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Maior hospital pediátrico do país mostra como a filantropia sustenta a alta complexidade infantil no SUS

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 6 de fev.
  • 7 min de leitura
Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, é referência nacional em atendimento pediátrico de média e alta complexidade e realiza a maior parte dos procedimentos com pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde, modelo sustentado por recursos filantrópicos e parcerias públicas. Foto: Reprodução/Hospital Pequeno Príncipe
Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, é referência nacional em atendimento pediátrico de média e alta complexidade e realiza a maior parte dos procedimentos com pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde, modelo sustentado por recursos filantrópicos e parcerias públicas. Foto: Reprodução/Hospital Pequeno Príncipe

Todos os anos, milhares de crianças brasileiras dependem de estruturas hospitalares altamente especializadas para ter acesso a cirurgias complexas, transplantes e tratamentos de doenças raras. Em grande parte desses casos, o atendimento acontece em hospitais filantrópicos que atuam dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) e assumem procedimentos de alto custo e elevada complexidade. No Paraná, esse modelo se consolidou como parte essencial da rede pública, especialmente na assistência pediátrica.


Em Curitiba, o Hospital Pequeno Príncipe exemplifica esse cenário. Maior hospital exclusivamente pediátrico do país, a instituição concentra atendimentos de média e alta complexidade e mantém a maior parte dos serviços voltados a pacientes do SUS. A atuação do hospital mostra como a filantropia, aliada ao financiamento público, viabiliza tratamentos especializados que exigem tecnologia, equipes multidisciplinares e estrutura permanente de atendimento.


O que torna o atendimento pediátrico de alta complexidade mais complexo e mais caro


O tratamento de crianças com doenças graves exige uma estrutura hospitalar que vai muito além da adaptação de protocolos usados em adultos. Na pediatria de alta complexidade, cada procedimento envolve equipamentos específicos para diferentes fases do desenvolvimento, equipes multiprofissionais treinadas para atender recém-nascidos, bebês, crianças e adolescentes, além de centros cirúrgicos e unidades de terapia intensiva preparados para casos extremamente delicados. Esse nível de especialização tem impacto direto no custo. Enquanto a média de uma internação hospitalar geral no Sistema Único de Saúde (SUS) gira em torno de R$ 2 mil por paciente, estudos brasileiros mostram que internações pediátricas com necessidade de UTI podem ultrapassar R$ 30 mil, dependendo da gravidade do quadro clínico e do tempo de permanência hospitalar.


A complexidade também está ligada ao perfil das doenças atendidas. Cirurgias cardíacas congênitas, transplantes, câncer infantil e doenças raras exigem acompanhamento prolongado e, muitas vezes, múltiplas internações ao longo da infância. Além disso, a alta complexidade pediátrica concentra parte relevante dos custos hospitalares. Estudos científicos indicam que uma pequena parcela dos pacientes — cerca de 6% das internações pediátricas mais graves — pode responder por mais da metade dos custos totais do atendimento hospitalar, justamente por exigir tecnologia avançada, medicamentos de alto custo e equipes especializadas disponíveis de forma permanente.


Outro fator que pressiona o sistema é a redução estrutural da rede pediátrica ao longo dos últimos anos. Dados de entidades médicas apontam que o Brasil perdeu mais de 10 mil leitos pediátricos do SUS desde a década passada, o que concentrou o atendimento de casos graves em hospitais especializados. Esse cenário aumenta a pressão sobre unidades que já operam com alta demanda e eleva o custo médio dos atendimentos, já que esses centros concentram justamente os pacientes mais complexos do sistema.


Nesse contexto, hospitais pediátricos especializados passaram a assumir papel central dentro da rede pública de saúde, ao concentrar estrutura tecnológica, equipes altamente especializadas e capacidade de atendimento contínuo para casos de alta complexidade. Em Curitiba, o Complexo Pequeno Príncipe reúne esse modelo ao integrar assistência hospitalar, pesquisa científica e formação profissional. Segundo o diretor corporativo da instituição, José Álvaro da Silva Carneiro, a atuação do hospital parte do princípio de que o acesso ao tratamento não pode depender da condição socioeconômica das famílias, lógica que ajuda a explicar o papel dessas instituições dentro da rede pública de saúde.


