Sul de Santa Catarina amplia reciclagem e busca reinserir plástico na cadeia produtiva


Antes de virar matéria-prima para uma nova embalagem, o plástico recolhido nas ruas do Sul catarinense passa pelas mãos de trabalhadores como Luiz, catador autônomo que percorre bairros e pontos comerciais em busca de material reaproveitável. Ele separa o que encontra por tipo e qualidade, mas parte do material chega suja ou misturada a resíduos orgânicos e perde valor comercial antes mesmo da venda. Em algumas semanas, o preço do quilo do plástico compensa o trabalho de coleta, separação e transporte. Em outras, a queda no valor faz a conta deixar de fechar. O material recolhido, que poderia retornar à indústria como insumo, acaba então, em parte, no aterro sanitário junto com o rejeito.
Os dados da consultoria MaxiQuim, que acompanha anualmente a indústria brasileira de reciclagem de plástico desde 2018, mostram que o país já tem capacidade instalada para produzir resina reciclada em volume suficiente para atender às novas metas de conteúdo reciclado que entram em vigor em 2026. Ao mesmo tempo, as compras desse material pela indústria vêm caindo. O movimento aparece em diferentes etapas da cadeia de reciclagem. Na ponta da coleta, catadores como Luiz enfrentam a oscilação no valor pago pelo material. Na indústria, a redução das compras de resina reciclada ocorre mesmo diante da capacidade instalada para sua produção.
O plástico que fica pelo caminho
Uma pesquisa do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), no Câmpus Criciúma, mostra o que acontece quando esse ciclo não se completa. Coordenado pelo professor Pedro Rosso, o estudo encontrou microplásticos em 100% das amostras coletadas em quatro praias do Sul catarinense, Balneário Gaivota, Balneário Arroio do Silva, Balneário Rincão e Praia Grande, em Laguna, entre novembro de 2024 e maio de 2025. Ao todo, foram identificadas 1.299 partículas. Dessas, 95% tinham menos de um milímetro e a maior parte era formada por fibras plásticas.

Segundo Rosso, os fragmentos provavelmente são resultado da degradação de plásticos maiores, como redes de pesca, tecidos sintéticos e embalagens. O tamanho reduzido faz com que essas partículas sejam difíceis de identificar por quem frequenta as praias. A equipe já iniciou uma nova etapa da pesquisa para investigar a presença desses materiais em mariscos-da-praia consumidos por comunidades locais. A pesquisa passa, assim, a observar também a possível presença do resíduo na cadeia alimentar. "O plástico não desaparece quando deixa de ser visível: ele pode se fragmentar em partículas minúsculas, permanecer no ambiente e representar impactos ambientais que ainda precisamos compreender melhor", afirma o professor.
Enquanto a pesquisa do IFSC registra a presença do plástico fragmentado no ambiente, o caso de Araranguá mostra uma das etapas anteriores desse processo. Durante quase nove anos, segundo o promotor de Justiça Thiago Naspolini Berenhauser, da 5ª Promotoria de Araranguá, o Ministério Público de Santa Catarina tentou, por meio de reuniões, ofícios e propostas de Termo de Ajustamento de Conduta, levar o município a implementar a coleta seletiva e adequar a gestão de resíduos sólidos. As medidas não resultaram em avanço concreto, apesar de a legislação federal, estadual e municipal já estabelecer exigências para o setor.
A questão chegou ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), que atendeu a recurso do Ministério Público e determinou que Araranguá estruture o serviço e o plano de gestão de resíduos até abril de 2028. A decisão prevê multa diária de R$ 1 mil em caso de descumprimento. Para Naspolini, a determinação "representa um passo importante para tirar essa política do papel". A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) estabelece regras para a destinação dos resíduos e prevê a recuperação dos materiais recicláveis. Segundo o promotor, a ausência de coleta seletiva aumenta o risco de proliferação de vetores e doenças, pode contaminar solo e água e impede que materiais com potencial de reaproveitamento sejam destinados à cadeia de reciclagem.
O promotor também aponta impactos sobre comunidades de menor renda que vivem próximas a pontos de descarte irregular e ficam mais expostas aos riscos sanitários. Araranguá, segundo Naspolini, é um município de relevância turística e precisa considerar essa característica na gestão dos resíduos, tanto para os moradores quanto para os visitantes.
