Mais vagas e velhos desafios marcam o acesso às creches em Pernambuco


Lucas tem 26 anos e vive do que consegue costurar em casa. Em dias como tantos outros, precisa interromper a máquina no meio de um pedido porque não há quem cuide de Edson Lucca, seu filho de um ano e seis meses, enquanto trabalha. As peças ficam sobre a mesa à espera de que ele possa voltar. Lucas já fez o cadastro, procurou atendimento e esperou, mas a vaga na creche não chegou. Pai solo, ele não tem com quem dividir uma escolha que se repete na rotina: cuidar do filho pequeno ou garantir a renda do mês. As duas responsabilidades dependem dele e nem sempre cabem no mesmo dia.
A realidade de Lucas se repete em milhares de casas pernambucanas. Em 2022, quando o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) usou o Censo Escolar como referência para fiscalizar a educação infantil, Pernambuco atendia 115.487 crianças de até três anos em creches, o equivalente a 21,23% dessa população. O índice estava bem abaixo dos 48% estabelecidos pelo Plano Estadual de Educação como meta para o fim de 2025. Três anos depois, o Censo Escolar registrou 137.276 matrículas, crescimento de quase 19%. O avanço, porém, ainda convive com um déficit expressivo. Pernambuco permanece entre os seis estados brasileiros com o maior número absoluto de crianças fora da creche por falta de vaga. Juntos, esses estados concentram mais da metade da demanda reprimida do país, segundo levantamento do Todos Pela Educação. Dentro de Pernambuco, a expansão também ocorre de forma desigual: mais de um quarto do crescimento recente das matrículas veio apenas do Recife. Fora da capital, o avanço é mais lento e, mesmo quando a vaga chega, nem sempre ela significa acesso regular ao atendimento.
O crescimento que Recife puxa sozinho
Antes de medir quantas creches ainda faltavam em Pernambuco, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) decidiu olhar para as que já estavam de portas abertas. Entre outubro e novembro de 2023, 92 auditores percorreram 2.500 unidades de educação infantil nos 184 municípios pernambucanos, o equivalente a cerca de 60% das que funcionavam no estado naquele período.

A Operação Ordenada Educação Infantil encontrou um cenário preocupante. A cobertura de creche estava em torno de 20%. Pelos dados do Censo Escolar de 2022 usados no levantamento, o índice era de 21,23%. Na avaliação da estrutura, Pernambuco alcançou 59,1 de 100 pontos, sem que nenhum município chegasse aos níveis considerados "bom" ou "desejável" em infraestrutura e conteúdo pedagógico. A segurança das unidades apresentou o pior resultado, com apenas 28,8 pontos.
Desde então, as matrículas avançaram. O número de crianças atendidas passou de 115.487, em 2022, para 130.889, em 2024, e chegou a 137.276 no ano seguinte. Entre 2024 e 2025, 109 dos 184 municípios ampliaram as matrículas e, juntos, acrescentaram 9.179 crianças às creches. Parte desse avanço, no entanto, foi compensada pela redução registrada em outras cidades. No saldo estadual, Pernambuco terminou o período com 6.387 matrículas a mais.
Nenhum município avançou tanto quanto o Recife. A capital respondeu por 28% da expansão registrada no estado entre 2024 e 2025 e liderou o crescimento absoluto das matrículas em creches no Brasil, com 2.545 novos registros, segundo o Censo Escolar. Na rede municipal, o número de vagas havia passado de 6.439, em 2020, para 15.582, em 2024, crescimento de 142%. Em 2025, a cobertura alcançou 41,6% das crianças de até três anos. O salto, embora expressivo, ainda não foi suficiente para atender toda a procura. Em novembro de 2024, 3.600 crianças aguardavam uma vaga na capital.
“Não é que o estado esteja parado. Pelo contrário, ele está entre os que mais criaram vagas de creche no Brasil nos últimos dois anos, com o Recife liderando esse movimento nacionalmente”,
explica a pesquisadora Erbênia Santos. Para ela, a dimensão do déficit ajuda a colocar o crescimento em perspectiva. "O problema é que esse crescimento, por mais expressivo que pareça no papel, está sendo medido contra um déficit histórico gigantesco (...) É como tentar encher uma piscina muito grande com uma mangueira potente: a água sobe, mas ainda falta muito para chegar à borda."
