top of page

Escola fundada por indústria há quase 5 décadas forma mão de obra para o setor cerâmico de Cocal do Sul

Foto do escritor: Brian Sthefano
Brian Sthefano
há 4 dias
14 min de leitura
Colégio Maximiliano Gaidzinski (CMG) foi criado em 1979 pela indústria cerâmica Eliane Revestimentos Cerâmicos para suprir a falta de profissionais qualificados no setor em Cocal do Sul. Foto: Nilton Alves
Colégio Maximiliano Gaidzinski (CMG) foi criado em 1979 pela indústria cerâmica Eliane Revestimentos Cerâmicos para suprir a falta de profissionais qualificados no setor em Cocal do Sul. Foto: Nilton Alves

Durante o Ensino Médio, é comum que estudantes comecem a pensar sobre qual profissão seguir, se vão cursar uma faculdade ou como pretendem entrar no mercado de trabalho. Em Cocal do Sul, no Sul de Santa Catarina, essas escolhas também podem ser influenciadas pela vocação econômica da região. Fundado em 1979 pela indústria cerâmica Eliane Revestimentos Cerâmicos, o Colégio Maximiliano Gaidzinski (CMG) oferece, ainda na educação básica, formação técnica voltada à indústria que ajudou a construir a economia do município.


Quase cinco décadas depois, a atividade continua sendo a principal fonte de empregos formais em Cocal do Sul. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2025, compilados pelo Observatório Sebrae, mostram que a categoria “Fabricação de Produtos de Minerais Não Metálicos”, que inclui a indústria cerâmica e atividades relacionadas, empregava 1.874 pessoas no município. É a maior concentração de empregos formais entre as atividades econômicas locais, em um mercado que somava 6.027 trabalhadores com carteira assinada.


A escola que nasceu da indústria


A história da Eliane Revestimentos Cerâmicos, de Cocal do Sul, no Sul de Santa Catarina, começa longe do que se poderia esperar da trajetória de uma das maiores empresas do Brasil. O fundador, Maximiliano Gaidzinski, nasceu em 1912 na comunidade de Linha Cabral, em uma família humilde de imigrantes poloneses. Décimo de 11 irmãos, começou a trabalhar ainda criança, na sapataria de um dos irmãos. A aproximação com a cerâmica veio em 1947, quando o enfraquecimento da mineração de carvão abriu espaço para as primeiras fábricas do setor na região. Foi quando Maximiliano, ao lado dos irmãos José e Júlio, entrou na sociedade formada por 16 empresários que fundou a Cerâmica Santa Catarina, a Cesaca.


Em dois momentos, Maximiliano Gaidzinski, fundador da Eliane Revestimentos Cerâmicos. À direita, ele deixa a fábrica em seu Fusca. Foto: Reprodução/Eliane Revestimentos
Em dois momentos, Maximiliano Gaidzinski, fundador da Eliane Revestimentos Cerâmicos. À direita, ele deixa a fábrica em seu Fusca. Foto: Reprodução/Eliane Revestimentos

Cerca de 13 anos depois, recebeu a proposta para comprar a Cerâmica Cocal, que estava próxima da insolvência. Para reunir o dinheiro da compra, liquidou praticamente todos os bens que possuía, incluindo sua participação na Cesaca. O negócio foi fechado em 1959 e a empresa passou a se chamar Cerâmica Eliane. Em janeiro de 1960, já à frente do negócio, quitou as dívidas trabalhistas herdadas dos antigos proprietários e retomou a produção, então de cerca de 9 mil metros quadrados de azulejos brancos por mês. Cinco anos depois, o volume já era dez vezes maior, impulsionado pela demanda identificada no Rio Grande do Sul e em São Paulo.