A situação, no entanto, varia entre os municípios do Sul catarinense. Em Cocal do Sul, a coleta seletiva funciona desde 2011. Cerca de 8% dos resíduos do município são atualmente encaminhados para reciclagem, segundo o diretor do Consórcio Intermunicipal de Resíduos Sólidos Urbanos da Região Sul (Cirsures), Tiago Maragno. De acordo com ele, o percentual está acima da média entre os municípios que contam com o serviço. O Cirsures também trata cerca de 250 milhões de litros de efluentes por ano, incluindo o chorume do aterro sanitário que atende a região.

Para Maragno, a operação mostra que a gestão de resíduos envolve outras etapas além da coleta. Mesmo com o serviço implantado, ele reconhece que "esse número também mostra que ainda existe um espaço significativo para ampliar o aproveitamento dos materiais".
A engenheira sanitarista e ambiental do Cirsures, Graziela Bolan, aponta outro limite. "A existência do serviço, por si só, não garante que todo o material reciclável seja efetivamente aproveitado." Segundo ela, apenas 36% dos municípios brasileiros contam com coleta seletiva. Em Cocal do Sul, portanto, a coleta já está implantada, mas o percentual de resíduos encaminhados para reciclagem indica que parte do material ainda não chega a essa etapa. A distância entre o descarte, a coleta, a separação e o reaproveitamento ajuda a explicar por que materiais plásticos continuam chegando ao ambiente mesmo em regiões onde existem iniciativas de reciclagem.
Entre o resíduo e a fábrica, uma cadeia que se rompe
É essa questão que a especialista em economia circular Maria Inez coloca no centro do debate. Segundo ela, Santa Catarina, especialmente o Sul do estado, vive uma fase de transição entre a recuperação de resíduos e a consolidação de uma economia circular. A região conta com coleta seletiva, cooperativas, estruturas de triagem e empresas capazes de transformar resíduos em insumos. Mas, para que o material complete esse percurso, é preciso mais do que a coleta. "Coletar não significa necessariamente circularizar. A embalagem precisa ser separada corretamente, triada, beneficiada, transformada em matéria-prima com qualidade e, principalmente, encontrar uma indústria disposta a comprá-la e incorporá-la novamente à produção", afirma.
Segundo Maria Inez, já existem iniciativas na região em que o plástico separado é triado, enfardado e comercializado para indústrias. A gestão municipal desigual, a contaminação e a baixa qualidade dos resíduos, além de dificuldades de logística e escala, ainda limitam esse processo. Um levantamento do Sebrae-SC citado pela especialista contabiliza mais de 4 mil empresas formais catarinenses ligadas à coleta, reciclagem, recuperação e comercialização de resíduos. Desse total, 94% são pequenos negócios. O setor também aparece nos dados da indústria recicladora. Um estudo da consultoria MaxiQuim divulgado em setembro de 2023, com base em dados de 2022, apontou que Santa Catarina tinha o maior índice de reciclagem mecânica de plástico entre os estados brasileiros, com 64,5% do material gerado. O indicador se refere à indústria recicladora e não mede a eficiência da coleta nos municípios. Por isso, o percentual convive com índices municipais menores, como os 8% registrados em Cocal do Sul.
Para Maurício Jaroski, da MaxiQuim, os números apontam para uma diferença entre a capacidade de produção de plástico reciclado e as compras feitas pela indústria. "O que estamos observando hoje é um descompasso importante entre a capacidade que o Brasil já possui para produzir plástico reciclado e a disposição da indústria em comprar esse material", afirma. Segundo ele, a cadeia recicladora já tem capacidade instalada para atender à nova regulamentação, mas as compras de resina reciclada vêm caindo diante da concorrência com o plástico virgem. O preço da matéria-prima virgem é influenciado pela oferta internacional, especialmente dos Estados Unidos e da China. A queda no valor dos resíduos também afeta quem está na base da cadeia. "Quando o valor dos resíduos cai, a coleta deixa de ser economicamente atrativa, reduzindo a quantidade de material disponível e comprometendo todo o ciclo da reciclagem", diz Jaroski. Segundo ele, o cenário pode resultar em uma "situação paradoxal: capacidade de reciclagem disponível, mas recicladores operando abaixo do potencial e trabalhadores na base da cadeia perdendo renda".
