Em tempos de desinformação, jornalismo aproxima população de direitos e serviços
- Brian Sthefano

- 4 de ago.
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O vídeo dizia que a vacina causava autismo. Outro afirmava que provocava morte súbita. Um terceiro garantia que alterava o DNA de quem a recebesse. Maria Viviane assistia a todos pelo celular. Convencida de que fazia um alerta, compartilhava o conteúdo nos grupos da família e dos amigos. Quando a agente comunitária de saúde batia à porta para avisar que Heitor, seu filho de seis anos, já podia ser vacinado, Maria Viviane agradecia, mas não o levava ao posto.
O receio daquela mãe cearense não era um caso isolado. O Brasil concentra 40% de todo o conteúdo antivacina que circula no Telegram na América Latina e no Caribe. Entre 2016 e 2025, mais de 580 mil publicações com esse tipo de desinformação foram identificadas pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getulio Vargas (FGV).
No caso de Maria Viviane, nem as campanhas oficiais nem as visitas frequentes da agente de saúde foram suficientes para dissipar a insegurança. A mudança começou diante de outra tela. Ela assistiu a uma reportagem que desmontava, uma a uma, as principais fake news sobre vacinação. A história dela ajuda a responder uma pergunta que ultrapassa o debate sobre vacinas: qual é o papel do jornalismo em uma sociedade onde a informação circula em abundância, mas a compreensão dela nem sempre acompanha esse movimento? É nessa distância entre o excesso de conteúdo e o entendimento dos fatos que o jornalismo se torna ponte entre o cidadão, seus direitos e a democracia.
O tamanho do problema
Adriana Gomes acompanha histórias como a de Maria Viviane há mais de vinte anos. Técnica em enfermagem e agente comunitária de saúde concursada do Estado do Ceará, ela viu, do lado de dentro do sistema público, a relação da população com a vacina se transformar. "Antes da pandemia, a cobertura vacinal da área onde atuo chegava a praticamente 100%. As pessoas confiavam nas vacinas, procuravam a unidade de saúde para tirar dúvidas e entendiam a imunização como um cuidado natural", lembra.
A rotina que ela descreve hoje é outra. "Depois da pandemia e da avalanche de informações falsas que circulou nas redes sociais, essa realidade mudou. Hoje, além de vacinar, nós precisamos desmentir boatos diariamente", relata. "Muitas pessoas chegam inseguras, questionando informações que receberam pelo celular ou pela internet. Isso impacta diretamente a adesão às campanhas e dificulta o cumprimento das metas de vacinação." O posto de saúde acumulou uma segunda função: desfazer, em conversas de balcão, o que a tela fez.
Os registros oficiais confirmam a percepção da agente. A média de cobertura das nove principais vacinas do calendário infantil caiu de 96,8% em 2015 para 71,7% em 2021, o pior resultado da série, com recuperação parcial para 75,9% em 2022, segundo dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI/DataSUS). Em pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria com cerca de mil médicos, em 2023, 81% relataram atender pais com medo de vacinar os filhos por causa de conteúdos falsos vindos das redes. E o levantamento da FGV acrescenta o dado que desmonta a hipótese de um surto passageiro: o volume de desinformação sobre vacinas em circulação em 2025 ainda era 122 vezes maior do que o registrado em 2019, antes da pandemia. A produção da mentira virou rotina. A hesitação diante do posto de saúde, também.

O terreno onde esse fenômeno avança ajuda a explicar sua força. No Ceará, a internet está presente em 92,3% dos lares, e 97,9% dos usuários acessam a rede pelo celular, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE. No país, 85% das pessoas se informam prioritariamente por redes sociais, segundo a OCDE, que, ao testar 21 países na tarefa de distinguir o verdadeiro do falso, encontrou o Brasil na última posição, com 54% de acerto, ante média global de 60%. E identificou um agravante: quanto maior a confiança do participante nas redes sociais, pior o seu desempenho no teste. O país que mais depende das redes para se informar é o que menos consegue filtrá-las.
A população percebe o problema, ainda que não consiga escapar dele. Sete em cada dez brasileiros afirmam ter visto, nos últimos meses, notícias que desconfiavam ser falsas, e 91% consideram que elas representam um perigo para a sociedade, apurou o DataSenado ao ouvir mais de 21 mil pessoas em 2024. O resultado é uma desconfiança difusa: quem convive diariamente com a mentira, sem instrumentos para separá-la, passa a duvidar de tudo, inclusive da informação correta.
As consequências ultrapassam a saúde. Estudo do Ipea publicado em 2024 mostra que a exclusão digital ainda impede as camadas mais vulneráveis de acessar e atualizar o Cadastro Único, porta de entrada do Bolsa Família, do BPC e da tarifa social. No sentido oposto, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social registrou em 2025 filas nos CRAS provocadas por boatos de um corte em massa do Bolsa Família e de um décimo terceiro que nunca existiu. A desinformação opera nos dois sentidos: faz multidões correrem atrás de um direito que não existe e faz famílias desistirem de direitos que existem.
