Da EEEP ao mercado: a formação de novos profissionais de Administração no Ceará

Atualizado: 3 de out.

Emitir documentos, acompanhar contratos, conferir pagamentos e atender clientes foram algumas das primeiras tarefas de Francisco Neto no mercado de trabalho. Ainda aluno do Ensino Médio, ele cumpria o estágio obrigatório da 3ª série do curso técnico em Administração da EEEP Adolfo Ferreira de Sousa, em Redenção, no setor administrativo e financeiro de uma empresa de veículos. Lidava com dinheiro e com papéis que, nas palavras dele, “valiam muito”, e tinha medo de errar. O estágio terminou em contratação, a experiência abriu caminho para outros trabalhos no setor automotivo e, mais tarde, para uma loja de veículos própria. A trajetória de Francisco começa em uma das portas de entrada do mercado para quem se forma técnico em Administração. Em agosto de 2026, cerca de 24 mil alunos da 3ª série das Escolas Estaduais de Educação Profissional (EEEPs) do Ceará estavam prestes a começar o estágio, etapa obrigatória para a obtenção do certificado de técnico, segundo a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). Para esses estudantes, o último ano da escola também marca o primeiro contato formal com o mercado de trabalho em uma área para a qual vêm sendo preparados desde o início do curso. O que acontece depois dessa primeira experiência, porém, não segue um único caminho.
Uma pesquisa quantitativa realizada pelo Núcleo de Jornalismo Experimental da Wyden, entre 1º e 30 de junho de 2026, ouviu 800 estudantes e egressos de cursos técnicos em Administração das EEEPs, por meio de questionário estruturado. A amostra foi dividida igualmente entre 400 estudantes e 400 egressos. Entre os ex-alunos, todos disseram ter conseguido algum trabalho depois da formação. Para 45,5% deles, o primeiro trabalho teve relação direta com Administração; para outros 30,25%, a relação foi parcial. Ao mesmo tempo, 71,5% chegaram ao Ensino Superior depois da EEEP. São trajetórias que começam com a formação técnica, passam pelo mercado e, em parte dos casos, continuam na universidade. A pergunta, então, não é apenas se esses jovens conseguem o primeiro trabalho, mas até onde a formação em Administração os leva.
A escola que prepara para o trabalho
O Ceará tem 133 EEEPs em funcionamento, 21 delas em Fortaleza, distribuídas por 111 municípios, o equivalente a seis em cada dez cidades do estado. Juntas, reúnem 61.760 estudantes matriculados em 53 cursos técnicos, segundo dados da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). A jornada é integral, das 7h às 17h, de segunda a sexta-feira, e, para o ano letivo de 2025, a rede abriu 22.405 vagas na 1ª série, em cursos que vão de Administração e Informática a Enfermagem e Desenvolvimento de Sistemas. Cada curso costuma receber uma turma anual de 45 alunos. Não se trata, portanto, de uma experiência isolada de uma escola, mas de uma política pública presente na maior parte do território cearense, que todos os anos leva milhares de jovens ao mercado de trabalho com uma formação técnica.
A rede começou a ser montada em 2008. A implantação veio com o Programa Brasil Profissionalizado, do governo federal, criado para fortalecer as redes estaduais de ensino técnico integrado ao Ensino Médio. No primeiro ano, 17.606 estudantes estavam em 13 cursos, segundo pareceres do Conselho Estadual de Educação (CEE). Em 2011, o programa já estava em 80 escolas. Em 2023, a Seduc contabilizava 131 unidades, 59.211 estudantes e 53 cursos. A expansão colocou o Ceará em posição de destaque no país: em 2017, segundo o Inep, o estado tinha a maior proporção de alunos do Ensino Médio em cursos profissionalizantes integrados de tempo integral, cerca de 14% do total. No início de 2023, a coordenadoria de educação profissional da Seduc informava parcerias com mais de 6 mil empresas para receber cerca de 18 mil jovens nos estágios obrigatórios da 3ª série. Desde o início, a proposta é juntar, na mesma escola e durante os três anos, a formação geral e uma habilitação técnica, para que o aluno saia com os diplomas de Ensino Médio e de técnico.
