Como o saneamento está transformando a vida das mulheres em Teresina
- Brian Sthefano

- 28 de mai.
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Quando Dona Consuelo, de 67 anos, olha para a filha Maria Eurenice, de 35, e depois para a neta Luanna, de 9, vê três décadas comprimidas numa mesma rua. Eurenice cresceu entre episódios recorrentes de diarreia e infecções intestinais enquanto a mãe carregava baldes de água de uma torneira pública para dentro de casa. Do lado de fora, o esgoto corria em vala aberta pela calçada do Morro da Esperança, bairro da zona urbana de Teresina onde a família vive há gerações. Era uma realidade comum nas periferias da capital piauiense nos anos 1990 e 2000, quando saneamento básico ainda era uma infraestrutura distante para grande parte da cidade. Luanna, hoje, cresce num cenário diferente. O que mudou entre uma geração e outra não foi a sorte da família, mas a infraestrutura urbana ao redor dela.
Em 2017, apenas 19% dos domicílios de Teresina eram atendidos por rede de esgoto, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). A capital do Piauí figurava entre os menores índices de cobertura entre as capitais brasileiras. Desde então, impulsionada por investimentos superiores a R$ 1,3 bilhão da concessionária Águas de Teresina e pelas metas estabelecidas pelo novo Marco Legal do Saneamento, a cidade ampliou a cobertura para cerca de 59%.

A mudança começou a ser percebida não apenas nas obras espalhadas pela cidade, mas também em indicadores ligados à saúde pública e na rotina de bairros historicamente afetados pela ausência de infraestrutura. Embora a expansão da rede ainda avance de forma gradual em algumas regiões, especialmente nas áreas periféricas, especialistas apontam que Teresina vive hoje um processo consistente de transformação urbana e sanitária. Na prática, o saneamento deixou de ser apenas uma discussão sobre engenharia e passou a impactar diretamente qualidade de vida, saúde e desigualdade social, sobretudo entre as mulheres, historicamente mais afetadas pela falta desses serviços.
A cidade que construiu seu passado sem esgoto
O avanço recente do saneamento em Teresina contrasta com um histórico de décadas de baixa cobertura e expansão urbana sem infraestrutura adequada. No Ranking do Saneamento de 2023, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, a capital piauiense ainda figurava entre as cidades brasileiras com maiores desafios relacionados à coleta e ao tratamento de esgoto, reflexo de um déficit histórico acumulado ao longo de décadas. Embora o abastecimento de água alcançasse parte significativa da cidade, problemas de regularidade e infraestrutura ainda afetavam bairros periféricos, especialmente nas zonas de expansão urbana. O contraste sempre chamou atenção: cortada pelos rios Poti e Parnaíba, Teresina possui ampla disponibilidade hídrica, mas historicamente enfrentou dificuldades para transformar esse potencial em infraestrutura sanitária capaz de acompanhar o crescimento populacional.
O déficit acumulado ao longo de décadas refletia um padrão recorrente em cidades brasileiras que cresceram mais rápido do que sua capacidade de investimento em infraestrutura. Regiões inteiras se expandiram sem cobertura adequada de esgotamento sanitário, recorrendo a fossas improvisadas ou soluções precárias. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, em 2023 apenas 34% da população nordestina era atendida por redes coletoras de esgoto, abaixo da média nacional de 57%. No Piauí, os índices permaneciam inferiores a 30%, evidenciando um desafio histórico não apenas de engenharia urbana, mas também de saúde pública.
Em Teresina, os impactos dessa ausência de infraestrutura atingiam principalmente as áreas periféricas. Dados do IBGE indicam que milhares de domicílios ainda conviviam, até poucos anos atrás, com acesso limitado à rede coletora. Foi nesse contexto que bairros como o Morro da Esperança cresceram. A história de Dona Consuelo e da filha Maria Eurenice não representa uma exceção dentro da cidade, mas um retrato de uma geração de mulheres que conviveu diariamente com os efeitos da ausência de saneamento básico, desde doenças recorrentes até a sobrecarga no cuidado doméstico.

Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar em ritmo acelerado. A aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento, em 2020, estabeleceu metas nacionais de universalização dos serviços até 2033 e abriu caminho para novos modelos de investimento e expansão da infraestrutura urbana. Em Teresina, esse movimento passou a ser percebido diretamente nas obras de ampliação da rede de esgoto, nas novas estações de tratamento e na expansão dos serviços para regiões historicamente descobertas. O avanço da infraestrutura sanitária na capital também passou a colocar a cidade entre os destaques nacionais em expansão proporcional do saneamento, resultado de uma combinação entre investimentos contínuos, reorganização regulatória e ampliação das obras urbanas nos últimos anos.