Foi esse crescimento acelerado que, ao longo da década seguinte, encontrou um obstáculo fora das fábricas, a falta de mão de obra tecnicamente preparada em Cocal do Sul. Nos anos 1970, a indústria cerâmica brasileira passava por uma onda de modernização tecnológica que aumentava a demanda por profissionais especializados, mas a cidade ainda não tinha trabalhadores em número e com a qualificação necessária. Foi para formar essa mão de obra que, em 1979, a Eliane criou o Colégio Maximiliano Gaidzinski. A empresa permaneceu sob controle da família até 2018, quando vendeu a totalidade das ações ao grupo americano Mohawk Industries por cerca de US$ 250 milhões, mantendo a sede em Cocal do Sul. Hoje, a Eliane produz cerca de 40,8 milhões de metros quadrados de revestimentos por ano, está presente em mais de 80 países, tem cerca de 15 mil pontos de venda no Brasil e mantém unidades de produção em Cocal do Sul, Criciúma e Camaçari, na Bahia.


Quase cinco décadas depois de sua fundação, o CMG já não forma profissionais para a indústria de 1979. "Eu percebo que o perfil dos nossos estudantes mudou bastante e que o próprio mercado de trabalho também passou por uma transformação muito grande", diz a diretora do colégio, Jordana S. B. de Faveri. Já não basta o aluno sair da escola dominando uma técnica específica. A indústria está mais automatizada e conectada, com maior presença de controle de processos e análise de dados, o que também exige capacidade de trabalhar em equipe, resolver problemas, se comunicar e continuar aprendendo ao longo da carreira. O desafio do colégio, na avaliação dela, é acompanhar essa evolução sem perder o que sempre esteve em sua essência, aproximar o conhecimento da realidade do trabalho. É a mesma lógica que o presidente da Eliane, Edson Gaidzinski Junior, resumiu ao dizer que o CMG era a ferramenta pela qual empresa e sociedade se beneficiavam mutuamente.


Na prática, essa formação começa a partir do segundo ano do Ensino Médio, quando o estudante escolhe entre o Técnico em Cerâmica e o Técnico em Eletromecânica, no período da tarde, com o último semestre realizado dentro de uma empresa. O aluno não aprende ali somente um processo ou uma máquina. Aprende também postura profissional, responsabilidade, relacionamento e o que significa fazer parte de uma equipe. Segundo a diretora, é essa formação que ajuda a explicar por que muitos concluem o curso já com um currículo que faz diferença no primeiro emprego. Além das disciplinas técnicas de cada curso, a grade inclui Segurança e Saúde, Relacionamento Interpessoal, Redação Técnica e Informática, componentes que, segundo o colégio, reforçam essas competências comportamentais dentro da formação profissional.


Alunos do CMG durante aula no Ensino Médio Técnico. Foto: Reprodução/Maria Luiza Da Rolt
Alunos do CMG durante aula no Ensino Médio Técnico. Foto: Reprodução/Maria Luiza Da Rolt

Essa atualização constante da grade reflete, segundo o coordenador dos cursos técnicos, professor Reginaldo Tassi, uma exigência do próprio modelo pedagógico do CMG. O corpo docente não atende apenas aos alunos do Ensino Médio Técnico, mas também aos trabalhadores das indústrias da região, entre elas a própria Eliane, hoje sob controle da Mohawk, que retornam ao colégio à noite em busca de especialização pós-laboral. Segundo Tassi, essa dupla frente de ensino obriga os professores a adequar e atualizar constantemente os planos de aula à realidade do chão de fábrica. Eles deixam de atuar apenas como docentes teóricos e passam também a funcionar como consultores técnicos instrucionais. Os cursos passam por revisões frequentes para acompanhar as demandas do mercado, o que exige que os próprios professores mantenham contato permanente com os novos maquinários e softwares industriais instalados nos laboratórios da instituição, de forma a preparar esses profissionais para a realidade encontrada nas empresas.


Essa proximidade com a indústria começa antes mesmo da formatura, segundo a professora Jucilene Feltrin. De acordo com ela, os cursos contribuem diretamente para o desenvolvimento profissional dos alunos porque eles já se formam com a oportunidade de trabalhar em empresas da região, principalmente na Eliane Revestimentos Cerâmicos. "Eles ficam um ano na indústria, como menor aprendiz, e acabam desenvolvendo as competências, antes teóricas no colégio, na prática. Isso dá um currículo muito rico para eles", diz.


