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Ceará reduz desertos de notícia, mas concentração da imprensa ainda desafia o acesso à informação

  • Foto do escritor: Brian Sthefano
    Brian Sthefano
  • 4 de ago.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 6 de ago.

Embora o número de desertos de notícia tenha diminuído nos últimos anos, diversos municípios cearenses ainda vivem algum grau de fragilidade informativa. Foto: Reprodução/Internet
Embora o número de desertos de notícia tenha diminuído nos últimos anos, diversos municípios cearenses ainda vivem algum grau de fragilidade informativa. Foto: Reprodução/Internet

Durante anos, quem acessava o principal site de notícias de um pequeno município cearense encontrava inaugurações, agendas do prefeito, obras anunciadas, campanhas institucionais e discursos otimistas da administração pública. Não havia denúncias, contrapontos ou reportagens sobre problemas da cidade. O motivo aparecia apenas longe dos holofotes, no expediente do próprio portal: o responsável pelo único veículo jornalístico identificado no município era o diretor de Comunicação da prefeitura. O órgão que deveria ser fiscalizado produzia, editava e publicava as notícias sobre si mesmo.


No Atlas da Notícia, aquele município deixou de ser classificado como deserto de informação. Na prática, porém, seus moradores continuavam sem acesso ao que faz do jornalismo uma instituição democrática: independência para verificar fatos, fiscalizar o poder e transformar informação em instrumento de cidadania. A contradição ajuda a explicar por que, embora o Ceará tenha reduzido seus desertos de notícia nos últimos anos, 152 dos 184 municípios ainda vivem algum grau de fragilidade informativa. Mais do que a ausência de veículos, o desafio passa a ser garantir a existência de um jornalismo capaz de exercer sua função pública.


O mapa que separa quem é visto de quem não é


O Ceará soma 316 veículos jornalísticos ativos e ocupa uma posição relativamente favorável no Nordeste, atrás apenas da Bahia, Pernambuco e Maranhão em número de iniciativas jornalísticas, segundo o Atlas da Notícia. A distribuição desses veículos, contudo, revela um cenário desigual. Apenas 32 dos 184 municípios possuem três ou mais veículos em atividade, patamar considerado pelo Atlas como o mínimo para assegurar diversidade de cobertura. Esses municípios concentram 223 dos 316 veículos existentes no Estado, mais de 70% de toda a estrutura jornalística cearense. Fortaleza, sozinha, reúne cerca de um quarto desse total e, ainda assim, figura entre as capitais brasileiras com menor proporção de veículos por habitante.


"O Atlas da Notícia é o mapeamento do jornalismo no Brasil. A gente também consegue identificar onde eles não estão. Essa ausência do jornalismo local, a gente chama de deserto de notícias", resume a jornalista e pesquisadora Mariama Correia, responsável pelo levantamento na região Nordeste. Segundo ela, a redução dos desertos observada nos últimos anos está diretamente relacionada ao crescimento dos veículos digitais, embora, no interior cearense, o rádio continue sustentando grande parte da cobertura local. "No começo a gente classificava esses veículos como não jornalísticos. Depois compreendemos que eles exerciam um papel essencial, sobretudo durante a pandemia, quando as rádios comunitárias foram muito importantes para informar a população sobre a vacinação", explica.


O caso do município citado na abertura desta reportagem, documentado em 2023 pela pesquisadora Marta Alencar, revela justamente uma limitação desse mapeamento. Embora existisse um veículo formalmente registrado, ele era administrado pelo diretor de Comunicação da prefeitura e reproduzia exclusivamente conteúdo institucional. Para Sérgio Lüdtke, coordenador do Atlas da Notícia, trata-se de um fenômeno cada vez mais frequente em pequenas cidades brasileiras: diante da ausência de mercado para sustentar uma imprensa independente, o próprio poder público passa a ocupar o espaço da informação, produzindo a narrativa sobre si mesmo. Nesse contexto, a existência de um site deixa de significar, necessariamente, a existência de jornalismo.


Foi justamente para romper essa lógica que, no Maciço de Baturité, um jornalista decidiu criar um veículo onde a versão oficial deixasse de ser a única voz disponível. A iniciativa de Cesar Monteiro transformaria uma região frequentemente ignorada pela imprensa estadual em exemplo de como o jornalismo local pode fortalecer a participação cidadã e aproximar comunidades dos seus direitos.


