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Antes da sala de aula: como o saneamento influencia a saúde e o desenvolvimento das crianças em Santa Catarina

Foto do escritor: Brian Sthefano
Brian Sthefano
há 5 dias
20 min de leitura
O estado dobrou a cobertura de esgoto entre 2010 e 2020, mas ainda está abaixo da média nacional. Crianças pequenas são as mais expostas às doenças da falta de saneamento. Foto: Reprodução/Internet
O estado dobrou a cobertura de esgoto entre 2010 e 2020, mas ainda está abaixo da média nacional. Crianças pequenas são as mais expostas às doenças da falta de saneamento. Foto: Reprodução/Internet

Antony Gabriel tem 4 anos e muitas vezes falta à creche por causa de episódios de diarreia. Segundo a mãe, Samara, de 25 anos, ele perde dias de brincadeiras e aprendizado com os colegas. A rotina de toda a família também é afetada. Eles vivem em Penha, no Litoral Norte de Santa Catarina, onde apenas uma pequena parcela do esgoto é coletada e tratada. Samara não sabe afirmar se os episódios do filho estão relacionados às condições de saneamento, mas relata situações que alimentam sua preocupação. “Em vários pontos da cidade, e na casa de parentes meus também, a gente chega e já sente o mau cheiro. Em alguns lugares, quando chove, o esgoto sobe na rua. Criança pequena brinca no chão, põe a mão na boca, e eu fico o tempo todo com receio.” Ela ouviu dizer que a estação de tratamento prevista para atender a maior parte do município ainda depende da definição de um terreno. A universalização do serviço, segundo o prazo previsto, só deve ocorrer em 2033, quando Antony terá 11 anos.


A preocupação de Samara reflete um problema que ainda atinge milhões de brasileiros. Em 2024, 62,3% da população do país era atendida por rede coletora de esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA). Em Santa Catarina, o índice era de 35,9%, pouco mais da metade. Apesar da distância, os indicadores mostram que a cobertura no estado avançou na última década. Entre 2010 e 2020, a proporção de catarinenses atendidos por rede dobrou, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), que antecedeu o SINISA.


Um problema que começa antes da escola


Saneamento não se resume a um único indicador e cada dado mostra uma parte do problema. Em 2024, cerca de 33 milhões de brasileiros não tinham ligação à rede de abastecimento de água, segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA). Já o Censo 2022, do IBGE, identificou 1,2 milhão de pessoas vivendo em casas sem banheiro e outras 49 milhões, o equivalente a 24,3% da população, sem esgotamento sanitário adequado. Nesse grupo estão pessoas sem banheiro ou que usam fossa rudimentar, vala, rio ou mar para descartar os dejetos. Também é preciso distinguir a coleta do tratamento. Em 2024, apenas 51,8% do esgoto gerado no país recebeu tratamento, segundo o SINISA. Luana Pretto, CEO do Instituto Trata Brasil, organização da sociedade civil formada por empresas do setor de saneamento, explica que ter rede disponível não significa ter saneamento adequado. “Uma rua pode ter tubulação e as casas não estarem ligadas a ela. Nesse caso, o esgoto continua indo para o solo, a vala ou o rio.” Para proteger a saúde das crianças, portanto, não basta instalar tubulações. É preciso que as casas estejam conectadas à rede e que o esgoto coletado seja tratado.

As crianças pequenas estão entre as mais expostas à falta de saneamento. Segundo o Censo 2022, 57,3% das crianças de 0 a 4 anos viviam em casas com esgoto ligado à rede. Entre as pessoas com 60 anos ou mais, o índice chegava a 66,3%. A diferença também aparece na falta de banheiro. Entre as crianças dessa faixa etária, 0,9% viviam em casas sem banheiro ou sanitário, mais que o dobro da proporção registrada entre os idosos. Um estudo divulgado pelo Unicef em 2025, com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), estimou que 38% das crianças e dos adolescentes brasileiros viviam com privação de saneamento em 2023. O índice caiu em relação aos 42,3% registrados em 2017, mas ainda atingia mais de um terço desse público. O acesso também varia conforme a raça. Pelo IBGE, o esgotamento adequado atendia 83,5% da população branca, 75% da população preta, 68,9% da parda e apenas 29,9% da indígena. Adriana Gomes, agente de saúde concursada há mais de 20 anos, assistente social e pós-graduada em políticas públicas, encontra essa desigualdade nas casas que visita. “A falta de saneamento aprofunda a desigualdade porque pune sempre os mesmos: mulheres negras que sustentam a casa sozinhas, moradores de ocupação, de palafita, de beira de rio, de área rural e de periferia que a cidade tratou como provisória por décadas.”