Desde o primeiro ano, os alunos também são estimulados, pela iniciação científica, a levantar problemas, pesquisar soluções e apresentar resultados, em uma escola que hoje conta com laboratórios, salas multimídia e professores especialistas. Essa aposta tem na Jornada Científica sua principal vitrine. Segundo o colégio, é ali que os próprios estudantes apresentam soluções para problemas reais, em projetos que já envolveram inteligência artificial adaptativa, sustentabilidade, automação e temas de engenharia. A formação também inclui atividades de robótica, controle de qualidade e metodologia científica, além da participação em concursos literários, olimpíadas de conhecimento e congressos técnicos. A meta, para Jordana, não é preparar o jovem apenas para uma vaga que existe hoje. "Precisamos preparar esse jovem para as profissões e os desafios que ainda vão surgir", afirma.



O colégio recebe hoje estudantes não só de Cocal do Sul, mas também de Urussanga, Morro da Fumaça, Criciúma e Içara, somando 131 matrículas entre o Ensino Médio e os dois cursos técnicos, segundo o Censo Escolar de 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O mesmo Censo, consolidado pela plataforma QEdu, registra taxa de abandono de 0% no colégio. O indicador não permite, isoladamente, atribuir a permanência dos alunos a uma causa específica, mas aparece ao lado de um sistema de bolsas de 25% a 50%, condicionadas à conclusão do curso técnico, e de uma inserção no mercado de trabalho que, segundo a própria escola, contribui para a atratividade da formação. "Não queremos simplesmente preparar jovens para saírem daqui em busca de oportunidades em outros lugares", diz Jordana. "Queremos que eles tenham competência para ingressar nas empresas da região, crescer profissionalmente, assumir responsabilidades e também serem agentes de transformação dentro dessas empresas." É essa mesma lógica, atualizada para uma indústria diferente daquela de 1979, que continua sustentando a formação do CMG.


O setor cerâmico e o impacto da formação


O polo cerâmico que emprega os egressos do CMG cresceu de forma expressiva nas últimas duas décadas. Entre 2001 e 2021, o volume vendido pelas indústrias da região passou de 77 milhões para 122 milhões de metros quadrados, segundo levantamento apresentado por Otmar Müller, então presidente do Sindicato das Indústrias de Cerâmica de Criciúma (Sindiceram), em reunião da Associação Empresarial de Criciúma (Acic), em 2022. Na mesma ocasião, Müller dimensionou a escala dessa produção. O polo processava cerca de 315 mil toneladas de matéria-prima e produzia 270 mil toneladas de produto acabado por mês, gerando 6.224 empregos diretos, com piso salarial de R$ 1.973.


Em Cocal do Sul, onde está o CMG, a indústria cerâmica continua sendo a principal força de trabalho formal. Segundo a RAIS de 2025, compilada pelo Observatório Sebrae, o município tinha 6.027 trabalhadores formais, dos quais 1.874 estavam na categoria "Fabricação de Produtos de Minerais Não Metálicos", a maior entre as atividades de emprego da cidade. Na escala regional, Müller informou que a cerâmica respondia por 13,92% do valor adicionado da Região Carbonífera (Amrec). Em Criciúma, cidade polo, a participação chegava a 20,4%, também como principal atividade econômica do município.


O aumento da produção, porém, não significou ganho de participação no mercado nacional. Müller informou que, em 2022, o polo de Criciúma respondia por 12% da produção brasileira de revestimentos cerâmicos, contra 30% em períodos anteriores. O Brasil, por sua vez, ocupa hoje a terceira posição mundial em produção e consumo de revestimentos cerâmicos e a sexta em exportações, segundo a Anfacer. O setor catarinense, portanto, passou a produzir mais, mas perdeu espaço relativo diante de outros polos produtores do país, em um mercado brasileiro que também disputa espaço com grandes produtores internacionais.