O que esses movimentos têm em comum não é a mentira em si. É a distância entre a informação e a compreensão. No caso de Luiz Esteves, quem primeiro enxergou essa distância foi um menino de dez anos sentado diante da televisão.
Traduzir também é fazer jornalismo
"Compreender é o primeiro passo para exercer direitos." A frase sintetiza a forma como Luiz Esteves enxerga o jornalismo. Apresentador do Grupo Cidade de Comunicação e mediador de debates eleitorais desde 2012, ele diz que essa percepção surgiu ainda na infância, muito antes da primeira redação. Criado pela avó a partir dos dez anos de idade, assistia diariamente ao telejornal ao lado dela. Com o tempo, percebeu que, embora acompanhasse o noticiário todos os dias, ela compreendia apenas parte das informações. Eram temas que atravessavam sua rotina — aposentadoria, saúde, contas públicas — apresentados em uma linguagem que nem sempre dialogava com a realidade de quem os assistia.
"Aquilo me marcou muito e me fez entender que informar não é apenas transmitir um fato, mas fazer com que a informação seja compreendida", afirma Luiz Esteves. A experiência ao lado da avó orientou a forma como passou a enxergar o jornalismo. "Se a população não consegue entender uma notícia, ela dificilmente conseguirá transformar aquela informação em uma decisão, em um direito exercido ou em um serviço acessado."
Na prática, diz, esse princípio orienta o trabalho diário na redação. "Em um cenário de excesso de informações e de desinformação, o jornalista assume um papel de mediador: traduz temas complexos, verifica fatos e transforma informações que muitas vezes são técnicas ou burocráticas em algo que a população consiga compreender." Para ele, esse processo não significa simplificar a realidade, mas torná-la acessível sem perder o rigor da apuração. "Tudo isso precisa ser feito em uma linguagem acessível, sem abrir mão do rigor técnico e da responsabilidade ética que caracterizam o verdadeiro jornalismo."
É esse método que, na avaliação do apresentador, diferencia o jornalismo profissional da produção de conteúdo nas redes sociais. "Hoje qualquer pessoa consegue publicar uma informação em questão de segundos, mas isso não faz de qualquer pessoa jornalista. O que diferencia o jornalismo profissional é justamente o compromisso com a apuração, com a ética e com a responsabilidade de ouvir todos os lados antes de informar."
Para Esteves, é justamente desse compromisso que nasce o caráter público da profissão. "Quando uma reportagem explica como acessar um benefício social, orienta uma família sobre um serviço público, esclarece uma mudança na legislação ou evita que uma notícia falsa prejudique milhares de pessoas, ela deixa de apenas noticiar um fato e passa a prestar um serviço à sociedade." Nas pesquisas em comunicação, essa prática é reconhecida como jornalismo de serviço, modalidade que busca transformar a informação em ferramenta para a tomada de decisões e o exercício da cidadania. "A maior função do jornalismo é aproximar as pessoas da informação de qualidade para que elas possam tomar decisões conscientes, acessar direitos e exercer plenamente a cidadania."
A expansão da desinformação levou as redações a reforçarem essa função. Durante um único fim de semana da campanha presidencial de 2018, a Agência Lupa identificou, em média, uma mentira por hora nos ambientes que monitorava. A partir daquele cenário, a checagem de fatos deixou de ser uma iniciativa pontual e passou a integrar a rotina de diferentes veículos. O g1 criou o Fato ou Fake, dezenas de redações passaram a atuar em conjunto por meio do Projeto Comprova, e agências especializadas, como Lupa e Aos Fatos, acumulam mais de 19 mil verificações publicadas na última década. Mais do que responder ao avanço da desinformação, essas iniciativas evidenciam uma ampliação do próprio jornalismo de serviço: além de informar, tornou-se necessário verificar, contextualizar e explicar informações que circulam em alta velocidade nas plataformas digitais.
Foi uma reportagem produzida nesse contexto que chegou até Maria Viviane. O vídeo reunia e desmentia dez informações falsas sobre vacinas, as mesmas que ela recebia e repassava havia meses. "Aquilo me fez parar para pensar. A partir dali, deixei de acreditar em tudo o que aparecia na internet, comecei a pesquisar mais, procurar fontes confiáveis e assistir aos jornais", conta. Depois disso, levou o filho para ser imunizado.
O episódio ilustra um aspecto que ultrapassa a checagem de fatos. O trabalho jornalístico não se encerra no desmentido de uma informação falsa; ele se completa quando transforma informação em compreensão e compreensão em uma decisão capaz de produzir efeitos concretos na vida das pessoas.
