top of page

Quando a fé movimenta cidades: como o turismo religioso impulsiona comércio e serviços em Pernambuco

Foto do escritor: Brian Sthefano
Brian Sthefano
1 de jul.
9 min de leitura
Romarias e celebrações religiosas atraem milhares de visitantes a diferentes regiões de Pernambuco e movimentam uma cadeia que envolve comércio, alimentação, hospedagem, transporte e pequenos negócios. Foto: Andrea Rêgo Barros/PCR
Romarias e celebrações religiosas atraem milhares de visitantes a diferentes regiões de Pernambuco e movimentam uma cadeia que envolve comércio, alimentação, hospedagem, transporte e pequenos negócios. Foto: Andrea Rêgo Barros/PCR

Em determinadas datas do calendário religioso de Pernambuco, a preparação para receber milhares de fiéis começa antes das celebrações. Comerciantes reforçam estoques e mudam os produtos expostos, enquanto vendedores temporários ocupam as ruas próximas aos santuários e diferentes serviços se preparam para o aumento da circulação. No Morro da Conceição, na Zona Norte do Recife, a Prefeitura licenciou 250 comerciantes informais para atuar na festa de 2025, contra 200 no ano anterior, alta de 25%. Concentrados principalmente na venda de artigos religiosos e alimentos, eles se preparavam para uma celebração em que a gestão municipal estimava receber 2,5 milhões de fiéis ao longo de 11 dias.


O fenômeno se repete, em diferentes escalas, do Recife ao Agreste e ao Sertão. Romarias, festas de padroeiros, santuários e celebrações tradicionais deslocam públicos que chegam a municípios de portes distintos e acionam uma cadeia de alimentação, transporte, hospedagem, comércio e outros serviços. A presença de milhares de visitantes, porém, não significa que toda essa movimentação econômica permaneça no lugar que motivou a viagem: parte do público passa poucas horas no destino ou recorre a cidades vizinhas para comer, dormir e consumir. Na economia movida pela fé, levar milhares de pessoas até uma cidade é apenas parte do caminho; fazê-las permanecer é o que determina quanto desse movimento fica para quem vive nela.


Antes da romaria, o comércio reforça o estoque


No Morro da Conceição, o Bar da Geralda muda de prateleira a cada fim de ano. Durante a festa, o balcão que serve o bairro no restante do calendário divide espaço com terços, imagens, medalhas, velas e camisetas, produtos que Geralda Cardoso passa a vender apenas nesse período. A troca começa antes da procissão. “As festas e romarias religiosas têm um impacto muito grande no nosso comércio, principalmente porque o movimento começa a aumentar antes mesmo da festa acontecer. A gente precisa se preparar, reforçar o estoque e pensar nos produtos que os visitantes mais procuram”, afirma a comerciante.


Geralda Cardoso reforça o estoque do Bar da Geralda com artigos religiosos durante a Festa do Morro da Conceição, período de maior circulação de visitantes no bairro. Foto: Guga Matos
Geralda Cardoso reforça o estoque do Bar da Geralda com artigos religiosos durante a Festa do Morro da Conceição, período de maior circulação de visitantes no bairro. Foto: Guga Matos

O movimento não fica restrito ao balcão. Parte dos visitantes vem de outras cidades, permanece algumas horas no bairro e procura alimentação e outros serviços. “O visitante chega com uma disposição diferente, muitas vezes vem de outras cidades, passa algumas horas na região e aproveita para consumir, comer alguma coisa e comprar produtos”, relata Geralda. Segundo ela, restaurantes, ambulantes, lojas, vendedores de artigos religiosos e transportadores também se beneficiam do período, enquanto a receita adicional ajuda a compensar meses de menor movimento. Na edição de 2024, a Prefeitura do Recife destinou mais de R$ 400 mil à estrutura, à logística e às atrações culturais da festa.


