Alta complexidade, alto custo e SUS: o papel dos hospitais filantrópicos no sistema de saúde do Paraná
- Brian Sthefano

- 6 de fev.
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Procedimentos de alta complexidade, como transplantes, tratamentos oncológicos avançados, cirurgias cardiovasculares e terapias intensivas, estão entre os serviços mais caros e tecnologicamente exigentes da medicina moderna. No Sistema Único de Saúde (SUS), a oferta desses atendimentos depende de uma estrutura hospitalar altamente especializada, capaz de manter equipes multidisciplinares permanentes, tecnologia de ponta e funcionamento contínuo para casos graves e urgentes. Ao mesmo tempo, relatórios do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) mostram que procedimentos classificados como média e alta complexidade já concentram mais de 55% do orçamento assistencial federal destinado à atenção especializada, mesmo representando parcela menor do volume total de atendimentos.
No Paraná, parte significativa dessa estrutura é sustentada por hospitais filantrópicos, que concentram parcela relevante dos atendimentos de média e alta complexidade e operam como pilares da assistência pública. Levantamento do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) indica que mais de um terço dos leitos hospitalares disponíveis ao SUS no estado estão em instituições filantrópicas, realidade que reforça a dependência estrutural do sistema público em relação a esse modelo de assistência.
Quanto custa manter a alta complexidade funcionando dentro do SUS
Manter serviços de alta complexidade dentro do Sistema Único de Saúde envolve uma estrutura que concentra parte dos maiores custos da medicina moderna. Procedimentos como transplantes, tratamentos oncológicos avançados, cirurgias cardiovasculares, terapias intensivas e tratamentos para doenças raras exigem tecnologia de alto custo, equipes multiprofissionais permanentes e uso contínuo de medicamentos especializados. Estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Brasília, com base em atendimentos realizados no Hospital Universitário de Brasília, apontou que o custo hospitalar pode ultrapassar R$ 19 mil por paciente em casos de maior complexidade clínica. O dado ajuda a dimensionar o impacto financeiro da alta complexidade dentro do sistema público, onde a remuneração dos procedimentos segue valores padronizados da tabela nacional do SUS, atualizada por meio de ajustes pontuais definidos pelo Ministério da Saúde.
No modelo atual do SUS, os valores pagos pelos procedimentos hospitalares são definidos nacionalmente por meio do Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos (SIGTAP). Dados técnicos apresentados pela Associação Brasileira de Medicina Intensiva (AMIB) indicam que o custo médio diário de um leito de UTI adulto no Brasil pode variar entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil, dependendo da estrutura tecnológica e do perfil assistencial, enquanto repasses públicos historicamente ficam abaixo desse intervalo em diversos cenários assistenciais. O descompasso entre custo operacional e remuneração pública é apontado por entidades hospitalares como um dos principais desafios para manutenção de serviços especializados.

O debate sobre financiamento ganhou força em discussões recentes sobre revisão do modelo de custeio hospitalar. Dados consolidados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o gasto público federal em saúde corresponde a cerca de 1,7% do Produto Interno Bruto brasileiro, percentual inferior ao observado em países com sistemas universais de saúde, onde o investimento público costuma superar 6% do PIB. A diferença evidencia limitações estruturais do financiamento do sistema diante do avanço tecnológico da medicina contemporânea.
No Paraná, esse cenário ganha contornos próprios. Informações da Secretaria de Estado da Saúde mostram que a produção ambulatorial e hospitalar de média e alta complexidade representa a maior parcela do gasto assistencial estadual, impulsionada principalmente pelo crescimento das doenças crônicas e pelo envelhecimento populacional. Projeções demográficas do IBGE indicam que a população idosa do estado deve crescer mais de 60% até 2040, tendência que amplia a demanda por procedimentos especializados e tratamentos de longa duração.
Além do financiamento federal, o modelo paranaense incorpora mecanismos estaduais de sustentação hospitalar. Programas estaduais de apoio hospitalar foram estruturados para fortalecer unidades estratégicas e ampliar a capacidade assistencial em média e alta complexidade, especialmente em hospitais com alta dependência de atendimento SUS. Gestores hospitalares apontam que esse modelo híbrido — que combina financiamento federal, complementação estadual e capacidade operacional filantrópica — se tornou essencial para manutenção da oferta de procedimentos de alto custo. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico cria nova pressão financeira. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram crescimento contínuo no registro de medicamentos biológicos e terapias avançadas no país, tratamentos que possuem custo elevado e passaram a integrar protocolos terapêuticos de doenças oncológicas, imunológicas e raras. A incorporação dessas tecnologias aumenta a sobrevida dos pacientes, mas amplia o custo médio hospitalar.
Nesse cenário, especialistas em economia da saúde apontam que a sustentabilidade da alta complexidade no SUS depende cada vez mais da articulação entre financiamento público, gestão hospitalar eficiente e atuação da rede filantrópica. No Paraná, essa relação se consolidou como base estrutural da organização da saúde pública, sustentando parcela relevante da oferta de tratamentos de maior custo e complexidade dentro do sistema.
O papel dos hospitais filantrópicos na alta complexidade do SUS no Paraná
Para milhares de famílias brasileiras, a busca por tratamento médico de alta complexidade começa com medo, incerteza e a sensação de que o tempo corre contra. Em muitos casos, o diagnóstico de uma doença grave significa também o início de uma corrida contra a falta de estrutura médica disponível perto de casa. No Sistema Único de Saúde, essa realidade passa por uma rede silenciosa que sustenta parte dos procedimentos mais caros da medicina moderna. No Paraná, dados do setor mostram que hospitais filantrópicos concentram parcela significativa dos atendimentos de média e alta complexidade e se tornaram parte estrutural do funcionamento da rede pública, especialmente em áreas como transplantes, oncologia e doenças raras.
Foi dentro dessa estrutura que os irmãos gêmeos Daniel e Samuel Alves, naturais de Brejo Santo, no Ceará, conseguiram acesso a um tratamento que mudaria completamente a trajetória de vida deles. Ainda no primeiro ano de vida, os dois passaram a apresentar infecções recorrentes e sintomas graves. Na época do diagnóstico e do encaminhamento para tratamento especializado, a mãe relatou que a rotina da família passou a ser marcada por internações frequentes.