Parte dessa perda de competitividade, segundo o diretor-executivo do Sindiceram e presidente da Câmara de Assuntos de Energia da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Manfredo Gouvêa Junior, está relacionada ao custo da energia. A cerâmica depende do gás natural para a queima dos fornos e trabalha com um produto pesado, cujo transporte para mercados distantes tem custo elevado. Por isso, qualquer aumento no preço do insumo repercute em toda a cadeia. "Quando esse insumo fica mais caro, toda a cadeia perde competitividade", afirma. Para ele, a saída passa pela continuidade dos investimentos. "Isso envolve empresas investindo, trabalhadores se qualificando, instituições apoiando a inovação", resume. A formação técnica, nesse cenário, aparece como parte da própria estratégia de competitividade da indústria.


No mercado de trabalho, essas pressões aparecem de outra maneira. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Ceramistas de Criciúma e Região, Itaci de Sá, avalia que o setor emprega hoje menos pessoas do que no auge da produção, mas rejeita a ideia de que a cerâmica esteja desaparecendo da região. As empresas que permaneceram, segundo ele, continuam produzindo e se adaptando às exigências do mercado, apoiadas em uma mão de obra experiente. "A tecnologia vem para melhorar processos, aumentar a produtividade e tornar a indústria mais competitiva, mas não podemos esquecer de quem está ali dentro operando essas máquinas", afirma. Para ele, a modernização precisa vir acompanhada de qualificação para os trabalhadores que já estão no setor.


Sobre o resultado concreto dessa formação, as informações mais detalhadas disponíveis são da própria instituição. O CMG afirma ter formado centenas de técnicos desde 1979, com cerca de 80% dos egressos atuando diretamente no setor cerâmico ou na área de eletromecânica. O colégio também afirma encaminhar praticamente a totalidade dos alunos ao mercado de trabalho ainda durante a formação, por meio dos estágios obrigatórios. Segundo a instituição, os profissionais formados não estão apenas na Eliane, mas também em outras cerâmicas do polo, em indústrias de transformação de matérias-primas, fabricantes de produtos refratários, instituições de pesquisa e representações comerciais. Parte deles segue ainda para o ensino superior, principalmente em cursos de engenharia.


Procurada por e-mail para explicar por que, quase oito anos depois de vender a totalidade das ações para a Mohawk, ainda mantém e financia o CMG, informar se há investimento recente mensurável no colégio e dizer quantos egressos emprega atualmente, com número exato, a Eliane respondeu por nota, mas não apresentou o dado solicitado. Na resposta, a empresa descreve o CMG como "celeiro de talentos" e "a principal escola de cerâmica da América Latina", além de defini-lo como "uma fonte contínua de mão de obra altamente especializada para a Mohawk Brasil". Segundo a nota, o financiamento ao colégio é hoje "o principal case de impacto social e cidadania da Eliane junto à comunidade local", alinhado aos critérios de ESG, sigla para ambiental, social e governança, exigidos de multinacionais de capital aberto listadas em bolsas americanas. A empresa afirma que cerca de 80% dos alunos formados atuam diretamente no setor cerâmico, a maioria em posições de liderança, gerência e desenvolvimento técnico dentro da própria Eliane, o que, segundo a companhia, reduz custos com recrutamento e treinamento técnico avançado. Sobre a permanência do colégio após a venda, a empresa afirma que, ao concluir a negociação com a Mohawk em 2018, comprometeu-se a manter inalteradas as missões, práticas comerciais e estruturas que garantem a "perenidade histórica" da marca, da qual o CMG, segundo a nota, "faz parte do DNA institucional [...] desde 1979".