A região que decidiu ter voz própria


O Maciço de Baturité fica a pouco mais de 100 quilômetros de Fortaleza. A distância é curta para quem sai da Capital num fim de semana, mas durante muito tempo foi suficiente para manter a região fora do noticiário estadual. Enquanto câmaras municipais votavam projetos, prefeituras anunciavam obras, escolas enfrentavam dificuldades e pequenos empreendedores movimentavam a economia local, quase nada ultrapassava os limites dos próprios municípios. Quando chegava à imprensa sediada em Fortaleza, o Maciço geralmente aparecia por um único motivo: uma tragédia.


Foi convivendo com esse silêncio que o jornalista Cesar Monteiro decidiu criar o BTE News. A proposta, segundo ele, nunca foi disputar espaço com os grandes veículos do Estado, mas preencher um vazio deixado por eles. "Quando fundamos o BTE News, a ideia nunca foi apenas criar mais um portal de notícias. A intenção era garantir que a nossa região tivesse voz", afirma. Para Cesar, o problema nunca foi a falta de acontecimentos. "O Maciço de Baturité produz fatos relevantes todos os dias, mas, durante muito tempo, essas histórias só ganhavam espaço quando havia uma tragédia ou algum fato extraordinário."


Criado pelo jornalista Cesar Monteiro, o BTE News nasceu para ampliar a cobertura jornalística do Maciço de Baturité e fortalecer o acesso da população a informações de interesse público. Foto: Acervo pessoal
Criado pelo jornalista Cesar Monteiro, o BTE News nasceu para ampliar a cobertura jornalística do Maciço de Baturité e fortalecer o acesso da população a informações de interesse público. Foto: Acervo pessoal

Na prática, a rotina do veículo passou a ser justamente acompanhar aquilo que dificilmente se transformaria em manchete na imprensa estadual: sessões das câmaras municipais, editais públicos, decisões administrativas, ações nas áreas de educação, saúde, cultura e empreendedorismo. É a cobertura cotidiana — aquela que raramente repercute fora da cidade — que especialistas apontam como uma das primeiras vítimas dos desertos de notícia e, ao mesmo tempo, como um dos principais indicadores de que o jornalismo local voltou a existir.


Para Cesar, essa presença permanente modifica a própria relação entre poder público e sociedade. "Quando há um jornalismo presente no dia a dia dos municípios, gestores públicos sabem que suas ações estão sendo acompanhadas. Isso contribui para uma administração mais transparente e fortalece a democracia", afirma.


A percepção encontra respaldo em pesquisas acadêmicas. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), que analisou os efeitos da divulgação de informações sobre corrupção na participação eleitoral, identificou que eleitores com menor escolaridade tendem a participar mais das eleições quando recebem informações qualificadas sobre a gestão pública. Em municípios do interior, onde o acesso à cobertura jornalística costuma ser mais restrito, esse papel passa a depender, quase exclusivamente, da existência de veículos locais.


Os efeitos dessa cobertura também são percebidos por quem vive na região. Pastor Leandro, morador de Baturité, lembra que, antes da consolidação de iniciativas como o BTE News, boa parte das informações circulava de forma informal. "Antes, muitas informações chegavam por comentários, por alguém que ouviu falar, e isso acabava gerando versões diferentes da mesma história. Sem um veículo sério, as notícias viram fofocas, não notícias", relata. Segundo ele, a mudança passou a ser percebida dentro da própria comunidade. "Conversando com as pessoas da igreja, a gente vê que elas passaram a saber mais sobre o que acontece na própria cidade. Isso fortalece a comunidade, porque uma população bem informada participa mais, cobra mais e toma decisões com base em fatos, e não em boatos."


O contraste ajuda a compreender a diferença entre possuir um endereço na internet e possuir, de fato, um veículo de imprensa. Enquanto em parte do Ceará ainda existem municípios onde a narrativa pública é produzida pela própria administração municipal, no Maciço de Baturité a criação de um jornal local significou devolver à população algo que vai além da notícia: a possibilidade de acompanhar, questionar e participar da vida pública a partir de informações produzidas de forma independente.