A Artplast, recicladora fundada em 2003 em São Ludgero, também identifica essa diferença na ponta de quem compra o material. Segundo um dirigente da empresa, ouvido por telefone, a Artplast recicla plástico pós-consumo e aparas industriais por meio de processos de separação, trituração, lavagem e granulação. A empresa transforma o material em PP moído e lavado, PEAD triturado, PET flakes e PSAI reciclado, comercializados por lote para indústrias dos setores de construção civil, calçados, móveis, embalagens, têxtil, automotivo e eletroeletrônico. Cada lote é negociado conforme especificações de cor, granulometria e grau de contaminação. A produção ocorre de forma contínua, mensal, e representa um exemplo de material que passa pela triagem e chega novamente à indústria.
Nos últimos dois anos, porém, a empresa registrou mudanças nesse mercado, segundo o dirigente. A queda no preço da resina virgem reduziu a diferença de preço em relação ao material reciclado. Enquanto a resina virgem acompanha fatores como câmbio, petróleo e insumos petroquímicos, o preço do reciclado também depende da oferta de resíduos e da qualidade do material separado. "Mesmo com recicladoras operando bem abaixo da capacidade instalada, a demanda não acompanha", afirma o dirigente da Artplast. Ele estima que a infraestrutura de reciclagem do país esteja sendo utilizada em cerca de 70%, atribuindo parte da ociosidade à dificuldade de obter fardos com qualidade adequada.
Outro obstáculo apontado pelo dirigente é a falta de padronização e rastreabilidade do material. Diferentemente da resina virgem, produzida com especificações definidas, o plástico reciclado "ainda não tem especificação padronizada". A qualidade pode variar de acordo com a origem do resíduo, o processo de triagem e o método utilizado no reprocessamento. Por isso, segundo ele, grandes marcas precisam qualificar cada reciclador antes de fechar contratos. Dois marcos regulatórios recentes passaram a tratar dessa questão. O Decreto Estadual nº 1.056/2025 criou o sistema catarinense SisREV, voltado à rastreabilidade da logística reversa de embalagens. Já o Decreto Federal nº 12.688/2025 estabeleceu metas de conteúdo reciclado obrigatório, de 22% em 2026, com aumento gradual até 40% em 2040. As regras passaram a valer para grandes empresas em janeiro de 2026 e para pequenas e médias a partir de julho. Para o dirigente da Artplast, as normas "começaram a criar uma demanda mais estruturada e deveriam, em tese, favorecer empresas como a nossa". A queda nos preços e a concorrência com a resina virgem, no entanto, continuam pressionando o setor.
"Temos capacidade de produção e qualidade para vender muito mais do que vendemos hoje", afirma o dirigente. Segundo ele, a cadeia ainda enfrenta dificuldades na coleta seletiva, na previsibilidade dos preços e na formação de um mercado comprador para o material reciclado. A Artplast e outras recicladoras da região mostram que o plástico separado pode seguir até uma nova indústria. Não há, porém, um dado que permita medir quanto do plástico coletado no conjunto do Sul catarinense percorre esse caminho até se transformar novamente em produto. Os casos existentes mostram que esse processo ocorre, mas não dimensionam sua participação em toda a cadeia regional.
Na ponta da coleta, Luiz relata os mesmos obstáculos. Segundo ele, boa parte do material chega misturada a resíduos orgânicos ou contaminada, o que reduz seu valor comercial. Os preços também variam ao longo do ano. "Tem período em que o quilo do plástico compensa mais e tem período em que o valor cai tanto que o custo para coletar, separar e transportar praticamente não fecha a conta", afirma. Em alguns momentos, diz, sequer há comprador para o material recolhido. "Não adianta ter material disponível se não existe comprador naquele momento." Nesses casos, o plástico pode se acumular ou "ser levado para o aterro junto com o rejeito". Para o catador, a variação interfere diretamente na renda. "Não é apenas uma questão de mercado, é uma diferença direta na renda do mês."
A dimensão desse mercado aparece também nos dados da Federação dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de Santa Catarina (Feccat). Segundo o presidente da entidade, Dorival Rodrigues dos Santos, o estado reúne cerca de 30 mil catadores, 70% deles mulheres. Uma parcela significativa ainda trabalha de forma autônoma, sem vínculo com cooperativas ou associações. "A economia circular só vai funcionar de verdade se todos os elos forem considerados", afirma Dorival. Na avaliação de Maria Inez, a demanda por material reciclado interfere nas demais etapas da cadeia. A redução das compras pode afetar o valor pago pelo material, as condições de operação de recicladores e cooperativas e a atratividade da coleta, com reflexos na quantidade e na qualidade dos resíduos que chegam à indústria.