Para o professor Alessandro de Araújo Bezerra, do Departamento de Recursos Hídricos, Geotecnia e Saneamento Ambiental da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o avanço observado em Teresina nos últimos anos está diretamente ligado à reorganização do setor e à ampliação dos investimentos em infraestrutura. “As mudanças regulatórias e o novo marco legal incentivaram maior planejamento, expansão da rede e continuidade dos investimentos. Isso tem permitido uma melhoria gradual, mas consistente, da cobertura dos serviços na cidade”, afirma. Parte desse avanço está associada aos investimentos realizados pela Águas de Teresina, concessionária responsável pelos serviços de saneamento da capital. Mais de R$ 1,3 bilhão foram destinados à ampliação da rede de esgoto, construção de estações de tratamento e modernização do abastecimento de água. O impacto passou a aparecer não apenas nos indicadores de cobertura, mas também na dinâmica urbana da cidade, com obras avançando em regiões que historicamente permaneceram à margem da infraestrutura sanitária.
Especialistas avaliam que o salto registrado por Teresina em menos de uma década é significativo dentro do cenário nacional. A ampliação da cobertura exige obras complexas, planejamento técnico e investimentos contínuos de longo prazo. Ao mesmo tempo, a expansão da rede ainda ocorre de forma gradual em algumas áreas da cidade, especialmente nas regiões periféricas e de crescimento urbano mais recente. Para Alessandro Bezerra, o principal desafio agora é garantir que o avanço continue alcançando diferentes territórios da capital de forma sustentável. “O processo de universalização exige continuidade dos investimentos e planejamento técnico permanente, para que os benefícios do saneamento avancem de maneira cada vez mais ampla dentro da cidade”, afirma.
Quem paga o preço mais alto e quem espera mais para receber o benefício
Quando a falta de saneamento entra na rotina de uma cidade, o impacto raramente é distribuído de forma igual. Em diferentes pesquisas sobre saúde pública e infraestrutura urbana, as mulheres aparecem entre as mais afetadas pela precariedade no acesso à água tratada e à coleta de esgoto. Não por fatores biológicos, mas porque continuam concentrando grande parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado doméstico e à saúde da família, especialmente em regiões periféricas.
Dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) mostram que a taxa de mortalidade por doenças associadas à precariedade do saneamento chega a 4,7 óbitos por 100 mil habitantes entre mulheres, acima da registrada entre homens, de 4,4. Em áreas com abastecimento irregular, também são elas, na maioria das vezes, que assumem tarefas como armazenamento de água, limpeza da casa e cuidados com crianças e idosos doentes.
Para Marcela Ayub Brasil, analista da ANA na área de Conjuntura e Indicadores de Recursos Hídricos, o problema vai muito além da infraestrutura. “Essa vulnerabilidade está diretamente relacionada às condições sociais. Em muitos lares, mulheres e meninas assumem a responsabilidade pelo manejo da água e pela manutenção da rotina doméstica quando o abastecimento é insuficiente. Isso amplia a exposição a riscos sanitários e ambientais”, afirma. Os impactos também aparecem fora das estatísticas de saúde. Em comunidades sem abastecimento regular ou sem banheiros adequados, mulheres convivem com situações frequentes de insegurança durante deslocamentos para buscar água ou utilizar instalações improvisadas. O problema é ainda mais sensível em regiões periféricas e áreas de maior vulnerabilidade social.
Pesquisador da Fiocruz Minas e referência nacional em políticas públicas de saneamento, Léo Heller afirma que a precariedade desses serviços afeta diretamente a autonomia feminina. “O debate sobre água e saneamento precisa incorporar a perspectiva de gênero porque os impactos não recaem de maneira igual sobre homens e mulheres. A ausência desses serviços compromete saúde, educação, segurança e qualidade de vida”, explica. A desigualdade também aparece no tempo consumido por tarefas invisíveis da rotina doméstica. Levantamento da ONU Mulheres estima que mulheres e meninas gastem, diariamente, cerca de 200 milhões de horas no mundo coletando água. No Brasil, dados do IBGE mostram que mulheres que vivem em domicílios sem abastecimento regular dedicam mais tempo a atividades relacionadas ao manejo da água do que aquelas atendidas pela rede. Na prática, são horas retiradas do trabalho, do estudo e do descanso.
Os efeitos da ausência de saneamento se refletem diretamente nos indicadores de saúde pública. Em 2022, o Ministério da Saúde registrou mais de 340 mil internações por doenças diarreicas agudas no Brasil. Crianças e idosos seguem entre os grupos mais vulneráveis, mas especialistas apontam que a sobrecarga do cuidado recai majoritariamente sobre as mulheres. No Nordeste, estudos da Fiocruz indicam que regiões com baixa cobertura de esgoto apresentam índices de hospitalização por doenças entéricas até três vezes maiores do que áreas com cobertura ampliada. Em Teresina, a relação entre infraestrutura sanitária e saúde pública passou a ganhar mais atenção nos últimos anos, especialmente com o avanço das obras de expansão da rede de esgoto em regiões periféricas da cidade.
