O que freia a produtividade da indústria no Paraná? Escassez de mão de obra, salários e custos entram no debate
- Brian Sthefano

- 26 de jun.
- 9 min de leitura

A dificuldade para contratar profissionais técnicos tem sido apontada por representantes da indústria como um dos principais entraves ao avanço da produtividade no Paraná. Em regiões como Ponta Grossa, Oeste e Norte do estado, empresas relatam vagas abertas por meses em áreas como automação, manutenção industrial e controle de processos, em um cenário que, segundo lideranças do setor, já começa a limitar expansão, competitividade e eficiência operacional.
Mas essa explicação está longe de ser consenso. Economistas, pesquisadores da área industrial e entidades ligadas ao mercado de trabalho apontam que a escassez de mão de obra, embora real em ocupações específicas, não explica sozinha a perda de produtividade. Salários pouco atrativos, exigências incompatíveis com a remuneração, juros elevados, infraestrutura deficiente e baixo investimento em modernização também aparecem entre os fatores que ajudam a frear o desempenho do setor. Afinal, o que realmente está por trás da perda de produtividade da indústria paranaense?
A indústria vê um gargalo na contratação
A indústria de transformação responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto do Paraná e emprega mais de 780 mil pessoas no estado, segundo levantamento do Sistema Fiep com base em dados do Novo Caged e do Ipardes. Quando considerados também setores como construção e utilidades, o número ultrapassa 1,1 milhão de trabalhadores. O Paraná lidera a região Sul em Valor de Transformação Industrial, com R$ 184 bilhões gerados em 2024, e ocupa a terceira posição entre os estados mais industrializados do país.

O porte da indústria paranaense, porém, contrasta com um problema que se tornou recorrente no discurso empresarial. Apesar do crescimento em volume, a eficiência produtiva segue pressionada. Dados da Confederação Nacional da Indústria mostram que a produtividade do trabalho na indústria de transformação brasileira caiu 0,8% em 2024 na comparação com 2023, acumulando recuo de 9% desde 2019. Foi o quinto ano consecutivo de queda. Na prática, a produção cresceu, mas em ritmo inferior ao avanço das horas trabalhadas, sinal de que o setor tem precisado empregar mais esforço para gerar o mesmo resultado.

Para lideranças industriais, uma parte relevante dessa perda de eficiência está na dificuldade de contratar profissionais qualificados para funções técnicas e operacionais. Em regiões como Ponta Grossa, Norte e Oeste do Paraná, empresas relatam dificuldade crescente para preencher vagas em áreas como automação, manutenção industrial e controle de processos, especialmente em segmentos que vêm ampliando investimentos e modernização.
Segundo Rafael Rickli, diretor de Indústrias da Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa (ACIPG) e coordenador regional Centro Oriental da Fiep, o crescimento industrial da região dos Campos Gerais elevou a pressão sobre a oferta de profissionais especializados. “A indústria de Ponta Grossa e da região vem crescendo de forma consistente, atraindo novos investimentos e ampliando sua capacidade produtiva. Mas esse avanço traz um desafio importante, que é garantir profissionais preparados para acompanhar essa nova fase”, afirma. Para ele, treinamento, qualificação e retenção de talentos deixaram de ser apenas uma preocupação operacional e passaram a ocupar posição estratégica dentro das empresas.
A percepção de escassez também aparece nas sondagens do setor. Na Sondagem Industrial 2025–2026 do Sistema Fiep, com 738 empresários paranaenses, 64% dos entrevistados pessimistas em relação ao desempenho dos negócios apontaram a dificuldade de encontrar mão de obra como principal preocupação para 2026, percentual superior ao atribuído a custos de produção e gargalos logísticos.
O cenário paranaense acompanha uma tendência nacional. Dados da Confederação Nacional da Indústria mostram que a escassez de mão de obra qualificada ganhou relevância nos últimos anos e já figura entre os principais problemas relatados pela indústria brasileira, atrás apenas de fatores como carga tributária, juros elevados e demanda interna insuficiente. O Observatório Nacional da Indústria estima que o país precisará qualificar cerca de 14 milhões de trabalhadores entre 2025 e 2027 para atender à demanda do setor produtivo.