A secretária da Educação do Ceará, Maria Jucineide da Costa Fernandes, mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia, diz que a proposta é ampliar as possibilidades dos estudantes. No curso técnico em Administração, isso passa pela própria variedade de áreas em que o profissional pode trabalhar. “No caso específico da Administração, estamos falando de uma formação muito ampla, porque o profissional pode atuar em diferentes setores da economia, seja em empresas, no comércio, nos serviços, em instituições públicas ou até mesmo empreendendo”, afirma. O curso é de nível médio e prepara técnicos para funções de apoio administrativo, não Administradores. A profissão regulamentada exige formação superior, e o registro no Conselho Regional de Administração (CRA) cabe a bacharéis e tecnólogos. Para Maria Jucineide, porém, o diploma é apenas parte do que a escola deve entregar. “O resultado que esperamos não é simplesmente o certificado de técnico em Administração. É que esse jovem saia da escola com mais possibilidades e com capacidade de fazer escolhas sobre o próprio futuro.” A ideia, diz ela, é que o aluno possa trabalhar e continuar estudando. “A educação profissional precisa preparar para o trabalho, mas também para a continuidade dos estudos, para o empreendedorismo, para a participação social e para a construção de projetos de vida.”

Na sala de aula, o curso parte do funcionamento de uma empresa ou de um órgão público. Daniel Guerra, administrador, professor e coordenador do eixo Gestão e Negócio da EEEP Adolfo Ferreira de Sousa, explica que os alunos estudam administração geral, contabilidade, gestão de pessoas, marketing, logística, finanças, legislação e informática aplicada. Também aprendem a escrever ofícios, atas, relatórios e e-mails profissionais. O conteúdo é levado para atividades práticas, como simulações, estudos de caso, feiras de negócios, visitas técnicas e projetos interdisciplinares. “Não fica só no caderno, porque tem simulação, estudo de caso, feira de negócios, visita técnica e projeto interdisciplinar, em que ele planeja, orça, divulga e apresenta”, diz Daniel.
Parte da formação acontece fora das disciplinas técnicas. As EEEPs mantêm uma grade complementar com Projeto de Vida, Empreendedorismo, Mundo do Trabalho, Formação para a Cidadania e Horário de Estudo. Para Daniel, é nesse espaço que os alunos desenvolvem habilidades que serão cobradas no trabalho. “É ali que a gente desenvolve o que o mercado mais cobra e o diploma não mostra: comunicação, responsabilidade com prazo, trabalho em equipe, postura, autonomia e capacidade de resolver problema sem esperar alguém mandar”, afirma. Maria Jucineide vê essas habilidades como parte da formação para além do emprego. Segundo ela, autonomia, comunicação, trabalho em equipe e responsabilidade ajudam o estudante a entender melhor a realidade em que vive e a participar do desenvolvimento do próprio território.

O ponto em que a escola encontra o mercado é o estágio. Obrigatório e remunerado, com 300 horas, ele acontece na 3ª série, em empresas e órgãos conveniados. A preparação começa antes, nas aulas de Mundo do Trabalho, quando o aluno monta currículo, treina entrevista e aprende regras como pontualidade, hierarquia, sigilo e ética. Durante o estágio, um orientador acompanha os estudantes, visita as empresas e conversa com os supervisores. Cada aluno também cumpre um plano de atividades e entrega um relatório. “A gente quer que o estágio seja aprendizagem, e não só mão de obra”, diz Daniel. Para Danyelle Nilin Gonçalves, professora associada da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Laboratório de Estudos em Política, Educação e Cidade (LEPEC), essa experiência tem um peso maior para jovens que não contam com uma rede de contatos para conseguir o primeiro emprego. “Para um jovem que não tem redes de contatos, o ‘QI’ (Quem Indica), o estágio na EEEP é muitas vezes o primeiro e único canal formal de inserção no mercado formal”, afirma. Na avaliação dela, o estágio também pode ajudar a evitar a entrada precoce em empregos informais ou períodos de desemprego.
O estudante que chega hoje às EEEPs também mudou. Daniel observa que os jovens estão mais conectados e lidam mais rápido com tecnologia, mas também chegam mais ansiosos com o futuro e com a cobrança de “ter que dar certo”. Os planos são variados: há quem queira fazer estágio e conseguir um emprego, quem pense no Enem e na faculdade e quem queira abrir o próprio negócio. “Muitos querem as três coisas ao mesmo tempo”, diz. Para o professor, a formação técnica precisa acompanhar essa mudança e mostrar que o curso não determina o caminho que o estudante terá depois da escola.