Além dos impactos sociais e sanitários, o saneamento também possui efeito direto sobre os gastos públicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cada dólar investido em saneamento básico gere economia de quatro dólares em despesas com saúde. Estudos do Instituto Trata Brasil apontam retorno econômico associado à redução de internações, aumento da produtividade e diminuição de doenças evitáveis.
Para especialistas, os efeitos desse avanço são percebidos de forma ainda mais significativa entre mulheres de baixa renda, historicamente mais expostas à ausência de infraestrutura básica. Com ampliação da rede de água e esgoto, reduz-se o tempo gasto em tarefas relacionadas ao abastecimento doméstico, diminuem os impactos de doenças recorrentes dentro das famílias e ampliam-se condições de permanência no trabalho e na escola. Em cidades como Teresina, o saneamento passou a ser entendido não apenas como obra urbana, mas como uma política diretamente ligada à saúde pública, à qualidade de vida e à redução das desigualdades sociais.
O saneamento que aparece na rotina antes de aparecer nas estatísticas
As mudanças provocadas pela expansão do saneamento em Teresina nem sempre surgem primeiro nos relatórios técnicos. Em muitos bairros da capital, elas começaram a aparecer no cotidiano das famílias: ruas que deixaram de conviver com esgoto a céu aberto, redução de alagamentos provocados pelo entupimento de galerias, diminuição de odores constantes e melhora na regularidade do abastecimento de água. Em regiões das zonas sul, sudeste e leste, onde obras de implantação da rede avançaram nos últimos anos, moradores passaram a conviver com uma transformação que, embora subterrânea, altera diretamente a dinâmica urbana e as condições de saúde pública.
O ritmo dessa expansão também passou a chamar atenção nos indicadores nacionais de investimento em infraestrutura sanitária. Segundo levantamento do Instituto Trata Brasil, com base em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), Teresina registrou, em 2024, investimento de R$ 322,10 por habitante em saneamento básico, o maior índice entre as capitais do Nordeste e um dos mais elevados do país. O volume de recursos ajuda a explicar a aceleração das obras de ampliação da rede de esgoto, modernização do abastecimento e expansão da infraestrutura sanitária observada nos últimos anos.
Segundo dados divulgados pela Águas de Teresina, mais de 900 quilômetros de rede coletora de esgoto foram implantados desde o início da concessão na capital. O sistema também recebeu novas estações elevatórias e ampliação da capacidade de tratamento, permitindo que bairros historicamente afastados da infraestrutura sanitária começassem a ser incorporados à rede. Em paralelo, programas de modernização do abastecimento reduziram perdas de água e ampliaram a regularidade do fornecimento em diferentes regiões da cidade.

Os efeitos começam a ser percebidos também na área da saúde. Levantamento do Instituto Trata Brasil aponta que municípios com avanço consistente na cobertura de saneamento registram redução gradual nas internações por doenças de veiculação hídrica, especialmente entre crianças e idosos. Em Teresina, profissionais da área de saúde observam melhora progressiva em regiões que passaram a receber obras de esgotamento sanitário nos últimos anos, embora especialistas ressaltem que os impactos mais amplos tendem a aparecer de forma contínua ao longo do tempo. Para Marcela Ayub Brasil, analista da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), os benefícios da infraestrutura sanitária vão além dos indicadores tradicionais. “Quando há ampliação do acesso à água tratada e à coleta de esgoto, há reflexos diretos na saúde, na qualidade de vida e na redução das desigualdades sociais. Esses impactos atingem toda a população, mas têm efeito especialmente importante sobre mulheres e crianças, que historicamente convivem de forma mais intensa com os efeitos da precariedade sanitária”, afirma.
O desafio da universalização do saneamento ainda exige continuidade de investimentos, planejamento urbano e expansão da infraestrutura para áreas que historicamente ficaram à margem do desenvolvimento da cidade. Em Teresina, porém, os avanços dos últimos anos já começam a produzir impactos concretos na saúde pública, na qualidade de vida e na rotina da população, especialmente entre mulheres que durante décadas concentraram os efeitos da precariedade sanitária dentro de casa. Mais do que ampliar indicadores de cobertura, a expansão da rede representa uma mudança estrutural na cidade: reduz doenças evitáveis, melhora as condições urbanas e cria novas perspectivas para gerações que cresceram convivendo com a ausência de infraestrutura básica.