Em depoimento concedido naquele período, ela descreveu a gravidade do quadro enfrentado pela família. “O Daniel e o Samuel tinham muitas infecções. Principalmente o Samuel, que vivia mais no hospital do que em casa. Eles tinham pneumonia, diarreia e sangramento no nariz. Demorou para descobrirem o que meus filhos tinham. Isso ocorreu somente quando os dois tinham quase 1 ano de vida. Somos de Brejo Santo, no Ceará, e uma médica de Barbalha nos encaminhou para tratamento em Fortaleza, onde eles tomavam imunoglobulina. A médica de lá disse que o Daniel e o Samuel iriam ficar bons somente com o transplante de medula óssea e nos encaminhou para o Pequeno Príncipe, em Curitiba. Todo o tratamento foi realizado pelo SUS. Fomos muito bem atendidos, não precisamos gastar com nada, nem com remédio e comida. Em menos de três meses, já acharam um doador compatível.”

Os irmãos foram submetidos a transplante de medula óssea, procedimento considerado de alta complexidade dentro do SUS. Hoje, após o tratamento, as crianças levam vida considerada normal, com acompanhamento médico regular e desenvolvimento dentro do esperado para a idade.
Outra história que ajuda a ilustrar esse impacto é a de Gabriel Antoniutti, paciente do Hospital Pequeno Príncipe desde a infância.

Diagnosticado com mielomeningocele, condição neurológica congênita que exige acompanhamento contínuo e cirurgias ao longo da vida, ele passou boa parte dos primeiros anos em tratamento hospitalar. Durante esse período, ainda criança, entrevistou o jogador Pelé durante visita institucional ao hospital, episódio que se tornou símbolo da trajetória de superação do paciente.
Hoje, já adulto, Gabriel mantém rotina ativa e segue acompanhado clinicamente. Casos como os dele mostram como tratamentos de alta complexidade podem permitir qualidade de vida e inserção social ao longo dos anos, especialmente quando realizados de forma precoce e contínua dentro de centros especializados.
Casos como os de Daniel, Samuel e Gabriel ajudam a traduzir, na prática, o funcionamento de um sistema que depende de integração entre regulação pública, financiamento estatal e capacidade operacional hospitalar. No Paraná, hospitais filantrópicos funcionam como centros de referência para múltiplas regiões e concentram estrutura tecnológica e equipes médicas especializadas necessárias para atendimentos de maior complexidade.
Em um cenário de avanço tecnológico acelerado, aumento da demanda por tratamentos especializados e pressão constante sobre o financiamento público da saúde, a manutenção da alta complexidade dentro do SUS depende diretamente da integração entre políticas públicas e rede hospitalar filantrópica. No Paraná, esse modelo se consolidou como parte estrutural da assistência pública, garantindo acesso a tratamentos de alto custo e elevada complexidade para pacientes que dependem exclusivamente do sistema público de saúde.