O jornalismo como ponte
A relação entre informação, cidadania e democracia é o ponto central da análise do professor Miguel Macedo. Docente do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) e filiado à Associação Cearense de Imprensa (ACI), ele defende que o papel do jornalismo vai além de informar. "O jornalismo, por sua natureza, é um serviço prestado à democracia. Quando explica uma política pública, esclarece um direito, fiscaliza o poder público ou combate uma informação falsa, ele fortalece a cidadania. E isso exige método, checagem e responsabilidade", explica.
Na avaliação do professor, reduzir a desinformação à circulação de notícias falsas ignora um problema mais profundo: a dificuldade crescente de compreender processos sociais, políticos e institucionais cada vez mais complexos. Os reflexos dessa realidade já aparecem na percepção da própria população. Pesquisa DataSenado realizada em 2024 mostra que 81% dos brasileiros acreditam que notícias falsas podem influenciar o resultado das eleições. Quando a compreensão falha, a desconfiança deixa de atingir apenas conteúdos isolados e passa a alcançar as próprias instituições democráticas. É nesse cenário que, segundo o professor, o jornalismo profissional assume uma função que vai além da divulgação de notícias. "Ele organiza, contextualiza, verifica e traduz a realidade para que as pessoas possam tomar decisões conscientes", analisa.
Essa mediação ganhou urgência com a mudança na forma de consumir informação. As redes sociais ampliaram o alcance de conteúdos produzidos sem compromisso editorial e transferiram parte do debate público para plataformas que distribuem informações sem responder pela veracidade do que circula nelas. "As redes sociais e os algoritmos distribuem conteúdos, mas não substituem o trabalho jornalístico, porque não possuem compromisso ético com a apuração nem responsabilidade sobre os impactos daquela informação na vida das pessoas", compara. A diferença também está no modo de reagir à mentira: o método jornalístico acrescenta informação verificada ao debate em vez de retirar vozes dele, um combate que se realiza por meio da liberdade de expressão, e não contra ela.
A função fiscalizadora citada pelo professor tem medida concreta no Ceará. Estudo publicado na revista do Tribunal de Contas do Estado mostra que, nos últimos cinco anos, apenas dois municípios cearenses cumpriram integralmente os critérios de transparência avaliados. O dado indica que disponibilizar informações públicas não garante, por si só, o controle social. É o acompanhamento jornalístico que contextualiza esses registros, cobra explicações e permite à população entender como as decisões administrativas afetam sua vida, transformando portais de transparência em instrumentos reais de prestação de contas.
Essa mediação, no entanto, não existe em quase metade do mapa brasileiro. O Atlas da Notícia, censo do jornalismo local realizado pelo Projor, identificou em 2025 que 2.504 municípios não possuem um único veículo jornalístico, realidade que alcança mais de 20 milhões de pessoas. O Ceará figura entre os estados nordestinos com menor proporção de desertos de notícia, com 316 veículos mapeados. Onde o jornalismo desaparece, a informação continua circulando, mas sem apuração, contexto ou verificação, e o espaço antes ocupado pela imprensa passa a ser preenchido por conteúdos sem compromisso com o interesse público.
O próprio jornalismo, contudo, atravessa uma crise de confiança que ameaça sua capacidade de cumprir esse papel. O Digital News Report 2025, do Instituto Reuters, mostra que apenas 42% dos brasileiros confiam nas notícias, o menor índice registrado no país em uma década, e que 46% evitam o noticiário com alguma frequência. Para Macedo, a reconstrução dessa credibilidade depende menos de velocidade e mais dos princípios que historicamente diferenciam a profissão. "A velocidade nunca pode ser mais importante do que a veracidade. A história do jornalismo já mostrou inúmeras vezes que publicar antes de apurar pode causar danos irreversíveis", adverte. Em uma sociedade sobrecarregada de informações, conclui, o maior diferencial do jornalista continua sendo "o compromisso com a verdade possível, construída por meio da investigação, da contextualização e da ética".
Na ponta do sistema público, Adriana Gomes descreve o que acontece quando esse circuito funciona. "Quando a população recebe informação correta, baseada em evidências e transmitida com responsabilidade, ela consegue decidir com mais segurança", observa a agente de saúde. Foi uma decisão desse tipo que levou Heitor à sala de vacinação, depois que a mãe reviu o que compartilhava. Em escala doméstica, o gesto reproduz o que esta reportagem encontrou em todas as suas frentes de apuração: uma informação verificada alcançou quem precisava dela, virou compreensão e produziu um efeito que se pode conferir, um menino imunizado, um boato a menos em circulação, uma decisão tomada com base em fatos.
É essa sequência que nenhuma plataforma reproduz e que nenhuma democracia dispensa. Em uma sociedade onde a informação circula em abundância e a compreensão dela nem sempre acompanha o movimento, o jornalismo permanece sendo a ponte entre o cidadão, seus direitos, a Justiça e a democracia. E atravessá-la continua começando pelo mesmo passo que uma avó, diante do telejornal, ensinou sem saber a um futuro jornalista: compreender.



