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Primeira infância mais silenciosa leva mais crianças à escola com atraso na linguagem

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • há 4 dias
  • 8 min de leitura
Especialistas apontam que menos interação entre adultos e crianças, uso precoce de telas e dificuldades de acesso ao acompanhamento na primeira infância comprometem o desenvolvimento da linguagem antes da alfabetização. Foto: Reprodução/Internet
Especialistas apontam que menos interação entre adultos e crianças, uso precoce de telas e dificuldades de acesso ao acompanhamento na primeira infância comprometem o desenvolvimento da linguagem antes da alfabetização. Foto: Reprodução/Internet

Quando entrou na pré-escola, aos quatro anos, Alan Jhonatan ainda não conseguia formar frases como os colegas de turma. A dificuldade foi percebida primeiro pelas professoras da escola onde estuda, em Acarape, no interior do Ceará. Nascido em 2020, ele passou os primeiros anos de vida em casa durante a pandemia de Covid-19, período em que o celular e a televisão fizeram parte da rotina da família. O atraso na linguagem levou os pais a buscar acompanhamento com fonoaudióloga e neuropediatra. O caso de Alan está longe de ser isolado. Em sondagem realizada por esta reportagem com 54 professores da Educação Infantil e do 1º ano do Ensino Fundamental, 92,6% afirmaram perceber aumento no número de crianças que chegam à escola com dificuldades para desenvolver a linguagem esperada para a idade.


O fenômeno é reconhecido por especialistas, mas permanece invisível nas estatísticas oficiais. O Brasil acompanha indicadores como alfabetização, frequência à creche e acesso à educação infantil. Até onde esta reportagem apurou, porém, não há um indicador nacional específico capaz de medir quantas crianças chegam à pré-escola com atraso no desenvolvimento da linguagem. A ausência desse dado dificulta dimensionar o problema, monitorar sua evolução e orientar políticas públicas voltadas à primeira infância. É nesse intervalo entre o que a ciência já conhece e o que o Estado ainda não consegue medir que histórias como a de Alan continuam se repetindo em salas de aula de todo o país.


Quando a escola percebe antes da estatística

"A gente achava que era só o tempo dele. Como ele nasceu na pandemia e passava muito tempo dentro de casa, nunca imaginamos que aquilo pudesse influenciar no desenvolvimento da fala. Quando a professora chamou a gente para conversar, foi um susto. Foi ali que entendemos que precisava procurar ajuda", lembra Maria Alana, mãe de Alan.

A suspeita surgiu na escola antes de chegar à família. É comum que professores da educação infantil sejam os primeiros a identificar crianças que falam menos do que o esperado para a idade, apresentam vocabulário reduzido ou encontram dificuldade para se comunicar com colegas e adultos. Para compreender como esse fenômeno tem sido percebido nas salas de aula, a reportagem realizou uma sondagem com 54 professores da Educação Infantil e do 1º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas e particulares de Fortaleza e de sete municípios do Maciço de Baturité, no Ceará. As respostas foram coletadas por formulário eletrônico e representam a percepção dos participantes, sem caráter estatístico.


Os resultados apontam um padrão consistente. Dos professores ouvidos, 92,6% disseram perceber aumento no número de crianças que chegam à escola com atraso no desenvolvimento da linguagem nos últimos cinco anos. O mesmo percentual afirmou observar mais alunos com dificuldades para formar frases, ampliar o vocabulário e manter diálogos em comparação com anos anteriores. Para 83,3%, essas dificuldades já comprometem o processo de alfabetização. A percepção dialoga com os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), segundo os quais a proporção de crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental passou de 60,3% em 2019 para 49,3% em 2023. Ao apontar possíveis fatores associados ao fenômeno, 61,1% citaram o uso precoce e excessivo de telas, hipótese que também aparece em estudos científicos analisados por esta reportagem.


A sondagem revela outro aspecto relevante. Apenas 20,4% dos participantes consideram que as escolas estão preparadas para identificar precocemente crianças com atraso na linguagem e encaminhá-las para avaliação especializada. Para 79,6%, esse preparo ainda é insuficiente.


Centro de Educação Infantil Professora Maria Zeneide, em Acarape (CE). Professores da unidade estão entre os 54 educadores ouvidos pela reportagem, que relataram aumento no número de crianças com dificuldades no desenvolvimento da linguagem antes da alfabetização. Foto: Reprodução/Governo do Ceará
Centro de Educação Infantil Professora Maria Zeneide, em Acarape (CE). Professores da unidade estão entre os 54 educadores ouvidos pela reportagem, que relataram aumento no número de crianças com dificuldades no desenvolvimento da linguagem antes da alfabetização. Foto: Reprodução/Governo do Ceará

A percepção dos professores contrasta com outra ausência identificada durante a apuração. O Brasil acompanha indicadores sobre alfabetização, frequência à creche e acesso à educação infantil, mas, até o momento desta reportagem, não foi localizado um indicador nacional específico capaz de medir quantas crianças chegam à pré-escola com atraso no desenvolvimento da linguagem. Sem esse parâmetro, torna-se mais difícil dimensionar o problema, acompanhar sua evolução e orientar políticas públicas voltadas à primeira infância.