O calendário conhecido permite antecipar parte dessa demanda. Em análise divulgada pela Fecomércio-PE, o economista Rafael Lima explica que a concentração de público produz um efeito sazonal sobre o varejo e os serviços. “A concentração de público gera aumento de demanda, levando a uma maior oferta de bens de consumo não duráveis e serviços de apoio, como alimentação, transporte e hospedagem”, afirma. É o mecanismo que leva comerciantes como Geralda a reforçar o estoque semanas antes da festa, com base no movimento esperado para o período.


Em cidades menores, esse fluxo ganha outra proporção. São Joaquim do Monte, no Agreste, tem 20.438 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2025. A organização da Romaria de Frei Damião estimou público de 190 mil pessoas em 2023 e superior a 200 mil em 2024. Na edição seguinte, a estimativa ultrapassou 300 mil participantes. “Na última edição, tivemos uma participação superior a 300 mil pessoas, um número muito expressivo e acima da média histórica de cerca de 200 mil romeiros”, afirma o padre Leonardo Bezerra do Nascimento, pároco do município. O contingente estimado para os quatro dias de romaria equivale a cerca de 15 vezes a população da cidade.


A 33ª Romaria do Venerável Frei Damião será realizada de 3 a 6 de setembro de 2026, em São Joaquim do Monte, no Agreste de Pernambuco. A celebração anual costuma reunir centenas de milhares de devotos do Nordeste em quatro dias de programação na chamada “Terra da Romaria”. Foto: Reprodução
A 33ª Romaria do Venerável Frei Damião será realizada de 3 a 6 de setembro de 2026, em São Joaquim do Monte, no Agreste de Pernambuco. A celebração anual costuma reunir centenas de milhares de devotos do Nordeste em quatro dias de programação na chamada “Terra da Romaria”. Foto: Reprodução

A diferença de escala entre Recife e São Joaquim do Monte não impede que o fluxo alcance atividades semelhantes. “O visitante chega para vivenciar sua fé, mas também utiliza os restaurantes, compra no comércio, procura hospedagem, utiliza os serviços e movimenta uma cadeia que beneficia diretamente a população”, afirma o pároco. A mais de 100 quilômetros dali, Geralda descreve, a partir do balcão, uma sequência semelhante de consumo ligada à chegada dos fiéis.


Outras celebrações ampliam esse calendário. Segundo a Fecomércio-PE, a festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife, reúne cerca de 300 mil devotos em 16 de julho. No Agreste, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém realizou a 57ª temporada entre 28 de março e 4 de abril de 2026, em uma cidade-teatro de 100 mil metros quadrados, com nove palcos e mais de 450 atores e figurantes. Os ingressos inteiros custaram entre R$ 180 e R$ 220. Diferentemente das romarias de rua, nesse caso, uma parcela do gasto associado à experiência ocorre antes mesmo da chegada ao atrativo, com a compra do ingresso.


A chegada dos visitantes, porém, é apenas o início desse percurso econômico. Depois que o ônibus estaciona, alimentação, compras, transporte e hospedagem passam a determinar onde parte desse consumo acontece. Entre permanecer algumas horas, passar a noite no destino ou seguir para outra cidade, muda também o número de oportunidades para que o gasto permaneça no município que motivou a viagem.


Quando o destino da fé não é o destino do consumo


A analista de Recursos Humanos Juliana Ferreira, de 41 anos, ouviu falar de Cimbres, distrito de Pesqueira, durante a pandemia de Covid-19, quando uma amiga contou sobre mulheres que subiam ao santuário para pedir pela maternidade. Em fevereiro de 2021, fez a primeira viagem, levando pedidos pelas duas irmãs. Voltou em abril de 2023, dessa vez para agradecer e fazer um pedido próprio. “A subida foi novamente uma experiência indescritível. É um lugar que transmite uma paz muito grande. Durante o caminho, fui rezando, mentalizando aquilo que desejava e, quando cheguei ao alto, fiz meus pedidos com toda a fé que tinha”, afirma. Depois de batizar o filho no Recife, planeja uma terceira ida ao distrito para agradecer pela gestação. A devoção que motivou as duas primeiras viagens deve levá-la novamente a Cimbres.


