top of page

Como o varejo de Balneário Camboriú enfrenta os meses de baixa no turismo

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 28 de fev.
  • 7 min de leitura

Fora da alta temporada, lojistas apostam na diversificação de atrativos, no fortalecimento do turismo de eventos e negócios e em campanhas promocionais voltadas ao público regional para reduzir os efeitos da sazonalidade sobre o faturamento. Foto: Reprodução/Internet
Fora da alta temporada, lojistas apostam na diversificação de atrativos, no fortalecimento do turismo de eventos e negócios e em campanhas promocionais voltadas ao público regional para reduzir os efeitos da sazonalidade sobre o faturamento. Foto: Reprodução/Internet

Durante o verão, Balneário Camboriú chega a receber entre 1,5 milhão e 2 milhões de turistas apenas entre dezembro e março, segundo estimativas da Agência de Desenvolvimento do Turismo de Santa Catarina (SANTUR), número que supera em muitas vezes a população fixa de cerca de 139 mil moradores e impulsiona o faturamento do comércio local. Passado o pico da temporada, porém, o fluxo diminui de forma significativa, a ocupação hoteleira recua, e o varejo entra em um período de ajuste, com impacto direto sobre vendas, contratações e planejamento financeiro.


A concentração de visitantes em poucos meses do ano evidencia a dependência da economia local em relação ao turismo e impõe ao comércio o desafio de manter receita e empregos fora do calendário de verão. Para atravessar a baixa temporada, lojistas apostam na diversificação de atrativos, no fortalecimento do turismo de eventos e negócios e em campanhas voltadas ao público regional, numa tentativa de reduzir os efeitos da sazonalidade sobre o caixa das empresas.


Fim da alta temporada reduz movimento e impõe ajustes no varejo


A oscilação do fluxo turístico ao longo do ano se reflete claramente nos indicadores mais recentes de ocupação hoteleira em Balneário Camboriú. Em fevereiro — o auge da temporada — a taxa média chegou a 89,61% em 2025, o maior índice dos últimos cinco anos. Por comparação, nos anos anteriores, os percentuais foram progressivamente menores: 71,22% em 2020, 51,54% em 2021, 66,45% em 2022, 80,60% em 2023 e 77,47% em 2024, segundo dados do setor. A evolução desses números destaca não apenas o pico de movimento, mas também a volatilidade que o comércio local enfrenta ao longo do tempo.


Fora desse intervalo de alta, os meses seguintes tendem a registrar queda significativa no ritmo de vendas e na circulação de consumidores. A média anual de ocupação hoteleira em 2023 foi de 64,87%, muito abaixo dos picos registrados em fevereiro, e em maio — tradicional período de baixa — a taxa chegou a cerca de 42%, de acordo com dados do setor. Essa diferença, de quase 50 pontos percentuais entre a média anual e os piores meses, força empresas a rever metas, ajustar estoques e replanejar custos fixos.


Para o varejo, isso se traduz em menor circulação nas ruas e em revisões imediatas do planejamento financeiro. A redução de movimento após a temporada não apenas expõe a dependência do comércio em relação ao turismo, mas também impõe desafios concretos de gestão.


Segundo o professor Paulo Gustavo, mestre em Economia e docente do curso de Administração da Wyden, essa oscilação deixa de ser apenas uma característica do mercado e passa a representar um risco estrutural. “O varejo fatura muito em três ou quatro meses e depois enfrenta longos períodos de desaceleração. O risco é estruturar custos fixos com base no faturamento do pico”, afirma. Quando despesas como aluguel, folha salarial, estoque e crédito bancário são dimensionadas a partir dos melhores meses do ano, a retração posterior pode gerar descasamento financeiro, aumento do endividamento e pressão sobre o capital de giro.


No caso de Balneário Camboriú, Paulo Gustavo avalia que o verão ainda concentra parcela significativa da receita do comércio, funcionando como período decisivo para o resultado anual de muitas empresas. A vulnerabilidade surge quando essa concentração deixa de ser administrada como exceção e passa a orientar toda a estrutura do negócio. “O problema não é depender da alta temporada. Em cidades turísticas, isso é esperado. O risco está em organizar custos, crédito e expansão como se o desempenho do verão fosse a regra permanente, e não um pico temporário”, afirma. Segundo o professor, a leitura equivocada do desempenho sazonal leva a decisões que comprometem a saúde financeira ao longo do ano. Após um verão forte, é comum que empresários ampliem área física, transformem contratações temporárias em permanentes ou assumam financiamentos com base em projeções otimistas. “O pico de vendas cria uma sensação de crescimento estrutural que nem sempre se sustenta. Muitas vezes o faturamento aumenta, mas as margens seguem pressionadas por custos mais altos típicos da temporada. Quando o movimento recua, o lucro já estava comprimido”, explica.