Quando existe jornalismo, a sociedade ganha


Para Luiz Esteves, a diferença entre informação e jornalismo nunca foi uma discussão teórica. Ela aparecia todas as vezes em que uma reportagem conseguia mudar o rumo de uma história. Durante anos, à frente do quadro Desaparecidos, ele acompanhou famílias que encontravam, na exposição pública de seus casos, uma última possibilidade de reencontro. "Embora menos da metade dos casos tivesse um desfecho positivo, cada pessoa encontrada representava uma vitória imensa para toda a equipe. Mais do que buscar respostas, o quadro mantinha viva a esperança das famílias e mobilizava a sociedade em torno dessas histórias", relembra.


Em entrevista à reportagem, o jornalista e apresentador Luiz Esteves relembra como o quadro Desaparecidos transformou reportagens em mobilização social e reforça o papel do jornalismo na garantia de direitos e na visibilidade de comunidades frequentemente esquecidas.

Os resultados aparecem também nos números. O Ceará registra, em média, 156 desaparecimentos por mês, enquanto o total de pessoas localizadas no país cresceu 51% entre 2020 e 2025. Em Fortaleza, a própria Polícia Civil atribui parte desse avanço à divulgação sistemática dos casos pelos veículos de comunicação. Para Esteves, trata-se da mesma lógica observada no interior do Estado. "O jornalismo dá voz a quem muitas vezes não é ouvido, fiscaliza o poder público e leva informação que pode transformar a vida das pessoas. Mas isso só acontece de forma completa quando existem veículos espalhados por todas as regiões, e não apenas nos grandes centros. Democratizar a informação também é garantir que nenhuma comunidade fique invisível.", afirma.


A presença desses veículos torna-se ainda mais importante num cenário em que produzir conteúdo deixou de ser exclusividade das redações. Para Miguel Macedo, docente da Universidade de Fortaleza (Unifor) e integrante da Associação Cearense de Imprensa, a facilidade de publicação ampliou o acesso à informação, mas também tornou mais difícil distinguir informação de jornalismo. "Hoje, qualquer pessoa pode produzir conteúdo e alcançar milhares de pessoas pelas redes sociais. Isso democratizou a comunicação, o que é positivo, mas também trouxe um desafio enorme: informação não é, necessariamente, jornalismo", comenta.


Os dados ajudam a explicar esse cenário. Segundo o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, 78% dos brasileiros utilizam plataformas digitais como principal fonte de notícias, enquanto a confiança no noticiário caiu para 42%, o menor índice da série histórica. Para Miguel, é justamente nesse ambiente que o método jornalístico se torna o principal diferencial. "Existe um processo de apuração, de checagem, de contextualização e de responsabilidade com aquilo que está sendo levado ao público. O vídeo curto, o conteúdo rápido e os algoritmos passaram a disputar a atenção das pessoas, mas o consumo fica superficial: sabe-se o que aconteceu, mas não por que aconteceu, quais são as consequências e quem são os responsáveis."


Foi essa diferença que apareceu no município onde a única "notícia" era produzida pela própria prefeitura. É essa mesma diferença que explica a existência do BTE News no Maciço de Baturité. Os dois publicam conteúdo. Apenas um exerce a função social do jornalismo: fiscalizar o poder, dar visibilidade a quem normalmente permanece fora do debate público e oferecer à população informações produzidas de forma independente.


Nos 152 municípios cearenses que ainda vivem algum grau de fragilidade informativa, a ausência de jornalismo significa mais do que a falta de notícias. Significa menos fiscalização sobre os recursos públicos, menos acesso a direitos, menos espaço para que comunidades contem suas próprias histórias e mais dificuldade para que o cidadão participe das decisões que afetam sua vida. O mapa dos desertos de notícia, afinal, também revela um mapa das desigualdades no acesso à informação.


No município onde esta reportagem começou, havia um site, textos publicados e notícias sendo atualizadas diariamente. Faltava justamente aquilo que transforma informação em um direito coletivo: independência para perguntar, apurar, contestar e cobrar. É essa diferença — invisível para um algoritmo, mas decisiva para a democracia — que separa um canal oficial de um veículo de imprensa. E é essa ponte que jornalistas espalhados pelo Ceará continuam tentando construir, todos os dias, para que o direito de saber não dependa do CEP onde alguém nasceu.



















 
 

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