O executivo Frâncio Aníbal Dutra é um exemplo desse tipo de trajetória. Formado pelo CMG, passou por mais de uma empresa do setor ao longo da carreira, entre elas a Eliane Argamassas e a Piso Forte Revestimentos Cerâmicos. Cursou Administração na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) entre 2013 e 2017 e hoje é gerente comercial da Angelgres Revestimentos Cerâmicos, outra fábrica do polo. "A formação que tive ali me deu uma base técnica muito importante para entender o setor, os processos e a realidade da indústria", afirma. Segundo ele, a escola também contribuiu para desenvolver sua forma de lidar com pessoas e assumir responsabilidades, características que diz levar para o relacionamento direto com clientes e empresas do setor. No mercado de trabalho, um técnico em cerâmica recebe, em média, R$ 3.572,60 no Brasil, segundo levantamento do Portal Salário com base no Novo Caged. Já um técnico em eletromecânica em Santa Catarina recebe entre R$ 3.499,01 e R$ 6.059,27, conforme o nível de experiência, de acordo com a mesma base. Os valores ajudam a dimensionar, em termos de mercado, o peso da qualificação oferecida pelo CMG.


O que essa formação representa para o futuro


O futuro desse mercado aponta para um crescimento moderado, e não para uma nova expansão acelerada. O centro de pesquisa italiano MECS-Acimac projeta, no relatório Ceramic Tile Market Forecast Analysis: Trends 2024-2028, que a produção mundial de revestimentos cerâmicos deve crescer a uma taxa média de 2,2% ao ano até 2028, passando de 15,9 bilhões para mais de 17,8 bilhões de metros quadrados. O consumo global deve avançar 2,5% ao ano no mesmo período, em uma recuperação gradual após a queda registrada em 2023, ainda insuficiente para retomar os níveis recordes de 2021. Na América do Sul, região que inclui o Brasil, a demanda deve crescer acima da média mundial, a uma taxa projetada de 4,8% ao ano.


A transformação tecnológica desse mercado, por outro lado, já tem contornos mais definidos. Um estudo do Observatório Nacional da Indústria, ligado ao sistema da Confederação Nacional da Indústria (CNI), projeta que o uso de robótica e automação na manufatura de cerâmica e minerais não metálicos deve alcançar entre 51% e 70% de adesão no mercado brasileiro nos próximos cinco anos, patamar que deve se manter na década seguinte. O mesmo estudo projeta adesão semelhante às tecnologias de fornecimento sustentável de matéria-prima e de reciclagem de resíduos industriais. Entre os fatores que impulsionam essa mudança está a necessidade de reduzir a dependência de fornecedores de matérias-primas escassas, problema também apontado pelo professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) Oscar Rubem Klegues Montedo, doutor em Ciência e Engenharia de Materiais pela UFSC.


Entre as cinco carreiras que o observatório aponta como "em alta" para o setor na próxima década estão cientista de materiais avançados, engenheiro de fabricação digital e técnico de manutenção industrial, uma das áreas em que o próprio CMG já forma estudantes por meio do curso Técnico em Eletromecânica. A demanda por esse tipo de profissional já aparece nos números atuais. O Brasil registrou 18.945 contratações formais de técnicos em eletromecânica no último ano, segundo levantamento do Portal Salário com base no Novo Caged. O estudo do observatório também lista as competências mais valorizadas para a próxima década, como pensamento crítico, fluência digital, adaptabilidade e conhecimentos em química, matemática e sustentabilidade. Ao mesmo tempo, aponta que habilidades como domínio da engenharia e raciocínio dedutivo continuarão sendo importantes mesmo com o avanço da automação.


Não há, para o polo de Criciúma especificamente, um estudo de investimentos com o mesmo grau de detalhamento. Há, porém, sinais recentes de que o setor tenta se adaptar a um comércio internacional mais instável. Em agosto de 2026, a Anfacer se reuniu com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para mapear novos mercados. No mesmo mês, a Argentina, um dos compradores da cerâmica brasileira, abriu uma investigação por dumping contra importações de porcelanato do Brasil, da China, da Malásia e do Vietnã. Para Montedo, é justamente esse tipo de instabilidade externa que reforça a necessidade de o setor desenvolver conhecimento e tecnologia dentro da própria região. "Se dependermos permanentemente de profissionais e tecnologias trazidos de fora, teremos uma indústria que produz, mas não necessariamente uma região que se desenvolve", diz.