Se a escola costuma ser o primeiro lugar onde essas dificuldades aparecem, a pergunta seguinte é inevitável: o que acontece no desenvolvimento infantil para que uma criança chegue à sala de aula sem desenvolver plenamente a linguagem? A resposta passa pela fonoaudiologia, pela pediatria e pela neurologia.


O que acontece quando a linguagem não se desenvolve no tempo esperado


"O cérebro aprende linguagem na interação humana, na troca de olhares, nas conversas, nas brincadeiras, na leitura de histórias e nas experiências compartilhadas."

A frase da fonoaudióloga Wanessa Peixoto resume o ponto em que convergem as três especialistas ouvidas por esta reportagem. Para elas, o aumento dos atrasos de linguagem observado nos últimos anos não indica, necessariamente, uma explosão de transtornos do neurodesenvolvimento. Reflete, sobretudo, mudanças na forma como as crianças vivem os primeiros anos de vida, período em que o cérebro apresenta maior capacidade para desenvolver a comunicação. "O problema não é apenas a tela em si, mas aquilo que ela substitui. Um vídeo pode até ensinar algumas palavras isoladas, mas não substitui uma conversa em que o adulto responde, espera a criança tentar se comunicar e amplia essa interação.", afirma Wanessa.


Os primeiros sinais costumam aparecer antes mesmo da entrada na escola. Por volta dos 12 meses, espera-se que a criança reconheça o próprio nome, compreenda comandos simples, use gestos comunicativos e produza as primeiras palavras com significado. Entre 18 meses e dois anos, o vocabulário cresce rapidamente e surgem as primeiras combinações de palavras. Aos três anos, a fala já tende a ser compreendida por pessoas fora do círculo familiar. Quando esse percurso não acontece como esperado, o atraso deixa de representar apenas uma variação individual e passa a exigir investigação. "A orientação de esperar porque cada criança fala no seu tempo pode atrasar um diagnóstico importante", alerta Wanessa.


Para a pediatra Maria Lise, os primeiros anos de vida concentram a fase de maior organização das conexões cerebrais responsáveis pela linguagem, tornando a identificação precoce dos atrasos decisiva para o desenvolvimento infantil. Foto: Arquivo pessoal.
Para a pediatra Maria Lise, os primeiros anos de vida concentram a fase de maior organização das conexões cerebrais responsáveis pela linguagem, tornando a identificação precoce dos atrasos decisiva para o desenvolvimento infantil. Foto: Arquivo pessoal.

Na atenção primária, a pediatra Maria Lise, especialista em desenvolvimento infantil e mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), afirma que essas queixas se tornaram mais frequentes. Parte desse aumento, diz, decorre de famílias mais informadas e atentas ao desenvolvimento infantil. Mas há também mudanças concretas na rotina das crianças. Mais tempo diante das telas, menos brincadeiras, menos leitura e menos interação cotidiana com adultos alteraram um ambiente decisivo para a formação das conexões cerebrais relacionadas à linguagem. "Os primeiros anos de vida são fundamentais porque é nesse período que ocorre a maior organização das conexões cerebrais responsáveis pela linguagem", explica. Por isso, defende que o acompanhamento do desenvolvimento infantil seja fortalecido nas consultas de puericultura e que as famílias recebam orientação desde os primeiros meses de vida, antes que dificuldades de comunicação repercutam na aprendizagem.


A neurologista infantil Joana Torres, acrescenta que nem todo atraso na fala indica um transtorno do neurodesenvolvimento. Algumas crianças evoluem em um ritmo mais lento e respondem bem aos estímulos adequados. A investigação se torna necessária quando o atraso vem acompanhado de sinais como pouca interação social, ausência de gestos comunicativos, dificuldade para compreender comandos, regressão de habilidades ou atrasos em outras áreas do desenvolvimento. Segundo ela, a elevada plasticidade cerebral dos primeiros anos torna a intervenção precoce decisiva. "Quanto mais precoce a intervenção, melhores costumam ser os resultados para a linguagem, a aprendizagem e as habilidades sociais."


