Comércio sustenta geração de empregos e acompanha transformação urbana em Balneário Camboriú
- Brian Sthefano

- 26 de fev.
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Toda cidade expõe seu pulso econômico antes nas vitrines do que nos relatórios oficiais. O movimento das portas abertas, a rotatividade das lojas e a ocupação dos pontos comerciais sinalizam se o crescimento urbano está, de fato, convertendo expansão territorial em atividade produtiva. Quando o comércio se consolida, ele estrutura empregos, sustenta a circulação de renda e amplia a capacidade arrecadatória do município.
Em Balneário Camboriú, esse termômetro aparece também nos indicadores. A cidade lidera ranking do Sebrae/SC com 23,61% de empresas por habitante, índice associado à alta densidade urbana e a um perfil de renda acima da média catarinense. No plano nacional, o setor de comércio e reparação de veículos cresceu 1,6% em ocupação no último trimestre de 2025, o equivalente a mais de 299 mil pessoas a mais, segundo a Pnad Contínua do IBGE. Nesse ambiente de adensamento e expansão, a consolidação do varejo acompanha a transformação urbana e reforça a capacidade local de gerar empregos, arrecadação e dinamismo econômico.
Crescimento urbano impulsiona expansão do comércio em Balneário Camboriú
Balneário Camboriú tem 139.155 habitantes e densidade demográfica de 3.077,70 moradores por quilômetro quadrado, segundo o Censo 2022 do IBGE. A taxa é mais de dez vezes superior à média brasileira e coloca o município entre os mais adensados de Santa Catarina. Em um território limitado, o crescimento urbano ocorre por concentração populacional e essa característica molda diretamente a dinâmica do comércio.
Em cidades espalhadas territorialmente, o varejo depende de deslocamento. Em Balneário Camboriú, a proximidade entre moradia, trabalho e lazer reduz distâncias e amplia o fluxo espontâneo de consumidores. “O alto adensamento urbano cria uma condição extremamente favorável ao comércio porque concentra consumidores em um espaço geográfico reduzido. Isso diminui custos logísticos, aumenta o fluxo espontâneo e garante escala para operações varejistas”, afirma o empresário e administrador Eduardo Castelo Branco.
O movimento urbano encontra respaldo nos números empresariais. Dados da Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Serviço (Sicos), com base na Junta Comercial de Santa Catarina (Jucesc), indicam que o município acumulou 7.698 novas empresas em 2024. O volume representa, em média, mais de 20 novos CNPJs por dia ao longo do ano. Em uma cidade com pouco mais de 139 mil habitantes, a proporção revela intensidade empresarial acima da média estadual.
A comparação histórica reforça o cenário. Nos últimos cinco anos, o município manteve ritmo elevado de constituição de empresas, acompanhando o avanço imobiliário e a consolidação do setor de serviços. Esse crescimento não ocorre de forma isolada. Ele acompanha a verticalização intensificada na última década, que ampliou significativamente a oferta de unidades residenciais e comerciais.
A expansão imobiliária altera o perfil econômico da cidade. Quanto maior a concentração de moradores em áreas centrais e na orla, maior a previsibilidade de demanda para comércio e serviços. “Cidades com mercado imobiliário dinâmico e alta densidade tendem a gerar uma cadeia ampla de empresas formais. Não se trata apenas de iniciativa individual, mas de uma estrutura econômica orientada ao consumo e à valorização patrimonial”, explica Castelo Branco.
A valorização do metro quadrado introduz outro efeito: seleção econômica. Atividades com maior margem e maior capacidade de absorver custos fixos permanecem nos eixos mais valorizados. O resultado é um varejo segmentado, com presença crescente de lojas especializadas e serviços de maior valor agregado. Em bairros predominantemente residenciais, o comércio mantém perfil funcional, voltado à demanda cotidiana.
A sazonalidade turística amplia esse arranjo, mas não o sustenta sozinha. O Sindilojas de Balneário Camboriú e Camboriú projetou crescimento de 5% a 6% nas vendas durante o Carnaval de 2025. O dado indica reforço no faturamento em períodos de alta temporada, enquanto a base permanente de moradores garante fluxo estável ao longo do ano. O contexto estadual também favorece o setor. Segundo análise da Fecomércio-SC com base na Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, as vendas do comércio catarinense cresceram 7,2% no acumulado de 12 meses até outubro de 2024. Municípios com renda acima da média estadual e forte vocação turística tendem a absorver parte desse dinamismo.
Em Balneário Camboriú, os vetores são convergentes: alta densidade populacional, valorização imobiliária, ritmo consistente de abertura de empresas e incremento sazonal do turismo. O comércio surge como resultado desse conjunto de fatores e se consolida como eixo estruturante da economia municipal. A verticalização não apenas redefine o skyline; ela reorganiza fluxos de consumo e amplia a escala das operações varejistas.
Como o comércio impulsiona o emprego e sustenta a renda na cidade
O peso do comércio na economia local se torna mais evidente quando observado pelo mercado de trabalho formal. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), ano-base 2022, indicam que Balneário Camboriú registrava 58.412 vínculos com carteira assinada. Desse total, 16.092 estavam concentrados no setor de comércio, o que representa 27,55% dos empregos formais do município.