Parte dessa desigualdade na expansão passa pela forma como as creches são financiadas, segundo a pesquisadora. Diferentemente das demais etapas da educação básica, a matrícula em creche não é obrigatória, embora o poder público tenha o dever de ofertá-la quando houver demanda. O Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação básica, distribui recursos considerando as matrículas apuradas pelo Censo Escolar do ano anterior. Na prática, novas matrículas não entram imediatamente nesse cálculo, criando um intervalo entre a ampliação do atendimento e sua incorporação à distribuição dos recursos. "Para prefeituras pequenas e dependentes do Fundo de Participação dos Municípios, isso é um obstáculo enorme", afirma Erbênia. A dificuldade se soma ao custo mais elevado do atendimento nessa etapa, que exige uma proporção menor de crianças por adulto, conforme previsto em norma nacional, além de estruturas específicas, como berçários, trocadores e cozinhas adaptadas.
As diferenças aparecem no mapa pernambucano. Em 2022, Angelim atendia 4,5% das crianças em idade de creche, enquanto Moreno alcançava 4,78%, colocando os dois municípios entre as dez menores coberturas identificadas pelo TCE-PE. Na outra ponta estava Itacuruba, com 70,25%, único município pernambucano a superar a meta nacional de 50%. A cidade também tem a menor população do estado, com pouco mais de 4,4 mil habitantes, segundo o IBGE. Com uma população reduzida, poucas dezenas de novas matrículas são suficientes para provocar variações expressivas no percentual de cobertura.
Para diminuir essa distância, o Governo de Pernambuco aposta no Juntos pela Educação, programa que prevê R$ 5,5 bilhões em investimentos para toda a educação básica ao longo de quatro anos de gestão. Parte dos recursos está vinculada à meta de entregar 250 novos Centros de Educação Infantil e criar 60 mil vagas em creches e pré-escolas até 2026. “Nossa política de formação, por meio do Regime de Colaboração com os municípios para a construção de creches, permite fomentar a base. (...) Com a base bem feita, garantimos um futuro melhor para as nossas crianças”, afirma o secretário de Educação de Pernambuco, Gilson Monteiro. O ritmo das entregas, porém, ainda está distante do anunciado. Até meados de agosto de 2026, 13 das 250 creches previstas haviam sido inauguradas, pouco mais de 5% da meta. Juntas, essas unidades atendem cerca de 3 mil crianças, diante das 60 mil vagas projetadas pelo programa.
Com cerca de três meses restantes de mandato, completar as 250 unidades até 31 de dezembro exigiria a inauguração de aproximadamente 41 creches por mês. Até agora, o melhor desempenho mensal da gestão foi registrado em junho, com quatro entregas. Fontes ligadas ao Governo de Pernambuco ouvidas pela reportagem afirmam que mais de 170 unidades estão com obras em andamento e avaliam, extraoficialmente, que as 250 creches só devem estar concluídas e em funcionamento por volta de meados de 2028. A estimativa não corresponde a um novo prazo assumido oficialmente pelo Estado. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Educação de Pernambuco foi questionada sobre o ritmo das entregas, a possibilidade de cumprir a meta até o fim do ano e a previsão para a conclusão das unidades, mas não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.
O desafio pernambucano faz parte de uma dificuldade nacional. A proporção de crianças de até três anos atendidas no Brasil, medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do IBGE, passou de 41,1% em 2024 para 43,3% em 2025. Foi o maior percentual da série histórica, mas ainda abaixo dos 50% previstos pelo antigo Plano Nacional de Educação para 2024. O novo PNE elevou o objetivo para 60% até 2036. Pernambuco, portanto, não está sozinho no atraso. A dimensão do problema no estado, porém, chama atenção: ele integra o grupo de seis unidades da Federação que, juntas, concentram mais da metade das crianças brasileiras sem acesso à creche por falta de vaga.
A vaga foi conquistada. A creche, nem sempre
Milena tem 24 anos, é mãe de João Miguel, de dois, e mora em Jaboatão dos Guararapes, segundo município mais populoso de Pernambuco. Ela conseguiu superar a etapa que ainda prende Lucas à espera. Precisou "lutar, ir para cima, cobrar" até conquistar uma vaga para o filho. A matrícula, porém, não encerrou o problema. Apenas mudou sua forma. "A estrutura da creche e a falta de profissionais acabam prejudicando muito o atendimento. É uma luta constante", relata. "São três dias sem aula e dois dias com aula, e a gente que é mãe precisa trabalhar e não tem com quem deixar nossas crianças."