Um piloto para fechar o ciclo
É nesse ponto que entra o Projeto Defesa Circular, desenvolvido pelo Sindicato das Indústrias Plásticas do Sul Catarinense (Sinplasc) em parceria com a Prefeitura de Orleans. Segundo o diretor executivo da entidade, Elias Caetano, a proposta parte de uma mudança de foco. "Não podemos mais discutir o futuro da indústria apenas a partir da produção e do consumo. Precisamos olhar para o que acontece com o material depois que ele é descartado", afirma. O projeto tem como foco os plásticos de uso único e os materiais considerados de baixa reciclabilidade. Entre as fontes de microplásticos citadas pelo professor Pedro Rosso, apenas as embalagens se enquadram na categoria de uso único. Redes de pesca e tecidos sintéticos chegam ao ambiente por outros caminhos, como o desgaste e o abandono de equipamentos de pesca no mar e a liberação de microfibras durante o uso e a lavagem de roupas sintéticas.
O Defesa Circular prevê a instalação de uma central de triagem e de uma usina de valorização de rejeitos em Orleans. Segundo a proposta, a estrutura pretende viabilizar o reaproveitamento de 100% dos resíduos sólidos urbanos gerados no município, uma meta que ainda não foi testada na prática. O projeto reúne poder público, indústria, cooperativas, universidades e instituições de pesquisa. A intenção, segundo Caetano, é integrar etapas que hoje funcionam separadamente, "desde a separação e a coleta, passando pelas cooperativas, triagem, transporte e processamento, até chegar à indústria recicladora". A proposta também prevê o levantamento de dados sobre o volume coletado, a quantidade efetivamente recuperada e o destino do material em cada etapa.
O projeto ainda está em fase piloto em um único município e não possui resultados de escala divulgados. A proposta é apresentada pelo Sinplasc, entidade que representa o setor envolvido na iniciativa. Caetano reconhece que "nenhum elo sozinho consegue fechar esse ciclo". Segundo ele, indústria, poder público, cooperativas e consumidores precisam atuar de forma coordenada para que o material percorra todas as etapas da cadeia.
A relação entre regulação ambiental e competitividade industrial também esteve no centro de uma audiência pública do Senado Federal realizada em São Ludgero, cidade onde está sediada a Artplast. O encontro reuniu representantes da indústria, pesquisadores, poder público e catadores para discutir projetos de lei que restringem plásticos descartáveis e multicamadas. Dados apresentados pelo diretor executivo do Sinplasc, Elias Caetano, indicam que a região reúne cerca de 240 indústrias distribuídas por 30 municípios, com 12 mil empregos diretos e 48 mil indiretos. A movimentação anual do setor é estimada em R$ 6,3 bilhões. Os números também foram divulgados pela cobertura local da audiência.
O senador Esperidião Amin, autor da proposta de realização da audiência, defendeu que eventuais restrições ao setor sejam precedidas por um diagnóstico. "Antes de estabelecer restrições, temos o dever de diagnosticar corretamente o problema e, a partir desse diagnóstico, encontrar soluções práticas e reais", afirmou. Para o senador, "Santa Catarina tem condições de transformar esse desafio em uma referência nacional, desde que consiga conciliar preservação ambiental, desenvolvimento econômico e geração de empregos".
Para Maria Inez, Santa Catarina ainda não consolidou uma economia circular. Segundo ela, o estado possui coleta seletiva, cooperativas, indústria recicladora e um marco regulatório em formação, mas ainda precisa avançar na reincorporação do material à cadeia produtiva. Na avaliação da especialista, o resultado da reciclagem deve ser acompanhado não apenas pelo volume coletado, mas também pela quantidade de plástico que retorna à indústria e substitui matéria-prima virgem.
É a essa distância entre coletar e circularizar que Luiz volta, com os pés na rua e as mãos no material. Para ele, o caminho passa por mais organização entre quem descarta, quem coleta, quem processa e quem compra: "se houver mais parceria entre prefeitura, cooperativas, empresas e catadores, com melhor estrutura e compradores mais estáveis, muito mais plástico poderia deixar de ir para o aterro e voltar para a indústria como matéria-prima". Se o Defesa Circular, as novas metas federais e estaduais de conteúdo reciclado e a mobilização política em torno da audiência de São Ludgero vão de fato reduzir essa distância é algo que só os próprios dados que esses projetos prometem gerar e os próximos anos de coleta nas ruas do Sul catarinense poderão mostrar.