Para ele, enfrentar a oscilação exige profissionalização da gestão. Isso implica tratar a sazonalidade como variável previsível do planejamento financeiro, com provisão de reservas nos meses de maior receita e controle rigoroso do capital de giro. Também envolve ampliar a base de consumidores ao longo do ano, fortalecendo o público residente, diversificando serviços e utilizando canais digitais para reduzir a dependência exclusiva da demanda presencial. “Sazonalidade não é um problema em si. Toda economia turística convive com ciclos. O problema é ignorar esses ciclos na precificação, na formação de estoque e na estrutura de custos”.


Promoções e diversificação marcam estratégia do varejo fora do verão


Diante da retração no fluxo turístico após a alta temporada, o varejo aposta em estratégias mais agressivas para manter receita e preservar margem. No Brasil, o volume de ofertas no comércio cresceu 72% em relação a 2019 e atingiu recorde em 2025, segundo levantamento da Shopping Brasil, que monitorou cerca de 90 milhões de anúncios em campanhas digitais, televisivas e encartes físicos. O dado indica que a intensificação de promoções se consolidou como ferramenta central de disputa por consumidor em períodos de menor demanda.


Em Balneário Camboriú, essa lógica se traduz em ajustes concretos no mix de produtos, canais de venda e perfil de público. Na Sol e Mar Moda de Praia, o faturamento recua entre 35% e 45% após o verão, o que obriga reconfiguração imediata da operação.


Sol e Mar Moda de Praia, no Centro de Balneário Camboriú, registra queda de 35% a 45% no faturamento após o verão e aposta em segmentação digital e ampliação do mix de produtos para manter as vendas na baixa temporada. Foto: Reprodução/Internet
Sol e Mar Moda de Praia, no Centro de Balneário Camboriú, registra queda de 35% a 45% no faturamento após o verão e aposta em segmentação digital e ampliação do mix de produtos para manter as vendas na baixa temporada. Foto: Reprodução/Internet

Localizada em área de grande circulação no Centro, a loja passou a estruturar campanhas específicas para consumidoras de cidades vizinhas e para moradoras permanentes do município. Parte do investimento em mídia digital é segmentado para Itajaí, Camboriú e Itapema, com anúncios direcionados e calendário promocional distribuído ao longo do ano. “No pós-temporada eu reduzo reposições, negocio prazos maiores com fornecedores e mantenho equipe mais enxuta. Trabalhamos promoções planejadas, não liquidações impulsivas, para preservar margem”, afirma a empresária Vanessa. Além das peças típicas de praia, a loja ampliou a oferta de moda fitness, itens versáteis e produtos voltados ao público residente, além de fortalecer o e-commerce e as vendas por redes sociais. A estratégia busca compensar a redução do turista sazonal com maior fidelização do consumidor local e regional.


O movimento ocorre em um cenário estadual de expansão do comércio. Em Santa Catarina, o setor registrou crescimento de 5,7% entre janeiro e novembro de 2025, segundo dados do IBGE, mais de três vezes acima da média nacional no mesmo período. No quarto trimestre de 2024, o comércio foi o segmento que mais ampliou a população ocupada no estado, com alta de 11,6%, de acordo com a PNAD compilada pela Fecomércio-SC.


A expansão estadual cria ambiente favorável, mas não elimina a volatilidade típica de cidades turísticas. Dados do grupo Almeida Junior, responsável pelo Balneário Shopping, indicam que a ampliação de opções gastronômicas e de serviços elevou em 20% o tempo médio de permanência dos clientes nos meses de inverno. Fora da temporada, cerca de 40% do faturamento de grandes lojistas do shopping vem de moradores de cidades vizinhas como Itajaí, Camboriú, Itapema e Brusque.


