode depender das oportunidades que encontram em cada família. É necessário combinar segurança jurídica sobre a terra, crédito compatível com a realidade da propriedade, assistência técnica contínua e renda suficiente para tornar a atividade atrativa. “Quando falta uma dessas peças, as outras perdem eficácia”, afirma. Em julho de 2025, a sucessão rural ganhou uma política nacional específica com a Lei nº 15.178, que instituiu a Política Nacional de Juventude e Sucessão Rural, voltada a jovens da agricultura familiar de 15 a 29 anos. No crédito, o Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 elevou o limite do Pronaf Jovem de R$ 35 mil para R$ 50 mil e reduziu os juros de 3% para 2% ao ano. O secretário de Estado da Agricultura, do Desenvolvimento Agrário e da Pesca de Sergipe, Zeca da Silva, aponta como sinal de avanço o crescimento dos recursos de uma linha de financiamento do Banco do Nordeste, de R$ 356,9 milhões em 2023 para R$ 665,8 milhões em 2024. Os valores, porém, abrangem toda a área de atuação do banco, que inclui os nove estados nordestinos e partes de Minas Gerais e do Espírito Santo, e representam recursos financeiros, não o número de jovens beneficiados. A quantidade de contratos em Sergipe não é pública. Em âmbito nacional, um estudo baseado em dados do Banco Central registrou 1.998 contratos do Pronaf Jovem entre 2013 e 2020, o equivalente a 0,02% das operações do programa. Savian alerta que “crédito sem projeto, sem mercado e sem acompanhamento pode gerar endividamento em vez de autonomia”. Para ele, também é fundamental que o jovem contrate o financiamento “em seu próprio nome, e não apenas como dependente da propriedade do pai”.
O acesso à terra também conta com uma linha específica de financiamento. Em Sergipe, a compra é mais frequente do que a herança como forma de aquisição das propriedades rurais: segundo o Censo Agropecuário de 2017, apenas 36,3% dos proprietários receberam a terra por herança ou doação, ante 52,1% no Nordeste. Cerca de dois terços declararam ter comprado a propriedade. Desde 2024, o Programa Nacional de Crédito Fundiário oferece o Terra da Juventude, voltado a agricultores de até 30 anos, com juros de 0,5% ao ano, bônus de até 40% para pagamentos em dia e possibilidade de comprar de pais ou avós, ainda em vida, os direitos de herança, desde que haja concordância dos demais herdeiros. Não há, contudo, balanço público com o número de contratos por estado ou faixa etária. Zeca da Silva reconhece que “o acesso efetivo ao crédito fundiário e a regularização de terras continuam sendo barreiras estruturais”. Sem título de propriedade ou Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) em nome próprio, o jovem pode não conseguir apresentar as garantias exigidas para acessar as políticas. Em julho de 2025, o governo de Sergipe informou ter entregado 4.285 títulos de terra desde 2023, sem especificar quantos beneficiaram jovens. Segundo o secretário, a intenção é fazer com que os filhos de agricultores “deixem de ser apenas ‘ajudantes’” e passem a atuar como coprodutores ou gestores. A mudança também responde a um problema apontado por Mendes: “Quem trabalha sem renda própria e sem voz é tratado como ajudante, não como sucessor”.