Embora cada especialidade observe o problema sob um ângulo diferente, o diagnóstico é semelhante. O aumento das dificuldades de linguagem resulta de um conjunto de fatores, entre eles maior exposição às telas, redução das interações presenciais, mudanças no cotidiano das famílias e os efeitos deixados pela pandemia. Ao mesmo tempo, o avanço do conhecimento sobre desenvolvimento infantil permitiu que profissionais de saúde identificassem esses atrasos com mais frequência e em fases mais precoces. O consenso entre elas é outro: quanto mais cedo a criança recebe estímulos adequados e acompanhamento especializado, maiores são as chances de recuperar habilidades fundamentais antes que as dificuldades alcancem a alfabetização e a vida escolar.


O desafio que começa na primeira infância e chega à escola


Enquanto a ciência acumula evidências sobre como a linguagem se desenvolve e quais fatores podem comprometer esse processo, o Brasil ainda não dispõe de um indicador nacional capaz de responder a uma pergunta elementar: quantas crianças chegam à pré-escola com atraso no desenvolvimento da linguagem. Ao longo desta apuração, não foi identificado um sistema oficial que acompanhe esse dado. O país monitora, com precisão, indicadores como alfabetização, cobertura de creches, matrículas na educação infantil e frequência escolar. A linguagem, porém, permanece fora desse conjunto de informações.


A ausência desse indicador tem consequências que vão além da produção de estatísticas. Sem saber quantas crianças são afetadas, onde elas estão ou como esse cenário evolui ao longo do tempo, gestores públicos têm menos instrumentos para planejar políticas de prevenção, organizar serviços especializados e avaliar os resultados das ações implementadas. Na prática, o problema costuma aparecer primeiro na sala de aula ou no consultório, pela percepção de professores, famílias e profissionais de saúde, antes de chegar às bases oficiais de informação.


As evidências científicas caminham na mesma direção. Revisões publicadas na JAMA Pediatrics identificaram associação consistente entre maior tempo de exposição às telas e pior desempenho em habilidades de linguagem durante a primeira infância, embora os próprios autores ressaltem que a predominância de estudos observacionais impede estabelecer uma relação direta de causa e efeito. Em diferentes contextos, pesquisas apontam resultados semelhantes. Nos Estados Unidos, aumentaram os diagnósticos de atraso na fala após a pandemia. Na China, crianças com atraso de linguagem apresentaram maior tempo diário de exposição às telas. Na Austrália, pesquisadores observaram que crianças entre 12 e 36 meses expostas por mais tempo aos dispositivos eletrônicos participavam de menos interações verbais com os pais. Já uma coorte de nascimento conduzida no Japão mostrou que a leitura em voz alta favorece o desenvolvimento infantil, incluindo a linguagem. Em comum, os estudos reforçam a mesma conclusão: o desenvolvimento da comunicação depende, sobretudo, da qualidade das interações entre crianças e adultos nos primeiros anos de vida.


No Brasil, esse cenário encontra obstáculos adicionais. Pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, realizada em parceria com o Datafolha em 2025, mostrou que 78% das crianças de até três anos passam, em média, duas horas por dia diante de telas, tempo superior às recomendações da Organização Mundial da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria. Outro levantamento, do Núcleo Ciência Pela Infância, apontou crescimento da exposição digital na primeira infância e maior vulnerabilidade entre crianças de famílias de baixa renda. Embora o governo federal tenha adotado medidas como a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância e a restrição ao uso de aparelhos eletrônicos nas escolas, nenhuma delas prevê um sistema nacional de monitoramento do desenvolvimento da linguagem.


Enquanto essa lacuna persiste, a identificação precoce continua dependendo, em grande medida, do olhar atento de professores, profissionais de saúde e famílias. Para crianças como Alan, isso pode significar a diferença entre receber intervenção ainda na fase de maior plasticidade cerebral ou iniciar a alfabetização carregando dificuldades que poderiam ter sido reconhecidas e tratadas anos antes.


Quando procurar ajuda?


Especialistas recomendam que pais e cuidadores procurem orientação sempre que houver preocupação com o desenvolvimento da comunicação, sem esperar que a criança "fale no seu tempo". A porta de entrada é a consulta de puericultura com o pediatra ou, na ausência desse profissional, a equipe da Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Após a avaliação, a criança pode ser encaminhada para atendimento com fonoaudiólogo, neuropediatra, psicólogo ou outros especialistas, conforme a necessidade.


No Sistema Único de Saúde (SUS), esse acompanhamento pode ser realizado na Atenção Primária e, quando indicado, em serviços especializados da rede municipal ou estadual. Entre os principais sinais de alerta estão pouca resposta ao próprio nome, ausência de gestos comunicativos e das primeiras palavras por volta de 12 meses, vocabulário muito reduzido entre 18 meses e dois anos, fala pouco compreensível após os três anos ou perda de habilidades já adquiridas.


Quanto mais cedo a dificuldade for identificada e tratada, maiores são as chances de favorecer o desenvolvimento da linguagem e reduzir impactos na aprendizagem e na vida escolar.


 
 

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