A concentração da alta complexidade pediátrica em centros especializados reflete a organização atual do sistema de saúde brasileiro, em que hospitais filantrópicos mantêm parte significativa da estrutura necessária para procedimentos de alto custo e elevada complexidade clínica. Esse modelo permite que tratamentos altamente especializados permaneçam disponíveis dentro do SUS e sustenta a assistência de crianças que dependem exclusivamente da rede pública para acessar terapias avançadas, cirurgias complexas e acompanhamento médico de longo prazo.


O papel do Hospital Pequeno Príncipe na alta complexidade pediátrica do SUS


Quando Maria Eduarda Woinarovicz ainda era bebê, exames identificaram uma alteração genética associada ao risco de desenvolvimento de tumores raros na glândula adrenal. O diagnóstico precoce permitiu acompanhamento contínuo e tratamento especializado desde os primeiros anos de vida, algo decisivo para o controle da doença. Anos depois, a história se transformou em trajetória de reconstrução pessoal e acadêmica: hoje, já adulta, ela seguiu para a universidade e passou a atuar em projetos ligados à área da saúde e pesquisa. A trajetória resume o impacto de estruturas hospitalares capazes de acompanhar pacientes por longos períodos — da infância à vida adulta — especialmente em casos de doenças raras e de alta complexidade clínica.


Maria Eduarda e Bonald Figueiredo. Foto: Reprodução/Complexo Pequeno Príncipe
Maria Eduarda e Bonald Figueiredo. Foto: Reprodução/Complexo Pequeno Príncipe

Histórias como a de Maria Eduarda ajudam a dimensionar o papel que centros especializados exercem dentro do sistema público de saúde. Em Curitiba, o Hospital Pequeno Príncipe se consolidou como um dos principais polos de atendimento pediátrico de alta complexidade do país, concentrando desde cirurgias delicadas até transplantes e acompanhamento de doenças raras. A estrutura reúne cerca de 369 leitos hospitalares, incluindo aproximadamente 70 leitos de terapia intensiva pediátrica e neonatal, além de atuação em dezenas de especialidades médicas voltadas exclusivamente ao atendimento infantil.


A dimensão dessa estrutura aparece na escala assistencial mantida pela instituição ao longo do ano. Dados institucionais mostram que o hospital realiza cerca de 20 mil cirurgias anuais, mantém mais de 1 milhão de exames diagnósticos e acompanha mais de 100 mil crianças em diferentes níveis de atendimento, entre consultas ambulatoriais, internações e atendimentos de emergência. Esse volume coloca o hospital entre os principais centros de alta complexidade pediátrica da América Latina. Ao mesmo tempo, a maior parte dessa produção é destinada ao sistema público: aproximadamente 74% da assistência hospitalar é voltada a pacientes encaminhados pelo Sistema Único de Saúde. Na prática, isso significa que a mesma estrutura tecnológica, os mesmos protocolos clínicos e as mesmas equipes especializadas atendem, diariamente, crianças vindas da rede pública e privada, modelo que caracteriza o papel estrutural da filantropia dentro da alta complexidade pediátrica brasileira.


Esse modelo assistencial também se reflete no reconhecimento internacional conquistado pela instituição. Na edição mais recente da lista dos Melhores Hospitais Especializados do Mundo, divulgada pela revista americana Newsweek, o Hospital Pequeno Príncipe avançou posições e passou a ocupar o 70º lugar entre os 250 melhores hospitais pediátricos do planeta. Pelo quinto ano consecutivo, é o primeiro hospital exclusivamente pediátrico da América Latina no ranking e o único representante do Sul do Brasil. Segundo a diretora executiva do hospital, Ety Cristina Forte Carneiro, o reconhecimento está diretamente ligado à combinação entre assistência médica, ensino, pesquisa e inovação. Ela afirma que, mesmo atuando como hospital filantrópico, a instituição mantém o mesmo padrão estrutural e tecnológico para todos os pacientes. De acordo com a gestora, cerca de 74% da assistência hospitalar é destinada ao SUS, mantendo equivalência nos materiais, medicamentos, estrutura e equipes envolvidas no atendimento.