A experiência de Milena expõe uma realidade que os números de matrícula não conseguem mostrar sozinhos. Conseguir uma vaga não significa necessariamente contar com uma creche funcionando todos os dias. "Às vezes avisam em cima da hora que não vai ter aula (...) Você se organiza para trabalhar, deixa tudo planejado e, de repente, precisa voltar para casa com seu filho porque não tem atendimento", conta. Quando isso acontece, o problema atravessa os portões da unidade e chega à rotina e à renda da família.
Foi justamente a distância entre matrícula e atendimento efetivo que entrou no radar da Operação Ordenada Educação Infantil, realizada pelo TCE-PE em 2023. Segundo Nazli Nejaim, uma das coordenadoras da fiscalização, as equipes encontraram realidades muito distintas, desde creches e pré-escolas bem estruturadas em municípios com déficit de vagas até "situações caóticas como unidades sem água ou merenda armazenada". De modo geral, as condições mais precárias foram encontradas nas áreas rurais.
Os resultados também mostram que ampliar o acesso e garantir boas condições de atendimento são desafios que nem sempre avançam juntos. Petrolândia estava entre os dez municípios com menor cobertura de creche em 2022. Ao mesmo tempo, uma unidade da rede municipal, a Escola Municipal Vinícius de Moraes, recebeu a maior nota individual de estrutura entre as 2.500 avaliadas pelo TCE-PE. O resultado de uma única escola não permite estender a avaliação positiva a toda a rede, mas evidencia que quantidade de vagas e qualidade do atendimento são problemas distintos. Avançar em um deles não significa, necessariamente, resolver o outro.
Essa distinção também está prevista na própria concepção legal da educação infantil. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) estabelece que essa etapa deve promover "o desenvolvimento integral da criança (...) em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade". O atendimento, portanto, não se resume a oferecer um lugar onde a criança permaneça enquanto os responsáveis trabalham.
"Existe uma diferença importante entre a criança estar formalmente matriculada e ter, de fato, acesso regular a um atendimento adequado", explica um conselheiro tutelar pernambucano que acompanha situações semelhantes à de Milena e pediu para não ser identificado. Segundo ele, as famílias procuram o Conselho por dificuldades que começam na espera por uma vaga e podem continuar mesmo depois da matrícula, com relatos de "interrupções frequentes no atendimento, falta de profissionais e problemas estruturais". Para o conselheiro, a irregularidade ou a suspensão recorrente das aulas "não pode ser naturalizada como uma solução permanente para problemas de estrutura ou de pessoal".
Na entrega de uma nova unidade no bairro da Muribeca, o prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Mano Medeiros, reconheceu que "ainda existem desafios e problemas que precisam ser enfrentados" e apontou a expansão da rede como parte da resposta. Segundo ele, o avanço resulta "da parceria entre o Governo Federal, o Governo do Estado e o município". A declaração, no entanto, não tratou especificamente das interrupções no atendimento e da falta de profissionais relatadas por mães como Milena. No âmbito estadual, o presidente do TCE-PE, conselheiro Carlos Neves, relaciona a fiscalização justamente à capacidade de transformar políticas públicas em serviços que funcionem. "O cidadão lá na ponta não quer o troféu de um processo sancionador vitorioso; ele quer o serviço público funcionando", afirmou ao tomar posse, quando anunciou a primeira infância como "eixo transversal" da atuação do Tribunal, em vez de tratá-la como "um projeto isolado".
O que uma vaga custa depois que a obra termina
Abrir uma creche é apenas o primeiro passo. Para que a vaga se transforme em atendimento regular, como mostra a experiência de Milena, é preciso garantir recursos de forma permanente. Professores e auxiliares em número suficiente, turmas adequadas, alimentação, manutenção, materiais e jornada de atendimento continuam gerando despesas muito depois da inauguração. É justamente essa distância entre entregar uma obra e manter o serviço funcionando ano após ano que costuma receber menos atenção quando uma nova unidade abre as portas.