Em Santa Catarina, a situação depende do indicador analisado. O acesso ao banheiro não é o principal problema, e o abastecimento de água supera a média nacional. A maior dificuldade está na coleta de esgoto. Apesar da baixa cobertura da rede, o estado aparece entre os que têm os maiores índices de esgotamento adequado no Censo 2022, segundo o critério do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab). Isso ocorre porque o cálculo considera adequadas as fossas sépticas, utilizadas por muitas famílias catarinenses. Quase todo o esgoto que chega à rede pública é tratado, mas uma parcela expressiva da população ainda não tem acesso à coleta. Luana Pretto ressalta que o uso de fossas também exige cuidados. “Soluções individuais, como a fossa séptica, podem ser adequadas quando bem projetadas e com manutenção regular. Mas podem ser inadequadas quando ninguém esvazia, ninguém fiscaliza e o lodo é descartado de qualquer jeito.” Não há número oficial sobre quantas fossas de Santa Catarina seguem as normas técnicas, hoje reunidas na NBR 17076, da ABNT, que substituiu as antigas NBR 7229 e NBR 13969. Em nota, o Instituto do Meio Ambiente (IMA) informou que não possui uma base consolidada sobre o número de casas que utilizam sistemas individuais.

Nas visitas às famílias, a falta de saneamento nem sempre aparece como o problema principal. Adriana, que acompanha moradores há mais de duas décadas, identifica seus efeitos na rotina das casas. “Ele aparece como uma criança pequena com diarreia pela terceira vez no mês, como uma mãe que não sabe mais o que fazer com a mamadeira porque a água da torneira vem turva e só em alguns dias da semana, como um quintal onde o esgoto corre a céu aberto e é ali que os pequenos engatinham e brincam”, conta. A infectologista Sabrina Sabino, pesquisadora e diretora técnica da Meso Clinic, explica como ocorre a contaminação. Sem água segura e esgotamento adequado, as crianças ficam expostas ao chamado ciclo fecal-oral. “Fezes de pessoas e de animais contaminam a água, o solo, as mãos, os alimentos, os brinquedos e as moscas, e de lá chegam à boca da criança.” Entre os agentes que podem provocar infecções estão vírus como rotavírus e norovírus, bactérias como E. coli, Shigella e Salmonella, protozoários como Giardia e vermes como Ascaris e ancilóstomos. Alguns desses parasitas também podem entrar no organismo pela pele, quando a criança anda descalça em locais contaminados. A idade aumenta a vulnerabilidade. Segundo Sabrina, o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento, as crianças engatinham e levam as mãos e os objetos à boca, dependem de adultos para os cuidados de higiene e podem desidratar muito mais rápido que uma pessoa adulta.


Sem água segura e saneamento adequado, até atividades cotidianas, como lavar as mãos, podem se tornar mais difíceis e favorecer a transmissão de infecções entre crianças.  Foto: Arquivo/NJE Wyden
Sem água segura e saneamento adequado, até atividades cotidianas, como lavar as mãos, podem se tornar mais difíceis e favorecer a transmissão de infecções entre crianças. Foto: Arquivo/NJE Wyden