Na prática, isso significa que parte relevante da sustentação do comércio fora do verão depende da capacidade de atrair o público regional e transformar visitas ocasionais em consumo recorrente. Para Vanessa, a mudança foi estratégica. Após um verão excepcionalmente forte, ela ampliou investimentos acreditando na manutenção do ritmo e precisou renegociar compromissos nos meses seguintes. Desde então, passou a trabalhar com metas anuais, provisão para períodos de menor movimento e planejamento de estoque mais conservador.


O esforço para reduzir a dependência exclusiva da temporada não elimina a oscilação, mas redefine a forma como ela é administrada. Se o verão concentra volume e visibilidade, o restante do ano exige disciplina financeira, segmentação de público e estratégias permanentes de venda.


Planejamento anual passa a definir sobrevivência do varejo


Se nos últimos anos o desafio foi reagir à queda após o verão, em 2026 o foco passa a ser antecipação. O calendário econômico impõe um cenário atípico: nove feriados em dias úteis, realização da Copa do Mundo e eleições no segundo semestre. Para o varejo, a combinação exige cronograma rigoroso de estoque, promoções e fluxo de caixa. Sem alinhamento prévio, datas estratégicas podem se transformar em prejuízo.


Balneário Camboriú opera em um ambiente de crescimento acelerado. A cidade registrou aumento nominal de 169% na última década, impulsionada por valorização imobiliária, expansão do setor de serviços e migração qualificada. O avanço ampliou o poder de consumo local, mas também elevou custos operacionais como aluguel, folha salarial e despesas fixas. O varejo passou a conviver com estrutura mais onerosa e consumidor mais criterioso.


Lançamento do Projeto MICE 2026, iniciativa voltada ao fortalecimento do turismo de negócios em Balneário Camboriú; o segmento MICE reúne encontros, incentivos, conferências e exposições e busca reduzir a sazonalidade ao atrair eventos corporativos durante a baixa temporada. Foto: Reprodução/Internet
Lançamento do Projeto MICE 2026, iniciativa voltada ao fortalecimento do turismo de negócios em Balneário Camboriú; o segmento MICE reúne encontros, incentivos, conferências e exposições e busca reduzir a sazonalidade ao atrair eventos corporativos durante a baixa temporada. Foto: Reprodução/Internet

Na baixa temporada, especialmente entre abril e junho e novamente entre setembro e novembro, o perfil de demanda muda. O foco deixa de ser o turismo de massa e passa a priorizar três eixos: consumidor residente, público regional e turismo de negócios. A consolidação do Projeto MICE 2026, voltado a encontros, incentivos, conferências e exposições, integra a estratégia municipal de reduzir a sazonalidade. Eventos como a BNT Mercosul, tradicionalmente realizada em maio, atraem visitantes com perfil corporativo e poder aquisitivo distinto do turista de lazer.


Esse público altera a lógica de venda. Em vez de giro rápido e itens básicos, cresce a busca por produtos de maior valor agregado e serviços personalizados. O calendário comercial também ganha peso. Datas como Dia das Mães e Dia dos Namorados passam a concentrar esforços promocionais antes da Black Friday, exigindo planejamento antecipado de estoque e margem.


A fidelização do morador torna-se outro eixo central. Com clima mais ameno e menor pressão de fluxo, consumidores locais frequentam com mais regularidade os centros comerciais e a orla. Programas de relacionamento, descontos direcionados e ambientação temática de inverno passam a integrar a estratégia para manter frequência de compra. No ambiente digital, a personalização ganha relevância. Ferramentas de segmentação de base de clientes e envio direcionado de ofertas por WhatsApp e e-mail tornam-se instrumentos para manter recorrência. A lógica deixa de ser apenas atrair quem está na cidade e passa a cultivar relacionamento contínuo.


O calendário turístico ainda dita o ritmo da cidade, mas não é mais o único fator que sustenta o comércio. Entre crescimento regional e adaptação estratégica, a baixa temporada deixou de significar paralisia e passou a representar um período de gestão. Em Balneário Camboriú, o desafio não é repetir o verão, mas manter o caixa saudável quando ele termina.

Obrigado pelo envio!

Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. 

Núcleo de Jornalismo Experimental (NJE).

Plataforma digital independente dedicada à produção de reportagens autorais, surgida no contexto do curso de Jornalismo da Wyden.

bottom of page