Nas conversas com famílias e estudantes, diz Danyelle, as EEEPs aparecem “como uma espécie de ‘oásis’ em uma rede pública que historicamente foi muito precarizada”. Para ela, o curso técnico em Administração funciona como uma porta de entrada ampla porque permite buscar trabalho em diferentes setores. A escola, porém, não controla o que acontece depois da formatura. O curso termina na 3ª série, assim como o acompanhamento do estágio e a rotina de tempo integral. Na saída, o jovem encontra um mercado com suas próprias exigências e desigualdades. Os alunos que já fizeram essa travessia ajudam a mostrar o que acontece depois do diploma.
Do diploma ao mercado
O primeiro efeito do curso aparece logo na saída da escola. Entre os ex-alunos ouvidos pela pesquisa do Núcleo de Jornalismo Experimental da Wyden, jovens de 19 a 25 anos que estudaram em EEEPs de Redenção, Pacatuba, Aracoiaba, Fortaleza e Baturité, 24% começaram a trabalhar logo depois da formatura e 35,5% em até três meses. Outros 40,5% levaram de quatro meses a mais de um ano. O primeiro trabalho teve relação direta com Administração para 45,5% deles e parcial para 30,25%. Além disso, 61,75% dizem que, em algum processo seletivo, a empresa demonstrou interesse pelo fato de terem o curso técnico. Em junho, 53,5% continuavam trabalhando na área. Para Erle Mesquita, mestre em Ciência Política pela UnB e coordenador de Estudos e Análise de Mercado do SINE-CE/IDT, o estágio da 3ª série tem papel importante nessa passagem. Com a experiência, diz ele, “o empregador passa a ter um histórico verificável do jovem, e o jovem passa a ter uma experiência formal para registrar”.
A porta aberta pelo técnico, no entanto, não encerrou a formação desses jovens. Dos 400 egressos, 71,5% ingressaram no Ensino Superior depois da EEEP, 10,75% pretendem ingressar e 5,75% estavam tentando uma vaga. Para 39,25%, o curso técnico influenciou muito a escolha profissional ou da faculdade; para outros 33,25%, influenciou em parte. O movimento acompanha o que estudos mais amplos mostram no estado. Levantamento do Itaú Educação e Trabalho divulgado em julho de 2026 mostra que, no Ceará, 59% dos egressos da educação profissional chegaram a um curso de graduação em até nove anos depois de concluir o Ensino Médio, contra 36% dos que fizeram apenas o ensino regular. Erle Mesquita, que cita o estudo, destaca que quem passa pela educação profissional no estado “chega mais ao ensino superior” do que os colegas do ensino regular.
Na universidade, a escolha mais frequente foi continuar no mesmo campo. Entre os 286 egressos que ingressaram no Ensino Superior, 118 (41,26%) fazem ou já concluíram Administração. É quase três vezes o número de respostas em Ciências Contábeis, segunda opção mais citada, com 41 estudantes (14,34%), seguida de Marketing (37), Logística (17) e Economia (14). Outros 59 egressos (20,63%) escolheram cursos diferentes desses. O percurso começa na EEEP, passa pelas rotinas de uma organização aprendidas em sala, pelo estágio e pelo primeiro emprego, e chega, para parte desses jovens, à decisão de continuar na mesma área na graduação. Para esses estudantes, o curso técnico foi o primeiro contato com a Administração. Para parte deles, esse contato virou uma escolha de carreira.
A preferência não se limita a quem já deixou a escola. Entre os 342 estudantes das EEEPs que pretendem fazer faculdade, 36,84%, apontaram Administração como o curso desejado. A proporção é mais de duas vezes e meia a de Ciências Contábeis (14,04%), segunda opção, e fica à frente de Direito (12,57%). A escolha que aparece entre os egressos também está presente entre os jovens que ainda cursam o técnico, muitos deles antes mesmo do estágio e do primeiro emprego. Para uma parcela desses estudantes, a graduação em Administração já aparece como possibilidade dentro da própria escola.
Quando a lente se amplia para todo o estado, o movimento ganha outra escala. Entre 2014 e 2024, 67.684 novos alunos ingressaram no curso superior de Administração no Ceará, segundo o Censo da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). É uma média de mais de 6 mil novos estudantes por ano ao longo de uma década. No país, o tamanho da área também aparece nos números mais recentes: em 2024, havia mais de 10 milhões de estudantes matriculados no Ensino Superior, dos quais cerca de 2,4 milhões estavam no bacharelado em Administração ou em cursos superiores de tecnologia ligados à área. Juntos, eles representavam 23,99% de todas as matrículas do Ensino Superior brasileiro.