Nos casos mais graves, as doenças relacionadas ao saneamento levam as crianças ao hospital. Um levantamento do Instituto Trata Brasil com a consultoria Ex Ante, baseado em dados do DATASUS, contabilizou 344.435 internações no país em 2024 por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado. Desse total, 70.007 foram de crianças de 0 a 4 anos, cerca de uma em cada cinco internações. Em 2023, 601 crianças dessa faixa etária morreram por essas doenças. A classificação inclui diarreias e outras infecções transmitidas pela via fecal-oral, mas também doenças transmitidas por vetores, como a dengue, que dependem de outros fatores além do saneamento. Em Santa Catarina, foram 12.378 internações em 2024, das quais 4.427 por doenças de transmissão fecal-oral. Um estudo do Trata Brasil publicado em 2026 mostrou que, em 2019, a taxa de internação por doenças de veiculação hídrica entre crianças de até 14 anos no estado foi de 1,98 por mil habitantes. Entre os idosos, o índice era de 1,38. Para Luana Pretto, os números hospitalares não mostram toda a dimensão do problema. “A internação é só a parte visível. Por baixo dela há muita criança que adoece em casa, que falta à escola, que não chega ao posto de saúde.” Adriana também chama atenção para os casos que não aparecem nos registros oficiais. “O que não entra na estatística é a diarreia tratada em casa com soro caseiro e nunca notificada, a vergonha da família que não tem banheiro, o estigma da criança tida como ‘suja’.”


Quando as infecções se repetem, os efeitos podem ir além dos episódios de diarreia. O pediatra Henrique Sá, professor titular de Pediatria e Educação Médica da Universidade de Fortaleza (Unifor), explica que a doença pode comprometer a alimentação e a absorção de nutrientes. “A infecção tira o apetite, aumenta as perdas e atrapalha a absorção de nutrientes, e a criança que fica mal nutrida adoece mais e se recupera pior.” Sabrina acrescenta que infecções repetidas podem prejudicar a absorção de zinco, ferro e vitamina A. Alguns vermes provocam perda crônica de sangue e anemia. Quando esses problemas se acumulam nos primeiros anos de vida, também podem comprometer o crescimento. Estudos científicos ajudam a dimensionar esse risco. Uma análise de nove pesquisas realizadas em cinco países, publicada pelo International Journal of Epidemiology, estimou que cinco ou mais episódios de diarreia antes dos 2 anos estavam associados a cerca de 25% do déficit de altura nessa idade. Outra pesquisa, da rede MAL-ED, acompanhou crianças em diferentes países, incluindo o Brasil, e associou infecções intestinais sem sintomas aparentes a uma redução de 0,4 a 1,2 centímetro na estatura até os 2 anos. Os dois médicos também citam a disfunção entérica ambiental, uma hipótese ainda em estudo. A condição envolve uma inflamação intestinal provocada pela exposição contínua a fezes e pode prejudicar a absorção de nutrientes mesmo quando não há diarreia.


Na escola, os efeitos podem aparecer nas faltas e nas dificuldades de aprendizagem. Itamê Mendonça, professora da rede municipal de Florianópolis, observa esse padrão na educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental. Algumas crianças passam dois ou três dias longe da sala de aula e voltam abatidas, sem vontade de brincar. Segundo ela, as famílias costumam relatar episódios de diarreia, vômito ou outras infecções. A professora lembra de um aluno, a quem chama de João, que era curioso e participativo no início do ano. “Nas semanas de chuva forte ele sumia. A mãe me contou que, quando chove, o esgoto sobe na rua, que as crianças brincam ali e que ele andava com a barriga ruim. Quando voltava, tinha perdido a sequência da matemática, e a matemática depende de sequência.” A doença também afeta a rotina dos adultos. Adriana conta que, nas famílias que acompanha, mulheres e meninas mais velhas costumam buscar água e cuidar dos irmãos doentes. Com isso, as meninas podem faltar à escola, enquanto as mães precisam deixar o trabalho ou até perdem o emprego. Os dados nacionais apontam para problemas semelhantes, embora não comprovem que o saneamento seja a única causa. No estudo Futuro em risco, publicado em 2024, o Trata Brasil e a Ex Ante estimaram, com base na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, que crianças de até 6 anos acumularam 6,6 milhões de afastamentos de suas atividades por doenças de veiculação hídrica naquele ano. Já os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2021 mostraram que alunos do 5º ano sem banheiro em casa tiveram desempenho 45,5 pontos inferior em Língua Portuguesa e 39,5 pontos inferior em Matemática, na comparação com estudantes que tinham banheiro. Os resultados não isolam o efeito do saneamento de outros fatores, como a renda familiar. Itamê reconhece essa dificuldade. “Não sei medir quanto disso é esgoto e quanto é pobreza, alimentação e moradia, porque tudo anda junto, mas o saneamento faz parte do pacote.”