A viagem motivada pela fé, porém, nem sempre concentra no destino todas as atividades do visitante. Daniel Coelho, ex-secretário de Turismo e Lazer de Pernambuco, relata que, quando esteve à frente da pasta, observou excursões que passavam por Cimbres e seguiam para outras cidades. “O que se via era, muitas vezes, um turismo de passagem: as pessoas saíam de Recife em ônibus, chegavam a Cimbres, faziam a visitação, seguiam para Gravatá para comer alguma coisa e depois retornavam para a capital”, afirma. Nesse roteiro, Cimbres motivava o deslocamento, mas a refeição, e o gasto associado a ela, acontecia a mais de 70 quilômetros do santuário.


Na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, essa distribuição aparece na própria organização da viagem. Segundo Robinson Pacheco, presidente da Sociedade Teatral Fazenda Nova, responsável pelo espetáculo, visitantes compram em agências de diferentes partes do país pacotes com hospedagem no Recife, em Gravatá, Caruaru ou Porto de Galinhas e traslado até a cidade-teatro, em Brejo da Madre de Deus. Há roteiros que incluem ainda parada na feira de Caruaru para compras de artesanato e alimentação. O espetáculo leva o visitante a Fazenda Nova, mas hospedagem, refeições e outras compras podem ocorrer em municípios diferentes.


Os dados de hospedagem do período ajudam a dimensionar essa circulação regional. Levantamento do Setor de Estudos e Pesquisas da Empetur, realizado entre 9 de março e 1º de abril de 2026 com 39 meios de hospedagem em seis cidades, apontou taxa média de ocupação de 95,55% no Agreste durante a Semana Santa, 3% acima do mesmo período de 2025. Brejo da Madre de Deus, sede da Paixão de Cristo, chegou a 96,67%. Toritama alcançou 100%; Bonito, 95%; Bezerros, 94,29%; Gravatá, 94,08%; e Caruaru, 93,28%. A Secretaria de Turismo e Lazer de Pernambuco relaciona o movimento do período ao espetáculo, cuja demanda turística alcança diferentes municípios da região.


Quanto mais tempo o visitante permanece, mais atividades podem fazer parte da viagem. “O visitante não vai apenas ao santuário ou à igreja: ele precisa se alimentar, pode se hospedar, utiliza transporte, compra lembranças, artigos religiosos e movimenta o comércio local”, afirma Maria Regina Santana, analista do Sebrae-PE em Petrolina. Segundo ela, ampliar a permanência também amplia as oportunidades de consumo em alimentação, hospedagem, transporte e comércio dentro do próprio destino.


Em Serrita, no Sertão, comerciantes perceberam a importância desse tempo pela experiência de uma edição mais curta. Durante a 56ª Missa do Vaqueiro, realizada em julho de 2026, vendedores relataram queda nas vendas e associaram o resultado à redução dos dias de festividades. Empresários responsáveis por caravanas turísticas também apontaram diminuição no número de visitantes. Para quem depende desse movimento, a duração da programação altera diretamente o número de oportunidades de venda. Com menos dias de festividades, comerciantes e operadores de caravanas relatam menos tempo de circulação de visitantes e, consequentemente, menos ocasiões de consumo antes da partida.


Estrutura, serviços e roteiro: o que faz o visitante ficar


Em parte dos destinos religiosos de Pernambuco, o público não precisa ser criado a cada temporada. Algumas das celebrações atravessam décadas: a Paixão de Cristo é encenada desde 1968, a Missa do Vaqueiro foi criada em 1970 e a Romaria de Frei Damião ocorre desde 1993. A devoção sustenta deslocamentos que se repetem no calendário. Para o comércio, os serviços e o turismo, o desafio começa depois da chegada: no que o visitante encontra no destino e nas razões que tem para permanecer mais tempo.


Infraestrutura, sinalização, acessibilidade e oferta de serviços fazem parte dessa equação. “Quando esses municípios recebem investimentos em infraestrutura, sinalização, acessibilidade, preservação dos espaços religiosos e qualificação dos serviços, eles se tornam mais preparados para receber visitantes e, consequentemente, mais competitivos como destinos turísticos”, afirma Maria Regina Santana, analista do Sebrae-PE. Segundo ela, melhorar a estrutura amplia as possibilidades de permanência e de consumo para além da visita ao espaço religioso.