Em alguns polos industriais do Paraná, esse desequilíbrio já aparece de forma concreta. Em Ponta Grossa, o Senai forma cerca de 500 técnicos por ano, enquanto a demanda estimada do parque industrial local é aproximadamente três vezes maior, especialmente em áreas ligadas à automação e ao controle de processos. Para a indústria, o diagnóstico parece claro: faltam profissionais, e essa escassez já compromete eficiência, competitividade e capacidade de crescimento.
Falta mão de obra ou faltam vagas atrativas?
Para a indústria, a equação parece simples. Faltam profissionais qualificados, e essa escassez ajuda a explicar a perda de produtividade. Mas a leitura muda quando a análise sai do discurso empresarial e olha para o mercado de trabalho.
João Pedro Martins, 27 anos, técnico em eletromecânica formado pelo Senai de Ponta Grossa, viveu esse dilema na prática. No início deste ano, recebeu uma proposta de uma metalúrgica da região para uma vaga que exigia experiência em CLP, comando numérico computadorizado e manutenção industrial, competências frequentemente apontadas por empresários como escassas. O salário oferecido variava entre R$ 2,6 mil e R$ 3 mil. Ele recusou. Preferiu migrar para outra empresa, em outro setor, com remuneração superior. “Eles queriam alguém que já soubesse operar três sistemas diferentes e resolvesse problema sozinho. Pelo salário que ofereceram, eu ia trabalhar mais e ganhar menos do que já ganhava”, relata.
A vaga recusada por João Pedro entrou na estatística como mais um posto técnico em aberto, ajudando a reforçar a percepção de escassez. Para a empresa, é mais uma evidência do apagão de mão de obra. Para o trabalhador, pode ser apenas um caso de remuneração incompatível com o nível de exigência. É justamente nesse ponto que começa uma das principais divergências sobre a produtividade industrial no Paraná.
Para Marcell Nunes Muniz, mestre em Economia e professor de Ciências Econômicas da Wyden, o debate precisa partir de uma lógica básica de mercado. “Em um ambiente competitivo, uma escassez persistente de trabalhadores tende a pressionar salários para cima”, afirma. Em outras palavras, se há poucos profissionais disponíveis para muitas vagas, a tendência natural é que empresas disputem esses trabalhadores oferecendo melhores condições. Quando isso não acontece de forma consistente, pode haver outro problema por trás.
“Quando uma vaga permanece aberta por muito tempo, isso nem sempre significa falta de profissionais qualificados. Muitas vezes, revela uma diferença entre o que a empresa exige e o que ela está disposta a oferecer em remuneração, benefícios e condições de trabalho”, diz Muniz. O economista reconhece que existe, sim, um gargalo real de formação em áreas específicas, sobretudo em ocupações ligadas à automação, manutenção industrial e tecnologia embarcada. O que ele questiona é transformar esse problema em explicação única para a produtividade. “Seria simplista atribuir a queda de produtividade apenas a isso. Produtividade depende de capital humano, mas também de investimento em máquinas, inovação, infraestrutura, logística, ambiente tributário e custo de capital.”
Os números ajudam a tensionar essa discussão. Levantamentos de entidades sindicais do setor metalúrgico indicam que Ponta Grossa historicamente apresenta pisos salariais inferiores aos observados em polos industriais como Curitiba e São José dos Pinhais, especialmente em segmentos mais especializados da cadeia automotiva. A diferença salarial ajuda a explicar parte da dificuldade de atração e retenção de profissionais qualificados.
Embora comum no discurso empresarial, a tese de que programas de transferência de renda desestimulam o trabalho formal também está longe de ser consenso entre economistas. Muniz faz um alerta. “A literatura econômica, de forma geral, não apresenta evidências robustas de que esses programas reduzam significativamente a oferta de trabalho. Na maior parte dos casos, o benefício funciona como uma rede mínima de proteção social, não como substituto da renda do trabalho.” Para ele, a conclusão é direta: “Se uma vaga formal não consegue competir com um benefício social relativamente baixo, talvez o problema esteja menos no programa e mais na atratividade dessa ocupação.”
Os dados do mercado de trabalho paranaense também sugerem um cenário mais complexo do que a narrativa do apagão faz parecer. A reportagem não localizou estudos específicos que consigam medir, de forma isolada, o peso da escassez de mão de obra sobre a produtividade industrial no estado. Além disso, o Novo Caged registrou queda superior a 70% na abertura de vagas industriais no Paraná em outubro de 2025, na comparação com o mesmo mês de 2024. No acumulado do ano, a retração foi de 37% em relação ao ano anterior. Se a indústria estivesse sendo impedida de crescer exclusivamente por falta de trabalhadores, os números do emprego formal tenderiam a contar uma história menos contraditória.