O avanço do esgoto em Santa Catarina e nas cidades atendidas pela Aegea


O atendimento por rede coletora de esgoto em Santa Catarina cresceu na última década, mas ainda parte de um patamar baixo. Na série do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) compilada pelo Instituto Trata Brasil, a parcela de catarinenses atendidos passou de 13% em 2010 para 26,1% em 2020. Depois, o indicador chegou ao nível registrado pelo Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) em 2024. A comparação exige cautela. O SINISA substituiu o SNIS a partir dos dados de 2023 e mudou parte da metodologia, passando a calcular o índice apenas sobre a população dos municípios com serviço de esgoto. Mesmo com o avanço, o ritmo ainda é lento. Entre 2018 e 2022, a cobertura cresceu, em média, 1,1 ponto percentual por ano, segundo o Trata Brasil. O estado precisa acelerar para alcançar a meta legal de 90% de atendimento até 2033. Essa expansão envolve diferentes operadores, como a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), presente em 193 dos 295 municípios, e concessionárias privadas. A Aegea atende seis cidades catarinenses onde vivem mais de 600 mil pessoas, segundo a empresa. Reginalva Mureb, que presidiu a Aegea em Santa Catarina entre 2019 e 2026, reconhece o atraso histórico do estado. “Historicamente, os índices de cobertura de tratamento de esgoto no território catarinense ficaram abaixo do potencial econômico do estado.”


A Aegea atua em Santa Catarina por meio de concessionárias responsáveis pelos serviços de saneamento em diferentes municípios, incluindo a Águas de São Francisco do Sul, a Águas de Penha, a Águas de Palhoça, a Águas de Bombinhas e a Águas de Camboriú.  Foto: Reprodução/Aegea
A Aegea atua em Santa Catarina por meio de concessionárias responsáveis pelos serviços de saneamento em diferentes municípios, incluindo a Águas de São Francisco do Sul, a Águas de Penha, a Águas de Palhoça, a Águas de Bombinhas e a Águas de Camboriú. Foto: Reprodução/Aegea

São Francisco do Sul reúne alguns dos registros mais detalhados dessa transformação. Quando a concessionária da Aegea assumiu o serviço, em 2014, o município, com cerca de 52 mil habitantes e população de até 180 mil no verão, não tinha coleta pública de esgoto, segundo a empresa. O Atlas Esgotos, da Agência Nacional de Águas (ANA), com dados de 2013, não registrava estação de tratamento na cidade, e o Censo de 2010 mostrava que a maioria das casas utilizava fossas. A primeira estação de tratamento, a ETE Ubatuba, foi inaugurada em junho de 2020. Desde então, a estrutura foi ampliada em etapas. A capacidade da estação, que indica quanto esgoto ela pode receber, passou de 45 para 100 litros por segundo entre 2022 e 2025. A rede coletora chegou a 166 quilômetros, e o número de imóveis efetivamente ligados ao sistema alcançou 12.299 em 2025, segundo a concessionária.


Os dados oficiais confirmam a mudança, embora a cobertura ainda seja limitada. Em 2024, 13.475 moradores de São Francisco do Sul tinham esgoto coletado por rede, segundo o SINISA, e todo o volume coletado passava por tratamento: 1,1 milhão de metros cúbicos naquele ano. Pelos números da concessionária, o volume tratado era de 659 mil metros cúbicos em 2022 e chegou a 1,4 milhão em 2025. A empresa afirma que a cobertura alcançou cerca de 40% em 2025, dado que ainda não tem confirmação oficial. Em 2024, três em cada quatro moradores continuavam fora da rede.


Em 2025, a cobertura chegou a cerca de 40%, conforme os números oficiais. Em 2024, três em cada quatro moradores continuavam fora da rede. Bairros como o Centro, o Ervino e a Vila da Glória ainda não contavam com coleta, e a concessionária anunciava duas novas estações, previstas para o Centro e o Ervino. No Capri, a rede foi concluída antes de o sistema entrar em operação. Édison Carlos, presidente do Instituto Aegea, entidade ligada aos investimentos sociais do grupo, explica que a instalação da tubulação não significa que o serviço já esteja disponível. “Rede construída não significa casa conectada nem sistema funcionando. Em São Francisco do Sul, o Capri teve a rede concluída, mas o sistema ainda não estava em operação e os moradores foram orientados a não se ligar.” Segundo ele, conexões feitas antes da autorização podem provocar extravasamentos nas ruas e até o retorno de esgoto para dentro das casas.


