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Como a cultura afrogeek está criando oportunidades de renda e empreendedorismo para jovens negros da periferia de Fortaleza

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • há 3 dias
  • 8 min de leitura
Empreendedores negros utilizam ilustração, artesanato, estética afro e produção cultural para transformar representatividade em geração de renda dentro de um mercado em expansão na capital cearense. Foto: Reprodução/Black Heroes
Empreendedores negros utilizam ilustração, artesanato, estética afro e produção cultural para transformar representatividade em geração de renda dentro de um mercado em expansão na capital cearense. Foto: Reprodução/Black Heroes

Entre action figures, quadrinhos e desenhos que ocupam as prateleiras dos lojistas do Sana, maior festival de cultura geek do Norte e Nordeste, um espaço apresenta uma proposta diferente. Na sala Black Heroes, personagens negros aparecem como protagonistas de ilustrações, peças artesanais e outros produtos criados por empreendedores da periferia de Fortaleza. Desde 2023, quando a iniciativa foi criada, o espaço reúne artistas, artesãos e profissionais da economia criativa interessados em conectar referências da cultura negra a um público que circula pelo evento.


No Ceará, onde 74% da população se declara preta ou parda, segundo o Censo 2022 do IBGE, negros estão à frente de 72,2% dos mais de 1,1 milhão de negócios existentes no estado, de acordo com levantamento do Sebrae Ceará divulgado em 2024. Na primeira etapa de 2026, o Sana recebeu 100.856 visitantes. Os organizadores da Black Heroes estimam que a sala alcance aproximadamente metade desse público a cada edição.


Em nível nacional, o empreendedorismo negro movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano e cresceu mais de 30% nos últimos 13 anos, segundo o DataSebrae, em ritmo superior ao registrado entre empreendedores brancos no mesmo período. Apesar da dimensão econômica, o Ceará não dispõe de indicadores capazes de mensurar quanto desse movimento está relacionado à economia criativa ligada à cultura negra. Nesse contexto, iniciativas como a Black Heroes oferecem uma oportunidade de observar um segmento que reúne produção cultural, empreendedorismo e consumo, mas que ainda aparece de forma limitada nas estatísticas disponíveis.


Da representatividade ao negócio


Quando criou a Black Heroes, em 2023, Jefferson Ferreira, conhecido como Jeff 'Lobo de Wakanda', queria ampliar a presença de personagens, artistas e referências negras dentro da cultura geek. O espaço nasceu pequeno, reunindo cerca de dez expositores em meio ao maior evento geek do Norte e Nordeste. Ao longo das edições, porém, a iniciativa passou a cumprir outra função. Além de visibilidade, tornou-se um ponto de encontro entre empreendedores periféricos e um público disposto a consumir produtos que dificilmente encontrava nos estandes tradicionais do evento. "Com o tempo, percebemos que a sala poderia se tornar uma vitrine para empreendedores periféricos. A partir daí, passamos a conectar cultura, pertencimento e geração de renda, mostrando que pessoas negras não estão apenas consumindo esse mercado, mas criando, inovando e empreendendo dentro dele", afirma Jeff.


Em vídeo, Jefferson Ferreira, idealizador da Black Heroes, explica como a iniciativa ampliou seu foco da representatividade para o fortalecimento da economia criativa negra, reunindo empreendedores da periferia de Fortaleza em torno da cultura geek. Vídeo: Brian Sthefano/Black Heroes

Dois anos depois, a Black Heroes continua operando com cerca de dez expositores, mas a meta dos organizadores é chegar a cem até 2030. Não há levantamento sobre faturamento, volume de vendas ou indicadores capazes de medir o impacto econômico do espaço. Ainda assim, a permanência da iniciativa e a expansão projetada pelos organizadores revelam a aposta na consolidação de uma rede de empreendedores negros dentro de um dos maiores ambientes de circulação de consumidores da cultura geek no país.


Um referencial de escala existe em São Paulo. O Festival Feira Preta, criado em 2002 por Adriana Barbosa, chegou à sua edição de 2024 com cerca de cem expositores e estimativa de R$ 16 milhões em movimentação econômica. Levou 22 anos para consolidar esse patamar. A trajetória mostra que um ecossistema de empreendedorismo afro-cultural pode, quando estruturado ao longo do tempo, gerar renda mensurável. A meta da Black Heroes é construir algo semelhante em Fortaleza.


Criado em 2002, o Festival Feira Preta se consolidou como o maior ecossistema de empreendedorismo negro da América Latina e tornou-se referência para iniciativas que buscam conectar cultura, identidade e geração de renda. Foto: Divulgação/Feira Preta
Criado em 2002, o Festival Feira Preta se consolidou como o maior ecossistema de empreendedorismo negro da América Latina e tornou-se referência para iniciativas que buscam conectar cultura, identidade e geração de renda. Foto: Divulgação/Feira Preta

O ecossistema em que a iniciativa está inserida tem peso econômico documentado. Ao longo de 25 anos e mais de 20 edições em Fortaleza, o festival movimentou mais de R$ 500 milhões na economia local, segundo dados da Secretaria do Turismo do Ceará divulgados em 2025, além de gerar cerca de 2.900 empregos diretos e indiretos por edição. É dentro desse circuito que a Black Heroes busca consolidar um espaço voltado a empreendedores que transformam arte, estética, produção cultural e identidade em atividade econômica.