É essa diferença que o Simulador de Custo Aluno Qualidade (SimCAQ) busca dimensionar. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás, da Universidade Federal do Paraná e da USP, a ferramenta estima não quanto as redes públicas gastam atualmente, mas quanto seria necessário investir para oferecer educação em condições adequadas. "A pergunta central é: quanto é necessário investir para garantir uma educação básica em condições adequadas de qualidade?", explica Thiago Alves, professor da Universidade Federal de Goiás e um dos responsáveis pelo simulador.
Os resultados do SimCAQ são projeções elaboradas a partir de parâmetros técnicos. Não correspondem ao orçamento aprovado nem aos valores efetivamente gastos pelos governos estaduais e municipais. Alves defende que o financiamento público parta primeiro das condições necessárias para oferecer o serviço e, somente depois, chegue ao valor necessário para sustentá-lo. "O caminho deveria ser o inverso: primeiro estabelecer quais condições são necessárias (...) e, a partir daí, dimensionar quanto será necessário investir", afirma. A lógica, segundo ele, contrasta com a prática de "trabalhar com o recurso disponível e tentar adaptar a educação a ele".
A discussão também está no centro das pesquisas de Adriana Dragone Silveira, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP) e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Paraná, além de integrante da diretoria da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca). Para ela, o país avançou na redistribuição dos recursos destinados à educação, mas repartir melhor o dinheiro disponível não elimina a necessidade de ampliar o financiamento. "A União, embora tenha aumentado sua contribuição, não inseriu uma fonte extra de recursos na educação", afirma. O problema se torna mais evidente quando se observa a capacidade financeira de cada município. "Continuamos partindo de uma lógica em que uma quantidade disponível é dividida pelo número de alunos", diz Silveira, quando, segundo ela, deveria prevalecer "a lógica do que seria necessário investir por aluno". As diferenças podem surgir até entre cidades próximas: "Temos redes de ensino vizinhas onde um município tem o dobro da capacidade de financiamento do que está ao lado."
Essa desigualdade fiscal, somada ao intervalo entre a abertura de novas vagas e sua contabilização para a distribuição dos recursos do Fundeb, ajuda a entender por que municípios pequenos e com menor capacidade financeira enfrentam mais dificuldades para expandir o atendimento. Os dados reunidos nesta apuração não permitem afirmar que cada uma das cidades com menor cobertura de creche em 2022 esteja também entre as de menor arrecadação própria de Pernambuco. Ainda assim, revelam um padrão: entre os municípios com os piores índices de atendimento predominam cidades pequenas do interior, perfil apontado por Santos e Silveira como mais vulnerável às limitações do atual modelo de financiamento.
Mas garantir os direitos da primeira infância exige olhar além da própria creche. Para Rogério Moraes, diretor executivo do Instituto Pipa e coordenador da Rede de Primeira Infância de Pernambuco (Repi-PE), uma das prioridades está justamente no período em que a criança permanece fora da escola. Se pudesse escolher onde ampliar os investimentos hoje, ele direcionaria recursos para "a assistência social, o fortalecimento de vínculos e programas de parentalidade", com o objetivo de alcançar "o ponto mais crítico, onde mais precisa". Moraes lembra que uma criança pode passar cerca de oito horas na creche, enquanto o restante do dia transcorre principalmente junto à família e no território onde vive. Para ele, ainda falta incorporar a primeira infância ao planejamento de espaços públicos de lazer e convivência: ao propor a criação de mais praças voltadas a crianças pequenas durante a elaboração de um plano municipal, conta ter ouvido de um gestor responsável pela manutenção urbana que esse público nunca havia sido prioridade porque "o brinquedo para criança pequena quebra menos do que para criança maior".
Pernambuco ampliou a construção de creches, e Recife mostrou que é possível acelerar a expansão das matrículas. Mas abrir vagas é apenas uma parte do desafio, como mostram, de lados opostos, a fila de Lucas e as interrupções que Milena enfrenta mesmo depois de matriculado o filho. Para milhares de famílias pernambucanas, ainda falta conseguir uma vaga; para outras, falta poder contar com ela todos os dias. A creche precisa continuar de portas abertas depois da inauguração, com profissionais, alimentação, estrutura, segurança e recursos suficientes para funcionar porque, na primeira infância, o direito não termina quando a vaga é criada. Uma creche não funciona quando a vaga é anunciada ou quando a matrícula entra no Censo Escolar. Funciona quando, na manhã seguinte, a criança encontra a porta aberta.