Em Penha, a principal obra é a ETE Gravatá, primeira estação de tratamento de esgoto do município. Em operação desde junho de 2024, ela atende os bairros Gravatá, São Miguel e Santa Regina. No fim daquele ano, a concessionária contabilizava cerca de 23 quilômetros de rede e 1.062 ligações. Em fevereiro de 2026, informou que o sistema de coleta e tratamento alcançava aproximadamente 11% do município. Nas áreas já atendidas, um dos desafios é fazer com que os moradores conectem suas casas à rede. Dos cerca de 1,8 mil imóveis aptos a realizar a ligação, 40% estavam conectados em fevereiro de 2026, segundo a empresa.


Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Foto: Reprodução/Águas de Penha
Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Foto: Reprodução/Águas de Penha

Édison Carlos afirma que a concessionária instalou caixas de inspeção em frente aos imóveis e orienta os moradores sobre como fazer a conexão. Luana Pretto aponta os principais obstáculos enfrentados em diferentes cidades do país. “Muitas famílias têm a rede na porta e não se ligam, por custo da ligação, por falta de adequação interna da casa, por irregularidade fundiária, por desinformação, por receio da tarifa ou porque a fiscalização é frágil e a obrigação de se conectar não é cobrada.” Para ampliar o atendimento ao restante de Penha, a concessionária prevê uma segunda estação, de maior capacidade. Ela deverá responder pela maior parte da cobertura da cidade. Na última informação pública localizada pela reportagem, de fevereiro de 2026, o terreno ainda não havia sido definido e as obras não tinham começado.


Em Bombinhas, a concessionária assumiu uma estação que operava em condições precárias. Na época, em 2016, a coleta alcançava 18% da população, segundo a empresa. Os indicadores oficiais mostram uma mudança pequena desde então. O índice de coleta passou de 17,5% no SNIS de 2020 para 18,3% no SINISA de 2024, quando 21% dos moradores eram atendidos por rede. A extensão da tubulação, porém, cresceu de 10 a 15 quilômetros em 2016 para mais de 50 quilômetros, segundo a concessionária. A diferença entre os números ajuda a explicar por que a rede instalada não significa que todo o esgoto esteja sendo coletado e tratado. Parte da tubulação só poderá receber ligações quando a nova estação entrar em operação. A obra recebeu licença de instalação em fevereiro de 2026 e está em andamento. Édison Carlos confirma que algumas ruas já têm tubulação, mas ainda dependem da estrutura de tratamento. “Há ruas com tubulação pronta aguardando a estação para que as ligações sejam autorizadas.” Enquanto a nova estação não fica pronta, a campanha Ligação Certa verifica se o esgoto e a água da chuva são direcionados corretamente nas casas. A concessionária afirma que a cobertura chegou a cerca de 24% em 2026, com 1.113 imóveis conectados. A meta é alcançar 97% antes de 2033, o que depende da conclusão da nova estação.


Em Camboriú e Palhoça, as concessões são recentes e os dados oficiais ainda não permitem avaliar seus efeitos com precisão. Em Camboriú, o SNIS registrava índice de coleta zero em 2020. Já o SINISA não apresentou dados de esgoto para o município em 2024 porque o prestador não enviou as informações. Responsável pelo serviço desde 2024, a concessionária opera estações de nove loteamentos e afirma ter elevado a cobertura de pouco mais de 2% para cerca de 7%. A construção do sistema principal, porém, ainda depende de licença ambiental. A área prevista para a obra já foi aprovada pela comunidade. Em Palhoça, onde a Aegea assumiu o serviço em dezembro de 2024, os indicadores oficiais refletem principalmente a situação anterior à concessão. O índice de coleta passou de 7,7% em 2020, quando o serviço era municipal, para 20,1% em 2024. Naquele ano, 23,4% da população era atendida por rede. No primeiro ano de concessão, a empresa revitalizou estações de loteamentos que já existiam. Uma delas estava completamente desativada e tinha equipamentos furtados. A concessionária informa que cerca de 16 mil imóveis estão conectados ao sistema. Os estudos para as quatro grandes estações previstas para o município começaram em 2025.