Nessa trajetória, cada formação cumpre uma função diferente. O técnico em Administração é concluído junto com o Ensino Médio e prepara o estudante para funções de apoio administrativo. O Administrador é formado no bacharelado: o exercício da profissão exige graduação reconhecida pelo MEC e registro no Conselho Regional de Administração. As EEEPs, portanto, não formam Administradores. O que os dados mostram é uma trajetória que pode começar no nível técnico e continuar na universidade. A secretária da Educação, Maria Jucineide, diz que a política foi pensada para permitir os dois caminhos. “Nós não trabalhamos com a ideia de que o estudante precisa escolher entre trabalhar ou estudar. Temos estudantes que concluem uma formação técnica e ingressam no mercado, outros que seguem imediatamente para a universidade e muitos que conseguem fazer as duas coisas. São caminhos que podem e devem se complementar.”
Erle Mesquita vê na combinação entre as duas formações uma continuidade da trajetória profissional. “O modelo integrado se destaca, e o estudo fala em complementaridade entre técnico e superior, não em substituição”, afirma, sobre o levantamento do Itaú Educação e Trabalho. Para ele, a formação técnica ajuda na chegada ao mercado, mas a carreira exige novas competências. “Rotinas administrativas básicas tendem a ser cada vez mais digitalizadas, então o diferencial estará em quem combinar a base técnica com domínio de ferramentas digitais, capacidade analítica e continuidade de estudos.” A combinação entre formação técnica e superior, nesse caso, aparece não como uma escolha entre dois caminhos, mas como duas etapas que podem se somar.
No mercado, a diferença entre as duas formações aparece à medida que a carreira avança. Sérgio Bezerra, diretor institucional do Conselho Regional de Administração do Ceará (CRA-CE), resume o que se espera de quem chega do técnico: “O grande diferencial do ensino técnico é o ‘saber fazer’”. A empresa, diz, espera que esse jovem transforme a teoria “logo nos primeiros dias, em organização prática, ajudando a otimizar processos e dando um suporte tático eficiente para a gestão”. O crescimento, porém, exige outras competências. “O diploma técnico abre a porta da entrevista, mas o que faz o jovem crescer no mercado é a sua capacidade de entrega, o compromisso ético e a vontade de fazer a diferença no dia a dia da organização.” A Pesquisa Nacional CFA 2023, realizada pelo Conselho Federal de Administração com a Fundação Instituto de Administração (FIA), mostra o que os empregadores valorizam nos profissionais de nível superior. Entre os 624 empresários e empregadores ouvidos, 82% destacaram o comportamento ético, 76% o comprometimento, 65% a proatividade e 75% a capacidade de identificar problemas e implantar soluções. Para funções gerenciais, 39,64% apontaram a graduação em Administração como requisito; o técnico de nível médio foi citado por 3,08%. O técnico abre o caminho para a primeira experiência; em determinados postos de gestão, a graduação passa a aparecer como requisito. Foi esse caminho que Francisco Neto e Luanna Alves seguiram depois da EEEP.
Depois da EEEP
Depois da formatura, a trajetória de boa parte dos técnicos em Administração continua fora da EEEP, no mercado e na universidade. Francisco Neto e Luanna Alves percorreram as duas frentes. Os dois fizeram o curso técnico em Administração em escolas profissionais de Redenção e Baturité, passaram pelo estágio obrigatório da 3ª série, trabalharam na área e, mais tarde, concluíram a graduação em Administração. Chegaram, assim, ao bacharelado, a formação que o curso técnico não oferece. Ele levou esse percurso para o próprio negócio, no setor automotivo; ela, para a gestão pública.
Francisco estudou na EEEP Adolfo Ferreira de Sousa e escolheu Administração por ver no curso uma opção que dava mais abertura. Ao longo dos três anos, a ideia de um trabalho de escritório deu lugar ao entendimento de como um negócio funciona por dentro. O estágio no setor administrativo e financeiro de uma empresa de veículos terminou em contratação, e foi lá que ele conheceu o mercado automotivo: quem vende bem, quem paga, como funciona o financiamento, o que faz um carro girar ou encalhar. A loja própria veio depois, com poucos veículos, pouco capital e erros no início, como a compra de carros que ficaram parados mais tempo do que deviam. Mais tarde, Francisco concluiu a graduação em Administração. Da escola técnica, ele diz ter levado menos um negócio pronto do que uma forma de conduzi-lo: “O curso não te entrega um negócio pronto, ele te dá método”.