Histórias como a de Maria Eduarda ajudam a explicar por que centros pediátricos especializados concentram casos raros e de alta complexidade. No Hospital Pequeno Príncipe, esse perfil aparece também em situações recentes, como a de dois irmãos que foram internados após complicações respiratórias associadas à Covid-19. Durante a investigação clínica, a equipe identificou uma síndrome autoimune genética rara, conhecida como APS1, condição que passou a integrar pesquisas internacionais sobre fatores genéticos ligados à resposta ao coronavírus. O tratamento exigiu internação prolongada, acompanhamento multidisciplinar e integração entre assistência hospitalar e pesquisa científica.


Esse nível de complexidade ocorre em um cenário de pressão crescente sobre a estrutura pediátrica brasileira. Levantamentos do Conselho Federal de Medicina indicam que o país perdeu cerca de 15 mil leitos pediátricos do SUS nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, estudos científicos apontam que o Brasil possui pouco mais de 6 mil leitos de UTI pediátrica, sendo aproximadamente metade deles destinada ao sistema público. A combinação entre redução estrutural e demanda crescente por atendimento especializado amplia a dependência de centros capazes de absorver casos graves, especialmente em áreas como transplantes, oncologia e doenças raras.


Nesse contexto, a ampliação de capacidade hospitalar torna-se estratégica. Nos últimos anos, o Hospital Pequeno Príncipe expandiu sua estrutura de terapia intensiva pediátrica, aumentando o número de leitos e ampliando a capacidade de atendimento em áreas críticas como cardiologia pediátrica e pós-operatório de cirurgias complexas. A expansão acompanha uma tendência nacional de concentração da alta complexidade em centros especializados, que reúnem tecnologia, equipes médicas altamente qualificadas e capacidade diagnóstica avançada.


Esse conjunto de assistência especializada, pesquisa e formação profissional contribuiu para que o hospital fosse reconhecido como centro de excelência pediátrica pelo Ministério da Saúde, consolidando o papel da instituição dentro da rede pública e reforçando sua atuação como referência nacional em atendimento infantil de média e alta complexidade. Em um cenário em que a pediatria de alta complexidade depende de tecnologia, financiamento contínuo e equipes altamente especializadas, estruturas filantrópicas como essa passaram a funcionar como parte essencial da base assistencial do sistema público brasileiro.


A filantropia como base da alta complexidade pediátrica no Brasil


A concentração da alta complexidade pediátrica em centros especializados reflete a organização atual do sistema público de saúde no Brasil. Em áreas como transplantes, oncologia infantil, doenças raras e cirurgias altamente especializadas, a capacidade de atendimento depende da existência de estruturas hospitalares capazes de manter tecnologia avançada, equipes médicas permanentes e atendimento contínuo dentro do Sistema Único de Saúde.


Nesse cenário, hospitais filantrópicos passaram a ocupar papel estratégico ao concentrar parte relevante desses procedimentos, especialmente em regiões fora dos grandes centros. O modelo combina financiamento público, recursos próprios e investimentos contínuos em tecnologia e qualificação profissional, permitindo a manutenção de serviços que exigem alto custo operacional e grande complexidade assistencial.


O resultado é a formação de uma rede que sustenta parte significativa da oferta de alta complexidade pediátrica no país. Em um sistema que ainda enfrenta desafios estruturais e desigualdade na distribuição de recursos hospitalares, a atuação dessas instituições segue diretamente ligada à capacidade do SUS de manter tratamentos especializados disponíveis em diferentes regiões do Brasil.





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