Em Criciúma, cidade polo da região, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços, Tiago Fabris, economista com doutorado em Economia Internacional e Industrial pela UFSC, avalia que a cidade não pode depender de um único modelo econômico. Para ele, a cerâmica continua importante, mas tecnologia, serviços e inovação ganham espaço na matriz econômica local. "Não adianta trazer uma empresa de alta tecnologia se não tivermos profissionais preparados para trabalhar nela. Da mesma forma, não adianta modernizar uma indústria se o trabalhador não tiver acesso à formação necessária", afirma. Na avaliação dele, formação técnica e diversificação econômica caminham juntas porque a capacidade de atrair novas atividades depende também da existência de profissionais preparados.


É nesse mercado, marcado ao mesmo tempo pela contratação e pela pressão por qualificação, que um dos atuais alunos do Técnico em Cerâmica projeta o primeiro passo da própria carreira. "Eu escolhi Cerâmica porque quero terminar o Ensino Médio já tendo uma profissão", diz. "Como a indústria é muito forte aqui na região, vejo o curso como uma oportunidade de conseguir meu primeiro emprego e começar a construir minha carreira." Para ele, a formação técnica é sobretudo uma porta de entrada para o mercado de trabalho local, na mesma lógica que levou a Eliane a criar o CMG em 1979, formando dentro da própria cidade os profissionais que a indústria ainda não tinha. Outro colega vê o mesmo curso como um degrau, e não como destino final. "Eu quero continuar estudando depois do Ensino Médio, mas achei importante ter uma formação técnica antes", afirma. "O curso me ajuda a entender melhor a área e também pode me dar uma experiência que vai fazer diferença quando eu chegar na faculdade. Ainda estou decidindo exatamente qual caminho seguir, mas sei que o conhecimento que estou adquirindo aqui vai me ajudar." É um percurso semelhante ao de Frâncio Aníbal Dutra, que, depois de se formar no CMG, aliou a experiência técnica a uma graduação em Administração antes de assumir cargos de gestão no setor.


Alunos do Técnico em Cerâmica do CMG durante o desfile do 7 de setembro. Os estudantes foram entrevistados para falar sobre as expectativas profissionais e os caminhos que pretendem seguir após a formação. Foto: Reprodução/Instagram
Alunos do Técnico em Cerâmica do CMG durante o desfile do 7 de setembro. Os estudantes foram entrevistados para falar sobre as expectativas profissionais e os caminhos que pretendem seguir após a formação. Foto: Reprodução/Instagram

Um terceiro colega projeta um futuro mais próximo daquele descrito pelas pesquisas sobre automação e novos materiais. "Eu escolhi o curso porque acho interessante entender como uma indústria que existe há tanto tempo consegue continuar evoluindo", diz. "Hoje tem muita automação, tecnologia e preocupação com sustentabilidade, então não é só aprender como a cerâmica é produzida, mas entender como esses processos podem melhorar. No futuro, eu gostaria de trabalhar justamente com inovação e ajudar a desenvolver uma indústria mais tecnológica." A perspectiva acompanha a direção apontada pelo Observatório Nacional da Indústria, que coloca cientistas de materiais e engenheiros de fabricação digital entre as carreiras em alta para o setor na próxima década.


Em 1979, a pergunta que levou à criação do CMG era como encontrar, dentro da própria Cocal do Sul, profissionais tecnicamente preparados para uma indústria em expansão. Quase cinco décadas depois, a pergunta mudou de forma, mas não de lugar. Como formar, ainda dentro da própria cidade, profissionais capazes de manter essa indústria competitiva diante da automação, dos custos de energia, da concorrência internacional e da escassez de matéria-prima que hoje a cercam? Os três alunos que escolhem o Técnico em Cerâmica, um mirando o primeiro emprego, outro a universidade e o terceiro a inovação, representam, cada um à sua maneira, respostas possíveis para essa pergunta atualizada.


Obrigado pelo envio!

Copyright © 2026. Todos os direitos reservados pelo NJE Wyden. 

bottom of page