A assistência técnica é apontada pelo secretário estadual como a “principal ferramenta de capilaridade” para apoiar os produtores e está sob responsabilidade da Emdagro. O relatório anual de atividades mais recente publicado pela empresa, referente a 2022, registra 25.396 agricultores familiares atendidos com assistência técnica e políticas públicas. O documento não apresenta o recorte por idade. Em comparação, Sergipe tinha 72 mil estabelecimentos familiares no Censo Agropecuário de 2017, embora os números se refiram a unidades e públicos diferentes e não permitam calcular diretamente a cobertura do serviço. O Senar Sergipe também oferece acompanhamento técnico e gerencial por 24 meses a produtores selecionados, mas não divulga quantos jovens são atendidos. Savian e Spanevello defendem que a extensão rural vá além das técnicas de produção e ajude as famílias a planejar a sucessão e negociar a participação dos filhos na gestão. É justamente esse diálogo que falta em parte das famílias ouvidas pela Wyden: 41% dos participantes disseram nunca ter conversado com a família sobre sucessão. Entre as iniciativas de maior alcance previstas para a região está o Sertão Vivo, financiado pelo BNDES e pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), com R$ 150,2 milhões em crédito e recursos não reembolsáveis destinados a cerca de 37,7 mil famílias do semiárido. A meta é que metade das pessoas apoiadas seja jovem. O projeto foi anunciado em abril de 2026, mas, até então, não havia registro de desembolso para Sergipe.
A diferença entre as fontes aparece principalmente na forma de avaliar os resultados das políticas públicas. Zeca da Silva afirma que o governo estadual acompanha “a produtividade e o rejuvenescimento das cadeias” em que Sergipe tem maior participação e cita a safra de milho, estimada pelo IBGE em 1,05 milhão de toneladas em 2025. Na avaliação do secretário, quando os jovens percebem que a propriedade da família pode se tornar “um negócio moderno, rentável e tecnificado”, permanecer no campo “deixa de ser uma imposição e passa a ser uma escolha profissional viável e lucrativa”. Ele, porém, não apresentou indicadores específicos que comprovem o rejuvenescimento das atividades rurais. Savian defende outro conjunto de medidas: quantos jovens conseguem terra, cadastro e crédito em nome próprio, quantos permanecem na atividade depois de alguns anos e se conquistam renda e participação efetiva na gestão. “Se a contratação cresce, mas a permanência não melhora, se o crédito se concentra em quem já tem estrutura, ou se o jovem segue sem titularidade e sem decisão, a política está oferecendo condição pontual, não perspectiva de vida”, afirma. Nenhum desses indicadores é publicado para Sergipe. Arcanjo também questiona a efetividade das iniciativas existentes, que, segundo ele, “existem no papel, mas na prática são fragmentadas”. Para o representante do MST, programas de compras públicas de alimentos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), precisariam contemplar efetivamente a juventude rural. Na pesquisa da Wyden, 25% dos participantes apontaram a possibilidade de obter renda suficiente e estável como principal condição para permanecer no campo. Outros 14% citaram crédito para investir e 13%, melhores condições de vida na área rural.
As evidências disponíveis mostram que a gestão das propriedades rurais sergipanas envelheceu entre 2006 e 2017, enquanto a participação dos jovens no comando dos estabelecimentos diminuiu. No mesmo período mais recente analisado pela PNAD Contínua, entre 2016 e 2025, a ocupação na agropecuária estadual caiu cerca de um terço, mesmo com o crescimento da produção em cadeias como a do leite. Ainda não há dados oficiais que mostrem quantos jovens ingressam na atividade, quantos deixam o campo ou quantos permanecem após receber crédito ou acesso à terra. A primeira medida oficial virá com o Censo Agropecuário de 2027, que, segundo o IBGE, vai perguntar pela primeira vez se as propriedades têm sucessor. As políticas públicas ampliaram limites de financiamento e criaram novas possibilidades de acesso à terra, mas os dados disponíveis não permitem saber com precisão quem foi alcançado nem se essas iniciativas garantem a continuidade da atividade.
O futuro da produção rural não depende apenas de quem recebe uma propriedade, mas de quem consegue construir nela um projeto de vida. Para muitos jovens, herdar a terra não significa ter autonomia sobre ela, assim como gostar do campo não significa encontrar condições para permanecer. Pedro ainda pretende estudar antes de decidir o próprio caminho. Diz que pensaria com carinho em ficar se visse ser possível ter uma vida boa no campo, “ganhando de verdade e decidindo junto” com o pai. “Não é que eu não goste da terra. É que eu quero poder escolher, e não só herdar”.