Para Adriana Barbosa, fundadora do Instituto Feira Preta, o desafio começa justamente quando um movimento cultural tenta se sustentar como negócio. "O desafio é transformar essa energia em estruturas capazes de gerar sustentabilidade financeira. Um evento pode se tornar uma plataforma de negócios. Um coletivo pode se transformar em uma rede de produção e comercialização", afirma. Na avaliação dela, ampliar a Black Heroes de dez para cem expositores exige mais do que interesse do público. Exige acesso a crédito, qualificação em gestão e políticas capazes de apoiar o crescimento desses empreendimentos.


Quando identidade gera renda


Danielle Alícia, 27, moradora da Granja Portugal, no Grande Bom Jardim, participa da Black Heroes desde a criação do espaço, em 2023. No estande, expõe ilustrações e peças artesanais inspiradas na estética afro-brasileira. Antes de se tornar expositora, costumava frequentar eventos de cultura geek em busca de personagens e referências com as quais se identificasse. "Estar em um evento como o Sana tem um significado muito grande. Não é só sobre vender. É sobre ocupar um espaço que durante muito tempo parecia distante para pessoas como eu", afirma. A experiência no evento também ajudou a confirmar a existência de um público interessado nesse tipo de produção. "Quando alguém compra um produto meu e se identifica com aquela arte, eu percebo que existe uma demanda real. Muitas pessoas negras chegam ao estande e dizem que nunca tinham visto personagens ou referências parecidas com elas naquele universo", diz.


A participação na Black Heroes permitiu que Danielle transformasse a produção artística em oportunidade de negócio, aproximando seu trabalho de consumidores interessados em produtos ligados à identidade negra. Foto: Brian Sthefano/Black Heroes
A participação na Black Heroes permitiu que Danielle transformasse a produção artística em oportunidade de negócio, aproximando seu trabalho de consumidores interessados em produtos ligados à identidade negra. Foto: Brian Sthefano/Black Heroes

Danielle ainda não possui CNPJ. Ela faz parte da maioria dos empreendedores pretos e pardos no país: 23,6% têm empresa formalizada, ante 43,1% dos brancos, segundo levantamento do Sebrae. A formalização também influencia o acesso a crédito. De acordo com a mesma pesquisa, apenas 26% dos empreendedores negros conseguiram algum tipo de financiamento. "As dificuldades começam muito antes da venda. Empreender na periferia não é simples. A gente lida com falta de recursos, dificuldade para investir na produção e, muitas vezes, com a necessidade de conciliar várias atividades ao mesmo tempo", afirma Danielle.


Para Adriana Barbosa, fundadora do Instituto Feira Preta, o avanço de empreendedores negros em áreas ligadas à cultura e à produção criativa tem impacto que vai além dos negócios individuais. "A população negra sempre movimentou a economia brasileira, mas historicamente participou muito mais como consumidora do que como proprietária dos negócios. Quando coletivos e produtores culturais passam a ocupar o espaço de criação e comercialização, surge uma oportunidade de desenvolvimento econômico", afirma.


Dados do Observatório da Fundação Itaú Cultural mostram que 58% dos trabalhadores da economia criativa brasileira se autodeclaram brancos, enquanto pretos e pardos representam 40% do setor. O percentual é inferior à participação da população negra na composição demográfica do país. No Ceará, não há recorte disponível que permita medir a presença desse grupo no segmento da economia criativa.


Trancista e dreadmaker, Geiziane Pereira transformou um conhecimento exercido de forma informal em um negócio próprio voltado à estética afro. Foto: Brian Sthefano/Black Heroes
Trancista e dreadmaker, Geiziane Pereira transformou um conhecimento exercido de forma informal em um negócio próprio voltado à estética afro. Foto: Brian Sthefano/Black Heroes

A trajetória de Geiziane Pereira segue uma lógica semelhante, embora em outro segmento. Trancista e dreadmaker, ela transformou um conhecimento aprendido e exercido de forma informal em um negócio com identidade própria. A Preta Gê Tranças surgiu quando percebeu que havia procura pelos serviços que oferecia, mas que seria necessário profissionalizar a atividade para crescer. "No começo, eu atendia poucos clientes e enfrentava dificuldades para estruturar o negócio. Com o tempo, fui entendendo que meu trabalho tinha valor e que era possível transformar um conhecimento tradicional em fonte de renda e independência financeira", afirma. Hoje, a empreendedora associa o trabalho não apenas à estética, mas também à construção de autonomia econômica. "Muitas vezes, as pessoas enxergam apenas o resultado final, mas existe muito estudo, técnica e dedicação por trás de cada trabalho. Hoje, a Preta Gê Tranças é uma forma de mostrar que empreendedores negros podem transformar saberes culturais em negócios sustentáveis", diz.