O gargalo vai além da mão de obra
Entre o discurso de apagão e a hipótese de desalinhamento entre salários e exigências, uma conclusão já parece clara. A escassez de mão de obra técnica é real em áreas específicas da indústria paranaense, especialmente nas ligadas à automação, manutenção e tecnologia embarcada. Mas ela, sozinha, está longe de explicar a perda de produtividade do setor. Há outros entraves menos visíveis, e muitas vezes menos confortáveis para o próprio setor, porque exigem investimento, planejamento e mudanças estruturais.
A automação costuma aparecer como resposta natural à escassez de trabalhadores. Na prática, porém, essa relação é mais complexa. Em vez de eliminar a dependência de mão de obra, a tecnologia frequentemente muda o tipo de profissional que a indústria precisa contratar. Para Matheus Mattos, pesquisador de eficiência operacional e gestão de processos produtivos, essa é uma das principais contradições do debate. “Existe uma percepção equivocada de que automação elimina a dependência de mão de obra. Na prática, ela reduz a necessidade de tarefas repetitivas, mas aumenta a demanda por profissionais com qualificação mais sofisticada”, afirma.
Isso significa que, ao automatizar uma linha de produção para reduzir a necessidade de operadores manuais, a empresa passa a depender ainda mais de técnicos em automação, analistas de dados, programadores de CLP e especialistas em manutenção preditiva. Em outras palavras, a automação não elimina o problema da escassez. Em muitos casos, apenas muda seu perfil.
Esse deslocamento afeta diretamente a produtividade. Em uma planta industrial, processos são interdependentes, e a ausência de um profissional estratégico pode comprometer muito mais do que uma única função. “Se falta, por exemplo, um técnico de manutenção, um programador de CNC ou um operador especializado, o impacto pode se espalhar por toda a linha”, explica Mattos. Segundo ele, isso pode aumentar tempo de setup, elevar paradas não programadas, reduzir o ritmo de produção e ampliar gargalos, desperdícios e retrabalho. “Em termos práticos, uma única vaga em aberto pode reduzir a eficiência sistêmica da operação.”
O impacto não é apenas produtivo. Também envolve segurança e qualidade de vida no trabalho. Quando falta o profissional certo, quem permanece na operação tende a acumular funções, operar equipamentos fora de sua especialidade e trabalhar sob maior pressão. Esse cenário aumenta o risco de acidentes, falhas operacionais e descarte de materiais. Sob essa ótica, produtividade não é apenas uma conta de quanto se produz por hora, mas também de quanto se desperdiça, quanto se perde e quais custos humanos existem ao longo do processo.
Mas modernizar a produção também custa caro e esse é um ponto frequentemente subestimado quando o debate se concentra apenas em mão de obra. Em um ambiente de juros elevados, muitas indústrias adiam investimentos em máquinas, softwares e processos mais eficientes. Para Marcell Nunes Muniz, o custo do capital ajuda a explicar parte da perda de produtividade. “Em um cenário de juros elevados, muitas empresas postergam modernização e operam com estruturas menos eficientes, o que impacta diretamente a produtividade”, afirma.
A infraestrutura também pesa nessa equação, especialmente fora dos grandes centros. Em regiões industriais do Paraná, gargalos logísticos continuam encarecendo o escoamento da produção. Rodovias incompletas, custo de frete elevado, oscilações no fornecimento de energia e entraves no transporte de cargas seguem afetando a competitividade. Na prática, produtividade industrial não depende apenas do que acontece dentro da fábrica, mas também da qualidade do ambiente econômico e logístico ao redor dela.
Dados do Ipardes mostram que o Paraná criou mais de 55 mil empregos formais em atividades de média e alta intensidade tecnológica entre 2018 e 2025, crescimento de 36% no período, com salários médios superiores à média estadual. Isso indica que parte da indústria paranaense já avança em direção a um modelo mais tecnológico, sofisticado e produtivo. O paradoxo é que esse avanço convive com setores tradicionais que ainda operam com menor nível de automação, baixa capacidade de investimento e dificuldade para atrair talentos qualificados.
A escassez de mão de obra técnica existe e não deve ser ignorada. Mas tratá-la como explicação única para a baixa produtividade da indústria paranaense simplifica um problema estrutural muito maior. Ela convive com salários que nem sempre acompanham as exigências das vagas, com empresas que reduziram investimentos em treinamento interno, com juros que encarecem a modernização e com gargalos logísticos que seguem pressionando custos. O apagão de mão de obra pode ser real. Como explicação isolada para a produtividade que a indústria paranaense ainda não alcançou, ele é pequeno demais para o tamanho do problema.