A legislação estabelece prazos e prevê consequências para o descumprimento das metas de saneamento. A Lei 14.026/2020, que atualizou o marco legal do setor, determina que os contratos prevejam o atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033. As metas devem ser progressivas, e os contratos anteriores precisaram incorporá-las até março de 2022. Cabe à agência reguladora verificar o cumprimento anualmente, considerando os cinco anos anteriores. Nesse período, as metas precisam ter sido atingidas em pelo menos três anos, e a primeira verificação ocorre ao fim do quinto ano do contrato. Se os resultados ficarem abaixo do previsto, a agência deve abrir um procedimento administrativo para avaliar as medidas cabíveis. Entre as possibilidades estão sanções e, em último caso, a caducidade da concessão, desde que sejam garantidos o direito de defesa e o cumprimento das exigências legais. A Lei de Concessões, de 1995, também exige que os contratos especifiquem as penalidades aplicáveis. A perda da concessão depende da comprovação do descumprimento em processo administrativo, com notificação prévia e prazo para correção. Em situações específicas, o prazo para universalização pode ser estendido até 2040, quando estudos sobre a prestação regionalizada demonstrarem inviabilidade econômica e houver anuência prévia do regulador. A reportagem não teve acesso à íntegra dos contratos das cinco concessões e não encontrou registros de sanções aplicadas a elas por descumprimento das metas de universalização. Para Reginalva Mureb, o tempo necessário para executar as obras é um dos principais obstáculos. “Obras de saneamento de grande porte podem levar anos apenas entre as fases de licenciamento ambiental, captação de recursos e efetiva implementação nas ruas.”


O tempo da obra e o tempo da infância


Na Praia do Sonho, no sul de Palhoça, a mudança começou pela água. Ana Lúcia, de 40 anos, mora na região há cerca de três décadas. Durante esse período, a água da torneira tinha cheiro forte e cor amarelada. Muitos moradores dependiam de ponteiras e poços, cuja água era salobra. Ela lembra que a filha, ainda pequena, e depois os sobrinhos sofreram com o problema. “Eles sofreram com essa água, e eu vivia preocupada com a saúde deles. Criança sente primeiro. Quem tem filho pequeno sabe que o crescimento, o brincar e o aprender dependem de coisas simples, e uma delas é ter água limpa em casa.” Em setembro de 2026, a primeira etapa da obra no bairro liberou 677 imóveis em 21 ruas para a ligação à rede de água tratada, segundo a concessionária. Mas a obra na rua não garante que a água já chegue às casas. Os moradores precisam procurar o atendimento e regularizar o cadastro do imóvel para solicitar a ligação, como explica Ana Lúcia. A preocupação dela encontra respaldo na ciência. Uma revisão de 124 estudos publicada na Lancet em 2022 concluiu que melhorar a água consumida em casa reduz o risco de diarreia em crianças de países de renda baixa e média. A filtragem da água no próprio domicílio, por exemplo, reduziu esse risco pela metade.


Na Praia do Sonho, a Águas de Palhoça, concessionária da Aegea SC, já implantou 10 quilômetros de rede, o equivalente a cerca de 35% da extensão prevista para o bairro. Foto: Reprodução/Águas de Palhoça
Na Praia do Sonho, a Águas de Palhoça, concessionária da Aegea SC, já implantou 10 quilômetros de rede, o equivalente a cerca de 35% da extensão prevista para o bairro. Foto: Reprodução/Águas de Palhoça

No Frei Damião, também em Palhoça, o problema era a falta de regularidade no abastecimento. Silvânia, mãe de Luanna, de 7 anos, e grávida de seis meses, descreve a rotina: “Aqui na comunidade sempre foi assim: tem dia que a água vem, tem dia que não vem, e a gente vive se virando para dar banho, lavar roupa, cozinhar e manter a casa limpa.” A situação não é rara no país. Segundo a PNAD Contínua de 2024, cerca de um em cada dez domicílios ligados à rede não recebia água todos os dias. Sabrina Sabino explica como essa instabilidade afeta as crianças. “A falta de água regular dificulta lavar as mãos, a mamadeira e os utensílios, o que favorece também infecções respiratórias e de pele.” Ela acrescenta que a água armazenada em recipientes descobertos pode se tornar criadouro do mosquito Aedes. Mesmo quando parece limpa, a água também pode estar contaminada, sobretudo quando a pressão da rede diminui. As obras de abastecimento no Frei Damião e no Brejaru preveem 19 quilômetros de rede para cerca de 3,2 mil imóveis, segundo a concessionária. Silvânia sabe que a obra leva tempo e que as ruas estreitas da comunidade dificultam os trabalhos. Ela também precisa atualizar o cadastro para conseguir a ligação. Ainda assim, vê uma possibilidade de mudança: “Mas, pela primeira vez, eu sinto esperança: de a Luanna crescer com mais saúde, de o irmãozinho ou a irmãzinha ter uma infância diferente da dela e de a gente poder pensar no futuro sem essa preocupação de todo dia.”