O mercado em que ela atua também dá sinais de expansão. Segundo levantamento da InsightAce Analytic, firma especializada em pesquisa de mercado global, a indústria da beleza negra movimentou US$ 9,2 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 31 bilhões até 2034. No Brasil, o Sebrae identificou crescimento nas formalizações de microempreendedores individuais ligados aos cuidados com cabelos afro. No Ceará, porém, não existem indicadores capazes de dimensionar quanto desse movimento chega aos pequenos negócios locais.


Danielle e Geiziane atuam em áreas diferentes, mas compartilham uma mesma percepção: existe público para aquilo que produzem. Uma vende arte e referências visuais que raramente encontravam espaço no universo geek. A outra transformou um saber cultural em serviço. Em comum, as duas ajudam a revelar um mercado que gera renda e movimenta pequenos negócios, mas que ainda permanece pouco visível nas estatísticas disponíveis.


O potencial econômico da cultura afro geek


O mercado de produtos licenciados da cultura geek movimentou R$ 21,5 bilhões no Brasil em 2022, colocando o país na oitava posição do ranking mundial do setor, segundo o Global Licensing Industry Study. Eventos e convenções ocupam parte relevante desse mercado. Levantamento da consultoria EcGlobal mostra que 22% dos consumidores geek brasileiros compraram produtos da cultura pop em feiras e festivais presenciais em 2024. Para os empreendedores da Black Heroes, que atuam dentro do maior evento geek do Norte e Nordeste, esse fluxo de consumo representa uma oportunidade de negócio que vai além dos dias de festival.


Os segmentos da economia criativa com maior participação de trabalhadores negros coincidem com boa parte das atividades presentes na Black Heroes. Dados do Observatório da Fundação Itaú Cultural mostram que pretos e pardos representam 51% dos trabalhadores da moda e do vestuário, 48% das atividades artesanais e 48,5% das artes cênicas e visuais. São áreas ligadas à produção artística, ao artesanato e à estética, setores que concentram parte dos empreendedores reunidos pela iniciativa.


Empreendedores da Black Heroes atuam em áreas como ilustração, artes visuais, artesanato e produção cultural, segmentos que concentram algumas das maiores participações de trabalhadores negros dentro da economia criativa brasileira. Foto: Reprodução/Black Heroes
Empreendedores da Black Heroes atuam em áreas como ilustração, artes visuais, artesanato e produção cultural, segmentos que concentram algumas das maiores participações de trabalhadores negros dentro da economia criativa brasileira. Foto: Reprodução/Black Heroes

Os números também revelam uma participação menor do Nordeste na economia criativa brasileira. Embora concentre 22,7% da força de trabalho do país, a região responde por 19% dos trabalhadores do setor, segundo estudo publicado em 2026 pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da Universidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, os investimentos culturais avançam. Os recursos captados pelo Nordeste por meio da Lei Rouanet cresceram 47% entre 2023 e 2024, e o Ceará liderou a captação entre os estados da região no período, de acordo com dados da plataforma federal de projetos culturais.


Para Cláudia Sousa Leitão, doutora em sociologia pela Universidade Sorbonne e ex-secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura, iniciativas culturais podem ampliar a participação de grupos historicamente sub-representados no setor. "Quando territórios populares conseguem transformar repertórios culturais em bens, serviços e experiências capazes de circular economicamente, cria-se uma oportunidade de geração de renda que ultrapassa os próprios empreendedores. Esse movimento alcança fornecedores, produtores culturais, artistas e profissionais de diferentes áreas ligados à cadeia criativa", afirma.


Procurado pela reportagem, o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) não apresentou estudos específicos sobre o impacto econômico de iniciativas ligadas à cultura afro geek ou ao empreendedorismo associado a esse segmento até o fechamento desta reportagem. Também não foram localizados levantamentos públicos capazes de medir quanto da renda gerada pelos expositores está diretamente relacionada à participação na Black Heroes.


O que existe são evidências pontuais de um mercado em atividade. Expositores retornam às edições do festival, ampliam redes de contato e utilizam o espaço para divulgar e comercializar produtos e serviços. Inserida entre a economia criativa, o empreendedorismo negro e o mercado da cultura pop, a Black Heroes ocupa um segmento cuja dimensão ainda não aparece nas estatísticas disponíveis. Os dados existentes, porém, indicam a presença de um ambiente econômico em expansão, impulsionado pelo crescimento dos investimentos culturais e pela participação de trabalhadores negros em áreas diretamente relacionadas às atividades desenvolvidas no espaço.
















 
 

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