Em Cimbres, o destino descrito como ponto de passagem recebeu uma das maiores intervenções públicas de Pernambuco para o turismo religioso. A requalificação do Santuário de Nossa Senhora das Graças foi anunciada pelo Governo de Pernambuco em agosto de 2025 e licitada em outubro do mesmo ano, com valor estimado em R$ 17,48 milhões e prazo de execução de dez meses, sob fiscalização da Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab). O projeto prevê adequações de infraestrutura e acessibilidade no santuário, situado na Serra do Ororubá, em território indígena do povo Xukuru. Em maio de 2026, a Secretaria de Turismo e Lazer informou que a obra estava em andamento. O investimento ocorre justamente em um destino onde excursões chegam motivadas pela fé, mas parte das atividades da viagem ainda se desloca para outros municípios.


Em Goiana, na Zona da Mata Norte, o investimento chegou pela preservação do patrimônio. Entre 2022 e 2025, o Sesc-PE destinou R$ 500 mil ao Museu de Arte Sacra e outros R$ 180 mil a ações de restauração e preservação. Segundo a Fecomércio-PE, a iniciativa integrou o equipamento ao circuito de turismo religioso do município, que reúne oito igrejas tombadas, com a proposta de estruturar roteiros capazes de ampliar a permanência dos visitantes e estimular a atividade econômica local.


Conectar atrativos como esses em roteiros mais amplos é outra frente. O guia Rota da Fé, produzido pela Setur e pela Empetur em 2013, reúne datas, padroeiros e atrativos religiosos pernambucanos. Mais recentemente, o PL 3123/2024 propôs a criação da Rota Turística da Fé Padre Cícero e Frei Damião, ligando municípios de Pernambuco e Ceará. Em outubro de 2025, o projeto foi aprovado em caráter conclusivo pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e encaminhado ao Senado.


Renildo Calheiros, relator da proposta na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados.
Renildo Calheiros, relator da proposta na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados.

Para Eduardo Loyo, diretor-presidente da Empetur, estruturar e promover esses destinos pode ampliar não apenas o fluxo, mas o tempo que o visitante passa neles. “É um segmento que tem uma capacidade muito grande de atrair visitantes, movimentar a economia local e valorizar destinos que muitas vezes ainda são pouco conhecidos fora de suas regiões”, afirma. Segundo ele, as ações da Empetur e da Setur buscam estimular a permanência e, com ela, o consumo em restaurantes, comércio e outros serviços nos próprios municípios.


Quando esse consumo permanece no destino, chega também aos pequenos negócios. “Do ponto de vista financeiro, essa influência acelera a circulação de capital nos municípios e fomenta os pequenos negócios. Trata-se de um período que permite a recomposição de caixa para empreendedores e a geração de renda para trabalhadores autônomos”, afirma Rafael Lima, economista da Fecomércio-PE. É o efeito relatado ao longo da reportagem por quem vive essas celebrações: durante os períodos de maior fluxo, alimentação, transporte, hospedagem e comércio passam a disputar uma parcela do consumo gerado pela viagem.


No Morro da Conceição, essa cadeia volta ao balcão de Geralda. “A gente se prepara porque sabe que é uma oportunidade de vender mais, mas também porque percebe que o turismo religioso mantém uma cadeia de pequenos negócios funcionando e gera renda para muitas famílias”, diz. Os terços, imagens, medalhas, velas e camisetas que entram no estoque antes da festa são a ponta visível desse percurso: uma viagem motivada pela fé que, em algum momento, se transforma em consumo.

Quando a procissão termina, os ônibus retornam e o estoque extra acaba, o tamanho da multidão deixa de ser a única medida do que a celebração representou para a cidade. A fé leva o visitante até o destino; entre a chegada e a partida, estrutura, serviços e tempo de permanência ajudam a definir quanto dessa viagem se transforma em renda para quem vive ali.




Obrigado pelo envio!

Copyright © 2026. Todos os direitos reservados pelo NJE Wyden. 

bottom of page