A espera pesa ainda mais nos primeiros anos de vida, quando o cérebro e o corpo se desenvolvem rapidamente. O pediatra Henrique Sá explica que, nessa fase, a criança depende de um ambiente que a proteja de doenças e permita explorar o mundo. “A criança doente brinca menos, explora menos, interage menos e, muitas vezes, falta à creche”, afirma. O impacto também chega aos pais. Exaustos com internações e episódios frequentes de diarreia dos filhos, eles podem ter menos condições de oferecer estímulos e atenção às crianças. Adriana Gomes acompanha essas consequências nas visitas às famílias. “A criança que adoece de novo e de novo perde peso, absorve mal o alimento, fica anêmica, vira aquele menino ‘mais fraquinho’ que cresce devagar, fala mais tarde e aprende mais devagar.” Um estudo com crianças de diferentes países, incluindo o Brasil, publicado em 2023 no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, mostrou que aquelas que tiveram mais infecções intestinais antes dos 2 anos apresentaram desempenho cognitivo um pouco menor entre os 6 e os 8 anos. A escolaridade da mãe e a renda familiar, porém, tiveram influência maior do que as infecções. Os pesquisadores identificaram uma associação, mas não comprovaram uma relação de causa e efeito.


Os resultados das obras de saneamento dependem da abrangência do serviço e de seu uso efetivo. Um estudo liderado pelo médico epidemiologista e pesquisador brasileiro Mauricio Barreto, publicado na Lancet em 2007, avaliou um programa de ampliação da cobertura de esgoto em Salvador. Após as obras, a prevalência de diarreia entre crianças de até 3 anos caiu 22%. Uma pesquisa mais recente, publicada em 2022 na revista Estudos Econômicos, da USP, analisou cerca de 340 municípios brasileiros que receberam obras de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Depois que os sistemas entraram em operação, as internações de bebês com menos de 1 ano caíram cerca de 4%. O efeito foi modesto, mas consistente. Outros estudos mostram que intervenções isoladas nem sempre produzem os resultados esperados. Três ensaios internacionais, com resultados publicados entre 2018 e 2019, testaram medidas como instalação de latrinas, cloração da água e lavagem das mãos dentro das casas, mas não encontraram efeitos sobre a altura das crianças. Para Sabrina, isso reforça a importância de ampliar a cobertura e garantir que os serviços sejam usados de fato. “Isso não prova que saneamento não funciona, mas sugere que a intervenção precisa ter cobertura alta, uso real e qualidade, e que a contaminação do ambiente comunitário importa tanto quanto a do domicílio.”


Os efeitos do saneamento também aparecem em momentos diferentes. Segundo Sabrina, a primeira mudança esperada é a melhora da qualidade e da regularidade do abastecimento de água. A redução dos casos de diarreia depende da conexão das casas e pode levar de meses a poucos anos. Depois, podem diminuir as verminoses e as internações. Já os efeitos sobre o crescimento e o desenvolvimento demoram mais e tendem a ser mais visíveis entre as crianças que nascem e crescem com acesso ao serviço. Para proteger a saúde dos moradores, não basta construir uma estação de tratamento. O esgoto precisa ser coletado nas casas e nas ruas e encaminhado para tratamento adequado. Os benefícios também podem chegar à escola. Um estudo com dados de municípios brasileiros, publicado em 2024 na revista Sustainable Development, identificou uma associação entre a ampliação do acesso à água encanada e a banheiros e melhores indicadores escolares entre estudantes de 6 a 14 anos, com mais aprovação e menos abandono. Itamê Mendonça afirma que as escolas nem sempre conseguem registrar essa relação. “A gente ensina a lavar as mãos, mas lavar as mãos exige água na torneira, e esgoto longe da porta exige obra, não aula. Outra coisa que me incomoda é que a escola anota a falta, mas quase nunca o motivo, e ninguém cruza isso com saneamento.” Sem informações sobre as razões das ausências, o impacto da falta de saneamento na frequência escolar permanece pouco visível para quem planeja a educação.