Esse método aparece no fechamento de cada mês. Francisco separa as despesas da empresa das pessoais, calcula o custo real de cada carro que compra e evita confundir faturamento com lucro, a mesma lógica de fluxo de caixa e finanças que aprendeu no técnico. A ideia de empreender também começou na escola, nas aulas de Empreendedorismo e Projeto de Vida, em que os alunos montavam e apresentavam planos de negócio, mas o giro do estoque só foi aprendido na prática. O caminho dele encontra paralelo entre os Administradores de nível superior: segundo a Pesquisa Nacional CFA 2023, a parcela dos que atuam como presidente, proprietário, empresário ou sócio passou de 7,07% em 2015 para 11,57% em 2023, a maioria à frente de micro e pequenas empresas. Francisco não atribui toda a trajetória à escola. Ele avalia que poderia ter chegado ao mesmo lugar por outro caminho. Segundo ele, porém, isso provavelmente teria acontecido “mais tarde e com mais tombo”.
Luanna fez o técnico na EEEP Clemente Olintho Távora Arruda, em Baturité, com o foco no diploma e em um emprego. A gestão pública entrou nos planos durante o curso, quando ela passou a enxergar prefeituras, secretarias e escolas como organizações, com planejamento, orçamento, pessoas, processos e resultados a entregar. O estágio da 3ª série foi no setor administrativo de um órgão público, em tarefas de arquivo, protocolo e atendimento ao telefone e ao público. “Parecia pouco, mas eu aprendi como a máquina anda: quem assina, o que depende de quê, por que uma coisa demora.” Depois do estágio, continuou na área, passou pelo apoio administrativo e assumiu atribuições maiores. Seguiu estudando e concluiu a graduação em Administração. Hoje é assistente administrativa em uma prefeitura, onde atua no planejamento e no acompanhamento de ações da secretaria.
Na rotina, o que Luanna mais usa vem da base técnica: a redação de ofícios, atas, memorandos e relatórios e o controle de prazos, saldos, demandas e cronogramas em planilhas, conteúdos aprendidos na escola e refinados no trabalho. Em um ambiente em que, nas palavras dela, “quase tudo passa por papel ou por sistema”, escrever e organizar bem se converte em confiança. A postura, a ética e o sigilo cobrados pelo orientador de estágio também pesaram, porque no serviço público a credibilidade é decisiva. A escolha dela acompanha uma percepção frequente entre os egressos da pesquisa, que apontam a gestão pública como a segunda área em que o profissional de Administração gera mais impacto (61,5%), atrás das empresas privadas. No Nordeste, a Pesquisa Nacional CFA 2023 registrou o empreendedorismo (41,22%) e a administração pública direta (40,51%) como os setores mais apontados como promissores para o Administrador, os mesmos caminhos seguidos por Francisco e Luanna.
Antony Gabriel está no começo desse percurso. Aluno do 2º ano do curso técnico em Administração da EEEP Joaquim Moreira de Sousa, em Fortaleza, ele já trabalhou com planilhas, montou apresentações e participou de atividades em que simulou uma empresa, com planejamento, divisão de tarefas e definição do preço de um produto. A jornada integral, que no início achava pesada, virou para ele “uma rotina que é quase de trabalho: chegar no horário, cumprir tarefa, entregar no prazo, aprender a conviver com gente diferente”. Nas apresentações de projetos, sentia muita vergonha; hoje, relata estar perdendo o medo de falar em público. O estágio só chega na 3ª série, mas já é assunto entre os colegas, com expectativa de contratação. Antony quer entrar no mercado, fazer faculdade, provavelmente Administração ou Ciências Contábeis, e mais adiante talvez abrir um negócio próprio. Na escola, os dados dos últimos anos mostram como a graduação em Administração aparece entre os formandos: em 2022, 18 dos 45 alunos concluíram o Ensino Médio e seguiram para a graduação em Administração; em 2023, foram 21 dos 45; em 2024, 22 dos 45; e, em 2025, 27 dos 45. No mesmo período, a empregabilidade registrada pela escola superou 80% em todos os anos e chegou a 100% entre os formandos de 2025.
É nesse ponto que a formação das EEEPs ultrapassa o certificado de técnico. Para uma parcela dos jovens, o curso organiza a primeira experiência profissional; para outra, funciona como ponto de partida para a universidade; e, em trajetórias como as de Francisco e Luanna, os dois caminhos se encontram na graduação em Administração e no exercício da profissão. Os dados da pesquisa mostram que essa continuidade não é um caso isolado entre os entrevistados. Ela revela uma formação que começa no Ensino Médio, entra no mercado antes mesmo da graduação e pode chegar à preparação de novos profissionais para administrar empresas, empreendimentos e estruturas públicas no Ceará.