Na prática, mais de um em cada quatro trabalhadores formais da cidade atua diretamente em atividades comerciais. O setor aparece como o segundo maior empregador local, atrás apenas dos serviços, que concentram pouco mais da metade dos vínculos. A construção civil e a indústria ocupam participação significativamente menor.
A distribuição evidencia a centralidade do comércio na estrutura produtiva urbana. Diferentemente de municípios industriais, onde a geração de empregos depende da produção manufatureira, Balneário Camboriú apresenta uma economia voltada à circulação de bens e serviços. O varejo, nesse contexto, sustenta parcela expressiva da massa salarial formal e influencia diretamente a dinâmica de renda.
A formalização do emprego tem efeito multiplicador. Cada vínculo ativo representa salário regular, contribuição previdenciária, acesso a crédito e capacidade de consumo. Em economias locais baseadas em serviços e varejo, a estabilidade do emprego comercial impacta desde o pagamento de aluguel até o financiamento de bens duráveis.
O cenário nacional reforça esse contexto. O Novo Caged registrou a criação de 1,279 milhão de postos formais no Brasil em 2025, indicando ciclo de recuperação do emprego. Em estados com desempenho consistente no setor terciário, como Santa Catarina, o ambiente tende a favorecer municípios cuja economia se apoia no comércio e nos serviços.
O desempenho econômico local também é influenciado pelo nível de renda. Segundo o IBGE, o município apresentou PIB per capita de R$ 64.707,50 em 2023. Embora o indicador não reflita diretamente o salário médio do trabalhador, ele sinaliza capacidade de consumo superior à média nacional, o que contribui para a sustentação do comércio como empregador relevante.
A dinâmica do emprego comercial não se limita à abertura de vagas. Ela envolve manutenção de quadros, rotatividade e adaptação às variações de demanda ao longo do ano. Em cidades com forte atividade turística e elevada densidade de serviços, o comércio atua como amortecedor econômico, absorvendo parte da força de trabalho em momentos de expansão e ajustando-se conforme o ciclo de consumo.
Ao concentrar mais de um quarto dos vínculos formais do município, o comércio desempenha papel estruturante na economia de Balneário Camboriú. O setor não apenas acompanha o crescimento urbano, mas transforma circulação de consumidores em postos de trabalho formais e renda distribuída na cidade.
Sustentabilidade do crescimento: os desafios para manter o dinamismo do comércio
Se o comércio ocupa posição central na economia de Balneário Camboriú, a continuidade desse dinamismo dependerá menos da expansão recente e mais da capacidade de atravessar ciclos econômicos com estabilidade. Para o mestre em Economia e professor de Relações Internacionais da Wyden, Carlos Saraiva, o município opera hoje a partir de dois motores claros: o ciclo imobiliário e uma economia de serviços com forte densidade empresarial. A questão central, segundo ele, é saber se a cidade está construindo uma base permanente de demanda ou apenas acompanhando ondas de valorização e sazonalidade.
“Comércio sustentável depende menos do pico de consumo na alta temporada e mais de fluxo contínuo ao longo do ano”, afirma Saraiva. Quando a economia se apoia excessivamente em verão e feriados, o mercado tende a funcionar em “modo sanfona”: contrata intensamente e demite na baixa, o que reduz produtividade e dificulta investimento. Para ele, o equilíbrio passa por diversificação da demanda e integração regional, garantindo clientela estável além do calendário turístico.
Outro ponto sensível é a composição do tecido econômico. Densidade empresarial, por si só, não assegura resiliência. “O que importa é a qualidade dessa base produtiva. Quanto maior a presença de serviços menos sensíveis ao ciclo — como saúde, educação, tecnologia, turismo premium e eventos corporativos — maior a capacidade de atravessar choques de renda e crédito”, explica. Se o centro de gravidade estiver concentrado em varejo tradicional de baixa margem, a exposição a oscilações econômicas aumenta.
O especialista também alerta para o papel ambivalente do mercado imobiliário. O setor impulsiona renda e arrecadação, mas pode elevar custos fixos acima da capacidade de geração de caixa das empresas. Aluguéis comerciais pressionados reduzem margens e tornam o comércio mais dependente de volume. “Sustentabilidade exige que a expansão venha acompanhada de infraestrutura, mobilidade e planejamento urbano. Caso contrário, o boom pode virar estrangulamento.”
No campo do emprego, o desafio é combinar qualificação prática e estabilidade. Comércio e serviços exigem hoje competências que vão além do atendimento tradicional, como vendas consultivas, operação integrada entre loja física e digital e gestão por indicadores. Sem avanço em produtividade, o setor cresce em quantidade, mas não necessariamente em qualidade salarial.
Em uma cidade onde o comércio ocupa papel estruturante, o futuro dependerá menos do ritmo imediato de crescimento e mais da capacidade de manter produtividade, qualidade urbana e retenção de profissionais. O dinamismo foi construído; a sustentabilidade, agora, é o próximo teste.