Em Santa Catarina, as doenças de transmissão feco-oral, grupo que inclui as diarreias e é o mais diretamente ligado à falta de água tratada e de esgoto, levaram a 4.427 internações no SUS em 2024, segundo levantamento do Instituto Trata Brasil e da Ex Ante Consultoria com dados do DATASUS. Os dados não mostram quantas dessas internações foram de crianças de 0 a 4 anos no estado. No país, essa faixa respondeu por cerca de 70 mil das 344 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento inadequado. Em São Francisco do Sul, onde a coleta de esgoto partiu de um cenário sem atendimento, os números ainda não permitem medir os efeitos das obras. Os registros do SIH/DATASUS, reunidos pela plataforma Infosanbas, apontam entre 2 e 13 internações por ano no município, em todas as idades, por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, entre 2008 e 2021. Em 2024, o Painel Saneamento Brasil registrou três internações por doenças de veiculação hídrica, com base em outra classificação. São valores baixos e variáveis, que não indicam tendência. Édison Carlos resume o desafio: “Obra entregue não basta: precisamos de sistemas funcionando, famílias conectadas e resultados medidos de forma independente.” Henrique Sá lembra que o saneamento precisa ser acompanhado de outras medidas, como nutrição adequada, aleitamento materno, vacinação, atenção primária e apoio aos cuidadores. A falta de uma prova definitiva, segundo ele, não deve impedir o acesso à água segura e ao esgoto tratado. “Mas é razão para sermos prudentes ao prometer resultados: dizer que a obra protege a criança é razoável, dizer que ela elevou o desenvolvimento de uma comunidade exige medição."


A falta de saneamento afeta principalmente a população mais pobre e gera custos de até R$ 1,4 milhão em internações em Santa Catarina, segundo estudo da Diretoria de Saneamento da Agência de Regulação de Serviços Públicos de Santa Catarina (ARESC). Foto: Arquivo/NJE Wyden.
A falta de saneamento afeta principalmente a população mais pobre e gera custos de até R$ 1,4 milhão em internações em Santa Catarina, segundo estudo da Diretoria de Saneamento da Agência de Regulação de Serviços Públicos de Santa Catarina (ARESC). Foto: Arquivo/NJE Wyden.

Em Santa Catarina, a rede de esgoto avança sobre bairros que nunca tiveram o serviço. O aumento das ligações e do volume tratado registra essa mudança, mas não mostra, por si só, quanto ela já alterou a vida das crianças. Para elas, o resultado depende de a rede chegar às casas nos primeiros anos de vida. Adriana Gomes acompanhou durante anos uma família cujo filho mais novo nasceu em uma rua sem esgoto. A criança foi internada repetidas vezes por diarreia, ficou abaixo do peso esperado para a idade e apresentou atraso na fala. Quando a água e o esgoto chegaram, ele já não era bebê. Adriana conta que o menino ganhou peso, deixou de ser internado e a mãe conseguiu voltar a trabalhar. É o relato de uma agente de saúde sobre uma criança, não uma medição científica, mas ajuda a compreender o que está em jogo. “É aí que eu penso no que a espera custou àquele menino, porque o saneamento não chegou atrasado só para a obra, chegou atrasado para o corpo e para o desenvolvimento de uma criança que não volta a ter dois anos de novo”, diz Adriana. Em Penha, Antony tem 4 anos, e, segundo a última informação disponível, as obras da estação que deve ampliar a coleta de esgoto para a maior parte da cidade ainda não haviam começado. A mãe, Samara, espera que o filho cresça sem adoecer por causa da falta de saneamento. A rede pode chegar a um bairro anos depois de ser prometida. A infância, porém, não espera: cada fase passa uma única vez, e as oportunidades perdidas nos primeiros anos não podem ser recuperadas com a conclusão de uma obra.



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